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domingo, 3 de março de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"MEU AMIGO VEM SENDO CORNEADO, AVISO?"
Arte de Hannah Höch

“Tenho um amigo que namora uma menina um pouco fora dos padrões de beleza (ela pesa uns 120 quilos e mede 1m65cm). Acho que deves imaginar a figura! Mas o detalhe é que, mesmo desse tamanho, ela está traindo ele. Coitado, ele está feliz com ela. Acho que se ele descobrisse ficaria muito triste. Daí estou nesse dilema: não conto para ele e deixo ele viver essa felicidade. Ou conto e faço com que parem com as brincadeiras que fazem pelas costas do rapaz, dizendo que ele já tem vaga garantida no Rodeio de Barretos. Beijo, Bete”

Querida Bete,
 
Não há sentido em denunciar a infidelidade de amigos, seja contra, seja a favor.
 
É invasão de privacidade. Dificulta a reconciliação pois pressiona a tomada de uma punição social. O traído é condicionado a se separar para não ser taxado de idiota entre os familiares e conhecidos.
 
Perdoar ou não a traição é uma decisão pessoal corajosa. Não deve ser influenciada por fatores externos. Depende da história do casal, do envolvimento, do pacto de confiança e lealdade. O silêncio colabora para a cicatrização. Muitas vezes quem é traído já sabe e está elaborando uma maneira de abrir o jogo com a infiel. A intromissão alheia pode modificar as intenções. Cada um tem seu tempo, sua medida, sua tolerância.
 
Sob o pretexto de aliviar o colega da roubada, acentuará a tensão do julgamento.
 
Tampouco contaria para não perder a amizade. Ficará estigmatizada pela fofoca. Ele vai se afastar de você já que estará ligada a uma vergonha do passado. Todo mensageiro de infortúnio acaba recebendo a pecha de agourento. O hábito é se distanciar da pessoa como forma de se proteger do trauma.
 
Mas vejo que a raiz do dilema é outra. Ama seu amigo e torce pelo término da relação. Não está se controlando para entregar a moça e estragar a alegria da dupla.
 
Trabalha o caos como sua grande chance de investida amorosa. Quer transformar a tragédia em triunfo da esperança. Busca revelar o infortúnio, consolar e substituir a namorada. Mas a função de desmascarar jamais recebe recompensa masculina, apenas descrédito.
 
Nem consegue disfarçar o tamanho do seu sarcasmo (sarcasmo é felicidade do mal). Seu tom é de deboche, de ferrenho preconceito, como se ele não pudesse namorar alguém com 120 quilos e 1m65cm. Ataca a aparência dela gratuitamente. Ele já teria escolhido errado desde o princípio, experimentando uma cegueira dupla (de imagem e caráter). Manteria uma história com uma mulher feia, gorda, que não combina com sua personalidade. É o mesmo que desabafar:
 
– Eu sou muito melhor, por que ele não está comigo?
 
A inveja é ciúme. Avacalhando sua atual parceira reforça a disseminação das brincadeiras nas costas do coitado.
 
Se ele é um touro no Rodeio de Barretos, qual seria seu papel?
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 03/03/2013 Edição N° 17360
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

VETERANO DA DESPEDIDA
Arte de Kurt Schwitters

“Estava namorando há quase sete meses com uma mulher que não achamos tão fácil por aí. Eu sou mais emotivo do que ela. Gosto de abraçar, beijar, ficar junto, porém ela não é assim. Terminamos no final de semana. Na verdade, ela me deu um pé na bunda por incompatibilidade de gênios. Queria que me ajudasse, pois agora ela está pedindo pra voltar. Ela me magoou muito, e não gosto mais dela como antes. Estou indeciso porque já tive outro relacionamento em que terminei com a minha ex oito vezes. Foi um inferno, e eu não quero que isso se repita. Obrigado desde já, Rafael”
Querido Rafael,
Você adora discutir o relacionamento, acredito que se sente valorizado na hora de brigar (tanto quanto no sexo).
Toda briga engrandece seu passe. Com uma discussão de relacionamento, temos o poder de terminar ou reatar. Há uma adrenalina na gritaria, feita de reinícios, reprises, acusações, defesas, beijos com gosto de lágrima e ecos intermináveis.
Julgar o outro sempre é uma forma de se perdoar e se elogiar. Ela é fria, e, portanto, você é quente. Ela não abraça, não beija muito, não se derrete, portanto, você é que oferece afeto e não é reconhecido.
Entende? Você é o certo, e, portanto, ela é errada. Você é o santo, e, portanto, ela é o monstro insensível. O maniqueísmo destrói afetos.
Não deve ser bem assim o romance. Precisamos dar um desconto, concorda?
A cobrança é uma competição oculta. Fomenta uma rivalidade difícil de controlar. Espera o erro dela para logo denunciar, ela espera sua denúncia para logo pedir as contas, e assim os humores se esgotam com rapidez.
Você terminou oito vezes seguidas com a ex. O que me sugere que o barraqueiro é você, não a atual namorada. Não vem dizer que discute porque não tem saída, a discussão é sempre a sua saída.
Por algum motivo, carrega a suspeita de que ninguém é capaz de amá-lo sinceramente. Talvez você se ache feio, ou com pouca experiência, ou em desvalia financeira. A DR serve para testar o amor de sua companhia. As conversas sérias são maneiras de examinar se ela realmente terá paciência para conviver e quais as verdadeiras intenções. Abre um inquérito das últimas declarações com o claro objetivo de desmascarar suas pretendentes.
Diz que não gosta tanto dela como antes porque simplesmente frustrou seu plano, desistiu de brigar e rompeu o namoro. Não tolerou o permanente ataque de nervos por melhores condições e caiu fora.  Você ficou falando sozinho.
Ela não foi aprovada no grande concurso público de suportar suas ofensas até o fim. Alguém suportaria?
É impossível conviver com o inimigo. Mude de lado, por favor.
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 7
Porto Alegre (RS), 24/02/2013 Edição N° 17353
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

LONGE DE VOCÊ
 
Arte de Kurt Schwitters

“Estava morando com meu ex-namorado, com quem tenho um filho de menos de um ano. Nos separamos há alguns meses, e eu não deixei de amá-lo. Nos magoamos muito nessa separação. Não houve traição, não houve briga, foi por causa da família dele. Ele não tem outra pessoa, eu também não. Mas ele está relutante. Disse que não quer voltar, pois está muito magoado. Sendo assim, será que ainda existe algum meio de reconquistar a confiança e o amor dele? Obrigada, Angélica”

Querida Angélica!
 
