quarta-feira, 30 de junho de 2010

OLGA DE VOLTA

Arte de Cínthya Verri

Não empresto livro, não existe quem devolva. A generosidade é uma alucinação. Eu agora compro um novo exemplar e dou de presente. Já apanhei da minha ansiedade. Desisti de cobrar, e ouvir a desculpa mais esfarrapada.

Renunciei a metade da biblioteca alcançando obras a colegas — tamanha a euforia com o que li. Não captei a mecânica da maldição: sempre que passo adiante uma obra, o amigo some e desaparece. A gente falava toda semana, de repente ele muda de paradeiro, telefone, personalidade.

Emprestar um livro é o início do desaparecimento. É o suicídio do Orkut.

Ele ganha o livro, eu perco o amigo. Foi assim com Francisco e Esculpir o tempo, de Tarkovski, com Renato e Gramática expositiva do chão, de Manoel de Barros, e com Paula e Alguma poesia, de Drummond, entre centenas de relações extintas.

E não emprestamos algo de que não gostamos, é de nossa preferência, de nossa estima. Não duvido que seja uma primeira edição, numerada e com autógrafos. Por isso, dói o remorso.

O livro emprestado nunca será lido — é aquele que legaremos para depois porque não há pressa. Compraremos outros durante o período, que assumirão a preferência na fila da cabeceira. É impressionante o quanto boicotamos sua presença. Torturamos de espera e de silêncio. De propósito, para testemunhar a saudade de seu dono. É como o amor não-correspondido de uma conhecida. Sabemos que ela nos ama, mas fingimos que é uma novidade. Fazemos de conta que não reparamos nos sinais.

Talvez o livro emprestado seja a vingança a todas as multas recebidas nas bibliotecas das escolas e da universidade. Uma desforra adolescente ao azedume dos bibliotecários de avental. Um trauma pelos cinco dias obrigatórios de leitura. Pelo bolso de datas na última página. Pela mesada consumida nos atrasos reincidentes.

O pai, por exemplo, colocava carimbo na folha de rosto para garantir a reintegração de posse dos seus latifúndios de papel. Não adiantava nada: o movimento do sem-livro invadia suas estantes e não ressarcia os hectares de ar. Tampouco assinar o nome no verso da capa criava compaixão — apenas aumentava a vontade de não devolver.

Minha crença foi rompida neste mês. Ainda estou me recuperando. Quisera apagar da memória o que aconteceu e continuar desesperançado. É mais complicado ser otimista. Fui autografar Mulher Perdigueira em São Paulo. Na recepção, encontrei Inês. Não lembrei quem era Inês de supetão, fui me lembrando aos poucos, frame a frame, gesto a gesto. Os cabelos cacheados me ampararam — a sorte é que ela não inventou de pôr chapinha. Inês? Inês! Colega da faculdade! Seus olhos de mel puxaram a ferroada. Ela me entregou um envelope pardo. Dentro, Olga, de Fernando Morais.

— Toma, é seu!
— Meu?
— Sim, você me emprestou na cadeira de Jornalismo.
— Está brincando?
— E me disse na época: “Getúlio deportou Olga para a Alemanha nazista, portanto tem a obrigação de trazê-la de volta”.

Mergulhei numa vertigem retrospectiva, numa prévia de coma. Passaram vinte anos que cedi para um trabalho numa atividade de rádio. Ela não esqueceu: pelo contrário, carregou seu peso com a expectativa de me rever. Morou no Rio de Janeiro, em Salvador, casou, descasou, e não se desvencilhou do pacote. Quando viajava, levava junto, aguardando um encontro acidental.

Ela me devolveu — mais do que um volume — o cuidado com a amizade.

Pena que não recordava de quem eu tinha tomado emprestado esse livro.



Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 29 de junho de 2010

CONVERSA E PATRONATO

Fotografia de Ramon Mello
Quarta (30/6), 19h30 - Porto Alegre (RS)
A Saraiva MegaStore promove a segunda edição do projeto Entrevista Poética, com mediação do escritor Diego Petrarca. O bate-papo vai girar em torno da minha nova obra Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil).

