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quinta-feira, 3 de março de 2011

DESPEDIDA DA REVISTA CRESCER


Quarenta e duas histórias em quatro anos de colaboração. É o fim de minha coluna Primeiras Intenções na Crescer. Abaixo, a última crônica (março/2011).

A partir de abril, não estarei nas páginas finais da revista. A direção alegou mudança no projeto gráfico e editorial.

Eu me despeço feliz: fui falar de minha família e ganhei toda uma família de leitores.

Agora, mande sugestões para
PPerim@edglobo.com.br


ASSOMBRADO PELA VIDA

Arte de Gerhard Richter


No bairro de minha infância, era obrigatória uma casa mal-assombrada. Com heras cobrindo os muros, portão enferrujado e som envenenado de vento e vidro partindo do quintal.

Se não havia uma candidata, a gente criava. Bastava uma residência estar abandonada, gemendo, fechada, ou para vender.

Assim que a imobiliária colocava a placa do negócio, o ponto passava a servir nossa especulação sobrenatural.

A construção tinha que atender alguns pré-requisitos. O maior deles: ser caminho da escola. Para facilitar o registro dos mínimos movimentos e gerar fofocas: vultos nos arbustos, janelas batendo e papéis voando. E também necessitava de gatos selvagens ou vira-latas raivosos em seu território, que avisariam da presença dos demônios com as pupilas mercúrio cromo. E alguém deveria ter morrido nela recentemente, por velhice ou fatalidade, para justificar a dívida com o além.

Nem sabe o que eu vi' costumava ser a senha de nossa chegada na escola. A curiosidade tomava a maior parte das conversas do recreio e provocava uma enxurrada de bilhetinhos por debaixo das mesas.

O coração acelerava só de passar perto do endereço, ou de tocar no assunto. Montávamos planos para a invasão. Durante a merenda, traçávamos rotas de entrada e de fuga usando pão, colheres e bolacha recheada. Havia uma coragem receosa, misto de excitação e dúvida.

Hoje a turma seria confundida com um bando de assaltantes, terminaria com a cabeça raspada na Fase, fichada na Polícia. Mas na época existia uma tolerância dos vizinhos; perdoavam nossa pouca idade: “ah, são apenas meninos!”. Pisávamos em território alheio com lanternas e mochilas. Invadíamos quartos e salas. Não foi uma casa que entrei sem permissão, mas várias, incontáveis. Ou pelas janelas ou pelos telhados. Com meu batimento na garganta, comum colega me dando cobertura do lado de fora.

Desse tempo, compreendi que adulto não soluciona o medo de criança, por querer terminar logo com o susto, dizer que não é nada, que é uma bobagem, que não vale sofrer à toa. Pai e mãe apenas aumentam o terror desprezando as perguntas e a cumplicidade.

As crianças pretendem curtir o medo primeiro, desenvolver o suspense. O medo não é uma ameaça, é um modo de fazer amizades.

Elas resolvem os pânicos falando deles. A terapia consiste em tão-somente partilhar medos. A gratuidade dos medos. O prazer dos medos. A delícia dos medos.

Um medo coletivo é melhor do que os medos individuais, castrados e reprimidos.

Exercitávamos a ansiedade com minúcia e fantasia. Às vezes contávamos histórias de terror à luz de velas somente para sair gritando. Às vezes alucinávamos em equipe.

Meu pavor sempre teve companhia para amadurecer.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

MÃEZINHA

Arte de Pierre Bonnard

Minha mãe quebrou um pote de vidro de biscoito. Daqueles imensos, neto dos baleiros coloridos do armazém, com um aterro de farelos ao fundo que contentaria um cardume.

Eu não como biscoito. Não pego biscoito. Não sei qual o gosto do biscoito, se era de polvilho ou de maizena. Estava a dezenas de quilômetros do tropeço doméstico, tenho 38 anos, minha barba cresce grisalha.

Tanto faz, a mãe encontrou um jeito de me incriminar:

- Quebrou porque alguém não fechou direito!

Mesmo distanciada de mim, mesmo em área rural, aliviou sua responsabilidade e insinuou a molecagem. Teria sido eu quando a visitei em data incerta e hora misteriosa. Não adianta rebater:

- Pô, não tem sentido.

Não há justiça para mãe. Quando o filho é generoso, ela sempre dirá que é culpado. Se ele é criminoso confesso e presidiário veterano, dirá que é inocente. Não é que o filho faz o contrário do que a mãe pede, a mãe fala o contrário do que o filho faz.

