segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

VIAGEM COM OUTRO CASAL É MANCADA

Não recomendo viajar com casal de amigos. Será uma lua-de-mel ao contrário. Nunca é agradável, com raras exceções.

Em vez de relaxar, atravessará uma tensa terapia coletiva, consolando, dando conselhos e procurando relativizar a crise.

Você desejava ardentemente descansar, pôr os pés para cima numa rede e somente se incomodará, arremessado para uma zona de guerra e precisando negociar com sequestrador para atender exigências extravagantes e liberar reféns.

Quando não é você que briga com a sua companhia, é o outro casal que se desentende por uma bobagem. Um emburrece, embirra, trava e já deseja antecipar a volta para casa.

Sempre acontece um mal-estar do nada, suspendendo passeios, cortando festas pela metade e aguando o café da manhã.

Viajar em casais é um inferno imprevisível. Talvez a convivência com modelos diferentes de afetos gere incontrolável inveja. Os casais começam a se comparar, a fiscalizar as atitudes, a vigiar a quantidade de beijos e afagos, a determinar quem é mais ou menos feliz.

São naturais comentários como “viu o jeito que ele trata ela?” ou “ela não se mexe para a relação!”

Quanto maior o percurso, maiores os danos e as possibilidades de atrito.

Depois do escândalo e do cansaço psicológico do drama, quem discute logo faz as pazes, esquece a rusga, mas não percebe que estragou o final de semana e as férias. Repassou apenas adiante o infortúnio: estragou o ânimo e a confiança dos demais. É um efeito dominó, as peças da racionalidade vão caindo em sequência, abrindo espaço para catarse, aborrecimentos e ataque de nervos.

E quando não ocorre nenhuma discussão evidente, aflora o contraste de personalidades e de dinâmica. Existirá um par amoroso hiperativo que baterá no seu quarto às 5h30 para não perder o amanhecer na praia. Você foi lá para dormir até mais tarde, namorar calmamente, com um objetivo absolutamente divergente dos seus companheiros de estrada, e sofrerá para negar expectativas de suor, caminhada, trilhas e aventuras.

Viajamos em casais pela nostalgia das excursões de turma da escola. Com a diferença de que não há professores para abafar as confusões e resolver os impasses.

Publicado em UOL em 17/11/2017

DEDO PODRE LEVA ALIANÇA

O dedo podre faz com que perca a mão cheia de bons relacionamentos. Quando você se envolve com uma louca ou louco, um obsessor ou uma obsessora, não estraga apenas uma relação, mas também as relações futuras. Não cria unicamente trauma em sua história, prolonga-se em conflitos e crises em, pelo menos, dois romances futuros.

Pois não tem como terminar o envolvimento com alguém fora de si. É impossível. A pessoa jamais aceitará o desenlace, jamais acolherá a negativa, jamais admitirá o fim e o abandono, seguirá como um zumbi desgovernado perseguindo os seus passos e multiplicando os cadáveres com as suas mordidas. Vai criar contas fakes e avatares fantasmas para infernizar a sua vida e a de possíveis pretendentes.

Assim você não terá descanso. Provará do mais constrangedor dos arrependimentos, sonhando em mudar o passado e apagar certas lembranças. Sofrerá uma avalanche de fotos, insinuações e segredos para desestabilizar a sua alegria.

Não existe modo seguro para se isolar da ofensiva. Haverá descrição de detalhes de sua sexualidade e de suas manias, a ex ou o ex pretende disseminar a crença de que ainda são amantes e continuam se encontrando.

Suportará a ira e a vingança apocalíptica de um hacker do amor. Enfrentará um inimigo poderoso com conhecimento de causa de seus defeitos e fraquezas.

Todos os seus domínios serão contaminados por distorções e inverdades. Não terá descanso, trégua, até que a xiita ou o xiita liquide com as novas possibilidades de namoro. A sentença que move a alma atormentada é própria do camicase, lixando-se para as censuras morais: “já que não ficou comigo, então não ficará com mais ninguém”.

Como os começos são frágeis e a paixão é quebradiça, os ataques são vitoriosos e convincentes, despertando ciúme e desconfiança. Dificilmente a vítima desfrutará de tempo para se explicar. A ideia é espalhar a incerteza nos acontecimentos mais corriqueiros, transformando a intimidade antiga em suspeita e ameaça onipresentes.

