domingo, 21 de julho de 2013

A ROUPA PARA DORMIR QUE NOS ACORDA

Arte de Isabelle Tuchband

A mulher mais sexy não dorme de baby doll.

Não dorme de camisola.

Não dorme de pijama.

Não é a que dorme nua tampouco.

É a que dorme com as roupas emprestadas de seu homem. Aquela que veste sua camiseta.

Você vê sua roupa nela e fica com vontade de botar no dia seguinte, deseja levar o perfume futuro adentro. Você lembrará dela ao escolher o que vestir de manhã, não somente ao se despir de noite.

É uma armadilha para a dependência. Para criar vínculo e intimidade.

A mulher que dorme com sua roupa devolverá a crença do sexo no casamento e o gosto pela rotina, além de ser uma prova incontestável de beleza. Pois, apesar de seu traje, ela permanece linda. Nem as medidas masculinas estragam sua volúpia. Ela transforma a camiseta larga em um vestido curto, sofisticando a simplicidade.

A mulher fatal não é a que encarna figurino de sex shop, que está armada para o crime.

A mulher fatal não é a que realiza espetáculo e pole dance.

A mulher fatal não será previsível com rendas e cinta-liga, não aparecerá rebolando com chicote e algemas.

A mulher fatal é absolutamente caseira. Ela disfarça seu desejo, não entrega sua intenção de imediato.

Jamais imaginará que terá sexo com alguém que colocou sua camiseta.

Mas ela engana para impressionar, é uma pureza que excita, uma ingenuidade que desconcerta.

Com a despretensão de uma peça emprestada, ela não segue roteiro, faz com que a transa seja inesperada.

Você cogitará que ela quer apenas dormir, mas ela acordará seus instintos selvagens.

É um golpe de estado. Uma impressionante virada de mesa. Na verdade, uma virada de cama.

A mulher que toma sua roupa para dormir arma um ataque caseiro, uma invasão camuflada. Finge que não se interessa para assumir o controle da situação.

Uma mulher que pega sua roupa para dormir irá enlouquecê-lo (o que é mais sensual do que o improviso?).

Ela vai dizendo nas entrelinhas: “Enquanto não tenho seu corpo, uso sua roupa”.

Não existe cena mais encantadora do que uma mulher que rouba sua roupa para dormir. É o começo de todos os saques. Roubará sua vida dali por diante.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 21/07/2013 Edição N° 17498

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A MÁQUINA RECEBE RONNIE VON

O apresentador Ronnie Von já posou seminu como forma de protesto.

Ele aprendeu com o pai que o grande julgador é aquele que julga os outros por si mesmo.

A entrevista foi ao ar em meu programa A Máquina, da TV Gazeta, na terça (16/7).

VAGÃO VAZIO

Você acredita em amizade colorida?

Dentro dela há cobranças?

Há como ser amigo e parceiro e não misturar as duas posições?

DRnaTV foi ao Trensurb para descobrir se os passageiros adotam essa companhia para o sexo.

A exibição aconteceu na terça (16/7) na TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

RAINHA MÁ

Arte de Eduardo Nasi

Eu voltei de viagem na segunda-feira e encontrei a pia cheia de louça, com todos os copos usados. Todos. Sem exceção.

Pratos e pratos sobre a mesa de apoio. Um absurdo de trastes domésticos. Parece que o armário fora baixado para perícia policial.

Estava assustado. Jurei que tinha entrado no apartamento errado. Ou que tinha sido corneado.

Perguntei para minha mulher, com o coração na mão.

— Houve festa ontem?

— Não, ela me respondeu.

— Não me mente… Como que não? Serviu um exército? Olhe a quantidade de louça para lavar.

— Vinguei minha vida de solteira.

— Como? Que doideira de se ouvir…

— Fui eu mesma que sujei tudo.

— Está brincando?

— Não, pegava sempre um copo diferente e não lavava. Era meu sonho. Passei a vida inteira me reprimindo, tendo que repor quando sujava. Quis um dia sem fazer nada. Sem detergente. Sem esponja. Sem pais.

— Um dia de princesa?

— Não, de rainha má.  Sem alguém me censurando. Sem alguém me controlando. Sem alguém me mandando fazer com a palavra ou mesmo com o silêncio contrariado.

— E acumulou a louça…

— E acumulei a alegria de não ser ninguém.

— E se sentiu melhor?

— Pude me sentir mal sem culpa. Não sei se me entende…

— Explica.

— Ter um dia vazio. Um dia nulo. Um dia que não fosse salvo. Um dia perdido. Um dia posto fora. Um dia meu.

— E?

— E cheguei em casa e atirei as roupas pelos corredores, sem dobrar, sem colocar na máquina, sem me importar onde iria pousar, sem ordem de queda e de procura.

— E?

— E assisti filmes sem parar. E não me importei onde largava a colher e o pote de sorvete. E onde me largava. E onde dormia. E onde acordava.

— E?

— E coloquei música alta e dancei Labirinto de David Bowie e realizei coreografias.

— Tudo sozinha?