Em sua concepção, ela não quebrou o pote, alguém alterou sua rotina impecável. Eu teimei em mexer nos seus mequetrefes altamente vedados e organizados por tamanho, cor e limpeza. Baguncei o santuário, cismei em entrar na cozinha.

Ela não tem prova, tampouco precisa, sobra imaginação na memória. Qualquer acidente é descuido de terceiros.

Caso realmente tivesse espatifado o pote, o resultado não seria diferente, anteciparia que sou distraído e mantenho a triste mania de segurar as coisas pela tampa.

- é claro que ela derrubou o pote porque segurou pela tampa mal fechada por ela mesma e não colocou em prática o que costumava me repetir -

Mas mãe não aconselha, manda. Sua isenção é uma façanha. É assim desde a infância. A maionese desandou nunca por sua distração, eu é que fiquei conversando. O gás acabava nunca pelo seu uso, é que suas crianças exageravam no banho.

Crueldade materna é conversar com o filho como se ele não existisse. É o emprego da terceira pessoa. Assombração da terceira pessoa. Um recurso mais eloqüente do que o sujeito indeterminado.

- Quem foi que comeu o bolo? Quem foi que sujou o sofá? Quem foi que não lavou a louça?

É tudo de modo indireto, oblíquo, como se você fosse um outro a delatar que foi você.

Eu pedia desculpa para minha mãe antes que ela terminasse de cobrar. Por hábito. Por medo. Talvez por preguiça. Por saber que ela vai criar o inferno até encontrar um bode, um cabrito, uma vaca, um cavalo expiatório. Não suportava sua investigação incansável pelo celeiro dos quartos.

Em toda família, há uma cobaia esperando a lista de chamada. Costuma ser o caçula, fui eu.

Minha mãe não entrou em terapia, não entende o que é terapia, ainda é do tempo do Serviço de Orientação Educacional.

Teve que criar, sozinha, os quatro filhos. O que significa que nada será mais grave do que isso - desnecessário contar sua versão dos fatos.

No momento em que é desmentida, põe o remedinho cardíaco debaixo da língua. Não dá para continuar, já estou abanando o jornal novamente arrependido.

Nem cumprimento a mãe com oi ou olá, já chego em sua casa com "desculpa, tudo bem?".




Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 111, Número 207
Fevereiro de 2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

ELE? EU!

Arte de Philip Guston


Haverá um período em que o filho vai cansar do que representamos. É tão cansativo concordar sempre, tão chato alguém que tem sempre razão. Ele irá combater a nossa figura com a ironia que dispõe, porque acredita que temos culpa naquilo que ele está sofrendo.

A relação filial depende do término da idealização. Não somos os melhores pais do bairro, somos os pais que podemos ser.

É o que chamo de fim do feitiço do bebê, daquela relação harmoniosa de que o pai e o filho são a mesma coisa.

O desencanto virá, é uma previsão inadiável, surgirá com o nosso desemprego ou quando nos separamos ou quando cometemos uma deselegância em público. Não demora, a decepção chega, esteja pronto, ninguém é perfeito a ponto de esconder os próprios defeitos durante a vida inteira.

O filho não expressará sua frustração somente a partir de insultos, manhas na mesa e choro ao dormir - sintomas óbvios. Faz também de formas mais secretas e que muitos nem identificam. Uma delas é, de repente, gabaritar as provas da escola e passar de aluno C para A. Pensaremos que ele finalmente encontrou a vocação, que agora decolou para Harvard. Cuidado, grandes alunos estão escondendo grandes problemas. São os mais inteligentes, disfarçam os pontos de críticas para conquistar a indiferença. Como não tem desempenho ruim na escola, parece que está maravilhoso. Os conceitos tornam-se álibis para cultivar tiques e fobias em paz.

Já ouvi casais dizendo diante do orgulhoso boletim do filho: "Não preciso mais me preocupar com ele!". Sim, precisa se preocupar, agora mais do que nunca. O acerto não é isolado. Veja se ele não anda antissocial, se não está falando baixo, se procura contar seu dia?

O que é bom não é de todo positivo, o que é ruim não é de todo negativo.

Assim como é provável que o filho, nalgum momento, largará de nos chamar de pai e adotará o nosso nome como referência. Cheira a desamor, tampouco é; trata-se de um distanciamento necessário para criar sua identidade. Vicente, meu filhote, inventou de me caracterizar como "Ele". No começo, me magoou. Depois larguei de corrigi-lo. Pai é uma palavra difícil. Em vez de defender o meu desapontamento, é hora de ajudá-lo. Esclarecer que não sou seu centro do mundo, que ele está certo em procurar seus gostos e empatias fora de mim.

