sexta-feira, 2 de agosto de 2013

ESPERANDO A TORMENTA PASSAR

Fé é intimidade: saber que o outro está com dificuldades, mas acreditar na relação.

Na fé, ficamos juntos pois sabemos quem nos conhece. É ela quem carrega o amor para onde ele for.

DRnaTV, da TVCOM, foi exibido na terça (30/7), com produção de Fernando Muniz e mediação de Sara Bodowsky.

TORÇO PELO MEU AMOR


Por que a gente não luta por um amor como a gente luta pelo time de futebol? Por que a gente não tem a mesma paciência? Por que a gente não faz a mesma torcida esperançosa? Por que não desfrutamos da mesma garra?

Com o time de futebol, nunca deixamos de estar junto. Ele pode ir para a série C que permaneceremos frequentando o estádio e assistindo aos jogos.

Pode estar quebrado, falido, com salário atrasado, jamais largamos a bandeira, a carteirinha de sócio, a confiança do estádio.

Já com o amor , desistimos rápido. É só o nosso amor cair para a segunda divisão que o abandonamos. É surgir alguma dificuldade, alguma crise, algum contratempo, uma sequência de partidas sem resultado, que desejamos virar a casaca.

Com o time, nunca renunciamos nossa torcida. Nossa equipe pode estar jogando no inferno que continuaremos seguindo a caravana.

Já com o amor, é cair o padrão do jogo um pouco, e já pulamos fora.

Com o time, podemos esperar vários campeonatos, várias décadas, até ser campeão.

Já com o amor, não esperamos nem uma temporada.

Com o time, pedimos a troca de técnico.

Já com o amor, pedimos a falência do clube.

Se o amor fosse futebol, nosso relacionamento estaria salvo.

Torço pela Juliana como se fosse o Internacional, apesar dela ser gremista.

Ouça meu comentário na manhã de sexta (2/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 31 de julho de 2013

AMAR DEMAIS É APENAS AMOR

Arte de  Eduardo Nasi

Amar demais não é crime. Amar demais não é doença. Amar demais não é pecado.

Amar demais não é um atentado. Amar demais não é desespero. Amar demais não é carência. Amar demais não é um abuso.

Amar demais não é uma violência. Amar demais não é um desequilíbrio.

Amar demais é amar. É estar amando um pouco mais do que ontem e um pouco mais do que hoje e um pouco mais porque a memória se espalha na imaginação e o desejo não tem cura.

Não existe amor demais, existe amor de menos, existe desamor.

Não existe amor demais, existe amor necessário, amor essencial, amor crescendo.

Não existe amor demais, existe amor e ponto. Amor com sua lógica incoerente, seu pulmão de coração, sua febre ansiosa.

Amar demais é amar sofrendo como todos que amam. É amar inseguro como todos que amam. É amar desconhecendo as fronteiras como todos que caminham com a boca.

Amar não tem régua de abraço, não tem bafômetro de beijo. Não há como dizer que um ama mais do que o outro, ou que um ama pelo outro.

Os amores se misturam quando se ama. Os amores não param de se transferir. Os amores não cessam de recomeçar.

O amor é uma saudade que não se contenta em chegar. É — ao mesmo tempo — o medo de não ser mais ninguém e a alegria de ser tudo.

O amor não é um gesto isolado, impreciso, parado. É um gesto contínuo.

Amor é velocidade. Não conheço jeito de fotografar o amor, e definir: — Este é o seu tamanho!

Amor é desobediência. Não conheço jeito de estancar o amor, e declarar: — Este é o seu limite!

Amar demais é amar correndo com o batimento. É jurar que o mundo vai terminar se o amor terminar. É querer morrer de tanto viver. É nascer brigando e dormir beijando.

É amor, e deu, não inventaram modo mais calmo, versão reduzida, plano controlado.

Amor é uma paz ensandecida, uma guerra calma, uma curiosidade insaciável.

Amar demais não deveria assustar. É como impor cor ao crepúsculo, intimidar a mancha luminosa da lua, censurar um pássaro no alvorecer, trancar o rebanho de estrelas no estábulo de uma nuvem.

