segunda-feira, 4 de abril de 2011

SOU TODO SAUDADE

Arte de Lauren Hamilton

A saudade é uma separação que inventou o casamento.

Não é reencontrando minha mulher que desfaço o mal-estar de ter estado longe. Ainda que seja uma hora, um dia, uma semana.

Sentir saudade agora é sentir as saudades de minha vida com ela.

Saudade é uma experiência que não termina de terminar.

Com a saudade, não sinto falta dela, mas do que sou com ela.

Saudade é vaidade. Lamento a própria ausência, apesar de parecer preocupado com a ausência dela.

Saudade é o luto do meu pensamento, a morte do meu pensamento. É nunca mais pensar como solteiro; é pensar como casado daqui por diante. Jurarei que minha risada é mais extravagante em sua companhia, de que sou mais elegante em seus ombros, de que o mundo gosta de nos ver abraçados.

Saudade é não se bastar mais, é depender de alguém para continuar sendo. Depender de alguém até para deixar de ser.

Com a saudade, finjo que me preocupo com minha amada, mas é apenas um jeito de me preocupar comigo. Ela não está mais perto para me melhorar, me antecipar.

Não é que posso perdê-la, eu é que posso me perder longe do que já fui com ela.

Saudade é uma soma daquilo que não somos quando o outro se afasta e daquilo que somos quando o outro está junto. É a certeza de nossa insuficiência. Representa um desfalque da personalidade. Passo a me dar conta de que somente existo para me exibir à ela. Isolado, tenho a sensação de engano, de boicote, de que não nasci inteiro, de que não morrerei inteiro. Minhas palavras ficam tímidas; meu rosto, desafinado.

Saudade é imaginar por dois não sendo mais nenhum. É agir solitário no plural.

Não é uma generosidade, mas seu contrário: um profundo egoísmo; não queremos que amada se distancie para que ela não descubra nossa desimportância. No fundo, é o medo de que a nossa companhia não sinta saudade. O receio do fim. A primeira histeria. A primeira crise de nervosismo.

Saudade é uma covardia corajosa, uma ansiedade cheia de paciência, uma preocupação despreocupada. É se ofender elogiando outro, é se elogiar ofendendo o outro.

Saudade é uma antecipação do abandono. Uma despedida provisória que dói igual a um desenlace definitivo. É um aceno que não entrega a mão ao ar, um cumprimento que não fecha os dedos.

A saudade é acordar na sexta como se fosse sábado. É vestir nossa roupa predileta para permanecer em casa. É arrumar a cama para dormir no sofá.

A saudade surge antes da saudade. Definimos dentro do fato qual será a lembrança de que sentiremos saudade. Sentimos saudade no meio da experiência.

Saudade é uma alegria entristecendo.

Porque toda alegria só será definitiva depois da saudade. Depois da tristeza.





Publicado no jornal Zero Hora
Segundo Caderno, coluna quinzenal, p. 5, 04/04/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16660

sábado, 2 de abril de 2011

HARÉM DAS MARGARIDAS

Território de marmanjos: homens têm de se virar na arte da sedução. Foto de Emílio Pedroso

Se você, leitora, lamenta a estatística de duas mulheres para um homem no país...

Se você diz que é injusto que exista uma população feminina majoritária no RS de 51,5%...

Se você não aceita a média de 94,8 homens para cem mulheres no Estado...

Se você chora a diferença de quase 41 mil mulheres a mais, saiba que, em algum lugar do mundo, a vida é diferente.

Santa Margarida do Sul é o harém cobiçado em todo chá de panela. É o município gaúcho com a maior concentração de testosterona por metro quadrado (atrás somente de Charqueadas, que tem a liderança invalidada devido aos presídios masculinos).

A 292 quilômetros da Capital, a simpática cidadezinha de 2 mil habitantes apresenta 118 cavalheiros para cada grupo de cem moças. Andar em suas ruas de terra batida é o equivalente a percorrer os corredores de um internato rural.

