terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

FANTASMAGORIAS

Arte de Paul Delvaux


O verdadeiro desespero emagrece. Quem está engordando já se curou da desilusão amorosa.

O Consultório Poético projeta o abajur sobre a angústia de uma mulher que não suporta as alternâncias de seu namorado.

Leia meus recados ao fantasma da ópera.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O QUÊ?



O jornal Globo publicou matéria sobre os enigmas vocabulares da MPB. Debato o sucesso e o significado de canções como 'Shimbalaiê' e 'Tchubaruba'.

Confira divertido texto "Que língua é essa?", de Ricardo Calazans.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

UM JUIZ ATRAPALHADO


Inter está fora da decisão do primeiro turno do Gauchão. Mas o protagonista da comédia é Jean Pierre, que apitou a derrota colorada de 2 a 1 para o Novo Hamburgo neste domingo (21/2).

Humor negro no Rolo Compressor.

O ENRUSTIDO

Arte de Christian Schad


Por que um homem chama outro de feio, de ET, de monstro, quando ele passa na rua e nem conhece?

O que o impulsiona a caracterizar um comparsa do mesmo sexo de alienígena?

Atração sexual!

É o desejo que fará um barbado parar seus movimentos, girar seu quadril, largar suas atribulações, a possibilidade de comentar os resultados da última rodada, para ofender um desconhecido. Não é para humilhar e constranger, é vontade de estar junto. Eu, ingênuo, pensava que era bullying. É tara, tesão, hormônios romanos.

Ele não iria se esforçar à toa. Não gastaria saliva com um marmanjo enquanto dispensa de agir com o mulherio à disposição no mundo. Não é pouca coisa. Desperdiça os assobios e os agrados perfumosos às mulheres para se dedicar de corpo e alma a injuriar um alvo masculino. No fundo, está a fim, louco para ter um urso acolchoando seus ombros, um leopardo em seu travesseiro, uma onça em seus lençóis. Banca a hiena para ficar dentro do zoológico e visitar seus colegas durante os sonhos. Não há como se libertar, ainda se vê reprimido pela imagem residual de ruralista e conservador. Negará a impressão até a morte.

Não estou catalogando todos os machos, e sim colocando a luz de palco no tipo truculento, engraçadinho, atacado e que palpita sobre seus amigos e desconhecidos como jurado vitalício do concurso de feiúra. Deve se lembrar de alguém na escola ou no bar, aposto.

Não ataca para se sentir melhor, por insegurança, ou para se sentir mais bonito, por comparação.

As aparências escondem as mais perversas fantasias.

Ao depreciar sistematicamente o outro está expressando suas vontades recônditas. Gostaria de dizer o contrário, que o interlocutor está incomodando com seu magnetismo, que é impossível resistir, mas não tem coragem e desabafa apenas que ele é horrível. É o máximo que consegue sussurrar socialmente. Pra não dar na vista.

Sua provocação é arrebatamento. Sabe-se que homem não perde tempo. Quando ofende, então, prepara um investimento. Ele lança a gozação em nome de uma carência violenta e reprimida.

Qual o sentido de avaliar alguém fisicamente senão o interesse graúdo? O cara está olhando demais, ultrapassou o limite da discrição e se julga culpado pelo interesse e logo empenha uma grosseria para disfarçar.

O enrustido desafora torcendo pela violência física e contato corporal. Reza em segredo:

- Tomara que agora ele venha me pegar!

Em toda a minha vida levei cantadas e não percebi.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O SACRIFÍCIO FILIAL

Arte de Andrea del Verrocchio

Meu pai se separou da mãe quando tinha sete anos. A saudade apertava. Tanta saudade que conversava com as roupas dele. Criava diálogos imaginários com seus bonés, com suas gravatas, com suas camisas listradas. Eu me trancava no armário, dormia entre seus casacos, o desespero brinca com qualquer lembrança, eu entendia que dormir ali significava subir de novo em seu colo.

Mas minha mãe não me contou que o casamento dos dois acabou. Ficou no ar. E não perguntava para evitar o choro. A dor nos proíbe de falar certos assuntos.