Mulher tem o costume de conversar o que incomoda na relação com suas amigas. Seu amor é pedagógico: vê com clareza as preocupações e paga o desconforto em dia. Não atrasa as contas do afeto. No casamento, fala diretamente com o sujeito aquilo que pressente, o que sente e o que teme. Com naturalidade. Não subestima sua intuição, chega a reconhecer que seu medo é um fato (às vezes é). Se acha que seu namorado está traindo, diz que está traindo mesmo sem provas.
 
Já o homem, engole as contrariedades. Fala evasivamente com os colegas, não explica direito suas mágoas para esposa. Nunca revela o seu descontentamento. Adia as dívidas, que se acumulam até a hipoteca da relação. O sujeito, quando toma a dianteira para discutir o relacionamento, é para terminar, jamais para encontrar uma solução. A gota d’água é colírio masculino.
 
O homem raramente acaba sem preparar uma segunda vida. Ainda mais quando tem um filho envolvido. É uma saída de casa difícil e traumática, só admitida quando nasce uma outra paixão.
Ele aceitaria a reconciliação se fossem somente os desentendimentos e provocações da separação. Quando amamos, a memória é o nosso desejo e esquecemos o que nos machuca.
 
Ele está relutante porque deve ter encontrado uma segunda namorada. Não apresenta a atual companhia para não gerar ciúme e represálias. Nem digo que foi infidelidade, mas interesse que coincidiu e cresceu com o aumento das discussões do divórcio. Pulou fora após arrumar o bote salva-vidas.
 
Somos maternais com o passado. Para sair de um casamento, só por um novo casamento.
 
Existe um plano B que você não conhece e não desconfiou. Ele não entra em contato, não procura, não sofre recaídas sexuais, não incomoda com mensagens e torpedos. A independência dele é estranha. Jura que ficaria no seco durante esse tempo e, na ausência de um caso, não lhe procuraria pela intimidade e cumplicidade amorosa?
 
Não é que permaneceu quieto pelo luto, por ter sofrido ou para se recuperar dos dissabores da convivência recente. Calou-se porque encontrou uma felicidade longe de você.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 9
Porto Alegre (RS), 17/02/2013 Edição N° 17346
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"O MARIDO FUGIU COM MINHA IRMÃ"

Arte de Salvador Dali

“Sou casada há 18 anos e tenho quatro filhos. Minha irmã mais velha é casada há 25 e tem três filhos. De uns tempos pra cá, notei que ela e meu marido estavam muito próximos. Ele trabalhava no restaurante dela, voltava pouco pra casa, praticamente abandonou a família. Desconfiei do caso, mas minhas amigas disseram que era loucura, que minha irmã jamais faria isso. Não aguentei e joguei verde com meu marido, disse que sabia tudo. Ele ficou desesperado, saiu de casa, os dois abandonaram as famílias e fugiram juntos. Não sei onde eles estão. O que eu faço? Um abraço, Liége”

Querida Liége,
 
Pode me chamar de moralista. Sou moralista. Hoje é um crime ter moral. Parece que é uma virtude não possuir valores e aceitar qualquer coisa.
 
Careço de capacidade para banalizar a intimidade. Surpreendo-me com a tristeza. Meu pessimismo é sempre inédito.
 
O que aconteceu com você, Liége, foi uma dupla covardia. Ele traiu pelas costas e ainda fugiu. Não honrou a palavra dentro e fora de casa. Tornou-se um impostor mais do que um mentiroso.
 
O que machuca é acabar sendo a última a desvendar a trama, é ser alvo de fofocas, é ser motivo de pena entre os parentes e os amigos. É pertencer a uma história secreta no bairro, e ficar vulnerável à maldade dos vizinhos. É pressentir a tragédia e suportar a alcunha de louca. É dar inúmeras chances para a confissão do caso, e ele não aproveitar nenhuma delas.
 
Se vai trair, conta antes, conta logo. Assume o desejo. Nomeia o desejo. Abraça o desejo. Explica que se apaixonou, não finge normalidade quando as evidências gritam o contrário.
 
Há uma tendência da infidelidade de deixar acontecer para depois decidir. É como se o infiel precisasse provar para optar. Ou se enredar tanto nas mentiras até ser descoberto.
 
Homem não decide, homem estraga sua vida para assim ser obrigado a mudar.
 
Não custava confessar a insegurança e a confusão emocional quando sentiu a atração. Seria trágico, mas contornável. Seria horrível, mas superável.
 
O que ele aprontou é exemplo da falta de exemplo num macho.
 
Não respeitou sua relação com a irmã.
 
Não respeitou dois casamentos longos.
 
Não respeitou os próprios filhos e os sobrinhos.
 
Não respeitou o ambiente profissional e misturou sexo com serviço.
 
Não respeitou o passado e o futuro ao recusar o dever da despedida.
 
Portanto, querida, não faça nada, tudo já está feito.
 
Lamento mesmo é a inveja monumental da irmã. Ela queria sua vida, mas nunca terá sua dignidade.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 7
Porto Alegre (RS), 10/02/2013 Edição N° 17339
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

VALE A PENA VER DE NOVO
Arte de Paul Delvaux

“Querido Fabrício! Amor tem reprise? Vale a pena ver de novo? Estou apaixonada pelo ex. Depois de três anos longe e muitos relacionamentos de ambos, nos reencontramos há dois meses numa festa. O beijo foi da primeira vez, uma loucura! Porque não tivemos recaídas antes, jamais tínhamos ficado. Agora a paixão veio com tudo, acrescidas das neuras que fizeram o término da união. O que fazer? Beijo Catherine”

Querida Catherine,
 
Há uma morte separando vocês. Uma morte emocional. Por isso você o chamou de fantasma. Para uma relação funcionar pela segunda vez, é necessário absorver o que falhou na primeira vez.
 
Uma possível reaproximação reeditará as brigas e os ressentimentos. É voltar a ficar junto que os vícios da relação retornam com o dobro de força. O ciúme de antes crescerá em possessividade. A preguiça de antes resultará em marasmo. A distância agrava os defeitos, como se ambos houvessem traído o romance neste intervalo todo. Não menospreze as represálias dos órfãos amorosos.
 
Temos uma profunda dificuldade para perdoar divórcios e abandonos. Não procuramos o amor, mas a perfeição.
 