– As mulheres estão em extinção na cidade – desabafa o industriário Elias Goulart Seixas, 53 anos.

– No restaurante, vejo apenas barbado palitando os dentes.

O território tem muitas peculiaridades: mulher entra de graça nas festas, macho paga o dobro; as fofocas são feitas pelos marmanjos; não se verá briga ou discussão de jovens por namorado.

– É uma situação confortável, sobra homem. Não puxamos os cabelos uma das outras, muito menos nos gastamos em intriga – afirma a bem-humorada Cinara Silveira, 49 anos.

Casada durante 23 anos, ela exemplifica a tranquilidade com a aproximação silenciosa que teve com o marido, Rubemar Faria.

– Foi um beijo de cara. O que faltava era o beijo. Depois do beijo, vieram todas as palavras – lembra.

Alegria delas, desconsolo deles. O domador de cavalos Douglas Steffen Machado, 19 anos, precisa viajar a São Gabriel para obter melhores resultados na arte da sedução. Cansou de ficar encalhado nas noites margaridenses.

– O ideal seria a prefeitura promover o turismo do amor, excursões de mulheres a nossa terra, para embelezar a cidade – inventa Machado.

O capataz Rodrigo Castanho Sachenave, 24 anos, também critica a falta de oportunidades de flerte:

– É uma solidão de laçador, recomendo treinar no espelho e não errar cantada.

A desproporção ajuda as mulheres a enfrentar preconceitos. Cristina Moraes Siqueiro, 22 anos, se apaixonou pelo pecuarista Adonai Lopes Lemos, 68 anos, que tem a idade de seu avô.

– O filho dele foi colega de escola do meu pai, entende? Tive liberdade para amá-lo sem ser criticada – lembra.

A vantagem numérica masculina alterou o quadro de aproximação entre os sexos. Com um maior número de opções, as mulheres é que tomam a iniciativa. A caça é o caçador, cumprindo a sociedade idealizada pelas feministas.

– As mulheres atacam, soltam seu charme, exercitam sua independência, não levam desaforo para casa, não esperam que ele se aproxime. Os sujeitos se encolhem nas cadeiras! – explica Viviane Goulart, 29 anos, funcionária da agência de Correios.

Sandra Martins, 31 anos, balconista de um posto de gasolina, concorda:

– Os solteiros têm medo de mim. Toda mulher que fala demais parece assanhada.

No Rio Grande do Sul, o casamenteiro Santo Antônio cedeu seu lugar no altar para Santa Margarida do Sul.








Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 34, 02/04/2011
Porto Alegre, Edição N° 16658
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sexta-feira, 1 de abril de 2011

BELA ACORDADA


Gaúcho como ela, o poeta e cronista FABRÍCIO CARPINEJAR aceitou nosso desafio: explicar o que GISELE tem que a torna inspiradora para as MULHERES e irresistível para os HOMENS.

Gisele Bündchen não é uma beleza finda, uma beleza didática, uma beleza que se vira a página. É uma beleza misteriosa, amamos por não entendê-la. Há algo que sempre nos escapa. Uma duplicidade permanente. Como o sol de noite. Como a lua de dia.

Ela é extremamente feminina, mas carrega traços masculinos e fortes, germânicos e duros. Tem uma boca grande, o queixo grande, a testa grande, o nariz grande. O que ficaria desproporcional em qualquer outra face, nela é harmonia, coerência luminosa, constelação fechada. É a perfeição da poesia superando o resultado da lógica.

Os símbolos sexuais do século passado quase desmaiavam nas imagens. Marilyn Monroe, Ava Gardner e Greta Garbo, por exemplo, caracterizavam-se pelas pálpebras semicerradas, como se estivessem indo dormir ou levantando para o café da manhã. A feição adormecida revelava uma submissão, uma inclinação doméstica; a mulher sedada, anestesiada, vulnerável. Os olhos de cima para baixo, com a leve inclinação da cabeça, diziam sim ao mundo masculino, condicionados a somente oferecer prazer.