O que ouvi é que o pai simplesmente viajou. Havia a expectativa de que ele pudesse voltar a qualquer momento. A qualquer hora. Como uma loucura que se cansa. Como um trabalho que se termina. Até hoje olho a porta por hábito, minha esperança não é de um homem, mas de um cão. Farejo as frestas e vou latir para a campainha.

Eu protegia minha mãe porque jurava que ela tinha sido enganada pelo destino. Que a vida não tinha sido justa. Que o pai nos esqueceu. A espera se transformou em resignação e migrou para uma raiva silenciosa.

Não calculo bem se me tornei um menino obediente por mim ou por ela. Não ansiava atrapalhar, somente isso, e talvez tenha me anulado. Fui mais fixo e previsível do que uma mesa de jantar. Odiei meu pai durante anos para ser fiel à mãe. Depois odiei minha mãe para conseguir me reconciliar com o pai.

Nunca escapei daquilo que não foi dito. Careci de alguém que nomeasse exatamente o que aconteceu. Uma frase me contentaria:

- Eu e seu pai nos separamos e vamos continuando criando vocês em casas diferentes.

O subentendido me apavora, tremo diante de silêncios longos.

Não pretendo levar, portanto, minha filha a me repetir e decorar meus problemas com flores.

Ela ama sua mãe. Reclama, lamenta a ausência de compreensão, mas nunca irá morar comigo. Por mais que insista, acredita que me viro sozinho. Ama com veemência, com determinação, pode dedicar toda sua vida para provar que sua mãe não está errada. Não duvido que consiga.

É o sacrifício de Isaac sendo reencenado ano a ano, família a família.

Eu admiro minha adolescente, admiro os filhos que desculpam sua mãe tentando ser iguais a ela. É uma renúncia espartana, uma oferenda secreta. Não é fácil, não é pouco. De repente, escolhem uma carreira, casam, tomam uma atitude que não aceitariam por desejo próprio, somente para abençoar um exemplo. É um agrado involuntário. Para ficar do lado delas. Para defendê-las da verdade.

Apagam suas vocações, suas biografias, suas aspirações para concordar com a educação que receberam, mesmo sabendo que poderia ser diferente. As explicações para o abandono de sonhos serão idênticas as alegações maternas. Para dizer que sua mãe não estava enganada, vão largar o balé, o futebol, o cinema, a música, a literatura. Oferecem um amor sem limites e, conseqüentemente, sem personalidade.

Amargam um dilema: ou discordam com o enfrentamento (e uma grande dose de traumas) ou apóiam tentando conservar aquilo que foi ensinado. Não serão filhos, mas advogados, elogiados quando concordam no ato, incentivados quando obedecem. Não questionam a versão oficial, confiam em absoluto nas descrições do berço. É fácil descobrir quando isso acontece: as histórias são mais sentimentos do que fatos, mais suspeitas e impressões do que lembranças.

Há mães que não entendem que os filhos não são iguais, nem devem. Não cortam o cordão umbilical. Não alcançam à ideia de que a felicidade é pessoal. Aquilo que pode me deixar eufórico, por exemplo, é capaz de deprimir o outro. Pensam assim: "tudo que foi bom para mim será bom para o meu filho". Não respeitam diferenças de idade, carências, temperamentos diversos. Anulam a época, as mudanças de costumes, as conexões da linguagem.

Se a mãe estudava seis horas por dia, o filho também terá que seguir a mesma receita. Se ela namorou tarde, não custa o filho esperar mais tempo. Se trabalhou cedo, permanecer no quarto é vadiagem. Se a moda é secundária, o filho não depende de nenhum luxo, usará somente o básico. Se ela dorme cedo, nada de luz acesa de madrugada. Se não gosta de música, som alto é barulho. Se não viveu com pai, o filho tampouco necessita.

É óbvio que a casa explodirá em brigas, censuras e castigos. Não existe modo de convencer a criança a fazer do nosso jeito. Porque a ditadura vem da falta de escolha, uma simples mudança de costume surgirá como uma birra, uma afronta inaceitável. Dar o exemplo não é ser o exemplo.

Essas mães, como a minha, como a sua, como a de qualquer um não fazem por mal, ainda não descobriram que podem mudar o passado e repetem suas mães para provar que elas também não estavam erradas. É um efeito dominó, longe de um fim.