A escolha errada de um parceiro ou de uma parceira, sem nenhuma base razoável, grangrena a esperança. Traz um preço muito alto a pagar, comprometendo o orçamento afetivo com parcelas infinitas. É o mesmo que continuar pagando prestações de um carro roubado.

O maluco e a maluca não largarão de seu pé até amputar inteiramente a sua mão. Só estarão satisfeitos quando não sobrar dedo nenhum para a aliança.

Publicado em O Globo em 16/11/2017

ANOS SETENTA

A mesa da escola era a minha caverna. Desenhava longamente quando não prestava atenção na aula. Caracterizava o nosso jeito de nos comunicarmos com o colega ao lado. Deixávamos sinais engraçados, lembretes sérios, avisos da nossa existência mais recôndita.

Os dizeres por debaixo dos livros formavam nosso código morse, nossa rede de informações, nosso muro de lamentações, nossas pichações transgressoras.

Cada um tinha uma mesinha, do tamanho de uma prancheta de arquiteto, para expor os seus conflitos e desejos a lápis. Tiago fazia monstros. Ricardo transformava o espaço em parede de banheiro, para criar safadezas. Giselle enchia a sua classe de corações e cupidos. Dorotea respondia desaforos aos pais que se separavam no momento, em louco diálogo imaginário (divórcios doíam naquela época).

As personalidades e temperamentos se mostravam inteiros naquele território pré-WhatsApp. Como o caderno custava caro, não usávamos as folhas, poupávamos o material escolar exclusivamente para as aulas. Nosso escape terminava sendo desabafos e caricaturas naquele quadro mágico. Nosso quartinho de grafite para não ser sufocado por fórmulas matemáticas e regras gramaticais.

Todo dia cobria a sua extensão de rabiscos e garatujas. Toda manhã seguinte estava tudo apagado. Como um castelo de areia que não durava vinte e quatro horas com a maré alta. Insistia em escrever, já entendendo que a posteridade não existia por ali. Da minha turma, só eu e Alice chegamos ao curso superior, mais ninguém dos quarenta estudantes.

Os professores não precisavam nos botar de castigo ou mandar para o SOE para descobrir os nossos pensamentos secretos. Bastava conferir as mesas no fim da aula, diários escritos na fórmica de pequenos prisioneiros de seus sonhos.

Publicado em Vida Breve em 15/11/2017

O ÚNICO HOMEM HONESTO QUE EU CONHECI

Meu avô sempre dizia que honesto era o seu pai. Para qualquer situação. Quando ouvia as notícias do rádio de manhã na cozinha, no almoço, quando aprontava alguma malandragem e me passava o pito, quando colocava o seu calção e seu chinelo para o entardecer de chimarrão, antes de me dar boa-noite e, de novo, no bom-dia.

Eu confabulava com os meus botões: o que será que ele fez com descomunal excelência e honradez, para ser um exemplo perfeito e recorrente? Chegava a ser chata a evocação, mas não podia menosprezar o amor da sentença, havia uma homenagem a um caráter de exceção, um reverência a um padrão de vida e de clareza. Quisera que os meus filhos pensassem o mesmo de mim no futuro.

- Meu pai é que era honesto. O único homem honesto que conheci.

Já imaginava o seu pai como um super-herói de Guaporé, de sunga por cima do collant, meias coloridas e capa esvoaçante, prendendo assaltantes de banco, ajudando velhinhas a subir no ônibus, desmoralizando os políticos na Câmara de Vereadores, criticando a indolência dos mendigos nos bancos de pedra da praça, devolvendo o troco dos caixas aos aposentados. Sua figura tomou boa parte da memória de minha infância. Pretendia atingir o mesmo grau de retidão, prometi a mim mesmo não mentir mais, com exceção da hora de comer rúcula, que eu detestava.

Ele devia nunca ter atrasado uma conta, nunca ter passado ninguém para trás, nunca ter enganado esposa, nunca ter faltado ao trabalho, nunca ter omitido a sua opinião, aposto que pedia desculpas no exato momento de uma falha e não cedia à tentação da soberba. Pois o antônimo da honestidade não é a mentira, mas o orgulho.

Surpreso fiquei quando o meu avô pediu que eu buscasse correspondência na agência de Correios da esquina e me entregou a sua identidade para a retirada do volume. Constava que ele era filho de Honesto Carpi.

Nunca um documento causou tanto estrago em minha personalidade. Demorei a minha adolescência inteira para desfazer a fantasia.

