quinta-feira, 21 de março de 2019

A FALTA DE ESCONDERIJO DENTRO DE CASA

Os apartamentos estão cada vez menores, as brechas de casa cada vez mais habitadas, dificilmente haverá um canto vazio pelos armários.

Com o aproveitamento total do espaço, não sobrou território para fábula, para o faz de conta, para a perseguição saudável das briguinhas.

Onde as crianças de hoje podem se ocultar? Não tem mais lugar para desaparecer, brincar de esconde-esconde. Com os móveis embutidos, perdeu-se até a chance de ficar debaixo da cama. Talvez as cortinas sejam o último refúgio, mas nunca foram um disfarce convincente.

Na minha infância, havia pátio, árvores do quintal, porão, o vão do tanque da cozinha, guarda-roupa gigante, prateleiras vazias – dispunha de riquíssimos esconderijos para fugir e ser procurado. Mergulhava em espiral de dúvidas diante da variedade.

Desaparecia por instantes maravilhosos, brincava de ser morto atrás da porta ou segurando a respiração enquanto as pessoas passavam perto de mim, prendia a tosse alérgica com o cheiro das pedras de naftalina, aprendia a suportar o isolamento e a montar estratégias de guerra.

Adorava provocar os meus irmãos e correr na direção de meus asilos favoritos. Deixava a raiva deles esfriar para, então, voltar a conversar como se nada tivesse acontecido. Que prazer inenarrável quando questionavam o meu paradeiro e não dizia coisa alguma. Guardava segredo com orgulho. Jamais entregava os caminhos da mágica.

Em contrapartida, sabendo do poder dos refúgios dos filhos, os adultos tentavam delimitar as nossas desaparições domésticas metendo medo com histórias do velho do saco, de fantasmas acorrentados e do bicho-papão.

Convivia feliz com o sobrenatural, abusava da imaginação e treinava a independência desde cedo.

Atualmente, as assombrações são absolutamente reais, oriundas das notícias policiais, ninguém mais se diverte com os mitos e com a terceira dimensão das palavras.

Os meninos e as meninas não têm também mais como escapar do olhar vigilante paterno e materno. O excesso de visibilidade cansa, por isso que eles se trancam no quarto, desejando um pouco de trégua da família. Estão em bolhas, imersos em pequenas prisões do controle. Não desfrutam da liberdade de evaporar rapidamente enquanto alguém conta até 10.
É estressante ser reparado a todo momento, com a invocação do tema de aula e das tarefas ordinárias (Já escovou os dentes? Já tomou banho? Já arrumou o quarto?).

As crianças não conseguem nem mais sentir saudade dos pais, tamanha a onipresença deles no afeto e na censura, consequência do permanente receio de que aconteça algo de ruim.

Publicado em Jornal Zero Hora em 29/5/2018