segunda-feira, 8 de março de 2010

VIÚVA ALEGRE

Arte de James Rosenquist


Cada um sofre como pode. Alguns precisam se retirar por dias e permanecer incomunicáveis. Outros nem deixam a dor esfriar e vão para festas.

Não há padrão de comportamento. As paredes são árvores, as árvores são paredes.

Mas existe um preconceito com quem reage com senso de humor. Pois se voltou a trabalhar e a sorrir é como se não estivesse sofrendo. O luto determina um protocolo de solenidade de governo: choradeira, náusea e comiseração.

Não dá para passar a palavra antes das lágrimas.

Sou estranho. Uma viúva alegre. Podem me condenar, preparar uma fogueira na Praça da Matriz, ao som do violino e acordeon do Tangos e Tragédias. Eu me recupero com ligeireza porque sou pai. A paternidade é minha sobrevida.

Não vou forçar meus filhos a sofrer comigo. O luto é meu, não deles. Não ficarei duas horas chorando e assoando o nariz para constrangê-los com minha vulnerabilidade. Não utilizarei nenhuma desculpa para não cumprir as atividades. O almoço me chama, a escola me chama, os temas me chamam, as tarefas de organização da casa me chamam, atendo mesmo quando não estou em mim. Não irei diminuir meu ritmo, apesar de somente pensar na incurável distância da mulher que amo.

Há de tocar a vida mesmo que o corpo seja mais lento e menos obediente. Não que eu não deixe de sentir, eu não me excluo de sentir nada. Mas eu não sinto somente isso. Não construirei arquibancadas para o grito. Dispenso a exclusividade. Apenas não posso me sentar e me esbaldar na cama no escuro, penarei de pé, andando apressado pelos corredores, girando pelas salas, conversando suspirado, misturando as lembranças boas com as ruins. Não me fixarei no problema para odiar alguém. Sou contrário a mobilizar nossas forças e nossa disciplina para não ter dúvidas. Eu adoro as dúvidas. As dúvidas regeneram as verdades. Uma verdade parada não é paz, é abandono.

Arco com toda pontada e naufrágio amoroso ao mesmo tempo em que conservo os cuidados paternos.

Desconfie dos tumultos. Não mostrar o sangue não elimina a chance de hemorragia. Assim como encontro as caretas mais assustadoras na comédia, não em filmes de terror.

O riso é catarse. O riso é muito mais nervoso do que a coriza. O riso é mais um jeito de gemer.

Meu sofrimento não é cerimonioso. Vou me distribuindo entre telefonemas e crônicas. Parcelando a angústia. Guardo a consciência de que não resolverei a dívida afetiva à vista. Não mentirei fundos. Não me envergonho da falta, do vazio, não me encabulo de pedir ajuda o quanto antes.Não espalharei embalagens de comida chinesa e redomas de papelão de pizza pela sala, não convidarei moscas e baratas para coroar a tortura, ou permitirei que a barba cresça, atenderei o interfone, não sumirei para chamar atenção. O suicídio faz um drama excessivo, as pequenas mortes se contentam com a humildade de uma cruz e um nome.

Não enxergará uma anormalidade em minha fossa. Meu quarto estará limpo como num dia de trabalho, a louça estará lavada.

A explicação é simples: aquele que é capaz de atender uma tele-entrega tem condições de voltar a atender sua vida.

Criarei as pequenas desculpas para me aliviar dos grandes medos. Sintomático que na enxaqueca procuro primeiro um AS infantil para depois admitir que cresci e dependo de uma aspirina adulta.

Não me dou nem o direito de jejum, de emagrecer, de afundar olheiras. Esperneio os olhos com cebolas e sigo viagem pelos varais. Não conheço tempo para drama. Não gozo do direito da frescura. O luxo de parar a rotina e me exilar na chácara de um amigo. Eu mesmo me sirvo e me atendo. Não é errado procurar a solidão, curtir o couro e ajeitar as fotografias por ordem de datas. Tampouco estou errado. As mães me entendem. Talvez transmita a ideia de reprimido. Não creio que seja.

Lenços, para quê? Os abraços do filho e da filha são lençóis e me põem a dormir acordado.