Publicado em Jornal Zero Hora em 14/11/2017

UM CRUCIFIXO NO JARDIM

Um pouco de sofrimento dá saudade e pode apressar reconciliações. Uma colher de sopa de dor, não mais que isso.

Qualquer um aguenta um mês longe, inclusive dois meses, um constrangimento, um desentendimento sério, uma ausência muda de telefonemas e aparições.

Angústia breve é salutar, permite ajustes necessários na convivência, trazendo à tona exigências e reivindicações até então secretas. Uma briguinha não é ruim, revela o que não foi acertado no início, aumenta com a lupa as cláusulas minúsculas do contrato afetivo.

Já não deixe o seu amor sofrer demais, o risco da superdose é fatal. É necessário não passar do ponto, evitando de converter teorias dissonantes em grosserias e aviltamento da personalidade.

A generosidade do enamoramento tem o seu limite. Logo a distância perde o charme e expõe que, de repente, não vigora nenhuma aceitação e compatibilidade de gênios.

O sofrimento excessivo termina relacionamentos. O sofredor é capaz de realmente cansar de amar e não querer mais nada em seguida. Ficará vacinado para qualquer nova aproximação.

Não brinque com as esperanças e expectativas, não recue nas palavras, não apresente a todos amigos e familiares para remendar que não queria algo sério. A vergonha costuma não oferecer caminho de volta.

Quando as lembranças ruins superam as boas, quando o mal-estar abafa a paixão do começo, o namoro tem os seus laços quebrados. Quem pensa demais sempre vai se separar, já que a emoção tornou-se secundária. Pois daí é possível se defender racionalmente daquilo que não se gostou.

Depois de aguardar um pedido de desculpa por longo tempo inutilmente, não existe conserto. Arrependimento não deve ser demorado. Mesmo que o perdão venha, será atrasado e servirá para somente limpar a consciência, não lavar o amor. O outro não acreditará mais. O outro não suportará a ideia de passar pela mesma tormenta no futuro. Terá força para dizer não, de tantas negativas acumuladas dentro de si.

Separação é como esteio de uma planta jovem. A madeira de alicerce, se tremendamente pesada, encurvará o caule e se transformará em crucifixo de lápide no jardim.

Publicado em Donna ZH em 12/11/2017

QUANDO O HOMEM APRESENTA A FAMÍLIA NÃO SIGNIFICA NADA

Mostrar a família é um passo importante no relacionamento para a mulher - o equivalente a oficializar o laço. Não é qualquer um que ela apresenta aos filhos. Não é qualquer um que ela apresenta aos pais e irmãos. Denota o momento de maior nervosismo pessoal, quando ela unifica a felicidade privada com a aceitação pública.

Casos, rolos, peguetes e crushs mudam de natureza vocabular ao conhecer a intimidade da mulher. Ela é reservada e comedida na hora de trazer alguém para dentro das fofocas, histórias vergonhosas e apelidos de casa. Só faz se tem certeza do amor ou do encaminhamento do amor. Só faz se está muito apaixonada e convicta. Não quer parecer leviana e inconstante, criar expectativas infundadas e ter que explicar depois onde se encontra o futuro ex namorado.

O que a mulher não entende é que o comportamento masculino não reflete iguais gravidade e responsabilidade. Abrir o convívio
familiar não resultará em relacionamento sério. Não é a mesma moeda, o mesmo valor, o mesmo peso. Não simboliza pré-requisito para alterar o status do Facebook.

O engano é supor que ele se importa com o que os parentes pensam dele. Ele dá de ombros para as suposições e maldades. Separa, desde sempre, a vida amorosa da familiar.

Desse jeito, você pode passear com os filhos ou com os pais dele, ser acolhida e festejada, e ele nunca mais telefonar. Não representa um compromisso, o marco do início do namoro, o anúncio oficial do fim da solteirice. Não ganhará o sujeito alcançando as esferas caseiras. Não significa nada, absolutamente nada. Por acaso, a família estava por perto e se encontraram e ele apresentou com quem vinha saindo, assim como pode apresentar outra pessoa na semana seguinte. E não haverá crise de consciência e não será malvisto como promíscuo (afinal a sociedade machista perdoa o sexo variado do homem - enxerga como experiência - e condena os inúmeros parceiros da mulher - entendido como inconsequência e imaturidade).

