quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

SACRIFÍCIO DO BEZERRO DE OURO


"Não se pode dormir com o inimigo imaginário - uma regra básica da ética amorosa."

Ele terminou a relação para ficar com colega de faculdade, logo aquela que a ex-namorada tinha mais ciúmes. Depois quis voltar.

Consultório Poético mede as palavras. E elas são duras.

Confira meu retorno aos palpites. Aqui.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

IRRESISTÍVEL

Arte de Man Ray

Três imagens perturbam seriamente os homens.

1ª – A calcinha nos tornozelos.
2ª – A alça do sutiã deslizando pelos ombros.
3ª – O turbante na cabeça na saída do banho.

Formam a santíssima trindade de um relacionamento. Podem vir, depois, TPM, DR, sogra, que a gente aguenta. São paisagens domésticas, lindas, que indicam o quanto nos aproximamos do universo feminino. Se atingirmos a trinca com uma única mulher, nossos olhos estarão grávidos e casaremos. Aceitaremos casar.

A primeira cena sempre foi um fetiche dos amantes, momento derradeiro do sim. Tristes os casais que não se tiram a roupa, tristes os casais que se despem sozinhos e chegam prontos ao ato. Sexo promissor é strip pôquer, combinando desafio, provocação e malícia. Você tira a blusa dela, ela tira sua camisa, você tira a saia dela, ela tira sua calça. Já começam a relação se ajudando – um indício de cuidado e amor no futuro.

Quando uma mulher deixa, então, você baixar a calcinha, demonstra um absoluto voto de confiança. O melhor é quando a peça fica presa nos joelhos e ela levanta um pé de cada vez, como quem pula corda, para se desembaraçar por completo das vestes. Não há como resistir, trata-se de uma dança que culminará em longo abraço.

A segunda cena é sutil e não menos agradável. É coisa de café da manhã. Ela está com uma roupa leve, camisetão branco, muito diferente da produção da noite passada. Não sabe mais escolher como gosta dela; talvez perdeu a censura, talvez ela superou as expectativas. Descobriu que não há como pensar e sonhar ao mesmo tempo; e desiste de pensar. A deusa pega iogurte e sucrilhos. Você não é mais humano, mas uma câmera registrando os mínimos movimentos. Cliquecliqueclique. Na hora de sentar, o fio do sutiã escapa e o ombro dela brilha como a Pedra do Arpoador. O caimento da alça gera uma surpreendente declaração de fidelidade masculina. Assim como ela arrumaria sua gola torta, você cai na cilada e levanta a alça. Ela percebe que nada mais escapa de seu olhar. Você se importa muito com ela. Você é agora ela.

A última cena é a mais sublime. Ela não tem vergonha de sua avaliação, acostumou-se com sua companhia, permite que assista aos bastidores do espelho. Sua paixão sai do banho com uma toalha presa nos seios e uma enrolada nos cabelos recém-lavados.

Apesar de abobado pela intimidade, preste atenção na perfeição do nó da toalha da cabeça. É o cadarço que nenhum marmanjo aprendeu a amarrar, que nenhum escoteiro decorou, é o que fará uma mulher prender você a vida inteira.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 06/12/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16909

ABANDONO DE CÃES SERÁ ALVO DE CAMPANHA

Prefeitura e concessionária mobilizam-se contra o descarte de animais de estimação em rodovias

LEO GERCHMANN
leo.gerchmann@zerohora.com.br

Integrante de ONG de proteção a animais, Nair adotou cão resgatado pela nora em rodovia de Canoas. Foto de Mauro Vieira

Leia (ou releia), abaixo, passagem de um texto escrito pelo cronista Fabrício Carpinejar em sua coluna de Zero Hora, na edição do dia 29 de novembro.

“Repare na insensibilidade: o dono mente ao seu cachorro que irão passear, para desová-lo no corredor da morte. Calcule o terror do bichinho quando não entende o castigo, e corre uivando, desesperado, atrás de um carro que nunca será mais o seu.”