O sol lava a minha cara. O suor é a mesma água da lágrima e mata igualmente a sede.

sexta-feira, 5 de março de 2010

REZE PARA SER PERDOADO

Arte de Georg Baselitz


Eu não chamaria uma mulher de exótica.

É bonito, sugestivo, mas considero arriscado pronunciar para uma beldade que sua beleza é exótica. Dependerá do alzheimer ou de muita intimidade para ser esquecido.

Ainda que não seja ofensivo, ela vai sentir que é mais estranha do que bonita. Destacaremos uma anormalidade enquanto desejávamos anunciar sua singularidade. Não cai bem mesmo no baile a fantasia.

Paira sobre a frase uma nuvem negra: ele está me chamando assim para não me ofender? Beleza exótica tem um quê de educação. Prefiro mentir a usar.

O elogio que gera dúvida já é ofensa. Se ela não entendeu, não ouse explicar. Cantada não admite explicação.

Falta apenas completar que ela é um animal em extinção e tem que se reproduzir contigo para salvar a espécie.

Não há como festejar o enigma desse jeito, talvez encontre o estigma e lamente a casa vazia.

Cautela no momento de abrir a boca, o golpe deve ser empregado uma vez em toda vida, quando não há saída, quando não tem mais nada a falar, na total imobilidade, como o pulo de garça do Karatê Kid.

É uma expressão ambígua. Ao mesmo tempo em que se mostra encantado denuncia uma eventual perplexidade, um susto, tipo nunca vi nada igual. Percebe a sutileza?

O exotismo não ajuda na sedução. Afora a pressão que cria no relacionamento.

Ela não vai mais relaxar. A conversa será séria, quase um noivado, com a presença dos pais aborígenes e canibais.

Crescerá o medo de decepcioná-lo. Ela assumirá a responsabilidade descomunal de surpreendê-lo. Não ficará mais livre para ser comum. Proibida de cumprimentar com “oi” ou “tudo bem?”, forçada a comprar charutos na Finlândia e desdenhar dos doces de Copenhague. Terá que ser exótica para qualquer coisa, condenada a honrar a fama.

Você abriu a porta ao surrealismo, ao insólito, ao absurdo.

Convidará a garota para sair e ela dirá que não pode, vai pular de pára-quedas de noite, após cumprir seu serviço de espionagem dos rótulos de cerveja numa boate gay. Oferecerá uma carona e ela dirá que não pode, há um tanque da antiga União Soviética em seu quintal, que impede visitas civis. Chamará para um café, e ela dirá que não pode, que somente toma biotônico fontoura.

Depois do primeiro contato, a mulher exótica desaparece. O que não é exótico perto da grosseria de tentar reduzir seus encantos a uma jaula de zoológico.

quinta-feira, 4 de março de 2010

ORKUT

Arte de Karel Appel

"Usamos a hostilidade para exigir respostas quando nem sabemos direito quais são as perguntas."

O amor tem que cuidar da pirataria digital. Fotos e recados no Orkut são o tema da nova consulta no divã. Confira minha resposta ao tormento de um namorado que não suporta sua crise de ciúme.

A entrada para o Consultório Poético é por aqui.

OFICINAS NO STUDIO CLIO

Arte de Mariana Carpinejar


Início de temporada e a alegria de voltar a dar aula no StudioClio, pelo terceiro ano consecutivo. Estão abertas as inscrições para minhas oficinas de Poesia e de Crônica.

Há quinze vagas para cada uma delas. Os encontros semanais acontecem no casarão da rua José do Patrocínio, 698, em Porto Alegre (RS). Informações pelo telefone (51) 3254.7200 ou pelo e-mail clio@studioclio.com.br.

O curso de criação lírica ocorre às quartas, das 19h30 às 21h30, a partir de 17/3. O objetivo é conscientizar poetas e leitores da importância da brincadeira da linguagem e das inversões do ponto de vista. Para acentuar os movimentos de dedução e fantasia literária, serão desenvolvidas tarefas como cartas, troca de sapatos, esvaziamento de bolsas, jogo da forca, lista de mercado e relação de objetos perdidos.