Homem não tem hierarquia de encontros. Não é porque ele lhe convidou para formar o seu par no casamento do melhor amigo ou porque lhe chamou para uma formatura de colega ou porque lhe levou para uma confraternização de trabalho que vem avisando de que optou pela exclusividade e estabilidade na relação.

Não, você não passou de fase, nem alcançou bônus, eventos são meros eventos, ele somente não deseja aparecer sozinho nas festas e compromissos (porém, estranhamente, ainda pretende se manter sozinho, livre e desimpedido).

Carregará a sensação amarga de que foi usada, de que serviu como companhia de luxo, de que foi parte da decoração de uma vitrine. E não deixa de ser verdade.

Publicado em UOL em 10/11/2017

O PAI NO HOSPITAL

Estranhamente eu me vi contente quando o meu pai baixou hospital. É um sentimento feio para se confessar, mas foi o que aconteceu comigo. Não consigo definir se era felicidade ou alívio.

O meu pai sempre foi rigoroso comigo, de meias e duras palavras, sério, distante, inacessível. Demonstrava afeto e importância falando de dinheiro, se eu precisava de alguma coisa, mais nada, nunca descobri o que pensava e o que desejava, jamais expôs uma outra preocupação carinhosa.

O máximo de contato que tivemos se resumiu a seu aceno uma vez na rodoviária quando segui viagem para estudar na capital. O pássaro de sua mão voando tornou-se nossa recordação mais próxima. Quisera ter fotografado.

Já no hospital, pela primeira vez, eu poderia tocar em sua pele, sem medo, sem susto, sem que ele virasse o rosto, sem ser ofendido. Fiquei perto da cama o observando: uma rocha no mar que recebe a superfície afofada do líquen.

Ele, indefeso, apresentava uma nova autoridade. A autoridade do amor. A sabedoria da fragilidade: nem tudo passa, a amizade dos filhos, surpreendente e incompreensível, grudava-se na pedra.

Fiz questão de cuidá-lo. Ele que nunca me beijava, nunca segurava a minha mão, nunca me abraçava, nunca pedia um favor. E eu o beijei, eu o abracei, eu entrelacei os meus dedos em seus dedos enquanto dormia, eu segurei o copo d’água perto da boca, com a calma sôfrega do canudo.

Recuperei todo o nosso tempo perdido nas três noites de vigília.

Quando ele se recuperou, voltou a ser o que era antes, fechado e distante. Mas eu não voltei a ser a mesma pessoa.

Publicado em O Globo em 09/11/2017

PEZINHOS DE ANJOS

Pé de bebê é um biscoito. Pequenino, formoso, desprovido de chulé. É uma segunda mãozinha na nossa cara, nem incomoda. Faz cócegas.

Pé de bebê é irresistível. Não dá para não brincar com ele e roubar risadas.

Só que eu fui um pai distraído. Da mesma forma em que perdi compulsivamente guarda-chuva na adolescência até desistir de me proteger, tornei-me o rei dos chinelos e sandálias extraviados de meus filhos. Quando carregava as duas crianças, elas voltavam para casa com um dos pés descalços. Foi uma constante humilhação para quem desejava se equiparar à atenção materna.

Na confusão do metrô, do shopping, da padaria, da praça, caía um par no caminho e não percebia. Eu somente identificava a ausência tarde demais. Deixei uma campanha de agasalho pelo chão de meus desastres.

O malabarismo de segurar o nenê no colo, equilibrar carrinho, portar malinha de cueiros, mamadeira e fraldas e me desviar dos obstáculos humanos gerava grandes prejuízos. Alguns passageiros e passantes me avisavam e me devolviam os pertences ainda em tempo (óbvio que e eu me sentia o pior pai do mundo pelo desleixo), mas nem sempre contei com a sorte da repescagem.

A gaveta deles apresentava um sem número de calçados solteiros, viúvos, desquitados. Dava pena jogar fora o que ficava, e também tinha a consciência de que dificilmente encontraria o faltante.

Na coleção da sapataria, havia mais desfalques do que porta-joias feminino e seus brincos avulsos pela vida.

Acho que criei em meus filhos, involuntariamente, o complexo de Cinderela. Espero que ambos não fiquem procurando príncipe e princesa por onde andamos nas respectivas infâncias e não formem grupos no Facebook com os colegas da creche e do jardim.