Shopping Praia de Belas
Avenida Praia de Belas, 1.181
Porto Alegre
Grátis - vagas limitadas
Tel: (51) 3231-6868


Quinta (1º/7), 18h30 - Gramado (RS)
Sou patrono da 14ª Feira do Livro de Gramado, que vai de 1º a 18/7. Estarei na abertura do evento, na Rua Coberta. Faço sessão de autógrafos dos meus livros.

domingo, 27 de junho de 2010

E QUE SE PONHA A ROUPA DO VENTO

Poema inédito
de Fabrício Carpinejar
Fotografia de Caio Vilela

O jogo é inventar a goleira
mais do que a bola.

Garagens são traves,
lápides são traves,
cercas são traves,
chinelos são traves.

O que pode ser levado
com uma mão,
adivinhado pelas pernas.

Postes de luz são traves,
placas são traves,
lixeiras são traves,
bancos são traves.

Marcar o chão numa linha imaginária,
daqui pra ali é o campo.
E o mundo não existe mais
fora do giz branco.

Um quarto está pronto a céu aberto.
Um quintal no meio da casa.
Uma rua cortando a praça.

Corra no jardim sonâmbulo,
pise a grama com raiva, raízes
são cadarços amarrados
nos tornozelos das árvores.

Há coices, quedas, uivos:
nada termina a vida,
essa explosão suspirada.

É um transe, a trave;
trânsito parado, feriado.
O defensor descansa
na tranca dos joelhos.
O pássaro voa de cabeça a cabeça,
descasca a chuva, espalha os cabelos.

A trave é montinho, formigueiro,
capuz de ciscos, ninhos.
Formigas transportam alimento
por dentro dos seus riscos.

Que seja capacete de moto,
um tijolo, um toco,
qualquer troco de mato e entulho.

Dez passos ao lado e uma altura infinita,
fazer endereço para receber cartas,
desenhar gol de letra.

Trave é o quadro-negro dos pés.
Caroço de brilho, queimadura de cometa.
Na praia, no calçadão, no descampado.
Tudo o que foi costurado pelo invisível
entre o corpo e uma porta.

Pedras são traves,
bambus são traves,
frutas são traves.
Até crianças são traves
para o adulto passar
de volta à infância.


Publicado na Revista Serafina
Folha de São Paulo
P. 18, Junho de 2010

sábado, 26 de junho de 2010

ENTREVISTA PARA REVISTA VEJA

O POETA DO TWITTER VOLTA À CRÔNICA
Adriana Caitano


Um dos escritores mais atuantes nas mídias sociais, o poeta Fabrício Carpinejar tem mais de 34.000 seguidores no Twitter, onde dispara frases poéticas e outras que podem servir de ingrediente a prosas futuras. Algumas delas estão em Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 336 páginas, 39 reais), livro de crônicas que o poeta lançou na quinta-feira, no Centro Cultural B_arco, em São Paulo (rua Dr. Vírgilio de Carvalho Pinto, 426). Antes do encontro com os leitores paulistanos, Carpinejar falou a VEJA Meus Livros.

Seus três livros de crônicas, O Amor Esquece de Começar, Canalha! e Mulher Perdigueira, formam uma sequência?
CARPINEJAR - Sim. A prosa ainda está encharcada de poesia, mas há diferenças entre os livros. Canalha! tem uma levada mais de humor, há uma combinação maior entre o lirismo e a graça que vai se especializando em Mulher Perdigueira. A história se sobrepõe ao efeito, ao capricho da palavra. O Amor Esquece de Começar é uma visão mais feminina do amor. Já Canalha! é sobre um novo homem, que não é mais uma caricatura, não é mais o Jece Valadão palitando os dentes. Ele tem outra postura, mais feminina. É um homem fruto de uma criação maternal.