Não entendemos que um deslize não abole aquilo que foi bom no passado. Não é porque a pessoa errou num momento que errou sempre. Não é porque mentiu de repente que mentirá sempre.
 
Somos justiceiros mais do que compreensivos. A gente não perdoa para se mostrar superior. Você acha que o credor quer que o endividado pague sua pendência? Não, ele deseja humilhá-lo. Deseja torturá-lo. É seu canal de catarse.
 
O único modo de dar certo seu amor pelo ex é destruir a intimidade anterior, quebrar os modelos, os moldes. Jamais dizer “eu te conheço”. Não conhece mais, não. Depois de uma separação, todos se transformam. Uns ficam mais amargos, outros mais humildes. Os dois passaram por namoros, adquiriram hábitos diferentes, amadureceram a sexualidade, cicatrizaram lembranças.
 
Deve começar a relação do zero. O que é quase impossível, a situação pede uma paciência de desconhecidos. Do zero mesmo. Sem cobrança. Sem fiadores. Retomar pelas perguntas mais triviais: o que ele assiste, vê, lê, faz. Não reprisar filmes e rever fotografias dos tempos felizes. Não repetir viagens e lugares prediletos. Não reutilizar os apelidos mimosos e os beiços.
 
Esquece que você sabe o que ele gosta. Não compara, não cruza informações. O pior que pode acontecer é testá-lo: para ver se ele mudou ou continua igual. Estará daí analisando, jamais experimentando.
 
Existe um grande risco de trai-lo com ele de três anos atrás. Raciocine que é um novo beijo, um novo livro. E com novos autores também.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 03/02/2013 Edição N° 17332
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

O PAVOR DE SE DECLARAR
Arte de Jim Dine

“Olá, Fabrício, tudo certo? Eu gostaria de saber por que é tão difícil falar para uma pessoa que tu gosta dela. Quando está sozinho, pensa em falar diversas coisas e se encoraja todo, mas na frente da pessoa tu fica completamente diferente, fica tenso, fica até pensando “será que gosto mesmo dela?”. Acho que é coisa da minha cabeça, eu não gosto dela tanto assim, acho que estou exagerando, mas aí tu volta pra casa e fica o dia inteiro pensando nela e morrendo de amores. Por que é tão difícil, mesmo sabendo que a pessoa também está interessada? Abraços! Melanie”

Querida Melanie,
 
Tenho um teste para as românticas. Entre os contos de fadas de amor da Disney:
 
Qual é o animal que somente aparece na Branca de Neve?
Qual é o que só desponta na Cinderela?
Qual é o que surge unicamente na Bela Adormecida?
 
Caso souber as três respostas, está na categoria das apaixonadas inveteradas. Sua vida será sempre tramar suposições do que pode acontecer. Vive um passo a mais de suas próprias pernas.
 
O que você sofre qualquer um sofre. É a expectativa de agradar a si mesma e corresponder também aos desejos do outro. Sozinha, está confortável, tem tempo de errar e consertar as frases. O espelho não pede resposta e não faz pressão.
 
Já com ele o negócio é terrível. A realidade não escuta até o fim e nos interrompe com novas necessidades.
 
Como não consegue se declarar, cria a hipótese de que nem ama realmente, que o romance é uma ilusão.
 
Não caia nessa bobagem. Sempre que somos verdadeiros, queremos nos boicotar. Sempre que somos falsos, apressamos nossa entrega.
 
Quando amamos de verdade, nos dificultamos. Quando amamos de mentira, nos facilitamos. Sou defensor da ideia de que a timidez demonstra a autenticidade do sentimento.
 
Quem não sente um pouco de vergonha na hora de tirar a roupa não ama. Quem não sente um pouco de retração na hora de abraçar não ama.
 
O pudor é o Inmetro do amor. Vem para expressar cuidado e respeito. Vem para sugerir o quanto é valiosa aquela cena. Vem para evitar possíveis estragos.
 
Deduzir que não tem interesse por ele é uma forma de perdoar sua covardia. Claro que ama e com veemência.
 
Adota atitude conspiratória contra seu relacionamento pelo receio de ser rejeitada. Prefere se manter calada, na defensiva.
 
Até se engana tentando se convencer que ele não é seu tipo ideal. Mas, na ausência, experimenta o pavor de perdê-lo, a sensação de extraviar a chance de firmar o namoro.
 
A saudade é a prova dos nove. A saudade é uma memória atrasada. A saudade é o que deveríamos ter feito.
 
Relaxa. Qualquer palavra quando se ama é a certa, pois ela só vai abrir passagem para o beijo. O beijo corrige todo tropeço.

a)Pombas; b)Cachorro; c) Coruja
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 27/01/2013 Edição N° 17325
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sábado, 19 de janeiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"TRAÍ MEU MARIDO COM O ENTEADO"

Arte de Carlo Carrà

"Estou casada há cinco anos com um homem de 55, ele tem um filho casado, de 26. No início, eu e o rapaz tínhamos problemas. Ele não me aceitava muito bem. O tempo foi passando e apareceu um sentimento que nem sabemos bem o que é. No mesmo período, meu marido ficou doente e o quadro se agravou. Foram muitas as investidas dele, acabei cedendo e saímos uma vez. O problema é que me sinto culpada, e o rapaz continua insistindo, o que eu faço, meu Deus? Muito Obrigado pela atenção. Abraço Maiara"

 
Querida Maiara,

O sentimento que você não sabe bem do que se trata é incesto.

Você ocupa um papel maternal, mesmo que o filho não tenha nascido de seu ventre. É um filho moral.

Deveria ocupar a posição de tutela, o polo feminino complementar ao marido. O fato do enteado ser adulto e casado não representa atenuantes.

Filho será sempre uma criança, qualquer que seja a idade.

Não poderia se envolver sexualmente com o rapaz. Abusou da superioridade dos laços, da influência que exerce em casa.

E coloca a situação de tal forma que parece que não tinha como se defender: "Foram muitas as investidas dele que acabei cedendo". Que isso?

Não é verdade, querida. Não é uma vítima, uma coitada, enganada pelo enteado. Quando se compra uma realidade, temos que pagar com a memória. Ou pensava que seria de graça?

Sua crise de consciência não provém do que fez de errado, mas do medo da delação, já que o jovem prossegue insistindo e não quer vê-lo aborrecido e confidenciando a história ao pai.

Sequer está arrependida, receia apenas ser descoberta. Incrivelmente considera o romance natural: que mundo vive? Ainda coloca tintas de paixão na aproximação de vocês.