Gisele traz finalmente uma beleza acordada. É a primeira vez que surge um ícone feminino curioso, ávido, atento. Gisele está faminta de ver e saber o que está vendo.

Rompe com o padrão de Bela Adormecida, discorda da sensualidade da tristeza, interrompe a chantagem da melancolia. Sua mirada é invertida, de baixo para cima, corajosa, otimista, questionando nossas verdades e princípios. É o almoço do olhar. A igualdade de olhar. A tourada do olhar.

Ela não precisa de ninguém, precisa de si.

Marilyn, a antecedente mitológica de Gisele, pedia “Por favor”. Gisele pede passagem. A primeira lança uma contemplação lânguida, órfã, de alegria retraída; a segunda, uma observação convicta, decidida, independente.

Gisele tem fé em sua felicidade; não confiante demais a ponto de ser arrogante, nem de menos a ponto de ser influenciável.

Suas opiniões convergem para a autonomia. Além de pensar o que fala, pensa o que pensa. Palpita sobre temas polêmicos, não se dobra a uma tendência dominante.

Em vez da intolerância própria do famoso, age compreensivamente diante do contraponto e esclarece atitudes. É unânime (não há mais como negar sua importância histórica) enquanto muitos de sua área são consensuais (filhos adotivos de tendências).

Nunca aparece assustada com o alcance de suas declarações. Já apoiou o aborto (“Toda mulher deve ser livre para fazer o que quiser”), atuou como ativista social de campanha contra HIV e na defesa do patrimônio amazônico. Apesar de sua imensa visibilidade, mantém a rotina familiar longe das câmeras. Ela não procura a fama, a fama que a procura. Protege seus segredos. Até isso conseguiu: a mulher mais conhecida na atualidade conservou sua privacidade.

Talvez seja decorrência de uma espontaneidade inabalável. Não força amizade, não ostenta simpatia. Sua discrição chama para perto, chama respeito.

Envolvida pelo batimento cardíaco, ela não acentua o balanço natural. É a única que anda nas passarelas, sabe caminhar bonito. Já suas colegas dependem de esforço e desfilam. Para ela, tanto faz passar pelos bancos de madeira da Praça 25 de Julho, de sua cidade natal Horizontina (RS) como pelo gramado do Central Park. Ela simplifica, e deslumbra.

Tem noção do que produziu, mas não glorifica o passado. Não necessita explicar sua trajetória, o que lhe torna eternamente recente. Diferente da maior parte das modelos, que exaltam o percurso. Ela apenas aceita o que aconteceu de bom e de ruim e segue adiante. Não dramatiza a memória, não se elogia pela experiência. Sua juventude reside na firmeza de caráter. Na absoluta doação. Ela interpreta a sua vontade, não se violentou para atingir objetivos.

Curiosamente homens e mulheres partilham idêntica admiração. Não cativa separadamente os públicos.

Gisele é a saudade de uma vida simples. Uma vida descomplicada. Sem censuras e ameaças. Sem anorexia e bulimia. Com doce depois do almoço, e namoro com pipoca. Não é puro osso, mas angulosa, sestrosa. É alguém de dentro do universo da moda que veste o corpo da leitora. Com curvas e esquinas. Com decotes e bunda. Alguém que pode se beliscar para revelar que não está sonhando.

Gisele manteve cuidados, claro!, porém livre dos excessos repressivos. Desafiou à matemática da aparência, às formas triangulares e quadradas dos desfiles, aos recordes da subnutrição. Não perseguiu o esplendor a todo custo, preservou a saúde do pecado.

Ela não é tudo, pode ser tudo, que é muito melhor. Mais do que camaleônica, é de uma ambigüidade apaixonante, que permite várias formas e tons, várias nuances e sombras. Domina os dois extremos: é magra, alta e essencial e irradia volúpia.

Ela torna qualquer um bonito. Não nos incita a competição. É o ideal do cotidiano. É a exuberância do comum. A singularidade da mulher comum. A normalidade consagrada.