Nas terças-feiras, das 9h30 às 11h30, com início em 16/3, é a vez da oficina de crônica. Trabalho a despretensão, a simplicidade e a surpresa do texto breve. Abordarei a história comentada do gênero, as diferenças em relação ao artigo e ao conto, a importância do exemplo pessoal na elaboração da atmosfera e a força do humor na prosa contemporânea, de João do Rio a Luis Fernando Veríssimo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

OLHO ROXO

Arte de Tereza Yamashita



Ele sentou de lado para conversar de frente. Depois escondia a face. Além dos óculos escuros, um adereço que utiliza exclusivamente para enterros.

— O que foi?
— Nada.
— Mostra, vai? O que está tapando?

O amigo Mário Corso não experimentava tranquilidade. Tive que arrancar seus dedos da cara para descobrir um inchaço debaixo das pálpebras, quase um segundo nariz respirando em linhas escuras.

— Apanhou?
— Não, foi a Diana. Pulou na piscina e foi me abraçar, suas unhas fincaram de jeito na carne.

Ele é ruivo. O hematoma fica mais acentuado na pele branca. Se meu comparsa pudesse, sairia de casa com uma máscara de gripe suína. Mentiria que se prevenia de uma nova corrente de surtos que vinha do Afeganistão.

Arredio, nervoso, buscava se esquivar do exame assustado dos fregueses do bar. Temia inclusive o barulho do gelo do copo e a sombra do vidro. Seu constrangimento era maior pelo fundo doméstico e cômico da cena. Todo mundo pensaria que se meteu numa briga e nem isso aconteceu. Não tinha como se vangloriar de pose de valentão porque simplesmente se encabula ao mentir.

É capaz de remorsos fundos, de acreditar que agiu mal diante do pulo involuntário da esposa. Não queria ter sangrado. A sangueira encabulou, gerou culpa. Os dois não mais relaxaram, envolvidos em desculpas, curativos, pomadas e comiserações. Fecharam a conta no hotel e anteciparam o regresso das férias.

Não havia como explicar, mas ardi em inveja. Eu desejava ostentar aquela marca garbosa. Por que não fui escolhido? Para quem não tem olhos azuis, o olho roxo é uma dádiva. Seria imediatamente prepotente. Ostentaria o machucado, talvez fizesse uma sinalização de esparadrapo, um heliporto para os mosquitos. Cumprimentaria estranhos, levaria os braços à cabeça para atrair a curiosidade. Aquela lesão traria uma dignidade. Uma confiança hostil e excitante.

Ganharia assento no ônibus, passaria à frente nas filas bancárias, sobrariam vítimas para histórias malucas, despertaria interesses humanitários.

É um ímã de mulheres. Mais do que uma tatuagem de dragão ou bíceps avantajados. Elas se interessariam pela sua origem, me achariam perigoso, enigmático.

Nenhuma namorada nunca me bateu. Faltava essa medalha de guerra, essa etiqueta de passionalidade, essa luta vencida ponto a ponto. Mesmo que por um acidente.

Meu rosto ainda é de uma criança.



Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 2 de março de 2010

BRASILEIRÃO DA AMÉRICA



Rolo Compressor raciocina que a Libertadores é o Brasileirão das décadas de 70 e 80:

"O torneio dá gosto porque é uma forma de disputar o campeonato brasileiro antigo. É um playstation retrô. Corresponde a um vale a pena ver de novo.

O vestiário recua no túnel do tempo. Enquanto a fórmula atual é de pontos corridos, a competição internacional trabalha com o mata-mata, no esquema de superação de expectativas e violenta atenção. Traz para a torcida a sensação de final em cada rodada, dobrando a emoção e a ansiedade. Coisa que o Brasileirão perdeu em sua maratona incansável, turno e returno, todos contra todos."


Acompanhe toda conversa na beira do gramado.

segunda-feira, 1 de março de 2010

OS OLHOS SÃO COADJUVANTES DO OLFATO

Arte de Magritte



Repassarei um truque aos filhos. Como selecionar um brigadeiro. Nunca compre o doce enorme. Logo se imagina que aquilo deve ter uma latinha inteira de leite condensado.

Na prateleira, é o imperador das bandejas, o pai do quindim, com o formato achatado de capuz. Sua criança babará no balcão, sofrerá um ataque de epilepsia. Por favor, contenha o impulso dela.

