quarta-feira, 30 de agosto de 2017

LIXEIRA DO WINDOWS

Foto: Gilberto Perin

Depois de dois anos de separação, é que o amor começa a ser superado. Não antes, por mais rápido que seja o relógio biológico e emocional de cada um.
Com o desenlace, o impulso é apagar todos os arquivos do relacionamento: imagens, cartas, textos, viagens, declarações. Trata-se de uma atitude passional e súbita para a sobrevivência, para se acostumar com a ausência dali por diante. Expulsa o romance mais do que realmente joga fora.
Mas o delicado de entender é que você apagou o passado dos aplicativos, mas ainda existe a lixeira do Windows do inconsciente. É preciso, então, entender o que aconteceu, para o seu bem ou para seu mal, e ter a coragem de descartar tudo de novo. O resto de tudo.
Jurava que já havia resolvido, porém vê que existe um purgatório da memória, assim como há em todo computador. Limpar a lixeira será o ato de libertação das mágoas. Quando está mais forte e com distanciamento crítico, para não sofrer com a preservação de relíquias duvidosas. Deixará de colocar em xeque as suas decisões, e de parar o olhar, atormentado, nas lembranças como se existisse um jeito de melhorá-las. Assumirá o que aconteceu como acontecido, o imperfeito como possível, o provisório como definitivo.
Não escolhe mais, apenas se desfaz. As palavras tornam-se fotografias inúteis.
Não terá mais a sensação de que está pondo você no lixo, ou parte da sua vida no lixo, aceitará que o fim é somente espaço para novas memórias.

Publicado em O Globo em 03/08/17

ERA UM FUTEBOL COM OS AMIGOS

Arte: Eduardo Nasi

Jogo futebol toda segunda-feira com amigos. No início, era para ser com grupo da mesma idade. Mas com o tempo, os quarentões se lesionam com mais facilidade e a reposição etária ficou complicada.

Encontrar alguém que não tenha uma complicação – uma lesão irreversível no joelho ou uma hérnia de disco – é uma loteria. Nem criando um anúncio no Facebook é possível recrutar soldados interessados em se alistar e desafiar a saúde e o casamento. Há mais treinadores e juízes habilitados do que atletas em campo. Os colegas dispostos e disponíveis rarearam consideravelmente.

A pelada entrou na patifaria mesmo. Porque os pais, diante da ausência de quórum, chamam os filhos adolescentes para completar os times. A igualdade de fôlego desaparece. E a velhice surge mais evidente e caricata. Melhor entrar em campo com uma bengala, onde contarei com mais chances de me defender.

Você não está mais disputando partidas na sua faixa sênior, mas concorrendo com o juvenil. Uma dividida de bola no alto pode custar duas semanas de recuperação. Quando você sobe para cabecear, precisa descer – esquecemos desse fundamento.

Estaremos troteando na quadra, em lento desfile farroupilha, enquanto os meninos vão e voltam num galope de turfe. Eles brincam; nós, velhos, brigamos com o cronômetro. Quanto falta para acabar é um pedido de socorro de nossa parte. Quanto falta para acabar é a excitação deles para fazer mais gols.

Experimentamos a gravidade pensativa e cautelosa de um tabuleiro de xadrez, e a meninada pensa que aquilo é dama, comendo as peças rapidamente pelas diagonais.

Em meu condicionamento atual, desfruto da reserva de três piques por semana, mas queimo o estoque na largada para acompanhar e intimidar os jovens. Peço para ficar um pouco de goleiro para me recuperar da asma forcada, algo impensável para o fominha de outrora.

A cabeça raciocina uma triangulação, o corpo só geme e corre para frente. Nossa geometria é uma linha reta. Nunca mais o triângulo equilátero das peladas da infância, com os três lados iguais.

Minha esposa estranha a minha exaustão de noite, mancando e suspirando até para abrir a geladeira. Há muito não jogo futebol, é pentatlo. Corro, me arremesso, salto, lanço e luto. Acima de tudo, luto para não me entregar.

Publicado em Vida Breve em 02/08/17

ESTOU NO BANHO

Não posso dizer que não subi na vida.
Já estou infinitamente melhor do que na minha infância.

Quando pequeno, não tinha nem uma toalha própria para tomar banho. Dividia com o meu irmão mais novo.