Já fui menino, é um horror amadurecer, vem os pelos, a voz muda, nos sentimos feios, não controlamos a sexualidade sequer entendemos os hormônios, existe o receio de que os outros também notem nossa transformação. É uma solidão que somente a timidez suporta.

Para o filho não ser um monstro não podemos fingir que somos heróis.




Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 111, Número 206
Janeiro de 2011

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ARROZ DE MARINHEIRO

Arte de Miró


Alguns desenham caveiras, outros corações.

Nos momentos de distração, rabisco estrelas em meus caderninhos. Preencho os cantos das páginas, é automático, paro um pouco e já estou fazendo a série de pontas. No saguão do aeroporto. No escritório. No quarto. A caneta é um telescópio insaciável.

Minhas estrelas são primárias, infantis, rabiscos de criança. Não é possível localizar as Três Marias na constelação de sinais. Não amadureci o traço. É engraçado, não havia me detido para investigar da onde vinha a mania.

E lembrei. No segundo ano, invejava os melhores da classe. Escreviam redações impecáveis, não sofriam qualquer crítica e reparo. Recebiam um "ótimo" com estrelinhas - três em sequência no alto da folha com direito a parabéns da professora Ione.

Formavam a fileira da frente da classe, com aquela pose prepotente de fotografia da primeira comunhão. Ganhavam beijos e paparicos da tia, buscavam o apagador e o giz na secretaria e funcionavam como coro grego quando alguém não sabia responder uma pergunta no quadro-negro.

Eu ansiava pela cotação máxima, dada apenas para quem não cometia nenhum errinho, nenhuma vírgula fora do lugar, nenhuma expressão com grafia trocada. Tinha que ser dez mesmo. Não havia exceção.

Raro para a turma, impossível para mim com problemas de dicção. Tropeçava ao capturar os vocábulos pelo som. As palavras tortas vinham pelos ouvidos e as certas dormiam no dicionário. O ch ou o x e o s ou ç me pregavam peças.

Não me faltava imaginação, acho que sobrava, a dificuldade é que rasgava a roupa ao atravessar o arame farpado da gramática. Tinha boas ideias para driblar a absoluta ausência de aventura. Ao falar das férias, descrevi um delicioso veraneio em cima do telhado de casa. Soou estranho diante das tradicionais experiências nas praias do sul de grande parte dos alunos.

Minhas notas não subiam de 6. Não arrecadava exclamações. Um magro e regular 6 em tinta azul. Os irmãos Rodrigo e Carla zoavam do meu histórico. Suas provas estavam todas carimbadas de louvores, lembravam a legião de estados na bandeira do Brasil. Eu me via como arroz de marinheiro da família, que terminava rejeitado da panela.

Cansado da humilhação, larguei a televisão e o futebol, passei a limpo os cadernos, comecei a ler um livro por semana. Estudei como um desvairado, consultando as enciclopédias nas horas vagas. A professora reparou na mudança de comportamento, no maior envolvimento em sala. Questionou até se não gostaria de sentar mais na frente.

Mas a ampulheta esvaziou outubro, novembro, dezembro, e nada de atingir 10; estava desesperado.

Na despedida do ano letivo, a professora devolve a última redação do ano. Entrega o exercício chamando estudante por estudante. Ela me estende a folha, vejo que meu conceito é 8. Baixo a cabeça. Com o dedo indicador, Ione levanta meu queixo.

- Olha aqui!

Era um 8 com três estrelinhas.

O esforço sempre foi minha inteligência.



Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 111, Número 205
Dezembro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

NÉCESSAIRE

Arte de Robert Motherwell


Coitada da minha filha. Talvez a mais perigosa manifestação de ciúme seja a do pai diante de sua menina. Porque não é um ciúme óbvio, amoroso, reversível, de casal, que ficamos envergonhados no momento em que sentimos; podemos brigar, quebrar pratos e exorcizar as fraquezas.

É dissimulado, autoritário, inconsciente, orgulhoso e certo de que não é ciúme, mas cuidado. E o outro lado não será a esposa ou a namorada capaz de se defender, e sim uma criança insegura e dependente de suas palavras. Não existirá igualdade no contraponto, honestidade no duelo.

Trata-se de um massacre intelectual com enormes prejuízos para a estima. A criança achará que faz tudo errado, que não tem discernimento, que é prematura e propensa a errar, insuficiente para conduzir a própria vida.

O ciúme paterno é uma violência, feito de chantagens e ordens. Vem disfarçado da imunidade do amor, o que confunde os papéis e piora o entendimento.