Ser canalha não é ruim?
CARPINEJAR - Não exatamente. O canalha é um tipo raro. É diferente do cafajeste, que faz propaganda enganosa, mente pra conseguir o que quer. O canalha, não, ele desde o início confessa que não presta. Mas tem uma qualidade que é a coragem de amar e de falar a verdade. Você vai saber muito pouco da vida de um canalha, porque ele é invisível. É anônimo. A mulher que se apaixona por um canalha, na verdade, se apaixona por si mesma. É diferente do caso do cafajeste, que quer tomar todos os créditos.

Você também desconstrói o ciúme, e parece admirá-lo.
CARPINEJAR - Isso mesmo! Primeiro, porque ele vai explodir no momento certo. A pior coisa que existe hoje é as pessoas terem vergonha do ciúme. Ele é tratado como doença. Você não vai dizer para o namorado que está com ciúme. Vai tentar sonegá-lo, escondê-lo, e ele só vai crescer. Se a mulher confessa que tem ciúme, o homem diz “Você não confia em mim?”. Assim, ele coloca em risco o relacionamento e não permite que você sinta ciúme. E eu acho que o ciúme é indispensável. Porque é a pessoa ciumenta que vai se importar com você, vai ser leal, escutar o que você diz. A gente pensa nos efeitos colaterais do ciúme, no barraco, no escândalo, mas a gente esquece o lado positivo, a cumplicidade, a intimidade, a preocupação. Ele só se torna incontrolável quando sufocado.

Você parece admirar não só a mulher que tem ciúmes, mas a que demonstra o que sente.
CARPINEJAR -Isso. Uma mulher passional, intensa. Eu parto do princípio de que a doença é a indiferença. Hoje, a gente tem medo do terrorismo amoroso. Então, a gente faz de tudo para ser controlado, equilibrado. Os casais dificilmente confessam seus gostos, opiniões, preconceitos. Há uma impessoalidade atávica. Um deixa que o outro o imagine, porque assim será muito melhor do que realmente é. É uma mania de grandeza, a gente espera que o outro nos corrija, nos aperfeiçoe. E a gente não fala com medo de desagradar. Eu sou favorável a falar, a aceitar manias, a lidar com elas.

Sua namorada, Cínthya, fez o blog “Matando Carpinejar” e escreveu um texto dizendo que não era ciumenta e você exigia isso dela. É isso mesmo?
CARPINEJAR - Eu acredito que ela vai chegar à pós-graduação do ciúme (risos). Eu acredito que isso do relacionamento é tocante, isso do quanto ele pode ser jocoso. Todo mundo fala “Eu te mato” no relacionamento. Ela decidiu me matar na imaginação. Ela é ótima. Um Leonardo da Vinci: é médica, psicoterapeuta, blogueira, poeta, cronista, desenha, dá a melhor ré do mundo, é capaz de consertar chuveiro, torneira, pia. Eu já dei vexame trocando pneu na frente dela.

Vocês parecem opostos…
CARPINEJAR - Eu sou o que gosta de discutir o relacionamento, faço até resumo. Adoro conversar. Acordo elétrico, ela acorda lenta. Eu acordo com uma agência de notícias dentro de mim. Sou afetivo no abraço, perguntadeiro, indiscreto. Tenho uma aparência meio irreverente.

Como assim?
CARPINEJAR - Quando me descobri feio, vi que não tinha nada a perder. Ainda criança, já era famoso. As pessoas me apontavam na rua, chamavam de extra-terrestre. O feio é naturalmente famoso. Eu sofri bastante. Comecei a escrever para ser invisível. O que o feio mais quer é isso, é não aparecer. Eu me lembro uma vez, eu tinha nove anos, meus pais estavam tomando cafezinho na sala com o Mário Quintana, eu passei um creme francês da minha mãe que ardia muito no corpo todo e fui para a sala pelado. Passei por todo mundo e ninguém olhou para mim. Voltei para o quarto comemorando, achando que tinha conseguido ficar invisível. Mas eu teimei em repetir o teste, o meu pai me pegou pelo cabelo e me deixou de castigo. Até hoje, acredito que consegui ficar invisível da primeira vez (risos). Mas, com o tempo, aprendi a me reconhecer feio e isso me deu liberdade. Se sou feio, vou me inventar, vou escrever. Aí, comecei a rir de mim. Se sou uma piada, eu vou contar a piada. Não tive mais medo de ser patético, de ser ridículo.