Apesar da aparência lustrosa e crocante, coberta de granulado, é uma enganação. Todo chocólatra fareja que é falso. Não pode ser real. Ele vai durar para sempre porque é impossível comer. Na primeira mordida, a arcada perderá seu fio. Procure um moleiro para recuperar a lâmina. É uma pasta com farinha. Até Taiwan seria mais caprichosa na pirataria.

O brigadeiro mais gostoso curiosamente é o pequeno, do tamanho de uma unha. Uma titica. A panelinha guarda lugar para mais dois. Não transmite nenhuma superioridade. Sozinho, não será localizado no mostruário, é uma formiga sendo carregada por uma folha. Depende de lupa, microscópio, pinça.

Mas é esse que fará você pagar o dobro e repetir à exaustão. A gana é obturar todos os dentes com seu conteúdo.

Com o minúsculo confeito, o desejo vem em caixa alta. Somente a língua trabalha, é quase líquido, desmancha no céu da boca e adoece o pensamento.

Portanto, repassarei também um conselho aos netos. Como duvidar do primeiro encontro. As estrelas não escrevem, unicamente brilham.

Ainda temos a expectativa de que ele teria que ser mágico, com efeitos especiais, relâmpagos, tremedeira, suor, frio na barriga. O corpo pescaria a clarividência, estaria certo do destino, pressentiria o casamento no primeiro toque, no primeiro beijo. Seria uma moleza, uma ejaculação precoce, uma tensão infindável. Abandonaríamos os compromissos pela certeza indomável das pupilas. Em madrugadas de lareira, o par esbaldaria aos amigos de que não houve hesitação, foi uma junção perfeita, um golpe de misericórdia no batimento cardíaco.

Já testemunhei amores avassaladores e cinematográficos que não duraram nem a manhã seguinte. O casal experimentou cenas de porta-retrato na cômoda, com todos os sintomas do cortejo romântico e idealizado: a música parou e as casualidades se moveram secretamente. E os dois não seguiram adiante, pois sequer se esforçaram.

O contato inicial pode ser uma droga, a pessoa irritar e bancar a arrogante, cometer grosserias e atazanar a paciência e mesmo assim despertar a curiosidade. Nada mais promissor do que a confusão. A proximidade surgirá pela desconfiança, pelo desafio desagradável, pelas visitas diárias ao ódio, até o momento em que não falará de outra coisa senão dela. Expulsará lentamente os preconceitos e aceitará de que não escolhemos o melhor, mas o necessário.

É a insistência que produz o amor, não o deslumbramento.

Paixão à primeira vista não existe com brigadeiro ou com mulheres. Mas cheiro à primeira vista é imbatível. A química não costuma falhar, desde que tenha tempo para misturar os ingredientes.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

SEPARAÇÃO CRIATIVA

“Relacionar-se é vocação, difícil e rara. A concentração é contínua, o trabalho é de artesão. Um desafio delicioso”
Cinthya Verri


Arte de Sir Sidney Nolan



Eu adoro a palavra. Sou fascinado pela palavra, não é nenhuma novidade isso.

Mas não coloco mais a palavra em primeiro lugar. Não sou mais coletor de ofensas.

Se meu filho explode e avisa que não me ama não irei castigá-lo ou obrigarei que ele desminta em minha frente. Não o puxarei pelos braços, não responderei para procurar um pai diferente, não subirei no púlpito e ordenarei maldições. Tem a liberdade para me odiar. Eu sei que ele me ama. Eu sei que ele me quer.

A sabedoria não está em evitar o sofrimento, e sim ao não fugir dele

Já observei casamentos desfeitos porque um falou para outro que acabou e não voltava mais. E nenhum dos dois cedeu e insistiu e perguntou de novo. Passaram a história inteira para provar o que ele ou ela desperdiçou e o dano irreparável de suas frases.

Enterremos logo nossas maldades para velar as injúrias. É só oferecer ao nosso par a mesma capacidade que temos de nos perdoar. Desapareceria metade dos problemas. Os inimigos são netos de nossas teimosias.

Castigamos com silêncio quem temos certeza que nos ama, torturamos com silêncio quem temos certeza que nos ama, somos indiferentes a quem temos certeza que nos ama. Por uma palavra dita na dificuldade absoluta de comunicação. Não vale o que foi vivido antes, será enviado um boleto bancário de um grito, de um palavrão, de uma observação injusta. A cobrança será eterna quando seu significado era provisório, próprio do desabafo, de um momento infeliz.