A repercussão da crônica “Parem de matar cachorros!”, em que Carpinejar fala sobre o ato cruel de descartar animais de estimação à margem de rodovias, surpreendeu o colunista. Além da reprodução nas redes sociais, Carpinejar recebeu, no dia da publicação, mais de 50 mensagens de leitores elogiando o texto e/ou relatando situações similares.

O abandono de animais é um dos casos de maus-tratos citados no artigo 32 da Lei Federal 9.605/98, e pode levar o infrator à detenção de até um ano e multa. A possível punição, no entanto, não coíbe o crescimento da prática nesta época do ano.

Por isso, a Secretaria Especial dos Direitos Animais da prefeitura de Porto Alegre e a Concepa iniciam no dia 7 de janeiro, no pedágio de Gravataí, uma campanha de conscientização contra o abandono de animais. Segundo a concessionária, 32% dos atropelamentos de cães na Freeway ocorrem no trecho Gravataí-Porto Alegre.

– O alerta será importante. Os abandonos ocorrem com mais frequência no verão, quando as pessoas vão para o Litoral – diz a veterinária Márcia Generasca.

A organização da campanha recém se iniciou. É certo que o prefeito José Fortunati e a primeira-dama, Regina Becker, entusiastas da defesa dos animais, estarão no local. Devem ser promovidas atrações como a doação de ração e distribuição de folders.

Presente nas BRs, a Polícia Rodoviária Federal enumera casos de abandono. Os patrulheiros testemunham desde gente que joga o animal pela janela do carro para fugir rapidamente até papeleiros que deixam os bichos durante a madrugada e lhes dão as costas, saindo em marcha batida para não serem identificados ou parados.

Certa vez, os próprios paramédicos da Concepa adotaram uma cachorrinha e a batizaram de Zilda. Confeccionaram até uma roupinha de paramédica para ela. Até que, em um assalto ao pedágio, a mascote foi baleada e morreu. Tempos depois, adotaram outro cão, o Risco Zero. Acostumadas ao trabalho na estrada, são pessoas que conhecem bem o destino trágico dos cãezinhos abandonados à selvageria das estradas.

PRÁTICA CRUEL

O abandono de animais na estrada é comum, mas a reação de quem se comove com a prática é rápida. Na quinta-feira passada, bastou um comentário do apresentador Antonio Carlos Macedo, do programa matutino Gaúcha Hoje, da Rádio Gaúcha, para mobilizar um resgate.

Macedo comentou pesaroso o fato de um cãozinho estar abandonado na rodovia Novo Hamburgo-Porto Alegre (BR-116), em Canoas. A auditora Tatiana Feidel, 25 anos, ouviu o apelo e enfrentou a fúria de outros motoristas ao parar seu carro, por volta das 7h, e salvar o bicho nas imediações da Estação Fátima, do trensurb.

– Avistei o cão junto ao muro. Para ele ter chegado ali, só se pulou o muro ou alguém o jogou. Fui xingada pelos outros motoristas – conta Tatiana, que estava indo para o trabalho.

O cão foi doado para a sogra de Tatiana, Nair Schorn, 49 anos, que já toma conta de outros 25. Aparentando entre 10 e 12 anos, o mascote recebeu um nome bem sugestivo.

– O BR está bem e vai ficando aqui comigo – diz Nair, que integra uma ONG de proteção aos animais.

Nas férias

NO HOTEL
Confira dicas para que o seu animal fique bem cuidado nas férias de verão.
- Certifique-se que o local tem veterinário
- Deve exigir vacina dos hóspedes e ter controle parasitário
- Veja se há espaço para o animal se exercitar
- Devem ser deixados os alimentos aos quais o animal está acostumado
- Deixar com os animais os próprio potes de comida, panos e brinquedos

EM CASA
- Fechar portas e janelas
- Ter confiança na pessoa que cuidará do animal
- Orientar que o cuidador mantenha as rotinas de alimentação e passeios
- Deixar telefone de veterinário com o cuidador

NA CASA DE OUTRA PESSOA
- Saber se os donos da casa gostam e são cuidadosos com animais, bem como seus filhos
- Saber se o animal vai aceitar bem a casa onde ficará
- Saber se há outros animais e se eles são receptivos ao hóspede

LEVAR JUNTO
- O animal tem de estar vacinado
- Providenciar malas de transporte para carga viva ou cintos de segurança especiais
- Ter à mão tranquilizantes e medicamentos contra vômitos
- Saber se a casa onde o animal ficará tem espaço adequado
- Manter a rotina do animal
- Dar vermífugo no retorno, especialmente se as férias foram na praia

Fonte: Fonte: Márcia Generasca, veterinária

Publicado no jornal Zero Hora
Geral, p. 28, 06/12/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16909

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

POR QUE CONVERSAR COM O ADOLESCENTE?


- O palco para o adolescente é estar próximo.
- Quem está no palco está longe.
- A melhor forma de fazer amizade é a gafe.
- A melhor forma de ser esquecido é tentando ser agradável.
- Não respeita a bajulação. Admira a gozação.
- Deixa eu dormir mais um pouco é a frase predileta durante a semana.
- Para que dormir? é a queixa predileta do final de semana.
- Ele não tem nenhuma paciência para mentir, nem para contar a verdade.
- Está ansioso por algo que pode acontecer de diferente, mas não cansa de repetir o que deu certo.
- Tem esperança no amor, e tem mais esperança no ódio.
- Fica editando as conversas que já foram feitas.
- Sempre pensa que perdeu um amigo por algo que foi dito. Só que ninguém nunca lembra a palavra.
- Não olha nos olhos do espelho. É feio encarar o passado.
- Não quer lembranças, mas fotos, provas de que existe.
- A internet é a verdadeira televisão. A televisão é a falsa internet.
- Adora concordar para discordar, e discordar para concordar.
- Toda a confissão é feita a partir do outro.
- Curte constranger para se defender, tem horror às perguntas pessoais.
- Chora mais fungando.
- É atento quando as pessoas não se entendem.
- Cochila com o entendimento.
- Rejeita quem mexe em seus cabelos. Parece que limpa as mãos.
- Ele se afirma falando alto.
- Ele se nega cochichando.
- Não aceita imposição, fica indeciso quando precisa escolher.
- Prefere lugares conhecidos, mas procura novidades.
- Escreve na redação aquilo que gostaria de ser para os pais.
- Escreve no Orkut e Facebook aquilo que gostaria de ser para os amigos.
- Não escreve aquilo que realmente é - seria muito foda.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Fronteiras do Pensamento
Domingo, 04/12/2011, ps. 10-11

domingo, 4 de dezembro de 2011

A FORÇA DE UM CALCANHAR

- Nunca parei para pensar, posso fazer isso jogando - disse Sócrates.

E ri da iluminação trivial.

Nossa homenagem ao ídolo corintiano, ex-capitão da Seleção Brasileira, que morreu aos 57 anos, na madrugada de domingo (4/12).

sábado, 3 de dezembro de 2011

O PROFETA DAS PEDRAS

Aos 71 anos, o escultor Bez Batti se define como “um geólogo dos sonhos”. Fotos de Jean Scharwz

Ele conversa, escuta, lê os pensamentos das rochas. É imensamente apaixonado a ponto de dormir com um seixo nos pés e outro nas mãos.

João Bez Batti, 71 anos, nasceu escultor. E pretende morrer pedra.

Sua rotina é esculpir basalto no ateliê em Bento Gonçalves, cidade de 100 mil habitantes, situada a 113 quilômetros de Porto Alegre.

– Meu pai ralhava: joga a pedra fora, meu filho. E eu queria levar para casa, cuidar, dar família.

A pedra foi seu boneco, seu travesseiro, sua namorada, seu amigo imaginário, sua pandorga, sua estrada, seu caderno, seu lápis, seu pião, seu analista.

– Eu me achava esquisito, sofri muito com o preconceito por guardar entulhos no quarto. Não tive berço, mas carrinho de mão.

Penúltimo dos cinco irmãos, o pai transbordava seriedade e castigo. Não admitia seus devaneios de artista, onde enxergava figuras escondidas nas nuvens e nos móveis.

– Acho que vim tarde demais, quando meu pai já era infeliz. Não trocou 10 palavras comigo a vida inteira.

O coração paterno era também de pedra. Não é por nada que carregou seu nome. Pai de pedra, filho de pedra.

– O som é a radiografia da pedra. Pela batida, sei se tem fissura e localizo as falhas por dentro.

A intimidade não é exagero lírico. Até seu cachorro Guadalupe não apanha galhos e madeiras como os demais cães. O pastor alemão transporta tijolos com a boca.

Bez Batti foi um suicida ao contrário. Furtava o revólver da família para servir de inspiração. Tentava imitar as curvas da coronha.

– Peguei em armas para defender minha criatividade.

O que salvou um dos principais criadores brasileiros foi o Rio Taquari, o qual caracteriza como seu primeiro professor.

– O rio lecionou para mim. Caminhar nos cascalhos é tatear as formas. Descobri que a pedra é uma imensa pálpebra, tem olhos soterrados, precisamos de paciência de água. A pedra só se abre para quem ela confia.


Poeta ao natural, Bez Batti não cuida de contas, nem mesmo da finança ou da venda de seu catálogo. Permanece enfurnado em tempo integral nas distrações. Ou está talhando prováveis obras no escritório, armado medievalmente de avental, botas e máscara de couro, ou brinca com seu gato Nino ou visita o cemitério municipal, seu museu preferido, em que admira bustos, anjos e estátuas.

Transfere a responsabilidade do mundo prático para sua esposa de quatro décadas, Maria Shirley, 69, advogada e professora aposentada, com quem partilha dois filhos (Diego, 34, e Melissa, 36) e dois netos (Maria, 12, e Nathan, 6).

Ele desconhece o valor das próprias esculturas. A peça pequena custa R$ 2,5 mil, a média vale R$ 5 mil e a grande gira em torno de R$ 30 mil.

– Todo dia meu marido volta para sua infância. E espero ele de noite, torcendo para que se transforme em adulto – confessa Shirley.

Atualmente, Bez está confeccionando uma nova série “Autorretrato aprisionado”. Procura imprimir uma feição que seja uma blasfêmia, transtornada e raivosa como a de Brutus de Michelangelo.

– Quero fazer algo que nunca foi visto. Ouço o conselho das pedras porque elas viram mais do que eu e me avisam se estou copiando algo ou inventando.

Para atingir o objetivo, pesquisa matéria-prima pelo Rio Grande do Sul. Vem batizando o basalto: preto (Bento Gonçalves), sanguíneo (Caxias do Sul) e cacau (Vacaria).

– Sou um geólogo dos sonhos.

Os vizinhos não diferenciam o que é pedra da paisagem do que é coleção. São mais de 10 mil fragmentos recolhidos desde a primeira série.

– Não descarto nada. A pedra é inimitável.

Livre, selvagem, curioso, Bez Batti rejeita encomendas, é contra a ditadura temática.

– Não farei um garrafão de vinho por morar em Bento. Crio o que falta, não reproduzo o que existe.

Seus trabalhos costumam demorar 10 anos. Inicialmente, ele desenha, em seguida identifica o material adequado e, por fim, lapida.

– O mais difícil é definir o momento de parar o ponteiro, quando a escultura está pronta. Depois de passar do ponto, não tem como corrigir. Rocha não tem rascunho. Uma lasca errada e sacrificamos o trabalho.

Seu maior desejo é apanhar um rosto antes de chegar ao ventre feminino. Como um profeta, antecipar o nascimento de alguém.

– A pedra gera minhas crianças.

E ainda dizem que os homens não ficam grávidos.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 34, 3/12/2011
Porto Alegre, Edição N° 16898
Conheça o espaço onírico de Bez Batti

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

MÁRTIR

Fred é um Heleno de Freitas das Laranjeiras. Executou uma metamorfose lendária. É uma garça que virou pelicano. Não existe bola ou peixe perdido. Marcou oito gols em três partidas na reta final do Brasileiro. Era para ser apenas competente, foi extraordinário.

Nosso texto na íntegra em Rolo Compressor.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

PAREM DE MATAR CACHORROS!

(ou a memória é um retrovisor que não tem como arrancar)

Arte de Hans Hofmann

Na BR-116, é certo que encontrarei engarrafamento e cachorro morto. A cada animalzinho estirado na mureta, tapo os olhos de meu filho Vicente – não é uma boa recordação para se levar à escola logo de manhã.

Mas fui notando que teria que deixá-lo vendado o trajeto inteiro. No intervalo de 10 quilômetros, avistava um novo corpo já despossuído de alma e Deus, inchado e anônimo, sem a gentileza de cruz e o amparo da coleira.

Cachorro atropelado na Grande Porto Alegre é tão frequente quanto as capivaras abatidas na BR-471.

Procurava desvendar como o cão atingiu o miolo da estrada. Na minha idealização, o bicho esquecera o caminho de volta e não contara com sorte ao cruzar a mão dupla. Por uma série de tristes casualidades, fora jogado na loucura assassina de um autorama.

Não me passava maldade pela cabeça. Sei o quanto um cachorro costuma cheirar caminhos e se distrair com facilidade.

Até que descobri que existe um nazismo canino. Cachorros são abandonados na rodovia pelos próprios donos. Aquilo que vejo todo o dia não representa acidentes, é, sim, resultado de uma matança deliberada.

Famílias compram ou recebem de presente um cãozinho, acham que é barbada cuidar, enfrentam uma semana de experiência, gastam demais com ração e higiene, e decidem sacrificar o hóspede. Sem tempo a perder, desaparecem com as provas de uma existência. E ainda raciocinam que não é um assassinato, que Palmira Gobbi é apenas o nome de uma avenida. Fingem acreditar que não cometeram mal nenhum, largaram o pequeno à mera provação do destino.

O motivo é sempre gratuito. Matam o cão para prevenir incômodos. Ou porque ele adoeceu ou envelheceu. Ou porque o remédio e o veterinário são caros ou porque o abrigo é longe e não podem se atrasar para o trabalho.

Que mundo é este? Pela janela, eliminam uma vida com a leviandade de alguém que arremessa longe uma bagana de cigarro, uma embalagem de picolé, um saco de salgadinho. Absolutamente crentes na impunidade.

Quem faz isso não merece perdão. Não merece explicação. Não merece defesa. É um crime premeditado. A mais implacável execução que conheço, antecedida de lenta tortura emocional.

Repare na insensibilidade: o dono mente ao seu cachorro que irão passear, para desová-lo no corredor da morte. Calcule o terror do bichinho quando não entende o castigo, e corre uivando, desesperado, atrás de um carro que nunca será mais o seu.

Cansei de esconder os olhos de meu filho.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 29/11/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16902

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

CONFESSIONÁRIO

Colaboro com matéria sobre a importância dos segredos em nossa vida. Apareceu no Teledomingo da RBSTV, exibido na noite de domingo (27/11/2011).

sábado, 26 de novembro de 2011

MOTORISTA DE TODAS AS SAUDADES

Fã de música sertaneja, a versátil Elisete tem a missão de levar para casa os boêmios que frequentam baile na praia de Quintão, no Litoral Norte. Foto de Emílio Pedroso.

Elisete Varani Mattos, 53 anos, acabou de fazer escova. O cabelo loiro, curto, não tem nenhum fio fora da moldura do rosto. Os lábios estão pintados e nem parece que ela faxinava naquele momento.

Ela trabalha com o que aparecer pela frente. Durante a semana, é pedreira, é zeladora, é manicure, é caminhoneira. Quase impossível prever como os moradores a encontrarão na rua: de bermuda, conduzindo carrinho em construção, ou de boné, liderando fretes. Ela se autodenomina Serviços Gerais de Quintão, balneário de Palmares do Sul, cidade de 11 mil habitantes, a 78 quilômetros de Porto Alegre.

– Nunca digo que não sei, aceito para depois aprender, não tenho escolha – afirma.

Nos últimos três meses, assumiu uma nova função que aumentou sua popularidade no litoral norte do Estado: a de motorista do Clube da Saudade, baile que acontece domingo, das 19h à 1h, no salão da esquina das ruas Esparta e Alegrete.

Separada há duas décadas, mãe de três filhos (Isaías, 29 anos, Everton, 27 anos, e Letícia, 14 anos) e vó de uma neta (Isabela, dois anos), a fã de música sertaneja aceitou a missão de levar os boêmios para suas casas num antigo ônibus de linha. É uma viagem por semana, que permite que os outros bebam sem problema algum. Elisete recebe R$ 100 por mês e carrega 30 pessoas no final da festa, numa cansativa baldeação pelas praias vizinhas.

– Já me sustentei como motorista de caminhão, o pé na estrada é herança de meu pai José Renato. Ele realizava longas viagens pelo interior do Estado em seu Mercedes-Benz cinza. Quando regressava, era sempre feriadão para nossa família de 11 irmãos. O maravilhoso de ir é ter motivo para voltar: a saudade me mantém viva.

O ônibus é velho, a poltrona de couro preto tem o estofado rasgado, o motor tosse e enguiça, mas nada é obstáculo para seu capricho obstinado. Ela não desanima com a feiúra da lataria, nem com a pouca grana – o que é torto tem direito de ser simpático.

Assim como não perde a pose nas atividades braçais, enfeita seu ônibus para receber os passageiros noturnos. Colocou fitas rosa e lilás em todos os bancos. O corredor do veículo lembra a decoração de um casamento.

– Falta apenas um marido, as guirlandas e o órgão tocando “tan na na nan”.

O banco da motorista é um autêntico altar, com ursinhos balançando no retrovisor.

– É uma carruagem do amor! – explica.

Para quem não achou sua cara-metade no bailão, que reúne 200 clientes ao preço de R$ 8 (ingresso masculino) e R$ 5 (feminino), tem uma repescagem no retorno.

– Muitos casais se formam ao sentar lado a lado no transporte, quando haviam abandonado a esperança de se dar bem. Relaxados, conversam melhor, não querem impressionar e se apaixonam.

Sem aparelho de som, ela não se nega a cantar no trajeto. Interrompe o silêncio da madrugada com animado karaokê.

– Ah... Sou também metida a mecânica e cantora, tudo a ver – ela ri.

A amizade cura ressaca. A motorista é a confidente predileta dos clientes, o pronto-socorro das desilusões. Oferece dicas, orienta relacionamentos, conforta os clientes com exemplos de suas desventuras amorosas.

– Do mesmo modo em que os bebês dormem facilmente no carro, meus bebês grandes se acalmam com o sacolejo da minha voz e das pedras irregulares.

Se a noite é uma criança, Elisete é a babá das estrelas e das dunas de Quintão. Põe os baladeiros a dormir com segurança.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 32, 26/11/2011
Porto Alegre, Edição N° 16898
Conheça um pouco da praia de Quintão em vídeos