Amar demais é querer mais do mesmo amor, é se fartar e sempre faltar, é encontrar procurando, é achar se perdendo, é abençoar amaldiçoando.

Amar demais não tem uma imagem tranquilizadora, um objetivo, uma linha de chegada.

Amar demais não tem controle, pedágio, fiscalização. É realmente assustador. É realmente terrível.

Amar é demonstrar e não se contentar, é repetir e ainda ser inédito, é se arrepender já em pensamento.

Amar é escolher e não se acomodar, é cumprimentar uma vez e jamais se despedir.

Não há amor errado, mas amor aprendendo.

Não há amor demais. É amar como nunca antes. É amar transbordando vento e virando caminho.

Amar demais é amar. Será doação, entrega, não se controla o que foi oferecido, não se cobra de volta.

Se alguém diz que você ama demais, peça uma carta de recomendação.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 30 de julho de 2013

O IMPOSSÍVEL É O SOBRENOME DO MEDO



Perdemos mais tempo arrumando desculpas do que vivendo.

Perdemos mais tempo adiando do que aceitando a dificuldade.

Perdemos mais tempo explicando a desistência do que enfrentando o sim.

Eu garanto que a fuga dá mais trabalho do que se encontrar. Porque estaremos longe, mas com saudade. Porque estaremos protegidos, mas vazios. Porque estaremos aliviados, mas entediados.

A vida é simples, milagrosamente simples.

A esperança é firmeza. Consiste em seguir adiante mesmo com pânico, mesmo com receio.

Não há como acalmar o coração senão vivendo.

Parece que nunca conseguiremos fazer, mas vamos fazer, acredite, toda a vida foi feita de sustos bons.

Somente tememos o que é importante. Somente temos dúvidas do que é essencial. Somente entramos em crise por enxergar com clareza a dimensão de nossa escolha.

Os riscos valorizam a recompensa.

Viver não é para solitários. Sempre tem alguém nos chamando para nos acompanhar no perigo.

Eu pensei que nunca percorreria o corredor de minha infância caminhando, mas o vô me esperava do outro lado. Eu caí e ele me levantou com suas mãos de regente.

Eu pensei que nunca me manteria equilibrado numa bicicleta, mas meu pai fingiu que segurava a minha garupa e pedalei de olhos fechados com o vento me guiando.

Eu pensei que nunca aprenderia a ler e a escrever, mas a letra da minha mãe foi a escada para as histórias.

Eu pensei que nunca teria uma namorada, mas o beijo veio distraído no recreio da segunda série.

Eu pensei que nunca conseguiria nadar, mas os braços foram se revezando até atravessar a piscina.

Eu pensei que nunca passaria no vestibular, mas sacrifiquei noites e pesadelos para um lugar na faculdade.

Eu pensei que nunca teria filhos, eu pensei que nunca dividiria a casa com alguém, eu pensei que nunca seria dependente do olhar de uma mulher, eu pensei que nunca teria dinheiro, eu pensei que nunca seria feliz.

Eu pensei, mas fui fazendo. Fazendo. Fazendo.

O impossível é apenas o sobrenome do medo.

Você acha que somos impossíveis, mas é do impossível que o amor gosta.

O impossível é inesquecível.

O impossível é o possível repartido. O impossível é o possível a dois.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 30/07/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17507

ME AME COM FÉ

Arte de Caravaggio

A fé casa mais do que o amor. 

A fé é uma esperança que não morre. 

Que você tenha fé em mim mais do que esperança. 

Pela fé acreditará sempre em mim, tanto faz o que aconteça, tanto faz o desespero. 

Estará comigo na pobreza, na doença, na falência, na dor, na angústia até a noite escura dobrar a esquina do sol.

Hoje todo mundo não quer relacionamento, mas felicidade. Ser feliz o mais rápido possível. 

Felicidade é fácil, a fé é difícil.

Felicidade no empurra ao descarte, fé nos ensina a valorizar o pouco que somos.

Felicidade é atingir objetivos, fé é não largar a mão de nossa companhia mesmo quando os objetivos não são atingidos. 

A fé é estar junto mesmo quando somos tristes. É ajudar o outro a se levantar. É não abandonar o outro porque ele está passando dificuldades. 