O box não tinha divisória do resto do banheiro. Era eu, a água e o ralo. Um vestiário absolutamente pobre. Só havia a tampa da privada para proteger a roupa seca.

O rodo ficava atrás da porta e sempre tinha que ser faxineiro ao final da chuveirada. Mal me lavava e já estava suado. O espaço se transformava num convés de barco em tempestade, absolutamente alagado.

Na adolescência, houve uma evolução dos hábitos. Recebemos uma cortina floreada para nos banhar mais em segredo. Porém, a paz não durou uma semana. Com o vento da janela, a cortina grudava no corpo e nos plastificava. Eu lutava mais com a cortina do que com a água. Não podia permanecer muito tempo debaixo da torrente. Cinco minutos de chuveiro elétrico e caía o interruptor de luz — meu pai não arrumava de propósito, para economizar energia. Não adiantava gritar, que ninguém acudia.

Torrente nada. Vinha um fiozinho quente com acalentado custo. Rezava para não virar a torneira demais e perder a quentura. A torneira parecia um cofre, cuidando com cada giro. A torneira parecia um lápis: ao atingir a ponta, quebrava-se a perfeição em seguida por um movimento adicional. Jamais recuperava a temperança.

A cortina floreada, de tanto se contorcer, sem fixação nenhuma nos pés, acabava deixando tudo igualmente inundado e lá tinha que buscar o rodo de novo.

Nunca a gota fria na descida da ducha foi solucionada na minha puberdade. Ela vinha do nada para nos devolver a humildade. Não tem noção de como aquilo me afetou, o mesmo que se defender de um inimigo invisível, estapear uma mosca imaginária. Por pouco, não virei esquizofrênico.

No começo da faculdade, a família instalou finalmente um box de acrílico — estávamos perto da civilização.

Mas a porta de correr emperrava com frequência, numa sanfona frouxa. Ensaboado, não contava com firmeza para colocá-la de volta nos trilhos. Um dia, saí do banho literalmente com a porta nas mãos.

Hoje, tenho um box de vidro e um chuveiro potente e constante que cobre todo o meu corpo. É a grande promoção da minha longa história, nada irá superá-la. Um luxo que os meus filhos não vão entender.

Publicado em Jornal Zero Hora em 01/08/17

MORTOS NÃO PODEM SE DEFENDER

Arte: Peter Blake

Toda morte traz o acento grave da reflexão. Paramos para pensar quem somos e o quanto seremos memoráveis.
Ponderamos as nossas decisões, voltamos os braços para a família, medimos o tempo que nos falta com a colherzinha no fundo da xícara do café.
A morte não melhora o falecido, ela existe justamente para melhorar os vivos, garantindo uma segunda chance para aqueles que ficaram.
É o momento de pensar duas vezes antes de falar e de rezar duas vezes depois de falar.
A morte não santifica ninguém, não recupera danos, não dissipa mágoas, não soluciona conflitos, porém ela impõe respeito. Respeito que deve existir igualmente entre quem ama e quem odeia, entre amigos e inimigos, entre aliados e adversários.
E nem se trata de hipocrisia, ou de esconder os defeitos daquele que se foi, ou de sufocar a verdade. É tão somente compaixão. Não é mais a hora de brigar, é a hora de enterrar as mágoas. Não é mais hora de fazer piada, é hora de falar sério. Não é mais hora de apontar defeitos no falecido, é hora de reparar os próprios defeitos enquanto é possível.
Não cabe aumentar o sofrimento dos familiares com constrangimentos.
Levo de casa um par imutável de regrinhas: dos vivos somente falo mal pelas costas e dos mortos não falo mal de modo nenhum - é covardia, eles não têm mais como se defender.

Publicado em 31/07/17

VOCÊ NÃO TEM NADA A VER COM O ORGASMO FEMININO

Você se julga responsável pelo orgasmo feminino, então comete um erro primário. Você não faz uma mulher gozar, ela goza sozinha. O prazer dela não tem nada a ver com o que fez ou deixou de fazer. Não é uma tela onde, ao final, assina o nome. Não é um poema onde registra a autoria. Não adianta contar aos amigos a façanha, a proeza não é sua.

Pode assistir de camarote. Pode ter a honra de vê-la se amando. Mas o show é dela, o palco é dela, todo homem será sempre um espectador. Não é algo que se leva para o currículo amoroso ou destinado a fortalecer a vaidade. O orgasmo feminino acontecerá com ou apesar de você.