Por mais alguns anos, suportarei a distância de minha filha. Mas não quero sua dependência para me sentir importante, quero sua independência para que ela seja importante.




Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 58, Número 195
Fevereiro de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O BARULHO É NO ANDAR DE CIMA

Arte de Tereza Yamashita


Enfrento alguns defeitos básicos.

Um deles é derramar água quando coloco a fôrma de gelo de volta. Vou empoçar a cozinha e molhar os pés.

São décadas cumprindo vagarosamente os passos da pia até a geladeira e sempre desequilibro na última hora, seja ao abrir o congelador, seja ao procurar uma fresta entre as comidas e o pote de sorvete. A ordem é frágil. Atinjo o cume, finco a bandeira e um desmoronamento de neve termina com a paz.

Não é saudável minha insistência, porém odeio fracassar. Não tem sensação pior do que se enganar e mentir aos outros para tentar se convencer.

Talvez não faça questão de sair de uma crise e goste realmente do pessimismo. São hipóteses para fugir das certezas desagradáveis.

Já sondei fazer um curso ou assumir a função de garçom nas férias para efetivar o equilíbrio. Duas coisas se deve ensinar ao filho para evitar frustrações sexuais no futuro: amarrar o tênis e guardar o gelo. O resto ele aprende sozinho.

Durante a contratação pela universidade, agendaram com incrível antecedência o teste psicotécnico. O RH garantia um privilégio e concedeu duas semanas de preparação. Ou seja, uma quinzena para exercitar minha paranoia e refinar o bruxismo.

Não posso esperar muito tempo senão apodreço. Acalentei pesadelos por noites seguidas em que o teste admissional seria caminhar com a bandejinha cheia por todo o campus. Acordava gelado.

Não ria de mim, aquilo não é fácil, é um dos mais horrendos crimes da civilização, ao lado dos buracos da camada de ozônio. É a força do Inconsciente Coletivo pesando os braços.

Antecedentes devem puxar nossa espinha. Reencontramos nas vértebras os arrepios dos condenados injustamente pela Inquisição enquanto caminhavam para o cadafalso.

Eu me vejo próximo da tosse de Giordano Bruno, primo do suspiro de Joana D’Arc.

O problema não é meu, ninguém deseja renovar a bandeja — na maioria das vezes, encontro a morrinha com duas ou três lascas. O familiar usa e devolve como se não houvesse nenhum desfalque. É a maior cara-de-pau.

Deixa o suficiente para seu uísque de madrugada, e só. Claro que descobriremos os tabletes vazios tarde demais, no momento de receber visitas e retornar do mercado com as garrafas quentes do refrigerante.

A generosidade do casal não está nas atitudes ostensivas que fazem parte do repertório de provocação e que permitem flagrantes como trocar o papel higiênico ou não largar a toalha molhada na cama ou manter seca a tampa da privada.

Generosa é a substituição do gelo, uma ação sem sabor e transparente como a água. Discreta, qualquer um pode disfarçar e fingir desinteresse.

Contrariar pequenas preguiças traz sobrevida amorosa. Repondo as pedras, asseguramos a longevidade da relação.


Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

QUE TAL UM FINAL DE SEMANA COMIGO?

Arte de Henri Rousseau

Conduzo oficina de imersão, no gênero crônica, durante sábado e domingo (27 e 28/2) no Centro de Vivências Integria, em Picada Café (RS), a 80 km de Porto Alegre. O lugar tonteia qualquer visitante, que ficará indeciso entre o charme das cabanas, a deliciosa padaria artesanal e a paisagem acachapante da serra gaúcha, aberta ao quintal da Mata Atlântica.

Além das aulas, será possível fazer trilhas e tomar banho de rio de montanha com hidromassagem natural.

As vagas são limitadas e preenchidas por ordem de inscrição.

Informações pelo e-mail info@integria.com.br ou pelo telefone (54) 8402-3744

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

MÁRIO FAUSTINO - CLÁSSICO DO MÊS

Reedição do livro "O Homem e Sua Hora" confirma a importância do poeta que, na década de 1950, aproximou dois polos até então inconciliáveis: a tradição e a transgressão

O poeta Mário Faustino. Apreço pelos jogos sonoros, em versos como: "Agora o bandoleiro brada e atira/ Jorros de luz na fuga de meus dias"


Há a tentação de apontar as estruturas clássicas do verso como sinônimo de conservadorismo e anacronismo. Uma noção vestibulanda de que estrofes e rimas pertencem a uma ourivesaria inútil. O novo residiria no poema visual, no haicai e no verso livre.

