segunda-feira, 15 de agosto de 2016

QUANDO MORDI A MINHA LÍNGUA



O que sentimos ou deixamos de sentir está impresso nos mínimos gestos.

Você pode ser uma pedra, não falar nada, mas até a pedra um dia será amaciada pelo musgo.

Não adianta sonegar emoções, traficar amores, camuflar problemas, porque será descoberto. Entregará o que vem lhe preocupando pela aparência. Somos horóscopos ambulantes, biscoitos da sorte prestes a serem quebrados por uma mensagem.

No fim do Ensino Médio, eu vivia brigando com os meus colegas, desafiando os professores, respondendo desaforado aos pais. Óbvio que fui forçado a visitar a psicóloga da escola. Prometi a mim mesmo que lacraria a boca, ficaria calado durante a consulta inteira, faria terrorismo com a quietude. Não achava justo ser obrigado a me analisar e ainda mais numa época em que a terapia estava vinculada preconceituosamente à loucura.

Eu me ajeitei na poltrona com o meu estojo e caderno de aula debaixo do braço e a indisposição macabra de silenciar a cada pergunta. Mas a psicanalista não questionou nada, e o seu silêncio inesperado foi me enervando. Ela me observava com interesse, e eu querendo cada vez mais me esconder. Quando alguém permanece quieto muito tempo em nossa frente é como encarar um espelho e o tamanho de nossas dúvidas. Ela me provocava não me provocando, ela me emparedava abrindo todas as portas. Aquela liberdade assustadora de não ser cobrado a participar me aprisionava.

Mexi em meu estojo para me distrair.

Ela perguntou se eu poderia emprestar uma caneta.

Alcancei uma Bic azul. Ela viu que a tampa estava mordida. Olhou com carinho e comentou:

– Enquanto não morder o tubo, está tudo bem.

Eu ri de nervoso e demonstrei curiosidade.

– Morder a tampa significa alguma coisa?

– Significa que não fecha as conversas, que foge das discussões com medo de dizer a verdade, que reprime o desejo e vira as costas remoendo sozinho as suas frustrações e decepções, jamais repartindo a sua verdadeira opinião com ninguém, nem com seus melhores amigos.

Não revelei coisa alguma durante uma hora do encontro, mas ela me decifrou inteiramente apenas analisando a tampinha mordida da caneta. Uma mera, idiota e banal tampinha iluminou o meu comportamento.

A partir daquele dia, nunca mais subestimei a psicanálise e cuidei para morder somente a insossa borracha nos momentos de maior ansiedade.

Publicado em Zero Hora - Caderno Donna
14.08.2016
Coluna Semanal


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

CONTRA O SIM PARCELADO



Texto Fabrício Carpinejar
Foto de Gilberto Perin

O sim no amor é à vista.
O sim no amor deve ser definitivo.
O que irrita são as pessoas hesitantes, claudicantes, indecisas, que racionalizam a emoção e dizem sim apressadamente para ir negando aos poucos.
O sim no amor não pode ser parcial, com intermitentes recuos e progressivas desculpas.
O sim no amor é redondo, esférico, sem arestas.

O sim no amor é como o beijo – não se devolve um beijo.
O que enerva são as pessoas que dizem sim por educação e depois vão desaforando a concordância ao longo da vivência. Dizem sim e se arrependem aos goles, obliquamente, nunca revelando a sua verdadeira intenção, procurando parecer algo que não é, agradando na aparência e discordando na essência.

O sim no amor não é um talvez, não é uma possibilidade, não é uma hipótese confortável entre tantas.
O sim no amor é a renúncia das demais respostas em nome de uma só. Há quem fale sim da boca pra fora, esquecendo que quem escuta é do coração para dentro.
O sim no amor é alcançar a confiança e não pedir coisa alguma em troca, é manter a promessa mesmo na adversidade.

O sim no amor é inegociável, não muda conforme o contexto, não se adapta à carência.
O sim no amor é libertador. Nada teme porque não exige nada.
O sim no amor é a âncora da memória, tudo pode ser levado, menos este sim que fundou a convivência.
O sim, quando declinado, transforma o que foi vivido em falso, contamina o romance com a paranoia.