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Ela mesmo se completa. O que pode ocorrer felizmente são dois inteiros se encaixando e transbordando. Duas autonomias convergindo e encontrando a liberdade do movimento.

O jardim é dela, e ela é a única jardineira. Ela é que se planta e floresce. Ela é que se conhece e se poda. Respeite o direito dela de ter ou não ter prazer, de fingir ou de ser autêntica, de estar com vontade ou perder a vontade.

Dê tempo em vez de censurar. Dê os braços e as pernas para que ela possa cumprir as suas coreografias. Use o corpo inteiro e não somente um membro. Mais que isso é desnecessário.

Não existe fiador ou dependente. Não existe menor ou maior. Não existe passivo e ativo. Não existe caridade e provedor no sexo. Não caia na conversa machista de que você manda, e ela obedece. Ambos mandam e obedecem na mesma hora.

Não é apenas estar junto, é saber estar junto. É mais do que contar histórias, é ser a própria história. O contexto, a gentileza, o apego, a garra, a força e a fissura se misturam e se interpenetram no caldeirão de sentimentos.

Não esqueça de que a mulher tem um ouvido imaginativo, um ouvido musical. É pela audição que ela sonha e se observa. Não passe pelas sucessivas transas repetindo o repertório de bichos e ofensas. É um tédio atravessar anos de relacionamento escutando quatro palavras recorrentes sem parar no quarto. Amplie o vocabulário. A fala é o motor da língua.

Nem ouse ser preconceituoso e supor que ela é delicada e frágil, a mulher é selvagem e tem outras várias por dentro. No sexo, todos somos bipolares. Você só tem uma única missão na cama: não atrapalhar o orgasmo dela. E não é uma tarefa fácil.

Publicado em Jornal Zero Hora em 30/07/17

A DECISÃO MAIS DURA DA VIDA

Foto: Gilberto Perin

Talvez a decisão mais difícil da vida seja se separar de alguém que você ama mas não lhe faz bem. É lutar contra o amor em nome da saúde emocional.
É algo como escolher entre amar ou viver, entre o ruim e o pior. Sairá derrotado em qualquer uma das opções.
Abandonar um amor amando é amputar uma perna para continuar andando. É perder um pulmão para continuar respirando.
Você sabe que, se não acabar com a história, ela acabará com a sua personalidade. Vai enlouquecer, será subjugado e torturado, sacrificará o discernimento. Não terá futuro, somente um precário presente. Renunciará aos amigos, à família, ao trabalho, à sanidade para forçar a convivência.
Os raros momentos de harmonia de um domingo não compensam o inferno das semanas.
Ama o outro, porém nunca esteve tão infeliz e angustiado. Ama o outro, porém não desfruta nem da liberdade das distrações. Ama o outro, porém não se ama dentro desse amor. E um espelho quebrado em casa é muito perigoso.
Todos experimentaram esse dilema em maior ou menor escala. Nem sempre a paixão converge com a paz.
Romper um relacionamento racionalmente exige monumental concentração. Como largar drogas, abandonar cigarro, parar de beber.
Deve-se combater um inimigo que gostaria de abraçar e beijar. A ambiguidade dos sentimentos é revoltante, sendo necessário criar uma frente rígida de rituais para enfrentar a abstinência.
Tem que cortar a carne das palavras, tem que combater a enxurrada das lembranças, tem que se virar com a ansiedade, tem que acordar e fingir que não sonhou com nada, tem que trocar de caminho e endurecer o rosto quando o vento convida o olhar a virar para trás, tem que dissuadir a saudade, tem que fugir dos amigos em comum, tem que adulterar as declarações, tem que evitar músicas e ciladas, tem que montar na memória um pequeno e anônimo cemitério com uma pilha de pedras.
Nada mais triste do que não poder confiar no coração - já que, por amar, não consegue se defender, acreditará nas ofensas, diminuirá de estatura moral até ser insignificante, cederá a vaidade, depois abandonará o orgulho, em seguida pedirá desculpa sem razão nenhuma e aceitará a destruição e os maus-tratos como parte indispensável do romance.
O amor é capaz de matar. E só um grande amor próprio para nos salvar enquanto ainda é possível reunir os cacos.