Não conheço dor que não seja desajeitada, ela vai declarar do jeito errado e do modo errado. Por que não desculpar?

Terapeutas conhecem o assunto a fundo. Toda discussão é um desespero e não pode sair agrados e elogios. Mesmo assim, fazemos de conta que é difamação e desrespeito. Mais fácil odiar do que continuar trabalhando as próprias limitações.

O boicote é uma forma de educar pelo sacrifício. A pior forma. É ficar preocupado em honrar o castigo. É preparar uma vingança ao invés de se distanciar um pouco para entender o que gerou a discórdia.

Trata-se ainda de um sacrifício mútuo, os dois vão perder a possibilidade de criar uma intimidade maior e mais generosa.

Aquele que atacou pedia ajuda. E atacou pois não sabia justamente pedir ajuda. Preocupados em nos defender, não alcançamos o apelo e retribuímos o inferno.

A palavra engana. A palavra manda embora e o corpo pede um abraço. Há de se procurar o gesto. O que me interessa é o gesto, o resto da palavra. A origem. Se aquilo foi feito para permanecer mais perto.

Quando viajo para serra gaúcha, as estradas me ensinam a importância do que é torto. Elas seguem a natureza ardilosa dos morros, assustam com suas curvas, mas sempre me deixam na cidade em que nasci.

É na briga que mostraremos nossa criatividade. Poderemos repetir os clichês: desaparecer para impor uma lição ou aparecer com namorado/namorada para humilhar ou fingir que nada sente. Poderemos repetir as convenções, defender o orgulho acima de tudo, nos preocupar com a honra mais do que com a relação, chamar de preguiça a falta de cuidado com o que foi dito, reclamar responsabilidade, impor ao outro a severidade de nossos princípios para mostrar o quanto somos nobres, coerentes e firmes.

Ou poderemos contrariar as expectativas com um talento incomum ao humor e ao entendimento.Só um debate tem tréplica. O diálogo não conta o tempo nem limita o direito de falar.

Se a separação depende de motivos, a reconciliação é muito melhor, não precisa deles.

Amor não dá a última chance, dá chance sempre. O capricho é cuidar do erro. Não há capricho sem usar a borracha e reescrever de novo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

EXCESSO DE DOM

“Você diz não saber o que houve de errado e meu erro foi crer/ que estar ao seu lado, bastaria/ Ah meu Deus, era tudo que eu queria/eu dizia seu nome, não me abandone jamais”
Os Paralamas do Sucesso


Arte de Tim Burton, o preferido dela.



Meu apelido de pequeno era patinho feio. Estudei numa escolinha com esse nome, chorei quando minha mãe me leu o livro, considerava uma tragédia o animal se transformar em cisne – era perder sua essência.

Desde aquela noite, não confio no final feliz da história de amor. A maioria não tem nem final.

Até porque ninguém acredita que terminou. Continua a se viver ou por um milagre, na expectativa que um dos dois quebre o pacto educado do silêncio, ou por hábito, o que nos empurra para frente são o trabalho, as necessidades dos filhos, o amparo curativo dos amigos.

Meu romance com Cínthya foi terrivelmente bonito. Tão bonito que não existe rascunho.

Eu e ela tentaremos narrar, surgirão fragmentos desconexos, vamos nos emocionar e lembraremos agora da raiva. A raiva de não estarmos mais juntos. Uma raiva sem culpados, mas com dois mortos.

E um morto não pode enterrar o outro. Não sei quanto tempo ficaremos ao relento. O mar talvez nos puxe por compaixão.


Por favor, não me pergunte nada dela hoje. Não pergunte nada de mim para ela hoje. Reinará o ódio. Por trás dele, de todas as brigas e rumores, dos temperamentos incompatíveis, sobrevive uma ternura incontrolável, um amor genuíno e violento.

Eu direi absurdos de seu comportamento, para aceitar que tomei a atitude adequada. Ela repetirá crueldades do meu posicionamento para se tranqüilizar. Terei meus motivos e ela, seus motivos, e nunca aceitaremos que as explicações não dão conta do mistério. Somos muito menores do que aquilo que vivemos juntos.

A incompreensão será o nosso complexo de inferioridade.