O inferno é hoje sua sala de estar.

Cometeu uma traição trifásica: corneou o marido, com ele doente e ainda com o filho dele. Impossível continuar com o casamento.

Não há maior castigo a um homem, a um pai, a um amante. Violentou todo o legado viril do esposo. Não deixou nenhuma pedra sobre pedra da relação.

Nem a sinceridade tardia é capaz de restaurar a convivência. Concordou que o filho humilhasse o pai e cumprisse o pesadelo psicológico de ocupar o lugar dele na cama.

Nem o completo silêncio abafará o peso da culpa, condenados a fingir naturalidade em almoços, jantares e aniversários daqui por diante.

O resultado da brincadeira: marido traído, nora traída, enteado desequilibrado e família em ruínas.

Meu Deus, sou eu que digo.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 7
Porto Alegre (RS), 20/01/2013 Edição N° 17318
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 13 de janeiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

SERENATA NA JANELA, AGORA!
Arte de Ellsworth Kelly

“Preciso dos seus conselhos sábios. Estou saindo com um rapaz há alguns meses. Ele conhece todos os meus amigos e vice-versa. Nos falamos todos os dias, nos encontramos quase todos os finais de semana, trocamos mensagens de bom dia, boa tarde e boa noite. Ele me chama de ‘meu amor’ e vice-versa. Combinamos de sermos exclusivos: eu só fico com ele e ele só comigo. Seria perfeito, se não tivesse um porém. Toda vez que alguém pergunta se estamos namorando ele prontamente faz questão de afirmar que não, que estamos apenas ‘saindo’. Não quero forçar a barra e colocá-lo na parede porque não gosto dessa atitude. Mas por que não assume o que temos? Ele é 10 anos mais velho que eu e não sei se isso interfere em algo. O que faço? Beijo, Lilian”

Querida Lilian,
 
Não conservaria a educação que apenas beneficia a covardia do rapaz.
 
Atingiu aquele ponto natural da relação onde espera a convergência do público e do privado, do que é dito no ouvido com o que é exposto na rua.
 
Não existe outro caminho. É a encruzilhada obrigatória para o amadurecimento amoroso. Uma noite deve acontecer a serenata na janela e a vergonha entre os vizinhos.
 
Não lhe convence mais juras apaixonadas e ambiciosas no quarto se elas não são confirmadas na mesa do bar.
 
Assumir o namoro tem contornos delicados. Superou a primeira parte do drama: ambos confidenciaram o “eu te amo” na intimidade. Agora vem a segunda etapa: confessar o “eu te amo” para os outros, é dizer para todos do comprometimento, é sair de vez do mercado sentimental, é esclarecer em alto e bom tom que o coração está ocupado e não há vaga, é esvaziar as esperanças de casinhos e de flertes, é abandonar pretendentes e cantadas, é mudar o status nas redes sociais, é suportar as fofocas dos terceiros e as intrigas familiares.
 
Longe da exposição, o enlace de vocês se reduz a um delírio. É muito cômodo para ele – assim pode desembaraçar e terminar de repente, não precisando explicar o motivo do fim. Afinal, aos olhos dos amigos, não estão juntos, nunca existiram como casal, entende?
 
Ele foge por conveniência. Não é involuntário. Guarda exata noção do que vem fazendo e de seu provável desencanto. Mantém a união, curte os prazeres de sua companhia, enquanto prossegue a prospecção por novas mulheres. Não parou de caçar e de procurar um relacionamento melhor.
 
A atitude dele revela alguma vergonha. Ele não se enxerga seguro da história. Talvez seja muito feliz sexualmente ao seu lado, porém está desconfiando que você não é o perfil ideal para se gabar, seja por uma diferença cultural, seja de idade, seja de estilo de vida.
 
Experimenta um posto de amante exclusiva. Mas ainda amante.
 
É constrangedor ouvir “estamos saindo” aos demais quando ele fala a sós que você é o maior amor do mundo.
 
Tem que perguntar, tem que pressionar, tem que ser desconfortável.
 
Não quer colocá-lo na parede? Pois o abraço já é uma parede. Feche a saída e não permita que ele dê mais um passo antes de responder.
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 9
Porto Alegre (RS), 13/01/2013 Edição N° 17311
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 6 de janeiro de 2013

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar


MEU NAMORADO VÊ BASTANTE PORNOGRAFIA. DEVO TERMINAR?


Arte de Paul Delvaux
 
“Namoro há mais de dois anos e ultimamente ele anda vendo bastante pornografia no computador. Isso me incomoda e já conversei, mas parece que ele não se importa. Fico pensando que ele não gosta mais de mim. O que devo fazer: deixar assim e pensar que todo homem faz isso ou terminar? Muito obrigada pela atenção. Beijo, Joelma”
 
Querida Joelma,
 
Não vejo nenhum problema no namorado olhar pornografia. Todo homem olha. Eu olho, e o hábito não me torna menos poeta.
 
A pornografia representa a escola masculina da sedução: a porta de acesso na adolescência para capturar a dinâmica do sexo, a ópera da malandragem e evitar fiascos por desinformação.
 
É natural na vida do homem como editorial de moda em revistas femininas. Faz parte da nossa solidão e da nossa curiosidade.
 
Você vem tratando o assunto como um crime, um atentado violento ao pudor. Não há sentido para tamanha seriedade e culpa.
 
Diante do filme pornô, quem diz que ele não imagina que lhe satisfaz na tela? Sim, absolutamente, seu namorado deve projetar vocês nas performances dos protagonistas. Nem é uma infidelidade ou vontade de se relacionar com uma atriz específica – é uma transposição do que ele vive mais corriqueiramente.
 
O material pornô é um facilitador da intimidade, não é para ser levado ao pé da letra. Sua censura acabará atrapalhando a confidência e a liberdade de expressão do namorado, que não deixará de ver ou consultar os sites, mas passará a fazer escondido e torcerá para ficar menos tempo ao seu lado.
 
O tabu da pornografia é o mesmo da masturbação no casamento. Persiste a mentalidade de que numa relação fixa as pessoas não podem se masturbar, que é falta de interesse ou isolamento. Pois é o contrário: quanto melhor o sexo, maior o desejo de se masturbar. Masturbação não é uma suplência do sexo. Ambas as opções coexistem em casais saudáveis. Vamos desfazer, portanto, mal-entendidos sobre o tema:
 
Não significa que você não sacia os gostos e as fantasias dele.
 