— Sim, não diria sozinha, mais que sozinha: fora de mim.

— Que loucura!

— Loucura foi esperar esse momento.

— Isso é adolescência atrasada.

— Não, acho que é infância atrasada. Infância muito certinha. Muito controlada. De quem não aceitava decepcionar os outros. É a primeira vez que tenho um espaço meu, um espaço também para não ser, um espaço para desrespeitar, um espaço para ampliar minha liberdade.  Um espaço para não me assustar com o erro.

— Volto amanhã, concluí, conformado, e me dirigi de novo a porta.

— Por que vai embora, amor?

— Não serei eu a limpar sua vida de solteira. Mas prometo cuidar de sua vida de casada.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 16 de julho de 2013

QUANDO MINHAS PALAVRAS VOARAM

Arte de Alexandre Calder

Nossa vida não é triste.

Mesmo quando não temos uma alegria, temos uma esperança.

A esperança é a alegria nascendo.

Nunca fui vítima do passado, órfão da memória, coitadinho da infância.

Não me diferenciei pela dor, nem me destaquei pela tristeza.

Detesto reclamar. Reclamar só chama rancor.

O que eu passei, passei, superei de algum jeito, os traumas não me mataram.

As brigas não me levaram ao ódio e ao ressentimento. Não fiquei sequelado.

Aquilo que parecia um sofrimento eterno também esqueci.

Não irei me vangloriar das feridas. Gosto mais das minhas sardas do que das minhas cicatrizes.

Sofri o que aguentei. Aguentar é deixar de sofrer.

Fui educado numa escola pública em que não tinha ninguém para me defender.

Durante dois anos, cedi meu prato de comida para a turma da rua Lavras. O bom é que odiava sagu e polenta, as duas refeições básicas da época.

Era terrível a gangue formada por garotos quatro anos mais velhos do que eu. Andava com canivete e chaco. Arrastava vítimas pelos corredores do Imperatriz Leopoldina. Cobrava a feitura de temas e revistava bolsos dos colegas no recreio.

Desfalcou várias vezes minha mochila. Levou estojos, cadernos, réguas e a coleção de bolitas.

Sobrevivi ao roubo. Sobrevivi ao medo. Sobrevivi aos reveses.

Lembro que eles me seguraram pelos pés na janela do terceiro andar do refeitório.

Fiquei balançando do lado de fora. Um ioiô das risadas dos meninos.

Eu gritava de horror.

Quinze minutos balançando pelo avesso. Um enforcado dos pés.

Como se estivesse num kamikaze do parque de diversão.

Alucinado de ponta-cabeça. Batendo com o peito na parede do lado de fora.

Minhas palavras de socorro voaram pelo pátio. Pelo bairro. Foi quando aprendi a voar pela boca.

Eu me esvaí em lágrimas como qualquer criança naquela situação-limite.

Devo ter mijado, devo ter babado, devo ter feito o testamento na hora.

Olhava para baixo e me enxergava despedaçado no concreto.

A poça de sangue marcaria minha despedida do mundo.

Os guris me mantinham preso apenas pelos tênis.

Agradeço que usava Kichute amarrado nas canelas, o calçado nunca escorregava. O cadarço firme como um cordão umbilical.

Se não fosse o Kichute, estaria morto.

Sempre teremos uma esperança maior do que a tristeza. A esperança já é uma alegria.

Mesmo que seja um Kichute.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 16/07/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17493

A INTENÇÃO DESMERECIDA

Arte de Giacometti

Meu amigo preparou o almoço. Uma massa pesto maravilhosa.

Quando sua esposa apareceu em casa, fui elogiar:

 Seu marido é um autêntico chef italiano. Cozinhou uma massa e tanto. 

Adivinha o que ela respondeu?

 Assim é fácil, qualquer um faz, ele usou molho pronto. 

Em vez de comemorar o capricho do marido, ela desdenhou. Ela subestimou. Ela colocou o sujeito para baixo. Ela diminuiu a importância do ato. 

De repente, nem percebemos o quanto rebaixamos quem a gente ama. 

Pelo pretexto da sinceridade. Pelo pretexto da espontaneidade. 

É um desejo de desmascarar totalmente dispensável, é um desejo de ser mais verdadeiro do que a verdade totalmente desnecessário. 

A pessoa se esforça em ser gentil e agradar e não respeitamos a tentativa, não reconhecemos a intenção.

Temos que avacalhar, mostrar que o outro não é perfeito, expor fraquezas publicamente, entregar os defeitos. Para quê?   

Devia ser o contrário. Os casais deviam se proteger, deviam se cuidar, deviam se unir pelas virtudes.

Os casais deviam se incentivar, se elogiar, se respeitar. 

Acordar e escolher algo bom a ser dito, algo bom a ser sublinhado.  Não alimentar o rancor já no café da manhã. 

O mundo do trabalho já é tão cheio de crítica, o mundo do trabalho já é tão perverso, não é justo maltratar nossa família. 

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (16/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

domingo, 14 de julho de 2013

O APAIXONADO JAMAIS ADIA ENCONTRO

Arte de Fatturi

Quem está apaixonado não desmarca encontro.

Cancela trabalho, família, viagem, mas não suspende compromisso.

Assume prejuízo, enfrenta chefia, suporta calado todos os dissabores, mas não abre mão. Não nega o que foi firmado.

Mesmo que tenha trocado o mês ou se confundido com a data, assume o erro como acerto e segue em frente. Troca de turno com colega, compra amigos, arruma atestado médico.

Quem está apaixonado jamais desmarca encontro. Nem altera horário. Não tem coragem de pedir para que seja mais cedo ou mais tarde. Não é capaz de reivindicar 10 minutos a mais ou a menos. Não mexe no assunto. Não adapta planos. Não negocia prazos.

Aceita a data como um desígnio. Uma audiência de Justiça. Uma convocação da Receita Federal. Se não for, tem a sensação de que será preso, condenado por esnobar o amor.

Não brinca com a autoridade do encontro. Receia que não aconteça de novo, não arrisca zombar do destino. Não oferece chance ao azar. Teme um imprevisto, penteia o calendário, apressa o relógio e o coração.

Vive o transe de ser feliz, a hipnose de não pensar em um segundo plano.

Quem está apaixonado não arranja desculpa, inventa saídas.

Quem está apaixonado não se presta a solicitar fiado, paga à vista.

Só aquele que realmente não sente saudade é que adia encontro. Se o café é sempre postergado é que falta vontade.

Adiar compromisso é sinal de desamor. Não precisa de mais nenhuma prova. Não há aquele interesse máximo, aquela tara, aquela dependência.

O sujeito pode ter uma justificativa nobre: imposição do emprego, doença, tragédia. Nenhum pretexto servirá para remendar a esperança.

Não se mexe em encontro entre apaixonados. Deixa para adoecer depois, deixa para morrer depois.

Se alguém liga para reagendar sacrificou a paixão. É aviso fúnebre, é velório da voz. Significa que não está realmente a fim. Demonstra que tem um interesse passageiro, efêmero, pouco sério.

O apaixonado enlouquece com a simples hipótese de não ver mais o outro. Não vai estragar a importância do enlace, diminuir a expectativa, mostrar desapego.

Eu fiquei imensamente eufórico ao lembrar que nunca desmarquei nada com minha mulher, Juliana.

Fui me gabar para ela:

- Amor, jamais cancelamos nenhum encontro entre nós, não é legal?

Juliana me analisou com desconfiança:

- Fabrício, a gente só teve um encontro e não mais nos desgrudamos.

Eu percebi que a tática para não sofrer com atrasos e remanejos é permanecer junto desde o primeiro beijo. E não se soltar mais.

Foi o que eu e Juliana fizemos.

A paixão é um sequestro. O amor é quando pagamos o resgate.


 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 14/07/2013 Edição N° 17491

sexta-feira, 12 de julho de 2013

TODA MÃE MERECE O ADEUS DE SEU FILHO


Minha secretária Cléo chegou no trabalho chorando um dia desses. 

Sua filha tinha saído de casa sem se despedir.

Sua filha tinha pego todas as suas coisas enquanto ela estava comigo.

Sua filha não deixou nem um bilhete. 

Sua filha aproveitou a ausência para chamar o caminhão de mudança e fazer o frete em segredo. 

Sua filha limpou os armários e o quarto. Como uma ladra. Como uma desconhecida. 

Sua filha foi morar com o marido e não deu um único abraço de tchau. 

Toda uma vida sendo cuidada, sendo sustentada, sendo alimentada, sendo amada e nem um beijo de despedida. 

Nem um pedido de desculpa, nem um pedido de agradecimento.

Nem um aceno de mão na janela. 

Custava esperar a mãe voltar do serviço, custava explicar o que estava acontecendo, custava olhar nos olhos antes de seguir seu caminho?

Não há nada mais triste do que ser abandonado pelos filhos. 

Os filhos pensam que os pais estão contra eles. 

Os filhos pensam que os pais aguentam qualquer coisa.

Os filhos pensam que os pais superam tudo. 

Os filhos pensam que os pais já estão ultrapassados.

Os pais só pensam diferente, mas continuam amando igual. 

Por mais que doa, ninguém se torna adulto sem aprender a se despedir.

Toda mãe merece o adeus do filho. 

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (12/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


quinta-feira, 11 de julho de 2013

A MÁQUINA RECEBE LUIZA POSSI

A cantora Luiza Possi conta que quando pequena dizia que o nome da mãe, Zizi Possi, era Paloma, para protegê-la do assédio.

Ela diz que tirou a vida pessoal do foco de importância para poder levar uma vida normal.

A entrevista foi ao ar na noite de terça-feira (9/7), em meu programa A Máquina, na TV Gazeta.

NO TÚMULO OU NO CORPO

Você tatuaria o rosto da amada?

Gravaria o nome de seu par no braço? Ou no peito?

DRnaTV foi ao Estúdio Edu Tattoo para saber se o amor requer provas, inscrições.

A exibição aconteceu na terça (9/7) na TVCOM, com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.