Você aprendeu a lidar com a feiura de maneira bem-humorada?
CARPINEJAR - Sim, eu vi que gafes rendem as melhores histórias. Tanto que cheguei a ficar viciado em gafe, queria colecionar várias para contar. Enquanto meus irmãos colecionavam figurinhas, eu colecionava gafes. E, então, não ficava mais envergonhado com um tropeço. Eu fui me humanizando.

Você tem teorias originais sobre relacionamentos. Elas vêm de suas experiências ou de sua observação?
CARPINEJAR - As duas coisas. Não vou entregar se o que falo é o que vivi ou pensei (risos). Essa dúvida é própria do escritor, como se fosse um segredo. Será que ele viveu tudo aquilo ou ele imaginou tudo aquilo? Meus filhos, quando conto uma história, querem saber se é verdade. “Aconteceu mesmo?” A gente quer ter esse prazer duas vezes, o da invenção e o da realidade, e os dois ao mesmo tempo. Mas fui casado por 13 anos e essa experiência foi muito importante para mim.

Você defende a união estável?
CARPINEJAR - Acredito que seja deslumbrante a rotina. É deslumbrante você acordar no inverno e ter alguém ao lado. Não tem como um casal se separar no inverno, vão ficar com muito frio. Não há lençol térmico que dê o calor do corpo. Isso já é bíblico. Nossa, agora fiquei até santo (risos).
Em Mulher Perdigueira, há uma crônica poética sobre o ato de pendurar a roupa no varal. Cada um demonstra sua personalidade na hora de pendurar a roupa. Se eu pendurar a roupa, minha namorada vai dizer que está errado, minha mãe, também, porque cada um tem um jeito de fazer. Há um método, a solidão é um método. Você demonstra sua personalidade se tira a calça com o cinto ou se tira o cinto antes de tirar a roupa. Se você coloca por último o sutiã na hora de se vestir, por exemplo, confessa que gosta dos seus seios.

Você acredita que tenha uma alma feminina, uma sensibilidade maior?
CARPINEJAR - Enquanto eu tiver uma alma feminina e meu corpo continuar masculino, tudo bem (risos). Eu devo ter uma certa audição feminina, pelo fato de ter sido criado pela minha mãe e de ter uma irmã mais velha que é muito próxima – foi ela que me ensinou a dirigir, que fez a primeira festa, foi para ela que confessei meus primeiros namoros. Isso deve ter afetado tanto minha sensibilidade que eu esqueço as falas dos filmes e nunca termino um assunto. O homem é visual, capaz de transar com as coxas ou os seios de uma mulher, e não com ela. Mas a mulher vai reparar como você trata o garçom, as amigas. Isso não sedução, é entendimento. Ela não quer um homem, ela quer o homem em seu mundo.

É aquela história de a mulher ver o todo e o homem ser mais focado?
CARPINEJAR - É que a mulher é romancista, o homem é contista. Ela quer o enredo. Mulher Perdigueira trabalha o quanto a dependência pode ser prazerosa. É a mesma coisa que funciona com o escritor. A gente tem que distanciar as aparências. A crônica não é feita para ser um cabedal de impressões, é para contar uma história. Muito escritor reclama, diz que é dolorido escrever. Escrever é uma alegria, uma dança. Deveriam perguntar para o escritor o que dói mais: escrever ou não conseguir escrever.

Em você, o que dói mais?
CARPINEJAR - Não conseguir escrever! Quando eu não escrevo, aí, dói. Aí, eu acho aflitivo. Um escritor com crise de inspiração é muito infeliz.

