terça-feira, 13 de setembro de 2016

SELFIE DA VOZ

Bem sabemos que a mulher é vaidosa da imagem. Não aceita postar uma fotografia sem ampliar o rosto e verificar minuciosamente os detalhes da pele. Não se reduz à epiderme, ultrapassa a derme e avalia o estado de sua hipoderme na foto. Mulher transforma o celular em microscópio.

Sempre tem um lado mais fotogênico, sempre reclama do cabelo, sempre protesta por um problema imaginário. Ou está cansada ou não conseguiu se maquiar ou a luz não favoreceu ou o vento atrapalhou.

Uma foto não autorizada é motivo de longas discussões de relacionamento. Não tente surpreender o seu amor com um ângulo inesperado. Não busque publicar algo que não recebeu o ok. Foto para o público feminino não é amigo secreto, mas inimigo secreto.

Mesmo depois de aprovadas, as postagens experimentam uma quarentena, podendo ser deletadas a qualquer momento. Não tenho certeza se as fotos excluídas das redes na separação são fruto de um ódio do ex ou de um perfeccionismo permanente.

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Nenhuma amiga em sã consciência realizará pose acordando, ainda na cama, com a cara amassada do travesseiro. O habitual é começar as selfies depois de escovar os dentes. Depois do banho. Depois de almoçar.

O que eu não tinha reparado antes é que a mulher é absolutamente vaidosa da voz. Estranhei quando a minha esposa despachou um áudio no WhatsApp e reprisou em seguida. Ela escutava a sua própria voz. Como se o recado que enviou para outra pessoa fosse para ela mesma. Ela conversava com as suas amigas e também exercia um monólogo.

Publicado no Jornal Zero Hora
Coluna Semanal
13.09.2016

GAFES FAMILIARES

Amizade é selada na gafe. Amor cresce no constrangimento. É quando a vida dá errado e descobrimos que não somos sozinhos.

Eu e a minha mãe temos rounds de comédia ao longo da relação. Episódios engraçados de desentendimentos. E só são memoráveis porque nos perdoamos com o riso depois.

Ela sofreu muito quando eu era pequeno. Eu vivia caindo, costurando a cabeça no pronto-socorro, quebrando vidraças dos vizinhos, roubando frutas, recebendo notificações da direção da escola.

Não foi um tempo de calmaria, realmente abusei. E ela esquecia das minhas travessuras com a mesma rapidez que criava outras.

Lembro quando insisti para participar do coral da igreja. Tinha nove anos e voz de taquara rachada. Ela não quis me ofender e me levou a uma audição. Cada um dos candidatos mostrava a potência da voz individualmente. Um passo à frente no altar e os meninos reproduziam um trecho da Aquarela do Brasil. Quando chegou a minha vez, eu perguntei ao regente se a mãe não podia cantar em meu lugar.

Agora a minha mãe devolve na terceira idade tudo o que aprontei na infância. Decidiu ser engraçadinha. Não recebe crítica de ninguém porque é engraçadinha. Ganhou a onipotência de criança, não é responsabilizada por nada já que é fofinha e não fez por mal.

Nestes dias, estávamos em restaurante chique, aquele em que os talheres brilham tanto quanto o espelho e o guardanapo é longo e branco como uma toalha de Ano-Novo. A mãe ficou indecisa com o cardápio e assumiu atitude de aeroporto. Ou seja, reparar o que os garçons carregavam nas bandejas para qualificar o seu poder de decisão. Respirei fundo e prometi não brigar. Precisava melhorar a minha paciência e não censurá-la como sempre faço. Até que ela se levantou, dirigiu-se à mesa ao lado e indagou a um homem almoçando se poderia provar a sua comida. Foi tão rápido que não consegui me esconder debaixo da mesa.

Sair com a minha mãe hoje é aguentar não ser mais o personagem principal. Restrinjo-me a um eterno e útil coadjuvante. Nunca terei razão, mesmo quando demonstro equilíbrio e sensatez. Ela é que chama atenção, arranca gargalhadas e rouba a cena.

Publicado no Jornal Zero Hora - Caderno Donna
Coluna Semanal
11.09.2016

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

MEUS PÉS NÃO SÃO ESCRAVOS



Fabrício Carpinejar
Arte de Eduardo Nasi

Pode me prender os braços, algemar as mãos, que não me incomodo, inclusive participo da fantasia. Mas não prenda as minhas pernas que viro bicho em jaula, louco em hospício.

Alguns dirão que são traumas de vidas passadas. Acho que é problema adquirido nesta encarnação mesmo. Talvez seja uma vingança ao grilhão das botas ortopédicas da infância. Fui um pássaro preso pela coleira dos pés logo quando aprendia a voar na escola.