Publicado em O Globo em 27/07/17

CORTIÇO GASTRONÔMICO

Arte: Eduardo Nasi

Não tenho nada contra bebês chorando, entendo as cólicas e o desconforto de começar a viver, o meu preconceito é com os adultos barulhentos, em especial com aqueles que sentam em mesas diferentes no restaurante e mantém a conversa de qualquer jeito.

Você está no meio de um tiroteio de perguntas e respostas que nada tem a ver com a própria vida.

Em vez de se aproximarem, as pessoas se mantêm longe. São janelas de cortiço berrando.  São megafones de sindicatos.

É uma espécie de neofarofismo: trocaram os guarda-sóis e a galinha com farofa da praia para ocupar os estabelecimentos comerciais.

Elas não desfrutam de intimidade para ficar na mesma mesa, mas também forçam amizade com o griteiro. Cometem uma incoerência: educadas para não incomodar os conhecidos sentando junto, mas grosseiros para incomodar todos os demais ali presentes.

Demonstram uma carência política de mostrar a todo custo que são conhecidos. Realizam um Facebook coletivo, um Instagram de corpo presente, trocando postagens e áudios na hora.

O fogo cruzado de palavras mata a paciência de qualquer um.

Somos obrigados a escutar os cumprimentos e as questões existenciais dos amigos que se encontram, não sentam juntos e não param de brincar de mandar ecos na montanha.

Cria-se uma tensão entre os clientes que não desfrutam de condições de manter paz e tranquilidade para concluir as refeições.

É um couvert artístico forçado, sem a compaixão do violão.

Restaurante deveria ter igual liberdade de um cinema, para virarmos a cabeça para trás e pedirmos educadamente por silêncio.

Publicado em Vida Breve em 26/07/17

A CIDADE NAS MÃOS

Os professores não podem perder de vista a importância de propor maquetes para os alunos.

Eu conservo a fascinação da minha primeira maquete, em que tentei reproduzir o meu bairro Petrópolis na feira de ciências. Por um bom tempo, colecionei caixas de fósforos e de remédios e tampinhas para transformar em prédios e canteiros. Assumi um olhar microscópico para a coleta seletiva. Comprei também isopor, cartolina, papelão, papel crepom e varetas e fui desenhando o gramado da Praça Tamandaré com tinta guache. Atravessei as horas livres com pinças e agulhas, cuidando para reproduzir o mundo em miniatura. Eu queria ser leal e real o máximo possível, a ponto de todos os meus colegas identificarem de imediato o lugar escolhido. Nunca trabalhei tanto para o invisível, compunha fachadas, abria portas e janelas com furos minúsculos. Não queria que a cola de madeira aparecesse. Cuidava para colocá-la somente debaixo das construções.

Levei três meses para organizar um espelho das calçadas estreitas, com as ladeiras e curvas. Nas andanças, contava quantas árvores tinha em cada rua para não mentir para a vida.

Se hoje amo a minha cidade, eu devo àquela maquete. Não esqueço do medo de carregá-la em minhas mãos até a escola: o medo de tropeçar, o medo de escorregar e perder tudo o que tinha feito. Eu tinha a cidade em uma bandeja de garçom, equilibrando-a junto com a mochila e a merendeira. Suei frio, por certo, e coração acelerado com o tesouro frágil da minha observação. Mas mantive, desde lá, o senso de responsabilidade com o lixo indevido, com as pedras saltadas, com os buracos nas vias. Não poderia haver maior aula de cidadania e de educação cívica.

Antes, a cidade era uma abstração que apenas usava, ela se tornou palpável com as noites perdidas imitando os seus contornos.

Eu me elegi prefeito de um cosmos de formigas. Notei o quanto custava aplainar os telhados de uma casa e zelar pela paz de seus quintais. Quando algum menino, por molecagem, queria testar a força do papel para estragar a minha construção e a minha nota, eu tinha que intervir e rosnava como um cachorro protegendo a sua propriedade.

Lembro dessa insignificância infantil porque Porto Alegre se encontra abandonada. Esquecemo-nos de que levamos 245 anos para levantá-la, um monumental esforço desperdiçado.

Estamos dependendo da pureza das maquetes de novo, dos dedos pequenos e ágeis de nossos estudantes. Para cada um se sentir dono desse canto outra vez e carregar a Capital em seus braços, no momento em que ela mais precisa.