Você já teve crise de inspiração? Lendo seu Twitter, tem-se a impressão de que as coisas saem de repente, com facilidade.
CARPINEJAR - Não, é do momento. Eu acredito nessa espontaneidade do chiste, do improviso, da bravata, coisa de gaúcho, tirar o tapete da conversa. Somos três irmãos, a gente se provocava muito no almoço. Se ganhava uma guerra pela irreverência, pela graça. Eu passei a vida inteira jantando numa tribuna. Cada um desafiava o outro com suas histórias. É muito natural isso, ou seja, se eu gosto de alguém, eu vou cutucar, provocar, tirar sarro. Se não gosto, fico na minha. Digamos que é um teste de resistência, saber o quanto o outro pode ser bem-humorado até na sua rabugice. Eu acho maravilhosa a rabugice. O pessimismo é inteligentíssimo, é um radar das contradições. Então, eu não acredito que falte inspiração porque não me enxergo em mim. Sou muito mais biográfico sendo os outros. Se eu quisesse contar minha vida não teria inspiração nenhuma. Minha vida é um atrito diante das outras vidas. Eu vivo recuperando o que é meu nos outros. E vivo devolvendo o que é dos outros que estava em mim. É esse jogo de comparações.

Publicado no site da Revista Veja
Seção Meus Livros, 24/06/2010

sexta-feira, 25 de junho de 2010

MINHA VIAGEM É PELA CASA

Arte de Giacometti

Aceito a caretice. Extraviei o ânimo para camping. Nada mais desalentador do que espiar o dia por um zíper. Numa oca de pano. Acordar agachado e seguir com a impressão de que fui abandonado toda noite num porão. As costas reclamando da proximidade com a terra e a boca protestando pelo café morno.

Gastei a juventude procurando Woodstock. E só encontrei a lama.

Acampar é trabalhar o dobro para evitar trabalho. O que se desperdiça na preparação e na antecipação dos problemas nunca será recompensado durante a estada.

É aguentar a falta de água quente, conviver em filas de banheiro, rir de piadas sem graça para arrebatar a cumplicidade de estranhos e eliminar o medo de que algum deles seja um psicopata. Nem acredito que percorri 200 metros com um rolo de papel higiênico nas mãos, com cara de Sonrisal, cumprimentando as pessoas para despistar a necessidade.

Não me contento com a precariedade de festejar uma tomada ou uma lixeira.

Larguei o movimento estudantil na primeira excursão. Desertei de um Congresso do DCE. Já tinha pavor de pedir carona, sofri com a ideia de mendigar um colchonete.

Não lembro nenhum amigo descrevendo experiências prazerosas. O hábito é expor tragédias. Os mochileiros ajudam meus argumentos. Cometem o elogio do masoquismo e das privações. Talvez seja uma mania preventiva, arrumar histórias de superação na adolescência para se vangloriar na velhice.

Soa como miragem. É o mesmo que dizer que é inesquecível transar na areia da praia. Isso é para quem não conhece o Nordestão da orla gaúcha.

Acampamento é um internato voluntário, um serviço militar opcional. Armar barraca, carregar mochila com tudo socado, caminhar oito quilômetros, subir nas pedras, lascar os joelhos, para morrer de frio no topo do monte. Uma hora de caminhada para cinco minutos exclamando o pôr do sol e se convencendo de que a vida é linda perto da natureza.

Sou viciado em janelas, gavetas, guarda-roupa, travesseiros. Minha aventura é mexer nos botões do controle remoto. Procuro o conforto, não o luxo, a quietude das coisas em seu lugar, uma toalha de renda e um vaso de flores me dizendo onde é o centro da casa. Uma sala cheirando a livros e um quarto impregnado do aroma feminino.

Já sobrevivi a enchentes em Santa Catarina, já madruguei inchado de mosquitos em Mato Grosso, já perdi metade dos objetos e aparelhos por distração em Alagoas.

Não venha alegar que me acomodei, é gosto pessoal desde que minha avó colocou bolsa de água quente debaixo das cobertas na infância. Prefiro um quarto aquecido, uma cama fofa, e me recuso a dormir ao relento observando as estrelas. O romantismo morreu de pneumonia.

As viagens não me ensinaram a partir, apertaram a saudade e a vocação para voltar.