Gisele nos perdoa pelas imperfeições. Ela tem a virtude de não julgar. Nas fotografias, não está dizendo: “Seja como eu”, está dizendo: “Eu sou como você”.

A partir da ternura, cria empatia e não desperta inveja; sua beleza é filantrópica, transparente.

Gisele Bündchen exige mais e mais atenção e não enjoamos. Não é fotogênica, mas hipnótica. Ela nos desafia, o desafio é seu convite. Empareda a nossa atenção. Seu rosto é um prisma: mesmo de lado, seu rosto está de frente. É como se fosse um olhar de árvore (árvore não tem costas).

Empenhe-se para sair de suas órbitas. Impossível. Ela se movimenta parada. Prende como um magneto. Antes mesmo de ser famosa, a gente a conhecia de algum lugar. Vê-la é reprisar existências passadas.

Gisele é uma aula de pintura. Suas madeixas materializam a Vênus de Botticelli. As camadas loiras formam andares das ondas. Ela avança como uma correnteza, uma armação marinha, ela se derrama vertical.

Gisele é nossa última Renascença. Nosso derradeiro Código. Seus olhos estão rindo. Enigmáticos como La Gioconda de Leonardo da Vinci. As mesmas sobrancelhas invisíveis. O mesmo contentamento rico de sutilezas: contido, ansioso, libertador, sereno, irônico. Um espelho de nossa multiplicidade.

Repare bem na semelhança, Gisele apresenta realmente o desenho igual aos olhos da Mona Lisa. Com a vantagem de serem azuis.


Publicado na Revista Cláudia
Nº 4, Ano 50, Abril 2011
Ps. 34-36

quarta-feira, 30 de março de 2011

QUE DIA É HOJE?

 Arte de Cínthya Verri


— Onde estão as crianças?
— Na casa da avó.
— Por que tudo isso?
— É um dia especial, amor.
— Nossa, querido, não esperava que você me preparasse o jantar!
— Não podia ser menos.
— Mas até velas, Jesus!, champanha Brut gelada!
— Viu? Não esqueci, nunca poderia esquecer.
— Esquecer do quê?
— Não diz que esqueceu, Joana?
— Não, não, imagina…

(Não era aniversário dela, muito menos dele)

— Ai que bom, já estava com medo de que não tivesse sido importante para você.
— Claro que foi, estava fingindo surpresa.
— E o que lembra daquele dia?
— Ahnan.
— Daquele dia, o que mais marcou você?

(Não era aniversário do casamento, nem do namoro)

— Ah… Seu jeito de mexer meus cabelos.
— Mas você não me deixava tocar, dizia que o cabelo de prenda é como beijo de puta.
— Ah, é mesmo.

(Pô, aniversário de quem?)

— O que não esqueço; senta, vamos comer.
— Que delícia, tortei.
— Deixa que sirvo; o que não esqueço é que você foi embora pensando que eu iria correr atrás.
— E?
— Como assim “e”? Eu corri, né?
— É verdade…
— Você não lembra que dia é hoje, não lembra, esqueceu de novo!
— Olha, Olavo, juro que tentei, mas não fica magoado, por favor…
— Como que não? Parece que somente eu dou bola para a relação.
— Não é isso, tô muito cansada para forçar a cabeça.
— Forçar a cabeça? Eu não mereço seu esforço, ótimo.
— Não é isso, é que…
— É que?
— É que não queria cobrança de nada.
— Comemorar agora é cobrança, onde vamos parar?
— Não quero estragar, vamos lá, me perdoa.
— Porra, Joana, é o dia do nosso primeiro beijo, há dez anos, na frente da banca do Mercado Público.
— Como você é romântico…
— E como você é insensível…
— Vai começar?
— Perdi a fome. Pode comer sozinha…
— Não faz cena, Olavo!
— E só para você saber: é também aniversário de nossa primeira briga.



Crônica publicada no site Vida Breve

segunda-feira, 28 de março de 2011

BORRALHEIRO!