Todo agrado de um menino na escola e o pai já vê que a filha será explorada. Toda saída com as amigas e o pai já alucina que será induzida a drogas. E sofrerá com acampamentos, excursões, festas, antevendo tragédias e repassando mandamentos para que ela se proteja.

A dificuldade é que ele não assume sua neurose, transmite a ideia de que a filha não obedece e está facilitando. Põe a culpa nela, por não seguir a loucura das regras. Castiga, tolhe e censura suas atividades e pensamentos. Só permaneceria calmo se ela não saísse do quarto. Ou do ventre da mãe.

Não permite que ela tropece ou se engane, não admite que ela experimente e diga o que gosta. Em vez de orientar, proíbe, com a desculpa de que sabe o que fala e que tem experiência. Ou simplesmente por se considerar acima de suspeita e de que não pode ser questionado.

Isso não é paternidade, é possessividade, doença. É não tolerar que a filha ame o mundo mais do que o sobrenome. Quando pai banca Deus acaba virando o diabo.

Eu percebi o quanto fui sinistro com a Mariana e ainda me envaidecia.

Meu primeiro ataque aconteceu na cozinha, quando Mariana, aos cinco anos, desenhou a família.

Desenhou a mãe, eu, o hamster e... um colega.

- Quem é esse, Mariana?
- É o Pedro...
- Pedro? Da onde?
- Da escola, é lindo, né?
- Ele não é de nossa família!

Ela desabou em choro e soluçava.

- É meu namorado, é meu namorado.

Eu, grosseiramente, peguei a borracha e apaguei a figura. Não falamos mais no assunto até que busquei a filhota na escola e fui limpar sua bolsinha. Estranhei a presença intrusa de uma escova de dente ao lado da escova dela. Havia durex com um nome: Pedro!

Para quê? Briguei com a diretora, gritava avermelhado, enlouquecido, babando. Argumentei de que duas escovas juntos era casamento, de que deveriam fiscalizar melhor os alunos e não misturar os pertences.

Coitado de mim. Minha filha não merecia tanta covardia.



Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 132, Número 203
Outubro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

PSICOSE

Arte de Seymour Chwast


Os conselhos maternos são horríveis. É complicado apagá-los da cabeça. Adoçam a língua como um AAS infantil. Não resolvem a dor, simplesmente acalmam pelo efeito psicológico. São mandamentos que ecoam por todas as fases de nossa vida, sem expirar, com renovação automática de contrato.

Quando uma mãe fala, a respiração muda de frequência para guardar o apelo. A entonação cristaliza a frase. Demoramos a definir o que é conselho do que é ordem do que é simpatia do que é neurose.

Foram muitas advertências dadas pela Maria Elisa, minha mãe: não sente na pedra fria, não apanhe vento, cuidado ao atravessar a rua, retribua uma gentileza, reze ao chegar em casa, a primeira água do dia é benta, não coma melancia para nadar, não ponha mais do que deseja no prato, não tire fotografia de ninguém dormindo. Coisas óbvias e coisas estranhas misturadas, que não questionei, não argumentei, formavam desígnios divinos.

Uma delas é use sempre gasolina aditivada. Ouvi pela primeira vez aos nove anos e nem pensava em dirigir. Retomou o pedido aos 18, no instante em que recebi a carteira de motorista. Conclui que ela repetiria a sentença no intervalo de nove anos. Nem cismei em replicar e entender; atendi, de pronto, à sua reivindicação. Parecia um suspiro de leito de morte, conhecimento secreto de templários, juramento que renderia uma maldição caso desobedecesse.

Durante minha história, não empregava gasolina comum muito menos álcool.

No posto, entregava a chave e dizia com galhardia:

- Gasolina aditivada, por favor, enche o tanque!

Partilhava da aura de que tinha uma informação privilegiada. O combustível faria meu carro correr melhor e evitaria piratarias.

Mas minha namorada Cínthya estragou tudo (a vocação da mulher é contrariar a sogra). Teimou com a obsessão, como uma criança dissecando um pássaro. Argumentava que o preço não valia a pena, bem mais caro, que não havia lógica possuir um veículo flex e desprezar a vantagem.

Eu me apequenei, pois não desfrutava de explicação convincente, somente a de que minha mãe mandou. Seguia o método por três décadas. Em nenhum momento, suspeitei que estava errado. Fiquei brabo, enfurecido, tomei uma reação desproporcional:

- Minha mãe não me enganaria, ela disse e pronto!
- Ok, não me meto mais... E Cínthya chorou.