Não tomei jeito, não fiquei econômico. Não aprendi a fazer uma mala compacta e escolher o que devo levar de essencial e dispensar o que não será usado. Ela está cada vez maior. Com o superficial mesmo. Transbordando inutilidades. Pago excesso de bagagem, mas estou sempre prevenido para o sequestro. Desejo contar com várias opções de roupas para acompanhar a mudança do humor. Vá lá que esteja amarelo e tenha somente verde, vá que desperte vermelho e tenha somente branco. Há dias em que sou demônio, outros dias pai de santo. Continuo sendo o mais lento no detector de metal. Não deixo de botar o cinto porque ele vai apitar. A cintura está amarrada em minhas convicções.

A única barraca em que entro é a do meu filho debaixo da mesa.

Publicado no jornal Zero Hora
Editoria Geral, p.2, 25/06/2010 Edição N° 16377

“MEU RACIOCÍNIO É TORTO”

Irinêo Baptista Netto
Foto de Renata Stoduto



O único limite das crônicas de Carpinejar é o literário: nada de clichês


Uma das coisas que um cronista pode almejar é mostrar ao leitor uma forma diferente de ver um fato sabido ou corriqueiro. É oferecer uma nova perspectiva. Fabrício Carpinejar faz isso com uma desenvoltura embasbacante. Veja Mulher Perdigueira, compilação de 125 crônicas que lança agora, um ano depois de vencer o Prêmio Jabuti da categoria com o livro Canalha! A quantidade de sacadas que permeia seus textos é um desafio para o leitor.

Nas primeiras, você sente o impulso de copiar o texto e guardar no bolso da camisa. Na décima ideia genial, percebe que não passou das primeiras páginas e conclui que é mais fácil carregar o livro todo debaixo do braço porque os papeizinhos não dariam conta de tudo que se quer anotar.

Carpinejar está com 37 anos e 19 livros. Jornalista e poeta, escreve também para revista (Crescer), jornal (Zero Hora, por um tempo), site (Vida Breve), blog e twitter. Mesmo com um volume impressionante de trabalho, é constante e, de modo paradoxal, imprevisível. Como as estações do ano. O inverno sempre chega, mas pontuado por dias inesperadamente quentes.

Na entrevista a seguir, ele conta para que serve uma crônica e diz que prefere ser romântico a “sofrer sozinho e não ter ninguém para descrever o próprio sofrimento”.

Uma boa crônica parece sempre ser íntima na medida certa. O cronista se expõe o suficiente para deixar o leitor entrever o homem além do escritor. Essa é uma das coisas mais marcantes nas suas crônicas: a intimidade que consegue criar. Ela é calculada?

CARPINEJAR - Sem intimidade, não é crônica. Quem quiser esconder suas manias e gostos e ser impessoal, deve escolher o ensaio. Todo escritor começa escrevendo para se proteger, depois seu maior trabalho é escrever para destruir suas defesas.
Crônica é fraqueza, conversa, essas miudezas que decidem nosso temperamento. Não há medida certa, sei que posso desagradar meus pais, namorada, filhos, que não vão tolerar que conte certas indiscrições. Mas não escrevo para ter medo, escrevo porque o medo não é maior do que a minha vontade de me aceitar. Existe uma censura familiar que não permite a simplicidade. Meus amigos sabem que serão difamados – só faço biografia não-autorizada.

Há um limite para o que está disposto a escancarar nas suas crônicas ou qualquer experiência pode servir de ponto de partida para um texto?
CARPINEJAR - O limite é literário: não aceitar o clichê, desconfiar das aparências, despertar sutilezas, dar uma segunda chance para a rotina.
Pode ser um furinho na camisa de uma mulher. Pode ser meu hábito de largar a xícara de café no parapeito da varanda, como balde para a chuva. É compreender que um olhar é futuramente nostálgico, estou comparando o que fui com o que sou. Meu passado pode ser modificado em qualquer instante. O cronista não recebe visitas, ele visita sua própria vida.

Falam que um dos fantasmas a assombrar o cronista é a falta de assunto, mas esse não parece ser um problema para você. Ou é?
CARPINEJAR - Falta de assunto é para quem deixou de viver para escrever. Não me desligo. Meu raciocínio é torto, flutuante, troço das minhas aspirações, espio as contradições, tento investigar como surgiu tal atitude. Não hostilizo a estranheza, duvido do rosto para enxergar com as mãos.
Não suporto crônicas que se desculpam pela ausência de inspiração. A literatura não termina em mim. Sou tão narcisista que tomo os problemas dos outros como se fossem meus.

Quais são as principais qualidades de uma crônica?
CARPINEJAR - Autocrítica e humor. O humor derruba a desconfiança para a poesia entrar. O drama faz com que as pessoas se fechem e sejam avarentas com suas emoções. A piada humaniza. O riso é tão-somente um vento chorando.

E o pior defeito?
CARPINEJAR - Arrogância. Cronista que não debocha de si será moralista. O mesmo ocorre nas discussões de relacionamento, as brigas prosperam porque nos levamos a sério demais e desejamos no fundo educar nossa companhia.

Existe algum cronista que admira e lê com frequência?
CARPINEJAR - Rubem Braga foi o maior dentro de um gênero menor, a ponto de fazê-lo maior.

Para que serve uma crônica?
CARPINEJAR - Para lembrar que a chaleira está fervendo.

Pelos textos, você parece um romântico irrecuperável.
CARPINEJAR - Sou um romântico que se atualiza e se recupera a cada gafe. Wando não era romântico, só pedia a calcinha. Quem é romântico pede a lingerie completa. Pede também o sutiã. Não sei viver ímpar. Conto os pássaros da migração para ver se estão voando em par. Protejo minha ilusão com toda maldade. Casamento é tão delicioso, depender é tão delicioso, quero uma mulher que sempre complete minhas lembranças, que me ajude a lembrar de mim. Não confio na memória, confio no amor. Se vale a pena, nunca fiz essa pergunta. Pior é sofrer sozinho e não ter ninguém para descrever o próprio sofrimento.

Você escreve sobre relações amorosas, pais, filhos, separação e a lista é longa. Existe algum tema em que se sinta mais à vontade? Ou trabalha com fases?
CARPINEJAR - Acho que é por necessidade mesmo. Eu me alterno. Largo o tema antes de ficar embriagado. A pior coisa é transformar a embriaguez em porre. Por exemplo, não consigo mais tomar saquê desde que passei da conta numa noite. Não suporto nem o cheiro. Gosto da saudade para poder voltar.

Como descobre os temas que fazem a sua cabeça?
CARPINEJAR - Quando não consigo pensar outra coisa: a crônica interrompe o trânsito das ideias. Transforma a rua em feira de fruta.

Serviço
Mulher Perdigueira, de Carpinejar. Bertrand Brasil, 336 págs., R$ 39


Publicado no jornal Gazeta do Povo, capa do Caderno G
Curitiba (PR), 24/06/2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

ACOMPANHE O LANÇAMENTO EM SÃO PAULO





Sessão de autógrafos de "Mulher Perdigueira"
e debate com Márcia Tiburi
Espaço Cultural B_arco, quinta (24/6)
Broadcasting via Twitcam

quarta-feira, 23 de junho de 2010

SIGILO PROFISSIONAL

Arte de Cínthya Verri

Escritor é fofoqueiro. Fofoca até o que acontece em sua imaginação. Se a vida não ajuda, ele trata de ajudar a vida inventando casos. É um trabalho em equipe.

Uma das minhas euforias é contar o dia para minha namorada. Volto de uma palestra, de uma aula, e vou falando sem nenhum empurrão. Narro que toquei no braço da poltrona e vi um chiclete colado no forro e fiquei sondando qual foi o palestrante porco que me antecedeu, lembro que fui elogiar um brinco da mediadora e era uma cicatriz, falo mal de uns e de outros, reproduzo o desempenho dos estudantes que mais crescem na atividade, cristalizo frases do Vicente (“Só sonho nos finais de semana, quando tenho direito a dormir até 8h30”) e coleciono dados para impressioná-la, tipo que a empresa Marco Polo vendeu 700 ônibus para Copa ou que Robinho é o jogador que fez mais propagandas no país. Confesso o que comi no almoço, o que jantei, quem encontrei, atualizo as histórias de meus amigos prediletos (todo amigo é uma fotonovela). Reproduzo frases do twitter, explico os textos que escrevi, sou uma draga.

É evidente que busco o contraponto e pergunto no meio da catarse noturna: “Como foi seu dia?”

Instante de tirar os sapatos, relaxar e intercambiar experiências. É a pausa para não me envaidecer com as próprias lembranças e desafiar os olhos a piscar devagar.

Mas ela me responde sempre com “bom”.

E o atendimento?, insisto.

“Deu tudo certo.” E o papo termina sem mais nem menos. Não termina, expira.

Namorar uma psiquiatra é o equivalente a namorar um agente secreto. Não há passado, mas prontuários. Ela não me abre coisa alguma, avisa que é tudo privado e segredo de paciente. Uma confidência de padre. Que não insista, que sua clientela confia nela. Tem uma bula de argumentos: se cochichar um hábito, sou bem capaz de reconhecer seu portador na rua.

Já ousei trilhar as perguntas de vários caminhos e sou interceptado com lacônicas generalizações. Não me esclarece se é homem ou mulher, sua saída é usar “uma pessoa”. Alta ou baixa? Nunca. Magra ou gorda? Nunca.

Fujo de seu telefone para não causar mal-estar. Quando tem uma urgência, saio de perto e cantarolo a fim de abafar o som. Eu me reprimo para não me deprimir.

Cogito em criar uma associação dos namorados e das namoradas de psiquiatras. Para discutir tudo o que não sabem dos seus parceiros e como admitir a inexistência diurna.

O máximo de intimidade é quando ela diferencia o atendimento entre pesado e leve. Pouco alcanço o que está passando, do que enfrentou em horas e horas de divã, se tem conseguido absorver traumas e resistências. Quem diz que não está metida numa boca braba? Não irei desconfiar. Não há um vazamento para descobrir a calha quebrada. Ela não fala, não pode falar. Não comenta uma indiscrição, guarda para si, uma pira espartana. Partilha convicções de uma seita, participa de uma mensagem cifrada, abraçou uma vocação, uma missão altamente solitária. Algo que minha curiosidade não aceitará. Não faz nenhuma diferença se prometo segredo — ela me achará abusado e invasivo. Não está no horizonte correr riscos profissionais pela minha carência. É assim e que trate de me acostumar.

Se eu fosse um colega, talvez me pedisse conselhos, talvez me ligasse para confirmar a dosagem da medicação, talvez dedicasse noites a detalhar fatos e cruzar informações. Apaziguada, desligaria o abajur, encostaria o rosto no peito e me agradeceria sinceramente pela ajuda e paciência. Eu me sentiria importante, lavaríamos os jalecos na mesma máquina de lavar. Ela não arderia de medo das minhas palavras e atitudes. Em nossas gargantas, haveria um idêntico juramento de formatura.

Mas eu não tenho anel verde de médico, meu sonho é a aliança que simplifica e democratiza as confidências, sofro horrores porque desconheço o dia dela. Não diferencio sua segunda da terça da quarta da quinta da sexta. É tudo um dia bom.

Ou arrumo um psiquiatra para desabafar ou curso Psiquiatria enquanto é tempo.



Crônica publicada no site Vida Breve

segunda-feira, 21 de junho de 2010

ELEGÂNCIA É ACEITAR A GAFE

Veja entrevista dada a Saraiva Conteúdo. Soltando o verbo em minha passagem pelo Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier (SP):


DEU NO JB


Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 336 ps.) surge como o sexto livro mais vendido no país pelo Jornal do Brasil, segundo levantamento da última semana e publicado no caderno Idéias no sábado (19/06).