Não significa que ele está entediado e que procura diversificar a oferta.
 
Não significa que ele está carente, disposto a qualquer coisa.
 
Não significa que ele é um criminoso sexual em potencial.
 
Não significa que ele contrata serviços de acompanhante.
 
Não significa que ele será menos romântico na rotina a dois.
 
Não significa que irá exigir poses e acrobacias comprometedoras.
 
Não significa que ele está interessado em outras ou que está a um passo de trair.
 
Você está temerosa à toa. Pornografia não é uma concorrente, mas uma auxiliar do desejo.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 9
Porto Alegre (RS), 06/01/2013 Edição N° 17304
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 30 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

TALIBÃ DO AMOR

Arte de Fatturi

“Estava namorando um cara havia quatro meses. Ele tinha no perfil dele 150 amigos, sendo que mais de 100 eram mulheres. De repente ele adicionou uma que comecei a perceber que não parava de segui-lo em todas as postagens. Tudo ela curtia, comentava e mandava beijos. Ele me disse que não a conhecia pessoalmente, tampouco falava com ela. Até que a adicionei, ela aceitou, conversamos por mensagem, e ela me contou que conversam sempre, mas não têm vínculo. Fiquei braba, pedi para ele excluí-la e ele não aceitou. Terminamos. Estou louca? Uma mulher dá em cima do meu namorado e ele não faz nada. Estou desnorteada. Um abraço, Rafaela.”

Querida Rafaela!
 
As rupturas acontecem por picuinhas. Por brigas tolas. Jamais por assuntos sérios e de interesse maior.
 
É um ciuminho que se transforma em intolerância, é uma descortesia ingênua de tarde que migra para a difamação ao final da noite.
 
Com os desentendimentos menores, não imaginamos que vamos nos separar e desprezamos as reservas. Atacamos com ênfase, despreocupados, e passamos dos limites.
 
Com as discussões sérias, antevemos a gravidade do encontro e cuidamos de uma por uma das palavras. Temos mais paciência e flexibilidade.
 
Julgo mais fácil se separar por não lavar a louça do que por infidelidade.
 
Vejo que você chamou atenção para a importância da amiga dele – de flerte alçado à ameaça.  Curiosamente toda mulher ou homem escolhe a sucessora ou o sucessor pelo ciúme. O ciúme faz a transferência da coroa e do cetro. Aponta quem é perigoso e com condições de ocupar o papel principal nos próximos capítulos da novela.
 
A amiga poderia se deleitar em ações platônicas: curtir, postar, comentar a página de seu namorado, desde que ficasse isolada na admiração. Seriam iniciativas inofensivas. O problema é que você não conteve a irritação e exagerou na dose. Quis mostrar quem mandava e contra-atacou. Nem pelo medo de perdê-lo, e sim para testar sua influência. O amor sempre fracassa quando vira disputa de poder. O amor é despoder, confiar e não cobrar provas. Pena que realizou o contrário, solicitando demonstrações visíveis de dependência e respostas imediatas.
 
Travou uma guerra extremista desnecessária: ou ela ou eu. Supervalorizou a figura dela, a ponto de colocá-la no mesmo patamar de intimidade. Pôs uma completa desconhecida como rival ao adicioná-la, trocar mensagens e xeretear possíveis laços.
 
Não está louca, tampouco está certa. A mulher deu em cima, porém excluir ou rejeitar um contato superficial é promovê-lo.
 
Também tomaria cuidado com as restrições que se assemelham falsamente a prevenções. Prevenir não é limitar, prevenir é conversar e aceitar a escolha do outro. Não devemos mandar ou ordenar em nome do amor.
 
Sua estratégia não foi inteligente. Se ele não cumprisse o que desejava, já não servia. Não tinha saída negociável, não gerou conscientização gradual e consistente, tratava-se de um ultimato.
 
No namoro, as proibições são insaciáveis e nada recomendáveis. É excluir nomes no Facebook, depois excluir nomes no celular, depois excluir nomes da lista de festa, depois excluir nomes entre os amigos, até que não exista mais ninguém para pedir colo e nos consolar pelo fim do namoro.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 30/12/2012 Edição N° 17298
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 23 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

POR QUE A NECESSIDADE DE MUDAR O NAMORADO?

Arte de Salvador Dali

“Há três meses me relaciono com um cara um pouco mais novo que eu. Tenho 20 anos e ele 18. Faço faculdade, trabalho e moro sozinha, ele mal se formou no Ensino Médio, trabalha na área que gosta, mas não vejo ambição. Tem atitudes pequenas, adia vestibulares. Isso me incomoda muito. Temos uma boa relação, quando estamos juntos me sinto feliz e vejo que ele também se sente. Não quero ser uma mãe. Penso que se eu impuser minha posição ele pode mudar um pouco sua opinião. Sou egoísta pensando assim? Beijos Noemi”

Querida Noemi,
 
Por que você se apaixonou por ele se já deseja transformá-lo? Seduziu um homem procurando outro?
 
É como um comprar um sapato preferido e reformar em seguida. É como escolher uma roupa de festa e mandar direto para costureira trocar o corte. Não há sentido em fazer golpe de estado se decidiu governar com ele.
 
Mais grave do que a propaganda enganosa é o amor enganado: aceitar para modificar, concordar para negar.É coisa de louco: os opostos se atraem e logo se repelem. Não entendo como a pessoa é perfeita no início do namoro e fica defeituosa de repente.
 
Não é que descobriu os defeitos, é que busca mandar na relação, submetê-lo a uma fórmula que julga certa e ideal, mas que é pessoal e intransferível.
 
Ele não está errado, é você que cobra uma metamorfose sem necessidade. O rapaz não mentiu, você o conheceu desse jeito, tem um temperamento mais leve, solar e descompromissado, oposto de sua obsessão profissional e financeira. Nem é capaz de ofendê-lo - ele trabalha, não vem sendo um vadio.  Qual é o problema? Só porque ele não é seu espelho?
 
Talvez ele não queira prestar vestibular e seguir a graduação. Ou talvez ele tenha seu ritmo, levará algum tempo para se resolver, e precisa respeitar o relógio emocional. Aprendi que nossa companhia amorosa é um fuso horário diferente.
 
Portanto, não chame a atitude dele de pequena. Uma vida pequena pode transbordar. Uma vida grande pode ser vazia. Não ter ambição não é um crime, porém uma manifestação de tranquilidade e conforto.
 