Para estourar a boca do balão; Vicente com medo do escândalo. Foto de Cínthya Verri

Fabrício Carpinejar vai lançar "Borralheiro: uma viagem pela casa". Retrata um novo homem, que estaria preferindo ser do lar. Vantagens:

* O poder cansa, estressa, gera infarto. A submissão traz longevidade.
* Nada mais tranquilo do que viver de mesada.
* O Borralheiro curte a infância dos filhos, com disponibilidade pay-per-view.
* Aprende pole dance e refina fantasias sexuais.
* Tem a preferência da reclamação, lamentando que nunca é valorizado pela família.
* Descobre o que os vizinhos pensam dele.

Outros benefícios:

* Especializar-se na arte da conspiração e da intriga.
* Influenciar o comportamento dos outros pela fofoca.
* Retomar a coleção de aeromodelismo da infância.
* Discutir o relacionamento com mais freqüência e ampliar o repertório de palavrões no estádio de futebol.
* Manter-se livre dos tribunais e cobranças, pois nenhuma dona de casa foi processada até hoje.
* Aperfeiçoar o faro para infidelidade, com a possibilidade de mexer em bolsos, roupas e gavetas.
* Ganhar isenção do Imposto de Renda.
* Aproveitar o tempo livre para cursos, cinema e teatro.
* Vingar-se da mãe cozinhando melhor do que ela.
* Por fim, é sempre mais prazeroso puxar o saco da mulher do que do chefe.

Publicado no Jornal O Globo
Segundo Caderno, 26/03/11, P. 3
Coluna Gente Boa, Joaquim Ferreira dos Santos
Rio de Janeiro (RJ)

sábado, 26 de março de 2011

VIAGENS (ELEITORAIS) DE GULLIVER

Arte de Genaro Joner

André da Rocha tem a menor população do Estado. Cabe inteira no teatro do Bourbon Shopping Country. São mil e 200 moradores do povoado serrano, que fica a 195 quilômetros da Capital.

– Dirigimos sempre com a primeira marcha, não dá tempo de trocar para segunda – graceja Édson José Vieira.

Para ser eleito na cidade, um vereador precisa de 80 votos; o campeão das urnas não ultrapassa 130. O ímpeto é concluir que se trata de uma barbada, melhor do que concorrer a síndico em Porto Alegre.

Errado. Reduzir o eleitorado é piorar a guerra.

André da Rocha apresenta a eleição mais disputada e espinhosa do Rio Grande do Sul. Dezessete nomes brigam pelas nove vagas da Câmara. Se alguém arrebata a promessa de um vizinho, é obrigado a voltar na manhã seguinte para conseguir de novo, já que outro interessado passou lá, e assim sucessivamente, numa trova de meses.

Ganha-se o apoio no grito, perde-se no sussurro. Na véspera eleitoral, os cabos eleitorais não dormem, na derradeira tentativa de virar uma opinião. Os concorrentes se transformam em leões de chácara de seus amigos, com direito a vigília e campana.

– Vi vereador sair da lista do TRE por um voto – avalia Édson, 49 anos, chefe de gabinete da prefeitura.

Ele viveu na pele a igualdade enervante de forças. Seu pai, José Carlos Vieira, hoje falecido, concorreu na primeira eleição do município, em 1988, e empatou com Miguel Angelo Tagliari, pelo emocionante placar de 442 votos a 442 votos. O critério de desempate terminou sendo a idade. Tagliari tornou-se chefe do Executivo em função dos 70 anos (contra 58 do adversário).

Os políticos sofrem porque todo mundo se conhece. Levino de Souza Dal Olmo, 60 anos, vereador por duas gestões, amargou a suplência do PP no pleito de 2008 por apenas quatro votos. Ele alcançou 73, o último colega a entrar teve 77. Menos de uma mão o separou do salário de R$ 1 mil e das acaloradas sessões quinzenais às quartas-feiras.

– É complicado, nosso lugar é pequeno, o eleitor se envergonha diante da pressão, não quer desagradar, promete a muitos e não se compromete com ninguém. Cria a dúvida até o momento de apertar a tecla verde – explica Levino, pai de três filhos (Maira, Lairton e Marisa) e casado com Naide há quatro décadas.

– Avaliando em números, minha votação não é nada. Avaliando meu campo de ação, é uma odisseia – completa.

Uma pesquisa eleitoral seria impossível em André da Rocha, exigiria atualização de hora em hora. Silvana Della Flora, 30 anos, debita a rivalidade pela convivência muito próxima:

– Quem tem três grandes amigos, corre o risco de sacrificar dois numa eleição.

Família grande pode garantir a felicidade do mandato ou quatro anos de ressentimento.

– Dez parentes não votaram em mim, entre irmãos e sobrinhos. Sei certinho quem me abandonou – contabiliza Oliveiro Orsi Furtado, 64 anos.

O aposentado da CEEE quase entrou, faltaram 21 votos.

– Escaparam adesões de repente. Eu me distraí sonhando com a vitória – confessa.

O dono de empresa de transporte escolar, Edgar José Jacques Vieira, também não conquistou a vereança por um triz, foram 15 votos a menos que o eleito Rosalino Cassol, do PMDB.

– A dificuldade de André da Rocha são também os eleitores de fora. Eles surgem no dia da decisão e mudam o nosso destino – justifica.

Curiosamente, o município registra 1.441 votantes, quase 250 eleitores a mais do que o número de habitantes; marca que anularia a vantagem do atual prefeito Braz Hoffmann sobre o oponente derrotado Heroni Jacques.

Não é incrível?

Em André da Rocha, fofoca não é telefone sem fio, mas urna sem fio.








Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 40, 26/03/2011
Porto Alegre, Edição N° 16651
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quarta-feira, 23 de março de 2011

FREUD E MELAINE KLEIN

Arte de Cínthya Verri

O amigo Sandro tem um adorável casal de malteses brancos. Às vezes eu o visito para matar saudade de seus fiéis escudeiros. O latido deles é a campainha do apartamento. Cismo apenas com os nomes dos dois: Freud e Melaine Klein. Já critiquei abertamente meu camarada de sua grandiloquência enrustida. Não são mais cachorros, mas Wikipédia.

— Menos, Sandro, não mete os autores no meio! Por que não personagens? Quer mostrar erudição, então que tal Édipo e Electra, para contemplar nossos principais complexos?

Não adiantou, ficaram para sempre Freud e Melaine Klein.

Meu ponto de vista é de que podemos descobrir a pretensão de alguém pelo nome que dá aos seus cães. É onde enterra o osso de sua ambição, sob o disfarce de homenagem divertida.

Profetizo que Sandro chamará a primeira ninhada de Lacan e Winnicott. O que definirá o batismo não será determinado pela aparência e pela raça, e sim pela linha de atuação teórica do seu dono.

É evidente que meu amigo é psicanalista e ainda mostra que não deseja ser qualquer um, mas o profissional com o maior número de citações em pesquisas acadêmicas, o sucessor máximo dos principais baluartes de sua estante. Ele nunca admitiu a aspiração publicamente, diz que não chega nem aos pés de seus ídolos. A dupla de cães forma seu alter ego e contraria a falsa modéstia.

Sandro não fez isso com seu filho, que batizou de João. Um simples e eficiente João. Pode ser uma homenagem a João Gilberto ou João Cabral e tantos joões divinos que circulam pela posteridade da arte. Cuidou para manter o primeiro nome e não restringir o futuro colando o sobrenome de um artista famoso. Que terrível destino de um menino, cria de católicos fervorosos, nomeado de João Paulo Segundo. Terminar como papa, ok, mas nascer como papa é agouro.

Restou ao pequeno João a liberdade de ser outro João. Seu pai não foi soberbo, parou no pudor de cartório.

Já com os animais de estimação, Sandro extravasou a ração da vaidade. Além de roer as almofadas do divã, os coitados não têm como se defender.

O que tem de Beethoven, Shakira, Mandela, Napoleão e Michael Jackson passeando de coleira nos parques não é brincadeira. Onde está a simplicidade carinhosa do apelido, onde foram parar Totó, Mel, Bidu, Xodó, Rex?

As praças são manicômios de focinhos. Onde ninguém admite ser anônimo, todo mundo pretende ser celebridade por tabela. Estamos enlouquecendo os bichos.

O cachorro é o nosso melhor amigo, convém não abusar da lealdade.



Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 22 de março de 2011

DEBATE SOBRE BELEZA INTERIOR



Debate na quinta (24/3), às 19h30, na Livraria Saraiva do Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre (RS). Conversarei com os leitores sobre a série Beleza Interior, do jornal Zero Hora. Lembrarei histórias e causos dos dois meses e meio de reportagem. A mediação do encontro será de Barbara Nickel, editora de mídias sociais do Grupo RBS.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O MAIS EXTREMO ÓDIO COM O MAIS EXTREMO AMOR

Arte de Harold Gilman


A vingança encharca a literatura e a música, mas seus mistérios jamais serão esgotados.

Vingança é uma arte, o refinamento da carência. Quem procura se vingar do ex ou da ex, na verdade, não cansou de brigar. Não terminou de argumentar. Vingança é discutir o relacionamento sozinho, é discutir o relacionamento à distância, é dedicar o dia inteiro, às vezes a vida inteira, a arquitetar uma forma de chamar a atenção do amante que negou o ouvido.

O luto é destinado aos que amam amar. Vinga-se a pessoa que odeia amar, odeia continuar amando. É o encontro do mais extremo ódio com o mais extremo amor. A união de dois terrorismos.

Vinga-se aquele que acredita que deu mais do que recebeu e que se enxerga ludibriado. Aquele que, durante a relação, cobrava em segredo tudo o que oferecia, listava presentes e gestos. A vingança é o juízo final do avarento amoroso.

Indica também prepotência. O vingador se enxerga superior ao vingado, mais experiente e sábio. Acha que está ensinando seu antigo par. Encarna a figura de professor repreendendo o erro do aluno. Assim como não sofre em vão, somente se humilha para humilhar o outro. Todo sofrimento é arrogante, debitado na conta do desafeto.

O vingador cobiça a última palavra pois não aceita que alguém pense o pior dele. Planeja castigar as supostas distorções e intimidar as possíveis confissões de sua intimidade. O vingador vive por hipóteses. Não entendeu que a última palavra não existe, é uma desculpa para mandar.

A vingança é o mais paradoxal dos atos: um sentimento inteligente em mãos burras e desgovernadas; uma pressa que exige longa paciência e dissimulação. Requer as mais contraditórias atitudes: sangue frio de alguém com sangue quente; calar-se apesar da exagerada vontade de falar.

A vingança fracassa pela ânsia de fama do seu autor. Quem busca se vingar pretende que o outro saiba que foi ele, que não tenha nenhuma dúvida. Deseja dar o troco beijando a boca, olhando nos olhos. Conclui que não adianta nada uma vingança sem remetente. E peca pela ambição, erra ao se expor, porque a represália aguda e exitosa esconde o criminoso para a perfeição do crime; deve ser anônima, gerando a desconfiança, mas não entregando totalmente o seu mentor.

Não conheço vingança perfeita. Não se vingar talvez seja a melhor vingança. Fazer esperar uma resposta que nunca virá.




Publicado no jornal Zero Hora
Segundo Caderno, coluna quinzenal, p. 3, 21/03/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16646

domingo, 20 de março de 2011

TERRORISTA DO AMOR



Se alguém não conhecia minha palestra, acabou o mistério. Se alguém ainda tinha dúvida da minha insanidade, pode ter certeza agora. Veja minha participação no projeto Sempre um Papo, minha interação com o público, minha conversa com o sempre atento Afonso Borges. O encontro ocorreu em novembro do ano passado, em Belo Horizonte (MG), no Palácio das Artes, durante lançamento do livro Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil). Cinquenta minutos de terrorismo.