Publicado em Jornal Zero Hora em 25/07/17

VIZINHO A MODA ANTIGA

Podemos passar a vida inteira sem conhecer os nossos vizinhos. Cumprimentando apenas no elevador, armando fofoca pela aparência ou registrando reclamações no condomínio pelo excesso de gritaria de uma briga ou pelo volume alto de uma festa. Não conhecer é falar mal.

Mas tenho um vizinho à moda antiga. Como se morássemos no interior. Seu Carlos. O Seu é um título de nobreza. Um dia, do nada, ele me ajudou a carregar as compras do mercado. Ele me viu transportando 20 sacolas em duas mãos, foi fisgado pela compaixão e emprestou os seus braços. Em seguida, o recompensei com cervejas geladas de minha preferência. Eu disse que não precisava, ele disse que não precisava. Gentileza é fazer quando não precisamos.

Criamos uma cumplicidade de corredor. Numa noite, ele confessou que cozinhava. Eu elogiei e comentei que adorava dobradinha. Não é que ele apertou a campainha com um cumbuca de mocotó? Não imaginava uma tele-entrega tão rápida do primeiro ao terceiro andar: o prato ainda fumegava, para inveja da rapidez dos motoboy. Retribuí com meu lombinho de queijo e molho barbecue. Eu disse que não precisava, ele disse que não precisava, seguíamos não precisando, pois cordialidade é um excesso de bom humor.

Quando falta arroz em casa e me bate uma preguiça de caminhar até o mercado, desço e pego um pouquinho do pacote do Seu Carlos. Já o abasteci também de feijão e sal. Brindamos a amizade com xícaras de grãos.


Somos irmãos de andares, da esquina do olhar e de endereço. Para nos comunicar, usamos o interfone do coração, como duas crianças deslumbradas com o alcance surpreendente de Walkie-talkies.

Sempre preparo almoço pensando em um prato a mais, imaginário, destinado a ele. Vá que ele goste. Ele não se dá por rogado e aparece de repente com uma fôrma de nega maluca. Os filhos soltam uma gritaria com o doce inesperado para o café da tarde. Seu Carlos, para eles, já é tio Carlos. Uma nova honraria adquirida pelo convívio.

Estamos próximos sem entender direito como começamos a lealdade — nos ajudamos a pregar quadros, a trocar lâmpadas, a arrumar chuveiro. Trocamos receitas de construção, limpeza e culinária.

Confio nele a ponto de deixar a chave do apartamento em minhas férias. Ele confia em mim a ponto de abrir a porta de seus segredos.

Poderíamos passar a vida inteira sem nos conhecer. Mas não precisávamos e precisamos hoje cada vez mais um do outro.

Publicado em Jornal Zero Hora em 23/07/17

AMOR TRISTE

Foto: Gilberto Perin

Amor triste não é aquele em que nos arrependemos dos vacilos e das falhas, da falta de palavras e da incoerência.
Não sofremos tanto quando a separação é justa e fizemos por merecer. Aceitamos o fim por mais penoso que seja, porque vislumbramos um motivo para não estarmos juntos. Tem uma explicação pontual, um desvio de percurso, uma quebra de lealdade que feriu e destruiu a confiança mútua. É de se entender a ruptura pelo contexto de uma mágoa.
Amor triste não é aquele em que nos arrependemos das brigas e das discussões, das ofensas e das maldades, pois é natural se destruir quando se gosta muito.
Amor triste, ironicamente, é quando nos constrangemos da própria alegria, nos arrependemos dos momentos felizes, das viagens e passeios, dos presentes e dedicações. Nem a euforia que existiu fica de pé. Nem as fotografias mais bonitas sobrevivem.
É quando saímos da relação com o nítido pressentimento de que estávamos sozinhos desde o início.
É aquele amor esvaziado, que não nos serve de experiência, que não nos aperfeiçoará para futuros laços, não nos acrescentou em nada para aprendermos a lidar melhor com a dor.
É aquele amor melancólico, onde chegamos à conclusão da total perda de tempo, a ponto de lamentar o sacrifício da nossa juventude e de anos valiosos da vida.
É aquele amor ladrão que nos leva inclusive os finais de semana e as férias, a paz de ter tentado, o alívio de cenas emocionantes.
É aquele amor desmemoriado, no qual erramos a companhia muito mais do que errar qualquer passo durante a convivência. Até o contentamento soa falso, até a festa era para dentro.
Amor triste é o que não deixa saudade nem do que foi bom.

Publicado em O Globo em 21/07/17