O sim retirado é tão grave quanto uma mentira, é tão agressivo quanto uma infidelidade, você nunca sabe se a pessoa apenas fingiu somente naquele momento ou sempre.
O sim parcelado devasta a intimidade a dois: será que o romance foi ilusão?
Porque o sim no amor é a união de dois sins, são sins mútuos, é um diálogo, não uma decisão unilateral. O sim é o namoro de duas certezas, o casamento de duas perguntas, não existe sim solitário.

Ao apagar o seu sim você estará assassinando o sim do outro lado. Ao desfalcar o seu sim, você estará subtraindo o sim do outro lado. O outro lado também é você.
Não falsifique o sim, o sim não é volúvel, o sim não é uma opinião, o sim não é um desejo passageiro, o sim não é uma disfarce para pensar com calma, o sim é um destino.
Você não diz sim, você é o próprio sim.

Se você busca contentar com um sim rápido não prevê o quanto perderá o respeito se ele virar mais adiante um não.

Não declare o sim se não acredita. Melhor um não que mude de ideia do que um sim covarde.

Publicado no Jornal O Globo - versão online
Coluna Semanal
11.08.2016

NATI MORTA



Não há mais fotos nas redes sociais. Não há mais nenhuma aspas. Não sobrou nenhuma réplica de você pela casa. Parece que você nunca existiu. Parece que você nunca nasceu. Quem chega agora em minha vida jamais ouvirá seu nome. Jamais conhecerá suas teimosias e aflições. Nem recordo como era o seu riso, nem recobro como era o seu choro, tampouco vou me esforçar. Emprego toda a minha energia para matá-la em mim.

Não puxo águas antigas do poço de meus olhos, estas águas contaminadas de sua sede. Só bebo palavras novas, palavras potáveis da minha boca. Não falo mais por você. Não calo mais por você.

Tivemos sorte para nos desvencilhar. A educação favoreceu a distância – é uma generosa pá de terra. Não nos atrapalhamos com saudade, telefonemas e surpresas.

Desfrutamos ainda do privilégio de contar com amigos cordatos, que optaram pelas omissões simpáticas dos últimos meses de nossas vidas. Não sofremos constrangimentos, não atravessamos questionamentos das páginas em branco do nosso álbum de retratos.

E não existe motivo algum para competir comigo. Eu me encontro em idêntico estado. Não guardo vantagem ou desvantagem. Todo separado só tem a memória de curta duração. O amor é um apagão tanto em seu auge quanto em seu fim. O amor é um Alzheimer que atinge duas pessoas ao mesmo tempo.

Ninguém mais falará da gente. Talvez os amigos e familiares até elaborem aproximações, mas mudam de assunto. Somos uma história proibida, uma história silenciada, uma história proscrita.

Retornamos ao anonimato. O esquecimento nos devolveu para antes de tudo. O depois de tudo e o antes de tudo são iguais, com a diferença de que estamos fingindo que não nos conhecemos.

Há uma cumplicidade na separação que nunca conseguimos na convivência. Há uma afinidade na distância que jamais adquirimos juntos. Pela primeira vez em nossa relação concordamos em algo: assentimos em não escrever, em não visitar as páginas de cada um e também não frequentar os mesmos lugares. E nem precisamos combinar, fizemos intuitivamente! Merecemos cumprimentos. Adivinhamos o desejo do outro de modo inédito. Somos a prova viva de que sempre dá certo morar em casas separadas.

Publicado no Portal Vida Breve
Coluna Semanal
10.08.2016

terça-feira, 9 de agosto de 2016

MOLETOM NA CINTURA

Reclamei das polainas nas mulheres. Por uma questão de justiça e igualdade dos gêneros, não posso deixar de criticar o moletom na cintura, espécie de polaina entre os homens.

Sei de um candidato a emprego desclassificado numa seleção porque estava com o moletom na cintura. O gerente de RH bateu o olho naquele centauro cafona esperando na salinha e já o dispensou sem direito a apelações e falsas esperanças.

Vestir moletom indica mau gosto, exibi-lo no quadril acaba com as dúvidas sobre a regeneração do sujeito.

Concordo que a malha pendendo como um rabo tem poder de veto na admissão de qualquer trabalho.

O moletom na cintura é andar com uma vovó abraçando as pernas. Tem um quê incômodo de arrasto. Como um para-choque solto de carro. Como atropelar uma baliza.

Carregá-lo na cintura é prova de preguiça. Se o homem não é capaz nem de levar o moletom no braço, certamente repassará tarefas adiante e procrastinará no computador.

Moletom nas costas é coisa de tiozão, moletom amarrado na cintura é de alguém que ficou preso na garagem de uma reunião dançante.

É um vexame masculino. Será que o cara levou a sério o pedido materno de não esquecer o casaco? Não entendeu que era apenas uma formalidade?

Ao mesmo tempo que envelhece a aparência, infantiliza o caráter. É pôr um ursinho de pelúcia no lugar do cinto. Não enfeita a roupa, estraga.

A princípio, sugere a prevenção ao frio do entardecer com uma roupa reserva. Só que o portador esquece de um detalhe básico: calça não é cadeira, calça não é armário, calça não é cabideiro.

O moletom na cintura é próprio do homem querendo usar saia, porém sem a devida coragem para enfrentar a censura dos outros. Ele disfarça o seu flagrante desejo improvisando um saiote. Não é assumido, e busca se enganar ao máximo com permanentes gambiarras.

O macho que amarra o moletom começa a rebolar estranho e exagerado. Não anda, desfila. Baixa uma top model do umbigo para baixo. Se a mulher se esconde com o moletom, o homem vira uma saúva e aumenta o seu requebro.

Há uma regra fundamental na moda. Duvide de tudo o que é quentinho e confortável.

Publicado no Jornal Zero Hora
Coluna Semanal
09.08.2016

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A GENTILEZA É O ÓLEO DAS RELAÇÕES


Somos educados com estranhos. A ironia é que não somos educados com quem amamos.
Parece que amar é perder o freio da língua, que deixamos de medir as expressões quando estamos à vontade na cozinha, de abrigo e havaiana, conversando com a família, que intimidade é o antônimo de formalidade.

Existe a mania de entender que a convivência traz a possibilidade de falar qualquer coisa a qualquer hora. Conferimos licença para grosserias sob alegação de espontaneidade.
A preguiça atrofia o amadurecimento, abandonar o cumprimento e o agradecimento traduz um completo desprezo a todos que nos acompanham. É também um sinal de pouca humildade, já que nos sentimos superiores a ponto de nem olhar para os lados.

Não acredito que um filho respeitará o pai se não adotar “com licença” e “obrigado” dentro do lar. Nunca abdiquei, por exemplo, do costume de solicitar a bênção para a mãe no momento em que me despeço dela – baixo a cabeça em obediência aos mais velhos e ofereço a minha testa para receber a sua proteção.

A gentileza começa com o dever de casa e se estende aos demais. Quem abdica da cordialidade com a família jamais será genuinamente afetuoso nem absorverá o sábio rigor do silêncio e a pausa de reflexão diante dos erros cometidos.

O rancor surge da falta de controle. A agressividade emerge da ansiedade.
A educação é pensar duas vezes antes de fazer uma bobagem, representa um intervalo entre os impulsos para organizar a emoção. Ela renova o alvará da rotina, reconhecendo o valor daquilo que se tem.

Educação não é frieza, não é censura, mas proteção para não machucar e ferir os mais próximos.

Desfaz mal-entendidos com a paciência da linguagem. Equivale à uma fisioterapia da alma, quando as palavras se apoiam nas barras do cavalheirismo para fortalecer as longas pernas da verdade.

Não canso de avisar de meus movimentos e retribuir os outros pela preocupação comigo.
Não há dia em que não diga “bom dia” para a minha mulher, mesmo que seja redundante. 

Não há noite em que não diga “boa noite” para a minha mulher, apesar de dormir e despertar sempre com ela. A qualquer pedido que faço, reitero o “por favor”. É para alcançar o sal ou o controle da tevê. Ela não tem obrigação nenhuma em me atender, trata-se de um agrado a ser recompensado igualmente com o meu capricho.

Não é porque nos conhecemos que dispensarei o cuidado. Até porque o tempo de casamento não torna ninguém resistente, somos mais frágeis e vulneráveis quanto mais nos entregamos

Coluna Semanal
Zero Hora - Caderno Donna
07-08-2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O FIM DO NOME



Fabrício Carpinejar
Foto de Gilberto Perin

O amor assassina o nome próprio.

Você perderá o seu nome. Lentamente. Indubitavelmente. A ponto dele virar uma ofensa.

Puxo discussão com a mulher quando ela me chama de Fabrício. Declaro guerra na hora. E não diminuo a ofensiva mesmo quando ela me responde o óbvio, que está me chamando pelo meu nome.

É que me acostumei com os apelidos, diminutivos, aumentativos, em ser nomeado de Paixão, Gostoso e Delícia, que não supero a regressão. O nome acaba sendo a denúncia de que fiz algo de errado. O nome é uma suspeita de que decepcionei. O nome é rebaixamento da intimidade, é atraso, é greve, é contenda. Traz uma solenidade grave para a conversa, rompe com as brincadeiras, suspende a informalidade. Em sua cortina sonora, vem a ancestralidade da mãe e do pai me xingando por alguma coisa que quebrei em casa. Despertam as vozes de apreensão e de autoridade que moram no nome:

- Fabrícioooooô!

Depois do amor, o nome morre. Foi ferido pelos castigos e medos no tremor da vida, mas morre somente com a convivência a dois.

Não ouço mais o meu nome esportivamente, à vontade, como quem descasca bergamota e cospe as sementes pela janela.

O amor destruiu o meu nome, esfacelou o meu nome, corrompeu o meu nome. Já não posso mais ser Fabrício impunemente. É uma advertência. Dependo da voz da Linda da minha Vida me adjetivando. Não sou mais substantivo.

Perdi o prazer do eco. Nem fico para o retorno do timbre. Vou extraviando a importância de escutar alguém me chamando, a alegria de ser gritado por um colega ao longe. Nem sei como reagiria hoje à lista de chamada da escola - enfrentaria a professora com um ausente?

O amor termina com as individualidades até que sejamos anônimos, desaparecendo a vaidade do batismo.

Ou talvez o casamento seja um segundo batismo, onde recebemos um codinome secreto, um antinome público, para o regozijo particular.

Publicado no Jornal O Globo (blog)
Coluna Semanal
04.08.2016

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

CRISTALEIRA



Texto Fabrício Carpinejar
Arte Eduardo Nasi

No centro da sala da escritora Martha Medeiros, reina uma cristaleira impecável, linda, com os vidros desenhados.

Estanquei na porta de acesso do corredor para observá-la com calma. Não era mais uma cristaleira, e sim uma religião.

Quando fui elogiar, Martha já se desculpou:

- Comprei pela metade do preço. A loja avisou que estava arranhada.

Procurei encontrar a avaria no móvel, alisei longamente a textura da madeira e não localizei nenhuma fissura, fenda, risco que pudesse ser chamado de dano.

- Onde está o arranhão, Martha?

- Embaixo das gavetas. Mal dá para ver.

Mal é eufemismo, não dava para ver mesmo. De modo nenhum.

Depois sozinho em casa, ruminei a  cena vivida com a amiga, e constatei que repetimos o tratamento culpado  da loja com a cristaleira.

Sofremos por um defeito que ninguém enxerga, ninguém repara, e nos vendemos para os outros pela metade do preço.

É uma desvalia que retira o nosso orgulho de viver, a nossa confiança, e nos rebaixa a aceitar qualquer valor, ainda que humilhante.

É alguém que se acha feio, alguém que se acha pobre, alguém que se acha burro, alguém que se acha inexperiente, alguém que se acha lento, alguém que se acha travado, alguém que se acha tímido, alguém que se acha tolo e se entrega quase de graça, não exigindo nada, suportando tudo, sendo criticado ou zombado e sem condições de revidar porque colocou na cabeça que tem um arranhão invisível.

Quantos se acham estragado e entram num casamento ou num emprego para serem maltratados por algo que nunca será descoberto? Quantos acreditam que não merecem um amor inteiro, desenganados pela ilusão de um problema pessoal, e aceitam a insalubridade dos amantes? Quantos se rendem a uma dificuldade inventada e se submetem à caridade e às sobras das horas de terceiros? Quantos sofrem à toa por algo que nunca será percebido?

Quantas pessoas, lindas, impecáveis, no centro de um relacionamento, que não se respeitam por uma falha absolutamente imaginária?

Coluna Semanal
Publicado no Portal Vida Breve
03.08.2016

terça-feira, 2 de agosto de 2016

CIÚME É BOM

Ciúme nasceu para ser dito antes dos fatos, feito para despertar cautela e cuidado.

Ciúme que não é preventivo já é infidelidade.

Quando alguém reclama que o outro sente ciúme sem motivo tem toda a razão: o ciúme é absolutamente sem motivo. Sua natureza é despretensiosa, aleatória, intuitiva.

Ciúme vem da tradição da fofoca, da escola da boataria.

Não entendo quem não fala nada quando está desconfiado: reprime o ímpeto educadamente, despreza sinais e gestos, pois não pretende cometer injustiça. Ora bolas, o ciúme é exatamente uma injustiça prévia para que a relação não termine na justiça do fórum.

Eu não tento aparentar ser melhor do que realmente sou. Declaro o ciúme de cara. Eu pergunto "onde vai" e "quem é" assim que surge a dúvida. Não fico plantando maduro para colher podre. Não prego cenas e birras, muxoxos e indiretas. Não pretendo iniciar investigação, mexer em celular e laptop e colher provas silenciosamente para incriminar de vez.

Exerço a confiança no sentido de me apresentar claro e direto, pontual e determinado. O risco do ciúme é deslizar para o ressentimento e o da insegurança é se agravar em paranoia.

Ciúme existe para garantir a inocência do outro, enquanto ainda é possível, jamais uma armadilha para confirmar a culpa.

Ciúme é alerta, advertência, assobio, chamado para dentro da intimidade.

Se a pessoa predileta por acaso pensava bobagem lá vem a gente no encalço dissipar a fantasia e lembrar a importância da relação. Um pouco de culpa aperfeiçoa a saudade.

Ciúme tem o papel estratégico de atropelar fatos, distorcer, apressar, é um sentimento exagerado com medo de virar acontecimento.

Ciúme é para ser gritado, alardeado, festejado. Ele combate a indiferença, a maior causa de morte dos romances.

Deve ser dito sem nenhuma evidência. Não confunda ciúme com profecia. Prefiro errar a ser corno, prefiro me enganar a perceber que tinha mesmo razão.

Ciúme é para evitar o pior, não é para se conformar com o pior.

Não adianta guardar o ciúme para depois. Depois é tarde demais.

Seja ciumento na hora certa, e com doçura e gentileza, para mostrar que se importa com quem ama. O problema do ciúme é e sempre foi a grosseria.

Publicado no Jornal Zero Hora
Coluna Semanal
02.08.2016

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

PONTO CRUZ DA MEMÓRIA


A febre é uma terapia – há o degelo de lembranças longínquas que eu julgava esquecidas. Ocorre um derretimento da memória de longo prazo e acesso antiguidades do meu pensamento com grande facilidade. O factual some, o mais imediato desaparece, em compensação o que estava lá atrás das vivências ressurge como se fosse ontem.
Vem um fluxo livre e rico de evocações. Capturo sons e cores da infância, converto fotografias em preto e branco em animação.
Quando fico com febre, não paro de falar. Deliro. Dou uma palestra exclusiva para a minha mulher. Óbvio que ela se assusta porque não calo a boca.
Mas é um reencontro com o meu passado, sem a censura dos sonhos e o medo dos pesadelos.
Febril, recordo que não conseguia dormir na casa de meu avô paterno. Apagava a luz do quarto e começava uma marcha de ratos pelo assoalho. Eu ouvia certinho a migração dos bichinhos pela extensão das tábuas.
Para me assustar, o primo Beto dizia que os ratos se escondiam no piano durante o dia. Por muito tempo, não me aproximei do instrumento. Imaginava que os ratos saltariam das teclas nos recitais de minha tia.
Febril, recordo que viajava na infância deitado num pelego, no bagageiro do carro. Os pais armavam uma cama nos fundos da Belina. Eu e os irmãos vivíamos num universo à parte dos adultos. Brincávamos de Stop e acenávamos aos motoristas que se aproximavam do para-choque.
Febril, recordo que conhecia os vizinhos pelas suas árvores. Era o Edgar do pessegueiro, era a Florinda da laranjeira, era o Pedro da caramboleira, era o Alencar da bergamoteira. Os pés de fruta serviam de sobrenome às pessoas.
Febril, recordo que a minha avó materna me deixava pressionar os pedais da máquina de costura. Debaixo da cadeira, mexia o acelerador usando toda a força das duas mãos. Ela bordava nomes de noivos nas fronhas dos travesseiros, atendendo a pedidos de enxoval em Guaporé (RS).
Febril, recordo daquilo que nem sabia que era meu, revejo o que fui e me dá muita saudade dos meus mortos.
A minha consciência é somente uma questão de temperatura.
Publicado no Jornal Zero Hora/ Caderno Donna
Coluna Semanal
31.07.2016

BIGAMIA IMAGINÁRIA



Texto Fabrício Carpinejar
Foto Gilberto Perin

Quando você começa uma relação o hábito é comparar a atual com a anterior. Sempre existe um paralelo consciente ou involuntário: ela fazia isto, ela não fazia isto. É um cotejamento passional, nada reflexivo, impregnado de comentários irônicos tipo "escapei de uma fria".

A estratégia é fortalecer o romance que se inicia para os amigos e familiares e se recuperar do desgaste da recente imagem da separação, feita de brigas e chantagens.

Separar-se é o equivalente a perder uma eleição - assim como manter uma relação por mais quatro anos é tão difícil quanto ser reeleito. Não subestime o recalque das urnas amorosas e a aceitação amarga e inevitável do índice de rejeição. O comum é lembrar eternamente da derrota mesmo diante de outras vitórias.

Não tem muito o que fazer para evitar o paralelo. Amar de novo é sobreposição. Amar de novo é cicatrizar o orgulho ferido. Amar de novo é trocar o domicílio eleitoral e retomar o percurso em território desconhecido e hostil. Toda a intimidade que acumulou antes não serve mais para nada.

Representa um período de seis meses de bigamia imaginária, observando quem lhe acompanha e lembrando ao mesmo tempo de quem não está mais junto.

Alguns não aguentam e cometem atos falhos e liquidam relacionamentos promissores no nascedouro.

Não se envergonhe, portanto, da duplicidade. Entrará no jogo sujo da dor, repleto de inveja e ciúme.

Até porque só se descobre a autenticidade do amor depois da separação. Conviverá com pessoas mortas e vivas em seu coração e terá dificuldade para reconhecer quem desperta saudade ou culpa.

Você sofrerá rápidas e silenciosas recaídas, mas não confessará - serão
apertos, desconfortos, lembranças, para esvair completamente a ação do antigo relacionamento em seu sangue.

Dentro das palavras, viverá um duelo entre duas performances e atitudes.  Realizará um balanço subterrâneo de quem é a melhor e se realizou a escolha mais acertada.

Paixão é quando você ainda compara, já o amor é quando a sua mulher torna-se incomparável.

Publicado em Jornal O Globo (blog)
Coluna Semanal
29.07.2016