O único momento em que contrariamos nossa mãe é quando a namorada chora. Arrependido, prometi que iria tentar. Já reagia com a ansiedade de um alcoólatra avisando que não beberia mais gasolina aditivada.

Ela tratou de encerrar o dilema.

- Nada de mentiras, vamos a um posto agora.

O frentista se aproximou, olhava para ele, olhava para Cínthya, o frentista olhou para Cínthya, Cínthya olhou para o frentista, olhei para Cínthya olhando para o frentista olhando para mim.

- O que vai aí, senhor?
- Fala logo Fabrício. Fala... Você consegue.

Escoava da minha memória a mãe empurrando o balanço na praça, me levando ao médico para retirar curativo, me buscando na saída do colégio. Traía a dedicação do passado. Uma sucessão de lembranças virava ressentimento.
Do fundo do estômago resmunguei:

- Por favor, R$ 50 de álcool.

A namorada aplaudiu, cantou Beatles, festejou o empenho. Vidrada em sua alegria, não reparou quando abri a porta correndo e arranquei a bomba do frentista.

- Não mexe na minha mãe!

Não tocamos mais no assunto. Fingimos que apenas atravessei uma crise. Agradeci o silêncio.

Num dia ensolarado, acompanhando a mãe num passeio, descobri que ela nunca utilizou gasolina aditivada. Mas era tarde demais para mudar.




Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 135, Número 202
Setembro de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

REVOLUÇÃO

Arte de Franz Kline


- Você tem que ensinar ironia para sua filha, me disse o amigo Gustavo.
- Por quê?
- Ela precisa se defender do mundo.
- Não, repliquei. Ironia ela está farta de saber.

O adolescente tem ironia de sobra. Já é sarcasmo. Ironia para superar a separação dos pais, os desentendimentos dos horários, a obrigação dos temas e as escalas para dormir e voltar. Ironia para suportar as reclamações do trabalho dos adultos, a falta de tempo, as sucessivas renúncias inventadas para cobrar o amor de volta.

Mariana de 16 anos conhece de cor e salteada a ironia. Depende disso quando reitero pela terceira vez o que ela deve fazer e peço para ela repetir minha frase para ver se realmente a ouviu. E percebi que não converso há muito tempo com ela, só quero que ele repita as frases. Ela virou aspas da minha cegueira. Não é um diálogo, são ordens. Eu percebo que ela escutou, mas reforço com o objetivo de manter a autoridade, para mandar nela. Ela pressente a tirania e não responde.

Desde quando repetir é educar? Envelhecemos não quando ficamos surdos, e sim quando acreditamos que o filho é surdo e o torturamos com a insistência das perguntas.

Já arrumou seu quarto? Já estudou para prova? Já tomou banho? Que bagunça é essa em cima da mesa? Onde está meu carregador?

Era uma vez não existe na adolescência, são inúmeras vezes uma única ameaça. É um massacre. Um bate-estaca. O que era um pedido transmuda-se em mandamento e depois em chantagem e, no fim, numa briga de portas trancadas. Somos contrários à decoreba na escola, porém não largamos de difundi-la em casa.

Eu tenho que ensinar ingenuidade para minha filha. Ingenuidade no amor. Ingenuidade no trabalho. Ingenuidade nas amizades. Os jovens estão sobrecarregados de pessimismo, receberam nossas desilusões de herança.

Revolução não acontece com cinismo, política talvez. Revolução é feita com ingenuidade. É acreditar mais do que desconfiar. É ir para frente por uma causa ou um sentimento, não prevendo se vale a pena ou se levarão alguma vantagem pessoal. Que fracasse com convicção, mas experimente os próprios desejos. Toda experiência será sempre uma situação de risco.

Ironia não é sinal de maturidade, muito menos ingenuidade é prova de imaturidade.

Porque logo mais minha filha não começará um relacionamento sem a certeza de que dará certo. Não se aproximará de ninguém ao antecipar os possíveis foras e enganos. Não escolherá a carreira predileta devido à instabilidade. Excesso de cautela não é prevenção, é medo.

Nossos filhos não confiam em mais ninguém, nem nos pais, sequer neles mesmos. Foram treinados a não conversar com estranhos, a não fornecer dados pessoais, a não expor suas crenças. Não se arriscam com a seriedade que o idealismo pede. Serão inconsequentes, não corajosos.

Por favor, minha filha, não me escute, vá viver sua vida com vontade.



Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 119, Número 201
Agosto de 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

OUVINDO CONCHAS

Para Cínthya Verri
Arte de Miró


Uma amiga acabou de ser mãe. