quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

ALOPRANDO NA TV

Veja entrevista que concedi na noite de terça (10/1) para TVCOM Tudo Mais, do Grupo RBS, programa apresentado por Sara Bodowsky.

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL NA RÁDIO GAÚCHA

O casal Fabrício Carpinejar, poeta e cronista, e Cínthya Verri, terapeuta, estará à frente de novo quadro da Rádio Gaúcha. O programa quinzenal Quase Perfeito é atração do Brasil na Madrugada, com estreia a partir da 0h01 de quinta (12/1). A apresentadora Sara Bodowsky faz a mediação das questões.

Com duração de duas horas, Quase Perfeito é um consultório sentimental que pretende atender as dificuldades de relacionamento dos ouvintes. A ideia é representar um casal no ar, com um posicionamento feminino e outro masculino sobre o amor e a família. O tema da primeira edição aborda o dilema entre independência e possessividade: "Como dar liberdade para o outro sem ser indiferente" ou "Como mostrar apego sem ser chato e possessivo".

O interesse é repassar um reservatório de histórias, casos, gafes, conselhos e exemplos que tornarão menores as crises e as brigas. Fabrício e Cínthya também citarão os desafios mais espinhosos que já enfrentaram, sempre interagindo com o público, perguntando despretensiosamente as causas das intrigas, num tom “atrevido afetuoso”. Consultório Poético procura despertar o desejo da confissão. Tudo com muito bom humor.

Para participar do programa, ligue (51) 3217-1610/ (51) 32176831/ (51) 32230600

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ESTREIA NA RÁDIO GAÚCHA

Com emoção, assinalei minha estreia na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, sempre conduzido por Antonio Carlos Macedo e Daniel Scola. Pode acompanhar meus boletins líricos todas as terças, sextas e sábados, às 7h20. Ouça o meu primeiro pitaco.

FIASCO NA CASA DA SOGRA

Arte de David Hockney

A distração custa caro. E cobra juros de insônia.

Aurélio experimentou 20 dias na residência da sogra, Nanda, em Balneário Camboriú. Com a sogra dentro do apartamento, é óbvio.

É o momento em que sua mulher, Elis, vira filha e não faz mais nada. Realmente descansa. Come, dorme, assiste a filmes, vai para praia. No sol seguinte, repete a dose. O Dia da Marmota que as misses desejam, e não se enjoam.

A marmota era ele: gordo, barbudo, sonolento e pele tostada.

A preguiça da esposa contagiou sua vitalidade farroupilha. Não foi só uma manhã em que despertou ao meio-dia.

– O excesso de saúde me estraga. Assim como sono demais me deixa inchado e com olheiras – costumava resmungar.

Odiava Domenico de Masi e a baboseira do ócio criativo. Na prática, constatava o contrário: a aparência masculina piora com o lazer. Todo homem descansando perde o rosto e ganha retrato falado. Inicia a temporada saudável e termina as férias com cara de foragido da polícia catarinense.

Aurélio cometeu o maior vexame de sua vida no almoço de sexta. Sem Elis, que prometeu sair para compras, acordou desprotegido, com os socos da sogra na porta:

– Comida na mesa! Vem logo! Tá pensando que é a casa da sogra? – gritou, debochada.

Pelado debaixo dos lençóis, ele pegou a primeira sunga que encontrou na gaveta e correu afobado para a sala, consciente de que Nanda era pontual e não tolerava enrolações.

No litoral, é permitido comer com roupa de banho. Não é grosseria, atentado violento ao pudor, desprezo anarquista.

O problema é que – no torpor do sono – Aurélio apanhou uma cueca listrada no lugar da sunga. E sentou quase pelado com a sogra, o cunhado, um casal de tios e algumas pessoas a que não teve tempo de ser apresentado.

O grupo olhava o genro com censura. O cunhado perguntou se ele frequentava praia de nudismo. Aurélio não captou a ironia, mesmo com os risinhos coletivos e contidos de Muttley. Confessou que carecia de coragem para jogar frescobol com o troço balançando.

Os comensais foram se constrangendo e afastando o prato.

Aurélio levantou para buscar o suco, juntou faca que caiu no chão, desfilou intensamente pela cena do crime. Almoçava de cueca e ninguém falou nada.

Identificou a gravidade da atitude quando a esposa mandou que preparasse as malas.

– Já vamos?
– Você vai! Tá pensando que a casa da sogra é motel? Me viu almoçar de calcinha diante de sua família?

Não adiantou alegar que não fora intencional. Ainda mais a uma terapeuta. Qualquer erro pode ser um ato falho.

– Aurélio, não acredita em inconsciente? Sentiu ciúme da minha tranquilidade, do meu luxo de rainha, encontrou um jeito de arruinar a confiança da mãe e ir embora.

Ela estava coberta de razão. O inconsciente é o padrasto do pecado.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 10/1/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 16943

domingo, 8 de janeiro de 2012

SURREALISMO INFORMATIVO NA RÁDIO GAÚCHA

Foto de Nauro Júnior

Na terça-feira, dia 10, o escritor Fabrício Carpinejar, que encheu os olhos dos leitores de ZH com a coluna Beleza Interior ao longo de 2011, estreia oficialmente na Rádio Gaúcha em um bate-papo com os apresentadores Antônio Carlos Macedo e Daniel Scola, sempre às 7h20min de terças, sextas e sábados. O TV Show foi conferir o que Carpinejar pretende aprontar, agora nas ondas do rádio. Confira trechos da entrevista.

Como será a sua participação no programa?
Falarei por telefone, sempre às 7h20min. Minha voz já estará acordada do chimarrão. Levo o filho cedo para escola.

O que você vai comentar?
Farei minicrônicas. Com toda a irreverência da sensibilidade. Abordarei assuntos polêmicos do dia ou trarei novos ângulos para observar a rotina. Posso comentar a nova campanha de redução de velocidade do Detran e o péssimo hábito dos motoristas de disputar com os amigos quem chega primeiro ao Litoral, ou confessar algumas dores e temores. Por exemplo, a cachorra de casa, Cora, ficou surda de repente nesta semana. E tentei enxergar o impasse pelos olhos dela: aposto que a cadela acha que não foi ela que deixou de ouvir, mas nós é que deixamos de falar com ela (pensa que está de castigo, coitadinha). Ainda quero brincar com o comportamento, propor autoescola para quem anda de guarda-chuva, esses surrealismos informativos.

A passagem para o rádio tem relação com este ano em que você se dedicou ao Beleza Interior?
Totalmente. Beleza Interior me conectou ao cenário gaúcho, ao espírito aconchegante das pequenas cidades. Falar é uma generosidade – não podemos desperdiçá-la. Nunca falar por falar, mas falar com gosto, falar dando importância a cada palavra. Quem não seduz o silêncio ficará incomodado de solidão na velhice.

Como tem sido para você esta aproximação com a rotina jornalística?
É o casamento da chuva e do sol, da literatura com o jornalismo. Na verdade, nunca deixei a rotina de jornalista. O jornalismo me conserva a humildade de ouvir – e de não querer ser maior do que a notícia.

Tem mais alguma surpresa sua para o ano de 2012?
Muitas. Conduzirei Miss Cultura (leitura de textos) no interior de São Paulo, em turnê por 10 cidades. Estou organizando um volume de crônicas para maio e devo finalizar um livro de poesia.

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno TV Show
TELE TUDO | Anna Martha Silveira
Porto Alegre (RS), 08/01/2012 | N° 16940

O BIÓGRAFO CORAJOSO DE MACHADO


Todo escritor tem um gênero caixa-preta, que não abre em vida. A poesia foi o esconderijo estilístico de Guimarães Rosa, de Clarice Lispector, de Lúcio Cardoso. E de Daniel Piza, uma perda irreparável para literatura e jornalismo, falecido aos 41 anos, na virada de 2012.

Piza mostrou as garras afiadas de ensaísta, contista, ficcionista. No fundo, era um poeta bissexto. Secretamente devaneava versos. Há um livro de sonetos inéditos na gaveta - pode procurar em seu valioso espólio.
Sua alma fora armada para capturar voos extravagantes e raros. A acidez defendia a delicadeza. A ironia protegia a inocência.

Possuía a vocação ao verso curto, à máxima densa e acachapante. Flâneur do desespero, conde do humor, escrevia com agudeza insuportável.

- Quem fala ‘no meu tempo’ o tempo inteiro já não tem muito tempo - provocava.

Sua independência vinha em primeiro lugar, soberana. Não poupava colegas, não escapava dos debates frontais. A resposta não representava um direito, e sim um dever. Como um verdadeiro intelectual, contava com poucos amigos, mal enchia um café. Já seus inimigos renderiam procissões e comícios. Até porque a inveja é uma admiração platônica.

Piza foi tão amado quanto odiado. Não conheceu a indiferença.

Não gerava suspiros, mas arroubos. Combatia a falsa ingenuidade, prima do ressentimento. Cavava espaço para diferenças sutis. Advogava a moral (preceitos do caráter) contra moralismo (preconceito), por exemplo.

"Aforismos sem juízo", seção do Estado de São Paulo e reunida em livro pela Bertrand Brasil, é uma coleção impecável de ataques líricos. A graça que dói e garante a grande literatura, lastro de Paulo Francis, Mário Quintana, Otto Lara Resende.

A seleta apavora a etiqueta com inversões. Destrói argumentos com contrapontos. Dizima bocejos com torpedos.

Da mesma forma em que Nicanor Parra criou a antipoesia no Chile para conter a hemorragia palavrosa de Neruda, Piza cunhou o antiprovérbio para frear o proselitismo acadêmico. Salvou o jornalismo da tese universitária.

Seus lemas: muito do pouco, clareza agressiva e intensidade do exato. Caracteriza o aforismo como breve, definitivo, pessoal, surpreendente e filosófico.

A boa frase começaria de uma ideia comum e morreria com estremecimento de estrela, clarão desconcertante e imprevisível.

- Nada mais crédulo do que não acreditar em nada - advertia.

Piza foi nosso Karl Kraus, nosso Chamfort, nosso La Rochefoucauld. A chance de duvidar das aparências e também das certezas.

Desconfiava da meia-verdade, desejava encontrar a verdade e meia.

Não informava, deformava a notícia pronta para que enxergássemos o pensamento sem censura e amarras.

Transpirava coragem. Empreendeu a biografia de Machado de Assis (Imprensa Oficial) - rapel da língua portuguesa, tarefa para sepultar reputações. Nunca se alcovitou na preguiça, não recorreu a nenhum dos romances ou contos do Bruxo do Cosme Velho como molde narrativo.

Humildade é elegância. Não apareceu mais machadiano do que Machado. Derrubou a tese de que Machado mudou de repente ao escrever “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881). Ele não mudou, cresceu de modo coerente e progressivo. Piza revirou jornais, detalhes, miudezas, documentos para reconstituir os 69 anos da vida do maior escritor brasileiro. Furtou a casa de Machado enquanto ele vivia, revelando a evolução estilística do autor na intensa produção de crônicas em jornais e em peças de teatro, descrevendo com cuidado atento (nunca bajulação) a sobrevivência social em ambiente hostil.

Machado disse sobre sua mulher Carolina: “Não acharia ninguém que melhor me ajudasse a morrer”.

A literatura de Daniel Piza ajudará o leitor a viver sem ele. Mas será muito difícil. E completamente injusto.

Publicado em O Estado de São Paulo
Memória
"A polêmica como ofício: homenagem a Daniel Piza"
Caderno 2, ps. 8 e 9
São Paulo, 8/1/2011
Ano 133 N. 43181

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

PROVOCAÇÕES

Veja minha participação no programa Provocações, da TV Cultura, exibido na noite de terça (3/1). Foi uma guerra verbal com Antonio Abujamra, mestre da ironia e da quebra de assunto.




terça-feira, 3 de janeiro de 2012

MINHA CIDADE SÃO AS PESSOAS

Arte de Peter Blake

O que faz gostar de uma cidade são as pessoas. A amizade é o ponto turístico que resiste ao tempo.

Minha vontade de conhecer mais as praças, os bares e restaurantes depende de alguém emocionado com sua rotina.

Lugarejos ficam atraentes com o entusiasmo de seus moradores. Nem requer grandes monumentos de Antonio Caringi, façanhas arquitetônicas de Álvaro Siza, desenhos de Oscar Niemeyer, paisagens de Burle Marx, mas o cuidado com as singelezas maravilhosas de seu bairro.

O que me seduz é como o morador desenrola o mapa discreto do seu dia a dia. É quando valoriza as quadras de seu mundo, e tem interesse em mostrar onde é o minimercado em que compra suas urgências, a cafeteria que cura sua ressaca, a floricultura que devolve sua esperança no amor.

O arrebatamento surge mais pela ternura do embrulho do que pelo presente. Papel dobrado com fita reflete o dobro de confiança.

A generosidade torna qualquer local agradável, e repõe a gana de voltar. Carisma de garçons salva restaurantes. Simpatia de manicures salva salões. Paciência de atendentes salva lojas.

Não há maior educação do que a alegria.

Sou influenciável pelos personagens comuns que não se esgotam em acordar cedo e falar bem de seus percursos. Fogem do elogio da lamúria. Retiram milagres das repetições.

Os amigos formam minha cidade. As ruas que passo mereceriam nomes das pessoas que amo. Deveria mudar as placas dos logradouros: nada de políticos e celebridades, mas quem é famoso secretamente em meu silêncio.

Moraria na Rua Cínthya Verri, médica e terapeuta, paralela às ruas Mariana Carpinejar e Vicente Carpinejar, que eu não sei ainda o que eles serão, mas já são tudo como filhos. Os pais, Maria Carpi e Carlos Nejar, teriam direito a duas avenidas do tamanho da Assis Brasil e Ipiranga.

Batizaria o viaduto que me leva ao centro de Mário e Diana Corso, casal de confidentes. Seria Diana para quem chega e Mário para quem parte ao interior do Estado.

O mercado público ganharia a graça de Luiz Ruffato, irmão de prosa que cataloga frases de efeito. Chamaria o teatro de Cíntia Moscovich, a casa noturna de Renato Godá, o shopping de Eduardo Nasi, a Biblioteca Pública de Rosemary Alves, a orquestra de Francesca Romani, a Agência de Correios de Fernanda Seelig. Honraria o Jardim Botânico com um professor fundamental, Luís Augusto Fischer, que me alcançou uma lição preciosa: somos mais inteligentes criando novas dúvidas do que repetindo certezas. Convocaria um colorado, Paulo Scott, para assumir a posteridade do estádio.

Desejaria indicar o crítico Daniel Piza para ser minha rodoviária, espaço em que ocorrem as mais pungentes despedidas. Mas ele morreu na última sexta, aos 41 anos, de AVC. Não dá mais.

Amigo vivo é rua, amigo morto é estrela.

Daniel Piza vai piscar conselhos para mim toda noite.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 3/1/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 16935

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

COLHER DE SOPA

Foto de Cínthya Verri

Cora, a cachorrinha de casa, ficava assustada na virada do ano. Ela se escondia debaixo da mesa, da cama, das cortinas. Uivava para as janelas. Seus gemidos lembravam molas de antigos colchões. Dentes rangendo de insônia. Não se aquietava até que os rojões serenassem em fumaça.

Na troca de 2011 para 2012, ela estranhamente dormiu e não acordou com nenhum fogo de artifício. Suspirava no sofá. Uma colher de sopa perdida na almofada.

Aquilo me intrigou. O animalzinho traduzia tranquilidade de coma: anestesiada, desaparecida em si. Respirava fundo, avessa aos tormentos dos fachos.

Logo o animal que fugia dos trovões e das descargas elétricas nos morros.

A família se preocupou com a súbita quietude e fotografou seus movimentos nos dias seguintes. Quando ela caminhava de costas, invocávamos seu nome e ela não recuava. Batíamos palmas e ela sequer mexia o pescoço.

Reprisei que Cora não atendia nossa voz como antes, não obedecia pedidos para sentar ou deitar, não vinha na cozinha quando gritávamos "hora da comida", não abanava o rabo com a trilha sonora que Cínthya criou para ela.

Também latia menos e dormia o dobro.

Uma vitória-régia boiando na sala. Uma sanfona se coçando de vento.

Entrávamos de madrugada na residência e ela não respondia. Tínhamos que tocar em seu pelo para despertar uma reação. O tato era o seu último alerta.

As cenas foram esclarecendo os sintomas. Descobrimos que nossa cachorrinha está surda. Não escuta nada.

Despertou uma dor avulsa. Uma dor de azulejo de pares quebrados.

Cora não entende que foi ela que deixou de ouvir, mas acredita que nós deixamos de falar com ela.

Na cabeça da cachorrinha, sem explicação, todo mundo parou de procurá-la.

De repente, ninguém mais a chama, ninguém mais canta para ela, ninguém descreve as paisagens.

No seu universo preto e branco, a surdez é concebida como um castigo. Ela não sabe o que fez de errado para desaparecer o som de nossas bocas.

E treme de frio quando nos observa. Um frio de medo, não de vento. Um frio de quem precisa entender o que aconteceu. Olha longamente as vogais de sabão saindo dos nossos lábios e subindo aos céus. Palavras áereas, mudas, velozes.

Conto tudo assim porque amor é mudar, sempre mudar, sempre se adaptar. E nunca cansar de criar idiomas.

É agora pegar Cora mais no colo, é falar com as mãos, é se aconchegar ao seu corpo para que não mais estranhe o silêncio e reconheça os timbres pelo olfato.

UM ANO SEM CIGARRO


No Teledomingo, programa da RBSTV, exibido na noite de 1º/1, comento nossa dificuldade de fazer mudanças e admitir troca de hábitos (e a consequente criatividade para desculpas e adiamentos). Comemoro também um ano sem cigarro. Assista aqui.