Não deve tratar seu namorado como filho. Muito menos menosprezá-lo, é bullying dentro de casa.
 
Caso ele atendesse seus caprichos, curiosamente terminaria a relação. Toda mulher odeia homem submisso. Homem capacho. Homem para limpar os pés.
 
Você quer mudá-lo ou testá-lo?
 
Ele parece ter mais personalidade do que você pensa: não está fazendo o que pede. A resistência à pressão exige coragem.
 
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 23/12/2012 Edição N° 17292
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

sábado, 15 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"MELHOR AMIGO DE MEU PAI É MEU AMANTE"
Arte de Thomas Eakins

“Eu me apaixonei perdidamente pelo melhor amigo do meu pai. E ainda é casado. Não posso dizer que temos um relacionamento, mas desde que nos reencontramos, há dois anos, sempre que ele aparece a gente fica. Não sei o que acontece. Se o medo dele é do meu pai descobrir e não perdoá-lo, se é medo da esposa se matar ou matar alguém. Penso que seja por isso que ele não se decide definitivamente a se separar, pois ela tem crises e ameaças suicidas. Já pensei até que o medo dele é por ser 12 anos mais nova. Eu realmente não sei. Abraços, Ingra”

Querida Ingra,
 
Você está mexendo com magia negra. Investir em namoro com amigo de pai é pedir para sofrer. Deve conhecê-lo desde pequena, criar a fantasia que estava se guardando, que o amava em segredo, que não resistia em fantasiar quando ele vinha visitar a família; uma doideira só.
 
Não é sadio se envolver com quem nos viu de fraldas. É pedofilia atrasada.
 
É um relacionamento para desacontecer. Parto da seguinte regra: se o caso demora mais de um ano, esqueça. Os amantes se acostumam rapidamente com a clandestinidade, e a clandestinidade é mais estável do que o casamento. Além de tudo, seu companheiro é mentiroso. Vive se protegendo na doença da esposa para não se decidir a favor do divórcio. Não é que ele não se separa porque a esposa pode se matar, clássico engodo masculino. Ele alimenta a enfermidade dela com ciúme de você para nunca se separar. A mulher suicida e perigosa é o escudo da inércia, o atestado médico, o pretexto ideal.
 
Existem muitos homens usando a falsa histeria da mulher para manter um caso por mais tempo. São malandros que forjam um descontrole doméstico para prosseguir com a identidade dupla. Eles se portam como vítimas de um casamento infeliz. Ainda carimbam a imagem de preocupados e generosos, que não podem deixar a coitada na mão. Você confia mesmo neste conto de fadas hipocondríaco?
 
Certamente ele não se interessa em casar com você, ou oficializar qualquer laço público. Procura aproveitar a comodidade e facilidade dos encontros. Jamais vai se curar da esposa doente e completará bodas de ouro. A diferença de idade tampouco é problema. O que lamento é que tenha quebrado a confiança paterna. Sob a roupagem do amor impossível, nem percebeu que elaborou todo o enredo para chamar atenção do pai. Você se aproximou do amigo dele para castigá-lo pela ausência em casa? Está mandando a seguinte indireta: como você não me ofereceu atenção, eu roubei o confidente.
 
Seu entrevero sentimental é um atalho à vingança. O que mais deseja é que o pai descubra o romance para que ele se afaste do melhor amigo e fique mais tempo em família. Coisas de criança orgulhosa, que não sabe como ganhar colo ou conversar sobre suas tristezas.

 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 16/12/2012 Edição N° 17285
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 9 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

BABÁ DE HOMEM

Arte de Sir John Everett Millais

"Fabrício, namoro há quase um ano. Meu namorado comprou um apartamento e vai morar só. O aniversário dele está se aproximando, e pensei em presenteá-lo com algo que ele vá utilizar na nova vida, já que terá que comprar. Adoro decoração e acho tudo lindo. Logo, tenho vontade de presenteá-lo com muitas coisas. Uma das maneiras que meu amor se manifesta é querendo que ele tenha um lugar bonito pra viver. Maaaaaas, tenho medo que ele pense que eu tô querendo morar com ele. Sou doida? Beijos Cissa"

Querida Cissa,

Sou favorável a falar direto o que se pensa, a fazer o que se sente. Sem firulas. Sem cerimônia.

Não sofrer por teorias e achismos. Seja sincera: apresente sua dúvida. Se desagradar, pelo menos teve boa intenção.

Tentar antecipar o que o outro quer é não deixá-lo mais querer. Ele fica condicionado a ouvir sua resposta para dar a resposta. Passa a desejar agradá-la mais do que se expressar.

É um cacoete feminino: ser porta-voz das vontades do casal.

Não vale a pena exercer o tom adivinhatório. É um desgaste. Uma ansiedade insaciável. Ele aponta o dedo e você já corre para decifrar sua intenção.

A perfeição cansa. Repare que nem pergunta o que ele gostaria, já busca adivinhar para mostrar intimidade e ganhar estrelinhas no caderno de ditados.

É nossa mania de fazer surpresa, de agradar, de ser inesquecível.

Mas, sem perguntar, nunca descobrirá o que ele realmente gosta para sempre impor o "que você acha que ele gosta".

Vem ocupando o papel de babá de seu homem. Levando aviãozinho de palavras para boca, mimando exageradamente os caprichos, trocando as fraldas dos pensamentos dele.

Evitar sofrimentos sempre traz constrangimentos.

Deixe ele responder, deixe ele errar, deixe ele confessar o que sonha de aniversário.

Chamo essa predisposição de falar pelo relacionamento de "treino fechado".

Times de futebol realizam escalações secretas esperando surpreender o adversário. Não abrem o coletivo para a imprensa e torcida.

Namorados também exageram nas maquinações sigilosas, escondem o jogo e depois lamentam que não correspondem às expectativas.

Sobre sua questão, serei o mais franco possível: você anseia presenteá-lo com algo para a casa nova porque deseja mesmo morar com ele.