Tenho uma hipersensibilidade nos dedos. Meias apertadas são camisas de força, tampouco cultivo paciência para amaciar sapatos duros.

Eu me angustio quando não existe folga para movimentar os pés. O peso de uma coberta no inverno já me perturba. Vejo-me enterrado vivo, ajustado no caixão. Dou pontapé, esperneio, grito, quebro a forma imaginária, o quadrado invisível do pesadelo.

A cadeira do carro e a poltrona do avião com pouquíssimo espaço me põem nervoso. Começo a ofender mentalmente quem está à frente.

Reagi muito mal a uma brincadeira dos filhos na praia. Quando eles cobriram todo o meu corpo de areia enquanto cochilava debaixo do guarda-sol. Eu gritei tanto com as minhas crianças que o mar se envergonhou de fazer barulho com as ondas.

Gostaria de ser menos tenso com os pés. Mas eles são livres e selvagens, pensam absolutamente sozinhos e seguem os caminhos sem me perguntar aonde desejo ir.

Publicado no Portal Vida Breve
Coluna Semanal
07.09.2016

MEU NOME É LEGIÃO

Quando a comida apresenta muitos nomes, coisa boa não é. Certamente a refeição enfrenta uma grande oposição.

Mocotó, por exemplo, é dobradinha, é bucho, é cassoulet, é mondongo.

Ele tem vários nomes somente para a mãe enganar o seu filho.

— O que tem hoje para comer? Mocotó de novo?

— Não, hoje é mondongo.

— O que tem hoje para comer? Mondongo de novo?

— Não, hoje é cassoulet.

— O que tem hoje para comer? Cassoulet de novo?

— Não, hoje é dobradinha.

— O que tem hoje para comer? Dobradinha de novo?

— Não, hoje é bucho.

Não é fácil a tarefa de tornar agradável uma combinação feita do estômago, tripas e patas do boi. É necessário abafar a verdade com muito ovo picado, toucinho, linguiça, azeitonas, feijão branco e especiarias.

Repare que os pratos unânimes só têm um batismo, uma única graça: churrasco, feijoada, macarronada. Nenhum subterfúgio. Nenhuma frescura. Prato tradicional consagra a simplicidade, não enrola e não depende de sinônimos.

Já o mocotó é polêmico, devoto de uma legião equivalente de inimigos e adoradores. Ou é amado ou é odiado.

A questão é que se não fosse barato nem existiria. Mocotó é justificado pelo custo-benefício. Não exibe glamour. Nunca será servido em casamento e formatura. Nunca será o almoço para rifa de uma igreja. Nunca será o cardápio para o Dia dos Namorados.

Afora a sujeira e o cheiro que produz. A vontade de quem faz é pedir emprestada a cozinha do vizinho. A casa ficará empestada por uma semana.

Sem contar tudo o que sobra do panelão, pois mocotó não aceita diminutivos. Seu preparo é destinado sempre a um batalhão. Toda geladeira de gente normal guarda potinhos eternos de buchada em seu congelador— pode conferir! Caso não seja seu, é herança de um antigo morador.

Mocotó é bandido. Muda de nome ao sair do país. Empreende uma cirurgia plástica com ajuda de temperos, falsifica o passaporte, adultera os registros. Em Portugal, anda pelas mesas impunemente como mão de vaca. Na Espanha, usa o disfarce de callos a la madrileña.

Assim constrói a sua fama de vilão da infância, multiplica as suas ingênuas vítimas pelo mundo e jamais é capturado pelo faro dos cães pastores da Polícia Federal.

Publicada em Zero Hora
Coluna Semanal
06.09.2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

TÁTICAS PARA SER VISTO PELO GARÇOM

Garçom no Rio de Janeiro é como sogro: a princípio, não gosta de você. Diferentemente de outras cidades onde você senta e é logo visto, lá você senta e desaparece. Precisa fazer coreografias desesperadas para ser atendido. Receber o cardápio pode significar a sua morte.

O abandono na mesa trará letal desprestígio. Costuma significar o fim precoce de um namoro, de um negócio em potencial, de uma amizade no nascedouro. É uma humilhação levantar a mão inúmeras vezes e jamais ganhar atenção.

Demorei a compreender a aristocracia do garçom carioca. Ele não é garçom, nasce maître.

Em todas as minhas experiências botequeiras, apelava para querido ou amigo, e nada. Não vinha em minha direção. Ele me ignorava. Não havia como pedir um prato ou uma bebida. Ou seja, não tinha como existir, pois comer e beber são os gatilhos de qualquer papo.

Até que descobri a santa estratégia: garçom apenas atende bem quando chamado pelo nome. Perda de tempo assoviar e gritar ei, oi, ui – ele lhe tratará com capricho ao ser identificado. Descobrir o nome do garçom é o kit de sobrevivência na noite.

Foi o que fiz na semana passada quando levei Beatriz a um bar no Leblon. Logo no início, quando ele me alcançou o menu, perguntei quem era e esbanjei o poder de persuasão.

Devo ter chamado o Alberto mais vezes do que pronunciei o nome de minha mulher naquela noite. Estava ficando chato, porém a receita vingou perfeitamente. A cada nova necessidade, assumia uma postura redentora, de São João Batista a sempre batizar o sujeito no Rio Jordão do meu chope:

– Por favor, Alberto!

– Alberto?

– Gentileza, Alberto?

Ele tornou-se o meu Messias dos bolinhos de bacalhau e da porção de fritas. Entre falar o seu nome e fazer o pedido, não demorava nem 10 segundos. Ele corria entre as mesas com larga vantagem entre os seus colegas, um verdadeiro Usain Bolt das bandejas.

Já comemorava o êxito da fórmula, já imaginava escrevendo um livro de autoajuda revelando a chave do sucesso da boemia, já me via na lista dos mais vendidos da revista Veja, mas chegou a conta e tratei de bancar o canastrão diante do 10% opcional:

– É obrigatório, Alberto, pelo seu excelente atendimento.

– Obrigado, senhor, só que meu nome é Roberto.

Publicado em Zero Hora
Caderno Donna
Coluna Semanal
05.09.2016

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

ENTRE VIDRAÇAS E VITRINES



Texto: Fabrício Carpinejar
Arte: Eduardo Nasi

A minha esposa tem uma incrível vocação para perder brincos, só não é maior do que a sua capacidade fabulosa de reencontrá-los.

Já estou acostumado a vê-la triste assim que identifica o extravio e eufórica logo que localiza o par. Ela sempre resgata o conjunto sumido. No máximo, a operação de revista e reconstituição dos possíveis lugares da queda demora um dia.

Costumava ajudá-la no começo, largava as minhas atividades e assumia a força-tarefa imediatamente. Sofria junto, rezava Salve-rainha, entrava em desespero por empatia, eu me agachava no chão e encerava o piso com as mãos à procura de uma tarraxa ou um destroço da joia. Dava dó do desfalque e da orelha de outono. Perguntava quanto custava e, como todo homem desajeitado com as lacunas, prometia que compraria outro igual.

Mas eu me habituei aos lapsos. Parei de me estressar com os sucessivos desaparecimentos e reaparições.

Às vezes acho que tudo é um golpe de marketing. Beatriz perde somente para se surpreender depois e aumentar a cotação de seus pertences. No fim, fica sempre feliz com a volta do brilho ao lóbulo. Muda o seu humor, parece até que foi presenteada.

O raciocínio é mágico. Perder algo para resgatar em seguida é a possibilidade de comprar novamente aquilo que já tinha.

Nosso apartamento de manhã tem a atmosfera tensa de uma casa de penhor e de noite lembra a felicidade gloriosa de uma joalheria. Nunca é monótono


Publicado no Portal Vida Breve
31.08.2016
Coluna Semanal

terça-feira, 30 de agosto de 2016

MÃEZINHA POR TODA A VIDA

Valorize a sua mãe. Será a única a visitá-lo no presídio, mais ninguém. A sua mulher, os seus filhos, o seu pai e os seus irmãos podem e não podem comparecer na sala de espera, depende do jeito como viveu e amou, depende do que fez antes.

Já a mãe dispensa pré-requisitos. Não exige condicional nenhuma: ela irá visitá-lo com certeza, será a primeira da fila, a última a sair, não importa o que aconteça, se tem razão ou está absolutamente errado, se cometeu o pior dos crimes ou o menor dos males, se é um monstro ou um tolo, se foi preso pelo colarinho branco ou por mão grande.

Mãe não julga. Não sai de perto. Não escolhe o lado. Mãe será a única que jamais o abandonará. Estará defendendo-o quando perder o crédito com o banco e a credibilidade com os advogados, estará preparando a sua comida predileta e levando numa marmita qualquer que seja o inferno.

Portanto, cuide de sua mãe. Ela será a única que não o demitirá com o tempo. Só existe uma pessoa fiel e leal no mundo, por maiores que sejam as divergências e a distância cultural entre vocês.

Aproveite a velhice de sua mãe, leve-a para passear semanalmente, convide para um cinema ocasionalmente, busque-a em casa para caminhar e tomar sol no parque, dê um presente fora de hora, compre um chocolate de exceção da dieta.

Divida os seus dias na bonança, pois somente ela estará com você na pobreza e na desgraça, na adversidade e na doença, mais ninguém.

Só ela rezará por você quando igreja nenhuma acreditar mais em sua salvação. Só ela manterá a confiança quando não encontrar mais padre e pastor dispostos a recolher sua alma. Só ela ouvirá sua versão até o fim quando não restar mais nenhum ouvido crente em sua inocência. Só ela cumprirá as promessas e os pactos.

Que perdoe o meu sacrilégio, mas bênção de mãe vale mais do que a de papa, mais do que a de anjo, mais do que a de santo. Mãe não desiste diante de um milagre, começa a acreditar porque é impossível.

Mãe tem um ventre que não cicatriza inteiramente, tem um coração que jamais despeja, tem uma fé que não se abala e jamais fecha por completo o quarto da infância.

Ofereça carinho e amparo a sua mãe enquanto desfruta de condições, enquanto é fácil, não a abandone ao acaso e à sorte, preserve a sua derradeira amizade, cultive a sua definitiva confidência.

Mãe é a última fronteira do amor.

Publicado no Jornal Zero Hora
30.08.2016
Coluna Semanal

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Solidão não é estar sozinho, mas é não conseguir ficar sozinho, não se suportar sozinho.
Assim como a solidão não tem conexão com o deserto e o isolamento. Pode acontecer casado, acompanhado, cheio de gente ao lado.
Solidão é uma insuficiência que cresce: é a infinita capacidade de piorar o mundo para melhorar as reclamações.
Solidão é não encontrar ânimo tanto para acordar quanto para dormir, é quando o desespero desemboca em angústia.
Solidão é guerrear com a imaginação, lutar com a memória, combater os pensamentos. É se posicionar contra o perdão.
Solidão é uma saudade de si.
Solidão é rir sem vontade mais do que ter vontade de chorar.
Solidão é parar de achar graça quando as coisas dão errado.
Solidão é não ser compreendido. É explicar o que machucou e não receber o curativo da atenção.
Solidão é ser desacreditado sempre que se conta a verdade. É revelar uma urgência e ser menosprezado.
É expor uma necessidade e não ser levado a sério.
Solidão é a incomunicabilidade. É conviver com alguém e não ter como falar o que incomoda, é perder o ritmo da confissão, é não saber mais como começar uma conversa.
Solidão é ser assaltado várias vezes pela mesma tristeza. É não resolver nunca o problema, é aceitar a falta de solução.
Solidão é jamais encerrar as mágoas, adiar a despedida para fingir que a relação não acabou.
Solidão é não terminar mais nenhum livro e ouvir uma única música ininterruptamente.
Solidão é forjar respostas para não enfrentar as perguntas.
Solidão é chegar muito atrasado na emoção. É um desabafo feito exclusivamente de soluços.
Solidão é ir substituindo a vida por mentiras, é ir substituindo o compromisso pelas desculpas.
Solidão é assumir a culpa por aquilo que não aconteceu e, ironicamente, fugir da responsabilidade por tudo aquilo que aconteceu.
Solidão é ser desajeitado para amar e ser incompetente para odiar.
Solidão é quando o silêncio vira fardo.
Solidão não é o vazio, é ocupar o coração pela pessoa errada.
Solidão é manter um quarto infantil para um filho adulto.
Solidão é lembrar o aniversário um dia depois.
Solidão é um asilo para crianças, um orfanato para velhos.
Solidão é desinteressar-se pelas palavras e, em seguida, desinteressar-se pelo corpo.
Solidão não é ausência de sexo, é ausência de prazer.
Solidão é extraviar o contato com a família e não ter a humildade de reatar.
Solidão é desaparecer para os amigos durante a alegria e depois ver os amigos desaparecendo nos momentos da tristeza.
Solidão é pagar mesada aos defeitos e salário para as dores e não sobrar nada para agradecer aos céus.
Solidão é enjoar de tudo o que antes lhe inspirava, é quando a felicidade transforma-se em tédio.
Solidão é rastejar com asas, não dispor da concentração mínima para recuperar o que era importante.
Solidão é não ser mais solidário consigo.
Solidão é recordar os bons momentos somente para se torturar.
Solidão é inventar doenças e morrer de desgosto pelo excesso de saúde.

Solidão é se sentir só ainda desejando estar só.
Publicado em Zero Hora, Caderno Donna
21.08.2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

LOUCURA POR AMOR



Texto Fabrício Carpinejar
Arte Eduardo Nasi

Passar a vida inteira sem uma loucura por amor é o equivalente a não viver. Em algum momento, precisa dispensar as suas reservas e os seus pudores e mergulhar na coragem que é se entregar, mesmo que não tenha a devolução de sua história, mesmo que seja necessário recomeçar do zero, sozinho e endividado.

Ganha tudo quem se arrisca a perder tudo.

Loucura por amor é atravessar o mundo por alguém, é mudar de uma cidade por alguém, é trocar de emprego por alguém, é se reinventar por alguém. O que sugere submissão é prova de personalidade, pois não existe o medo de deixar de ser diante das novas experiências.

O que adianta viver sem nunca quebrar a régua, sem nunca dar um passo em falso?  O passo em falso é a única chance que temos de voar.

As oportunidades desperdiçadas não voltarão a se repetir. A ocasião faz o herói.

Saber o que é necessário e não ousar é desmerecer a altura da felicidade, é apequenar a felicidade.

Amor é fundura mesmo. Não há maior desatino do que nadar no raso.

Como reconhecer o tamanho de um sentimento sem testar os seus limites? É como morar em uma casa e conhecê-la pela metade, é como manter vários quartos fechados ao longo do corredor e não ter nem a curiosidade de povoar inteiramente o desejo.

A loucura no amor é que garantirá a serenidade na velhice, a tranquilidade na velhice, a certeza de que não restou covardia para se lamentar, a confiança de que não houve nada a ser feito e de que as palavras não se distanciaram dos gestos.

Cansa prever sempre o que vai acontecer e ainda acertar, distanciado do nervosismo da surpresa e do arrebatamento da aposta. A profecia confirma a previsibilidade das nossas ações.

Só a loucura por amor traz a paz da consciência. É quando não nos arrependemos daquilo que não realizamos, quando a culpa não supera a memória.

Tentou-se o que podia, ofereceu-se o que se tinha em nome de uma verdade. Não se foi mesquinho com a própria biografia. A realidade não ficou reduzida à preguiça das mentiras.

É triste nascer gritando para depois se contentar com o silêncio.

Publicado no site Vida Breve
Coluna Semanal
18.08.2016

VAGA-LUMES E POKÉMONS

Quando a mãe nos via muito tempo trancados no quarto, ela já esmurrava a porta:

- Não vão para a rua hoje? O que aconteceu? Olha que vão virar mofo, ácaro, cupim...

Deflagrava uma campanha terrorista para que eu e os três irmãos tomássemos ar. Não sei se ela tinha medo do que estávamos arquitetando, quietinhos, ou se realmente vinha de uma preocupação sincera. Naquela época, filhos na rua significavam saúde, filhos confinados em casa indicavam sinal de depressão.

Mas existia uma sentença mágica que nos impelia a abrir imediatamente o esconderijo e girar a chave na fechadura: quando ela dizia que estava anoitecendo e perderíamos a chance de caçar vaga-lumes.

Migrávamos do silêncio para o alvoroço. Gritávamos, brigávamos para cruzar o capacho primeiro e partir em busca dos tesouros nos quintais do mundo.

Levávamos potes de vidro com um buraco na tampa e ziguezagueávamos pelos bairros Petrópolis e Chácara das Pedras com os olhos em alerta. Bastava identificar o brilho peculiar, que cercávamos o inseto e colocávamos em um vidro para estudarmos as suas emissões luminosas. Era o equivalente a capturar estrelas. Depois de uma hora observando o facho luminoso dos besouros e procurando entender aquela estranha eletricidade, devolvíamos os bichinhos aos canteiros e árvores.

Quando vejo turmas perseguindo pokémons nas praças, com o visor dos celulares na frente dos olhos, eu não identifico o novo jogo como alienação. Não irei chamá-los de zumbis digitais, não reclamarei de que eles desprezam a realidade e só pensam em jogar, não farei cara de cegonho quando explicarem que estão no pokéstop e que usam pokébola para capturar os monstros ou que sonham em prender o Pikachu e chocar ovos.

Como pai, fico imensamente feliz, repetindo a atitude de minha mãe há três décadas.

Finalmente os adolescentes estão saindo do quarto, caminhando, fazendo exercícios, conhecendo espaços públicos, decorando o nome de ruas, começando amizades com quem também gosta do game, entrando em museus e prédios históricos que jamais conheceriam por sua espontânea vontade.

E ainda desfrutam do lucro ecológico, diferente da minha infância, de não torturar vaga-lumes.

Publicado em Zero Hora
Coluna Semanal
16.08.2016