Formamos um enigma. Não é possível fazer resumo de impressões, o raciocínio se esvai nas primeiras estocadas: por que nos encontramos? Por que tentamos nos entender? Por que trocamos sacolas de pertences na despedida se não nos pertencemos mais?

O pé de pato é o sapato de Cinderela. Que engraçado lembrar só de contos de fadas.

Ela surfava com um par todo colorido, vermelho e amarelo, mas perdeu o pé esquerdo em Tramandaí (RS). Três anos depois, ainda um completo desconhecido dela, eu achei a peça extraviada em Imbé, na praia vizinha.

Guardei o objeto por teimosia, assaltado pelo vexame da concha sobrenatural e inútil. Qualquer um largaria na margem para que seu dono o localizasse. Carreguei para a casa, envolvido na completa dificuldade de me livrar do que é sozinho.

Quando a conheci e visitei seu apartamento, observei na varanda o pedal de peixe parado, ilhado, solteiro, duvidei que pudesse ser verdade, que fosse possível. Aleguei coincidência, gozação, até que o número 38 me convenceu a desistir de perguntar.

Eufóricos, arriscamos andar com pés de pato pela areia, pelo gramado, pelas ruas. Não nos acalmava a informação de que eles funcionavam apenas na água. Considerávamos um desperdício diante da grandeza da predestinação. Para nós, não havia diferença entre o raso e o profundo, tudo era mergulho. Tudo sempre foi mergulho. Um excesso de dom.

Não confio em final, mas não contesto o começo. Sou realmente seu par, que não virou cisne.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

BEIJO MULTIMÍDIA

Arte de Tereza Yamashita

Amor ensina o óbvio. É o que eu mais gosto de aprender.

Nem sempre mereço atenção. As crianças têm o direito de serem tolas, por isso são mais sábias.

Minha namorada narrava as diferenças entre o Playstation e o Nintendo Wii e mencionou a expressão device. Eu nunca descobri o significado. No passado, utilizei o termo pela intuição, coitado de quem me ouviu.

— O que é?
— Está brincando?
— Não sei, o que é?
— Para de gozação!

Admiti que conhecia, pois estava ficando chato. Já me sentia um ignorante. Como desconheço device aos 37 anos? Como?

Ela anteviu que tirava sarro dela, que me fingia de burro para que explicasse à toa. Como ninguém quer ser idiota, fica complicado salvar a idiotice alheia.

Eu era burro mesmo. Tentei resolver essa lacuna e abrir espaço para outras ignorâncias. Confesso que careci de coragem para teimar e imprimi uma risada apaziguadora. Soou como brincadeira.

O que me arrebata é a chance de ser puro. Como muitos juram que sou malandro e maquiavélico, arriado e abusado, dificilmente alguém confia na minha limitação. A curiosidade sofre os efeitos colaterais da reputação e não recebe reforço.

De vez em quando, Cínthya esquece quem eu sou para me amar mais. E é minha melhor professora.

Teimei em entrar com uma ameixa em seu carro. Vermelha, lustrosa, com todo o verão dentro. Estávamos atrasados. Costumo comê-la com o rosto inclinado ao chão para derramar o prejuízo no tapete dos pés. Não estudei como destroçaria a fruta em seu carro. Sentei no impulso, traindo minha atitude selvagem e desprezando o encolhimento do espaço.

Dei uma mordida e o sumo escorreu para a calça; ela olhando, limpei. Na segunda investida, já de pernas abertas, o líquido infestou o banco; ela olhando, disfarcei. Quando consegui espirrar no vidro, ela interferiu na operação, não havia como se manter distante. Ou falava ou seu twingo se transformava num liquidificador:

— Vem cá, por que não chupa ao morder?
— Chupar ao morder? Posso?
— Claro, depois que larga os dentes, chupa.

Ela aceitou meu despreparo e contornou o caroço e mordeu e chupou perfeitamente. Engoliu a lasca e o suco. Vi que podia. Pena que não tinha mais ameixas para exercitar.

— Onde aprendeu?
— Em Constantina, sou campeã para não me sujar.

Ainda não perguntei sobre os efeitos colaterais dessa aula. Mas não duvido que não tenha influenciado até minha forma de beijá-la.


Crônica publicada no site Vida Breve