Sua intenção é provar o próprio talento e tato para a decoração. Diz, nas entrelinhas:

— Comigo, seu apartamento estaria em ótimas mãos.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 09/12/2012 Edição N° 17278
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 2 de dezembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

"CONHECI A AMANTE DE MEU NAMORADO"
Arte de Sir John Everett Millais
 
“Olá Fabrício! Acabei meu namoro ontem. Vivi quase dois anos com uma pessoa que hoje não tenho mais certeza de quem era de fato. Descobri uma traição. Mantive contato com a outra garota, que confirmou tudo. Descreveu detalhes que me fizeram ter certeza de que meu namorado (que mora comigo) aproveitava as tardes vagas para vê-la. Viajava 100 km unicamente para encontrá-la. Ele nega. Quero acreditar nele, só que as evidências são esfregadas na minha cara. Desde ontem tento me convencer de que faço muito drama por coisa pequena, mas aí me lembro que essa não foi a primeira vez. Então talvez seja menos drama, e mais verdade. Beijo Manoela”

Querida Manoela,
 
Você cometeu o erro clássico: encontrar-se com a amante dele. Não há maior humilhação. Deveria ter evitado. Deseja se reconciliar, mas vai fracassar. Não há como voltar a acreditar em seu namorado.
 
É comum o fim do relacionamento depois de conversa séria com a outra mulher.
 
Recebeu detalhes que vão fixar a cena da infidelidade a todo instante. Conheceu o rosto dela, o tipo físico, os hábitos, começará a fazer comparações, a reconstituir as desculpas furadas, a desconfiar daquilo que viveu de bom. Verá a triste e inconsolável queda do império amoroso. Não sabe quem ele foi, e pior: não sabe quem vocês foram juntos.
 
Toda a mentira contamina as demais verdades.
 
A dor, acrescida da paranoia, torna-se imbatível. Descobrir a traição é difícil, mas com versão esmiuçada das escapadelas atinge o nível extremo de tortura. Com o roteiro nas mãos, os olhos reprisam automaticamente o filme. Não tem como parar o projetor.
 
Enquanto não identificava cenários e personagens, restava a tênue possibilidade de seguir em frente e tentar de novo. Agora é impossível se enganar, dispõe de atas do romance, atolada em mágoas reais e curiosidades sórdidas. Como justificar 100 km do namorado por sexo? É mesmo para se sentir ultrajada.
 
Só que não caia na lorota da amante. Ela não é mais uma vítima da canalhice dele, disputando o papel de enganada com você. Não mergulhe no corporativismo do sofrimento. Ela possuía a exata consciência de suas ações e dos danos do envolvimento duplo. Aproximou-se com o claro objetivo de ferrar sua relação. Como talvez seu namorado deu um fim para a história paralela, cumpriu a chantagem de contar tudo. Criou aquele apocalipse: se não ficarei com ele, ninguém ficará.
 
Não seja ingênua. Ela veio jogar duro. Não realiza caridade ou procura alertá-la dos perigos da desonra.
 
Como último ato, explique para seu ex-namorado a diferença entre honestidade e desespero. Ele pode confundir os dois.
 
Honestidade é avisar na hora em que as coisas acontecem, já o desespero é avisar tarde demais quando não tem como esconder.
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 01/12/2012 Edição N° 17271
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 25 de novembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

AMOR DE PESSOA
Arte de Tony Cragg
“Carpinejar, socorro! Conheci uma mulher pela internet, houve muitas conversas, ela estava extremamente empolgada sempre com a situação, assuntos diversos, inclusive intimidades. Finalmente fui conhecê-la pessoalmente, porém a empolgação dela parece que desapareceu, rolaram uns beijos e carinhos de ‘adolescente’, fiquei na casa dela, conheci a família. Em público, nada além de segurar as mãos discretamente. Segundo ela: ‘Sou um amor de pessoa’. Mas ela se afastou e não sabe explicar. Como devo reagir sem ser um chato? Como manter a história sem perder para seus medos? Abraço Xico”

Querido Xico,
 
Quando uma mulher nos chama de amor de pessoa, ela já não tem nenhum interesse.
 
Amor de pessoa é o mesmo que chamá-lo de simpático, é um esforço educado. Não traduz encantamento, atração, enamoramento.
 
Amor de pessoa é criação de tia, tem uma carga assexuada.
 
Amor de pessoa é uma declaração de amizade.
 
Amor de pessoa é dizer que a família lhe adorou, só que não houve química.
 
Amor de pessoa é a afirmação de que não ficarão juntos, apesar dela gostar de sua companhia.
 
Não existe como namorar por antecipação, por dote na linguagem. Impossível acertar um relacionamento antes de se conhecerem.
 
Sei que vocês tiveram uma longa troca de mensagens e de conversas virtuais. Sei que confessaram suas vidas como se fossem feitos um para o outro.
 
Mas escrever é amizade, só se encontrar pode ser amor. Escrever é vontade de ser feliz, não significa felicidade.
 
A palavra não é fiadora da eternidade.
 
Ela criou uma expectativa contigo que não se confirmou. Ficou desapontada com a própria idealização. Ainda tentou experimentar a possibilidade com beijos e carinhos.
 
É muito natural a frustração após demorado e sonhado envolvimento. Não é problema seu, não é fácil mesmo criar uma ligação apaixonada de pele, de rosto, de beijo.
 
As coisas são simples: quem ama não se explica e permanece ao lado, quem não ama também não se explica porém se afasta.
 
A falta de explicação no caso é que ela desejava evitar a grosseria do fim abrupto. Está constrangida das promessas românticas que escreveu e não levou a cabo. Prometeu namoro e não contou com resposta do corpo.
 
Todos afirmam que a aparência não faz diferença, faz sim, escolhemos nosso par por aquilo que ele representa.
 
Ela tem o direito de se desagradar. De voltar atrás. De recuar. De mudar de opinião. Não tem como convencer alguém a gostar da gente.
 
O melhor para nós talvez não seja de nosso agrado.
 
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 26
Porto Alegre (RS), 25/11/2012 Edição N° 17264
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 18 de novembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

FELICIDADE DO NAMORO É PURA APREENSÃO
Arte de Mark Rotho

“Tenho 26 anos, comecei a namorar recentemente, tudo está acontecendo rápido. Não me sentia insegura no início, pois não admitia nem a mim o que sentia. Mas a partir do momento que eu assumi, que a “sociedade” ficou sabendo do relacionamento, bateu aquele medo de abandono. Acredito que isso é coisa da minha cabeça. Ele é súper atencioso em todos os momentos, mesmo quando não estamos juntos. Mas não compreendo essa insegurança. Um aperto no peito e minhocas na cabeça. Abraços Julieta”

Querida Julieta,

Apaixonar-se é isso: planejar o dia inteiro o que dizer e não falar nenhuma palavra ensaiada durante o encontro; é decorar uma vida sozinha para no fim improvisar a dois.

Previsível o que está passando. Procura investigar se seu par pensa exatamente igual, se sente exatamente igual, se deseja exatamente igual para não parecer tola. Confessa o passado por dias sucessivos (mais do que ofereceu a qualquer pessoa antes), e nunca a conversa é suficiente para se acalmar. Desliga o telefone e já bate a vontade de ligar de novo. Trata-se de um desespero prazeroso, pois tem como partilhar os sintomas com ele.

E acontece tão rápido que não dá para preparar resumo. A felicidade é pura apreensão. Mergulha o corpo em completo desequilíbrio, como se estivesse andando num colchão. Predomina a suspeita de que ele deixará de gostar a qualquer instante, ou que descobrirá quem você realmente é e perderá o encantamento.

O torpedo demora, os reencontros demoram: cada ato insignificante do cotidiano ganha o suspense de uma tragédia.

Quando você assumiu o relacionamento é que se conscientizou dessa fragilidade. Entendeu que ele pode machucá-la e desapontá-la. Antes restava a chance de desaparecer e não dar satisfação. Hoje todo mundo foi informado do envolvimento.

Formalizar o namoro é trocar um medo pelo outro. Antes tinha o medo de que ele não estivesse apaixonado, agora tem o medo de ser abandonada.

Não existe remédio. A insegurança é eterna. Quem tem certeza não ama mais.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 21
Porto Alegre (RS), 18/11/2012 Edição N° 17257
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 11 de novembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

MALABARISTA DE MOTÉIS
 
Arte de Picasso

“Tenho 30 anos, sou casado há seis com a mãe de dois garotinhos; namoro há três com uma mulher linda e, no momento, estou altamente balançado por uma advogada grávida de gêmeos. Estou sem saber o que faço. Meu casamento, meu namoro e o novo lance. Às vezes penso em internação. Algo do tipo: viciado em mulher para tratamento por 90 dias. Também penso que este sou eu e ponto final. Abraço forte! Roberto”

Querido Roberto,
 
Não se interessa em se aprofundar num relacionamento, mas conciliar vidas diferentes e mostrar que é capaz de cuidar de um harém como ninguém. Quanto maior a dificuldade e desencontro de horários, mais poderoso e viril você se sente. Um malabarista de motéis. Um executivo da intimidade.
 
O jeito que conta sua história não é triste, como se fosse um problema ou uma tragédia a resolver. Por baixo dos panos, elogia a própria versatilidade, o método de organização, a disciplina dos segredos, o aproveitamento do tempo.
 
Descreve sua rotina de três mulheres com descarado orgulho, com a naturalidade de um sultão. Não está pedindo um conselho, mas se vangloriando do excesso de opções, notou?
 
É óbvio que está completamente equivocado, e nem um pouco ressentido e disposto a alterar sua natureza compulsiva.
 
Recomenda sua internação de brincadeira, adotando o status de viciado em sexo. Algo como “me interna, não tenho conserto, sou mulherengo”. Está desligado do que as namoradas vêm pensando ou sofrendo. Não tem empatia com o dilema, crise de consciência, censura moral.
 
Vive na superfície, absolutamente desinteressado das notícias do fundo e de suas reais intenções. É uma superioridade que esconde fraquezas e medos.
 
A onipotência é um traveco. Você apresenta um lado feminino excessivamente acentuado que tenta abafar com um excesso de macheza. A caricatura disfarça a delicadeza dos traços.
 
Eu queria ver se fosse contigo. Se fosse traído pela sua esposa e cuidasse dos dois filhos enquanto ela se divertia com o outro, ou se fosse o pai dos gêmeos da amante que procura diversão com um terceiro.
 
Este é você, vírgula.
 
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 11/11/2012 Edição N° 17250
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.

domingo, 4 de novembro de 2012

QUASE PERFEITO — Consultório sentimental de Carpinejar

VIUVEZ POR ALGUÉM VIVO
Arte por De Chirico

“Tive um relacionamento que começou em 2004 e terminou em 2011. Foram muitas idas e vindas, quase enlouqueci. Terapias, remédios, emagrecimento e distúrbio hormonal fizeram parte da minha vida. No último término, decidi ficar bem, deixar a vida me levar, mas não está sendo fácil. Engordei dez quilos, me sinto cada dia mais infeliz. No próximo mês, faz um ano que estou solteira. Conheci pessoas que me fizeram balançar e se uma delas quisesse me levar a sério eu não estaria tão mal. Mas o amor esta banalizado, o carinho e o respeito com o próximo não existem mais. Abraços! Jane”

Querida Jane,
 
Você é fiel ao relacionamento mesmo separada.
 
Não se permite trair o seu marido. Incorporou a personalidade dele a ponto de não saber mais qual é a própria.
 
É como viuvez de alguém que está vivo por aí. Não arranja ninguém porque não tolera a ideia de que o outro possa ser melhor e ocupar a majestade da ausência. Não aceita ter sofrido em vão por um sujeito que não merecia, então perdura o sofrimento para glorificar a perda (uma dívida feita somente de juros).
 
Quando um homem se aproxima, já arruma uma série de desculpas para evitar intimidade.
 
Ou porque é indiferente ou porque é grosseiro ou porque é apressado ou porque não tem bom hálito ou porque palita os dentes.
 
Nossa, é exigência em demasia. Não há como ser aprovado no concurso público de seu coração.
 
Permanece sabotando interessados sem perceber. É um boicote involuntário. Sempre encontra algum defeito no próximo pretendente, sempre acha alguma falha imperdoável que impede a relação, sempre cria restrições para não se apaixonar.
 
Não sai para valer, cria júris. É capaz de perdoar todos os problemas de personalidade do ex, mas jamais admitir qualquer escorregão de quem se aproxima.
 
A questão é que não pretende superar o luto. Transforma a ruptura na pior fase de sua vida (nem terapia, remédio, lugares diferentes, nada aplacou a vontade de reatar). Há um exagero emocional em seu depoimento: “quase enlouqueci, engordei dez quilos, quero sumir”.
 
É como se quisesse provar que tentou tudo e fracassou, que o amor antigo é mais forte do que sua força de vontade.

Mentira! Sequer batalhou um pouco, não começou a se arriscar, não abandonou o altar fúnebre, não largou a data do término. Vem contando os dias do divórcio tal viciado enumerando a abstinência. Desde o princípio, não enxerga a solteirice de forma positiva.

Censura sua felicidade. Prefere sofrer o conhecido a experimentar uma alegria inesperada.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 04/11/2012 Edição N° 17243
Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.