Toda hipnose regressiva tem seus limites. Temos que ir até onde vai a nossa responsabilidade, jamais afundar na culpa do outro. No caso deles, a culpa desse pai atrapalhado.

Publicado em Vida Breve em 08/11/2017

PÃOZINHO QUENTE

A minha grande alegria familiar não é trazer presentes para os filhos ou para a esposa, não é fechar negócios polpudos no trabalho e voltar satisfeito, não é a promessa de um prato predileto, mas é abrir a porta de casa com os pãezinhos quentinhos no colo.

Esquentam o meu peito no caminho a pé, tal bebê sonhando com o berço.

Quando chego na padaria e a atendente diz: "o pão acabou de sair", eu me vejo consagrado.

Aparecer na padaria exatamente com o pão saindo do forno representa sorte e inspiração. Como se eu fosse premiado pela Mega Sena do cotidiano. Como se tivesse acertado os números da Quina dos horários. Abro o sorriso com a fortuna dos dentes. Levanto o braço gritando "Bingo!". Comemoro o gol abraçando estranhos.

Não levaria os pães cabisbaixos da cesta, frios e duros, cansados de esperança. Estava pegando os mais cobiçados, os de miolo quente e de casca crocante, feitos sob encomenda para o nosso café da tarde. Desciam do fogo direto para o calor das mãos.

Já salivava imaginando a geleia de morango ou a manteiga derretendo em sua crosta. Eu me distanciava da vitrine com água na boca, atrapalhado e ansioso, tendo a certeza de que havia sido um predestinado naquela noite.

Não há melhor sensação do que ser pontual na retirada dos pães. Não preciso de mais nada para ser feliz.

Encaro os vizinhos na rua com a superioridade do privilégio, ostentando a medalha de honra. Não posso nem fechar o saco, tamanho o frescor do nascimento, pois ele ficará absolutamente embaçado. O cheiro emana para a minha barba, enfeitiçando-me de sortilégios.

Não existe desentendimento com a mulher, cisma dos filhos, dívida bancária, mal-estar com a vida, que resista a minha aparição caseira gritando: "Os pães estão quentinhos, venham logo para a mesa".

Publicado em Jornal ZH em 07/11/2017

O NÓ ENTRE PAI E FILHO

Há certos rituais que ainda são dos homens, hábitos exclusivos entre pai e filho, que não podem se perder com o tempo e a tecnologia.

Ensinar a se barbear com a devida espuma é um deles. Nada mais bonito do que pai e filho próximos no espelho, rostos sobrepostos, o pai pedindo licença para descer a lâmina na pele do filho, avisando que não vai machucá-lo, que não é para ter medo, demonstrando a firmeza da diagonal do gesto. O filho prestando atenção, e admitindo a exceção de uma mão que não a sua tocando em sua face, como um beijo diferente, como parte da sua vida. E depois colocar a toalha quente e borrifar loção, estapeando levemente os poros abertos e partilhando a ardência saborosa e perfumada da virilidade. Que tudo termine numa risada com "entendi, pai, entendi".

Fazer o nó da gravata é outra lição essencial. Acabei de explicar ao meu filho Vicente. Tinha que ser eu. Para que pudesse lembrar de mim em sua formatura, em seus dias de emprego, em suas saídas oficiais para festas e casamentos.

É hastear a bandeira do nosso amor no colarinho. A gravata traz uma delicadeza séria, uma doçura digna. Não importa a cor, será o nosso jardim nos ombros.

Quando ele firmou o nó pela primeira vez em seu pescoço, eu senti que nenhum mal e desavença posterior nos soltaria. Estávamos presos aos cadarços das camisas.

Foi um misto de orgulho e de nostalgia. Era pôr um laço definitivo de filiação. Eu o deixava ir para ficar na memória. Aceitava, com dificuldade, que ele estava grande, de que cresceu, de que deveria abrir o seu caminho sem precisar de mais ninguém para pedir favor. Daria conta de si sozinho dali por diante.

Não haverá abraço no futuro que nos torne tão rentes como naquele momento.

Assim que deve ser: é o filho que fará a gravata no enterro do pai. Valor a ser passado de geração em geração, pelos ciclos da existência.

Só ele repetirá a minha assinatura, ponto por ponto, dobra por dobra, não aceitando a ponta da gravata maior do que a cintura, não aceitando a despedida de qualquer jeito, mantendo o respeito e o capricho da minha essência na aparência.

Publicado em Donna ZH em 05/11/2017