A fé é uma certeza para suportar todas as demais dúvidas. 

O amor nunca passa sem a fé. A felicidade passa, sempre passa.

Amor nos leva para fé, a felicidade só nos leva ao egoísmo. 

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (30/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

sábado, 27 de julho de 2013

QUE LANCE!

Arte de Fatturi

Amar é narrar.

Amar é descrever passo a passo de nossa companhia.

Eu demorei a perceber, mas sou um narrador esportivo das manhãs de minha casa.

Todos que amam são. Não é uma exclusividade vocacional. Não é um dom incomum.

Logo que desperto, vou descrevendo as ações e reações de minha mulher. Como se ela não soubesse o que está fazendo.

Tomo um microfone imaginário, ajeito o timbre e deslindo suas lindezas.

“Juliana acorda, ela se espreguiça, ela está de bom humor ou de mau humor? Vamos ver... Abrindo os olhos... Ela se levanta devagar! Quando levanta rápido, está braba. Quando levanta aos poucos, ronronando e me abraçando é sinal de alegria. Feito: está de bom humor, ela ri para mim. A torcida vibra.”

Não lembra uma partida de futebol?

“Juliana busca um copo de água e vem tomar no quarto para olhar o que vestir, ela nunca escolhe as roupas com antecedência, ela sempre procura as roupas antes de sair, agora é o momento decisivo do pênalti, ela olha as traves do armário, analisa o que vai usar, chuta com confiança uma combinação e gol, gooooooooool de Juliana, gooool”.

Quem ama pensa em avisar o outro da própria vida - o que é engraçado e curioso.

Quem ama se vê no direito de devolver a consciência para seu amado.

É a pretensão de informar o outro dos seus movimentos. Como um espelho verbal. A voz passa a ser o espelho mais leal do quarto.

Não há intervalo no jogo de reflexos: tento ser ela, adivinhar seu estado emocional e sua vontade de viver. Eu me afasto de meus interesses para encarnar uma personagem e compreender suas escolhas.

O amor me concedeu uma técnica apurada de observação. Uma sensibilidade para antever dribles e contra-ataques. Pontuo suas caras e bocas com eloquência radiofônica. Desfaço ironias, despejo gentilezas.

Não me limito ao papel de narrador, também cumpro a função de comentarista. Além de detalhar o andamento da véspera do trabalho, dou pitacos no uniforme, na situação do gramado e nas estratégias em campo.

“Não acha que está frio? Pode precisar de um casaco. Calma aí, deixa espiar a web...Há previsão de chuva de tarde, melhor uma botinha”.

Isso quando não invento de atuar como repórter em campo, armando entrevistas na beira da cama ou da mesa do café.

“Está tudo ótimo? Dormiu bem? Sonhou com o quê?”

Todo dia é um suspense para desvendar seu temperamento. Mas não estou sozinho, não duvide, ela faz o mesmo, questionando minhas mínimas e estranhas atitudes. Como a de jamais acordar em silêncio.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 28/07/2013 Edição N° 17505

sexta-feira, 26 de julho de 2013

PREGUIÇA LIVRE

A preguiça é a maior desculpa pra não ter relação.

Se você está solteiro e não sai, parece que se está perdendo tempo. Se está casado e não sai, parece que está dividindo a vida.

Reflexões de DRnaTV, da TVCOM, exibido na terça (23/7).

Veja aqui:

DELÍCIAS DO INVERNO

Arte de Jean Philippe Arthur Dubuffet

Reclamamos que está frio a cada quinze minutos, falamos do tempo a cada quinze minutos.

Mas o inverno é uma maravilha para o amor e para preguiça.

O quero-quero de pantufas sabe disso.

Tem certas coisas deliciosas que só o frio traz:

– Dormir de conchinha, com os pés colados.
– Usar uma meia sobre a outra.
– Tomar chá, café e chocolate quente, tudo que tem fumaça.
– Escrever nos vidros embaçados.
– Cheirar os cabelos depois do banho.
– Pôr luvas que combinem com as botas.
– Vestir casacos pretos de mafioso.
– Beber vinho e ficar corado.
– Comer bobagens e não se sentir gordo.
– Buscar um lugarzinho na frente do fogão a lenha.
– Namorar no sofá com edredon velho cobrindo os joelhos.
– Acordar tarde no final de semana.
– Pedir para a mulher, por favor, levar o cachorro a passear.