As aparências enganam. Dois dos poetas brasileiros mais populares, Mario Quintana e Vinicius de Moraes, foram hábeis sonetistas. Talvez seja um argumento pertinente para revisitar Mário Faustino, que privilegiou a renovação do antigo mais do que a inovação pela ruptura. Cultivou formas consagradas numa postura combativa, de crítico dentro da própria criação.

Natural de Teresina (PI), morreu precocemente em 1962, aos 32 anos, num desastre aéreo. Em sua trajetória curta, transformou a crítica literária com uma página semanal no Jornal do Brasil, atormentando o compadrio elogioso entre os amigos e enfrentando figurões do porte de Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade. Como tradutor, sincronizou o horário brasileiro com os relógios poéticos da Europa e dos Estados Unidos ao verter Charles Baudelaire, T. S. Eliot, Ezra Pound, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine.

Lançou um único livro de poesia em vida, O Homem e Sua Hora (1955), que a Companhia das Letras acaba de reeditar, numa versão de bolso. Embora não tenha estabelecido um jeito original de versejar, desempenhou um papel decisivo e aglutinador. Representou uma figura de apoio entre duas pontas até então inconciliáveis: a tradição e a transgressão. Permitiu, assim, o surgimento do concretismo e a subsequente valorização da recriação na tradução. Assumiu uma condição ambivalente de vanguarda na crítica e retaguarda na poesia com o lema "repetir para aprender, criar para renovar".

Cantou como um barítono, extremamente alusivo, esbanjando aliterações e jogos sonoros. "Agora o bandoleiro brada e atira/ Jorros de luz na fuga de meus dias -/ E mudo sou para cantar-te, amigo,/ O reino, a lenda, a glória desse dia". Ressuscitou uma verve classicista, fundada em Virgilio e Dante Alighieri, com um mergulho intransigente na mitologia e na metalinguagem. Também adotou o tom imperativo e severo dos profetas bíblicos, de censura e ameaça. Não ficou com medo de Deus, apesar da tônica marxista-realista dominante da época. Alternou em seus versos símbolos do cristianismo (como sarça, peixes, serpente e sudário) e transfigurou os temas mais prosaicos em conflitos subjetivos e atemporais.

Não encontraremos nele o deboche, a ironia, os trocadilhos e a distensão modernista, mas um estado elevado de transe metafórico, de limpidez lírica. Desafiando a linguagem e revelando certa adoração pela morte, Faustino exibiu a luminosidade intensa e breve de um cometa.

Publicado na Revista Bravo!
Fevereiro/2010, Ano 12, Nº 150
Primeira Fila, p. 18

domingo, 14 de fevereiro de 2010

SUNGA OU BERMUDÃO?

Arte de David Hockney


"Eu já fui fã de bermuda na adolescência, quando era surfista pelas roupas. Nem prancha tinha. Não me imaginava de sunga. Mas depois dos trinta, como não tinha mais jeito de ser bonito, eu me vi sem conserto. Sem conserto é a coragem dos feios.

Andar de sunga talvez seja uma virtude dos exibicionistas. Aqueles que não têm mais nada a perder. As bermudas sugerem um homem que ainda acredita na pose, na aparência e na reputação. Não pretende perder o que já tem ou arriscar a aparência de repente. Por isso, o jovem e o adolescente gostam tanto de bermudas – o futuro ainda é maior do que o passado. No meu caso, não adianta mais negar o passado.

Não suporto amigo de sunga branca. É o fim da raça masculina. O cara fica com jeito de Pantanal. Cafona, Julio Iglesias litorâneo. Só falta aparecer de roupão branco, garoto-propaganda de hidromassagem de motel.

A pretinha básica é para os iniciantes, tímidos das coxas, perfil pai de família.

Uso sungas coloridas e extravagantes, com desenhos e mapas, para distrair o volume das espectadoras praianas. É o mais próximo que cheguei de uma praia de nudismo."

Depoimento ao jornal Zero Hora
Confira a opinião de
Claudia Tajes, Xico Sá, Vanessa Barbara e Mario Prata
Caderno Donna, p. 07, Porto Alegre (RS), 14/02/20010

ALEGRIA PARA DAR E VENDER



As faixas colocadas nas fachadas dos prédios noticiam a façanha a toda a praia e algumas até definem por antecipação a especialidade a ser seguida pelo recém-aprovado


Os argentinos enlouquecem na hora de procurar apartamento na orla gaúcha.

Andam desorientados pelos calçadões. Identificam centenas de faixas que fogem do tradicional “aluga-se”. Não assimilam as mensagens cheias de siglas nas sacadas dos prédios. Não definem se o imóvel está disponível ou corresponde a recados televisivos a Galvão Bueno:

“Luciano é Bixo.
Odontologia UFRGS”

“Fabi, valeu!
Bixo Veterinária PUC”

Se os bixos pintam o rosto para comemorar, os pais tingem e estendem lençóis pelas fachadas de seus apartamentos. Um enxoval tão disputado como o do nascimento de uma criança. Indispensável como o canudo e a toga na formatura.

Quem não recebe a homenagem não pode se matricular.

Trata-se de uma vingança emocional dos pais aos beijos negados na adolescência. Os velhos exorcizam os atrasos e reencontram uma segunda infância do filho, onde gritos, abraços e diminutivos são novamente permitidos.

Colocar a mensagem é a desforra dos ásperos silêncios dos últimos meses. Quase um grito de independência. Algo como o rótulo de champanha. Não, champanha não, rótulo de sidra. Excessivamente doce, como os olhos das crianças.

A loucura, portanto, tem justificativa. Esconde uma longa mobilização paterna e materna. Uma retaguarda de equipe.

Preocupado com o desempenho, o vestibulando não tem ideia de como influenciou a casa, desde a decoração aos hábitos alimentares. O casal disfarçou o nervosismo, os irmãos se controlaram para não atrapalhar, até o cachorro miou em segredo.

Não menospreze a contundência da tinta vermelha no tecido. Se não soasse absurdo, seria escrita com sangue.

A exposição não tem controle, contenção, elegância. Não existiria graça em cochichar uma façanha. É um grandioso mico. É para perder as estribeiras. Não restar dúvida da corujice.

Um movimento disposto a constranger pesado, a atrair a atenção do condomínio, do bairro, da garota-verão e do prefeito. Alguns escancaram a intimidade com apelidos fofos e inconfessáveis. Outros extrapolam a medida e definem por antecipação a especialidade. Se o jovem ingressa em Direito, a família festeja o futuro promotor. Se ele passa em Medicina, anuncia um próximo ginecologista.

Por mais que tentem, os pais não envergonham os filhos. A felicidade supera o vexame. Nenhum aprovado fica chateado. Está muito emocionado para raciocinar. Tomado de um otimismo insuperável, é capaz de descobrir valor num ônibus pinga-pinga ao litoral e explicar que é um modo fascinante de conhecer todas as praias da região.

Nem sempre o amor pode ser vaidoso. Nem sempre tem direito de ser cafona. Não é justo desperdiçar essa chance.

Quando entrei em Jornalismo na UFRGS, minha mãe não esperava. Foi pega de surpresa. Sequer programou uma comemoração. Não contava com faixa para exibir aos vizinhos, muito menos conhecia empresas para confeccioná-la. Armada da linha e da agulha da irreverência, tomou um terno escuro do pai e bordou em suas costas:

“Bito é jornalista.
Meu filho.
UFRGS 1990”

E colocou no portão, preso num cabide de madeira, substituindo o enfeite natalino.

A roupa balançou altiva na chuva e sol durante meses. Era um espantalho orgulhoso, que recebia a visita curiosa de pintassilgos no fim da tarde.

Mesmo na vitória, ela conseguiu inventar uma maneira de continuar a dizer para não me esquecer do casaco.




Publicado no jornal Zero Hora
Foto de Adriana Franciosi
Editoria Geral, p. 19, seção Estrelas do Mar
Porto Alegre (RS), 14/02/20010