Ouça o que falei na manhã de sexta (26/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

terça-feira, 23 de julho de 2013

DOIS ENGRADADOS DE LEMBRANÇAS



Trinta e sete anos resultaram em vinte e quatro caixas.

Meu amigo Daniel Scola empacotou sua vida para casar. Mudou-se para casa nova com a namorada Gaby.

Tudo o que viveu entrou em vinte e quatro caixas, tudo o que economizou, tudo o que recebeu e ganhou, tudo o que não soube jogar fora, tudo o que é.

– Eu sou vinte e quatro caixas! –, ele me repetia.

Scola estava feliz, porém ainda inconsciente da própria felicidade, ainda com o riso atrasado.

Experimentou a solidão de descer todos os livros, CDs, objetos para o frete.

Não deixou ninguém ajudá-lo a embrulhar suas coisas. Era um ritual de passagem. Foi se despedindo do passado, das lembranças do colégio, dos amores antigos, das tristezas, das medalhas, dos boletins.

Suspirou, bocejou, gargalhou como se fosse louco, absolutamente desacompanhado.

Viajava longe sem sair do lugar. Lembrar é viajar com a roupa do corpo. Os braços doeram, as costas doeram, as pernas doeram pelos sucessivos deslocamentos imaginários. Estar em vários tempos dentro de si cansa.

Mas não abdicou de realizar o translado sem ninguém. Ninguém mesmo. Nem parentes nem amigos. O corpo precisava acompanhar a exaustão da mente.

Urgia superar o passado antes de se virar para frente. Quem se casa depende de um momento sozinho com seus fantasmas.

Organizou seus pertences com a obsessão de um bibliotecário, marcando o conteúdo com hidrocor, isolando o papelão com fita.

– Sou vinte e quatro caixas – ele buscava se convencer.

Assim como concluímos, quando jovens, que a festa tinha sido boa pelo número de cervejas que bebíamos, Scola não parava de se gabar das vinte e quatro caixas.

– Minha vida consumiu dois engradados de lembranças, não foi mal, hein?

Quando ele colocou as bagagens reunidas na sala, disse que agora pediria ajuda para Gaby.

– Cansou?, perguntei.

– Não, é que, quando ela me ajudar a abrir as caixas, ela entrará para sempre em minha memória, na minha infância, na minha adolescência, vai se infiltrar definitivamente em minha história. Vou mostrar as fotos, explicar o que são meus objetos de estimação, perguntar onde podemos colocar. Não serei mais solteiro para recordar.

Daniel Scola descobriu que se mudar é guardar sozinho para abrir a dois.

E, no final, arrebentar as caixas e desistir de separar as vivências. Nunca mais saber o que é dele ou dela.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 23/07/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17500

UM LUXO

Arte de Rufino Tamayo 

Tem homem que não suporta discutir a relação. Sofre de alergia. 

Não fico brabo, não fico chateado. Eu agradeço. Sou profundamente grato. Sou feliz. 

É muita alegria ter alguém que lhe espera para desfazer mal-entendidos. 

É muita alegria ter alguém que perde três horas do seu dia para me entender.

É muita alegria ter alguém que ainda encontra tempo para tirar satisfação mesmo depois de uma rotina estafante de trabalho. 

É muita alegria ter alguém que se importa com a minha opinião.

É muita alegria ter alguém que defenda seu ponto de vista.

É muita alegria ter alguém que não tem preguiça, que aceita se incomodar para melhorar a convivência. 

É muita alegria ter alguém que fala primeiro comigo antes de expor as dificuldades para os amigos.  

E muita alegria ter alguém que chora ou grita, que se emociona, que valoriza cada olhar ou palavra.  

É muita alegria ter alguém que decide dormir tarde só para esclarecer sua opinião e descobrir o que estou pensando.

É muita alegria ter alguém que não vira para o lado, que não é indiferente.

Quem está se separando não discute - foge de qualquer conversa.

A paz é para os mortos. Já o ruído é para os vivos.  

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (23/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: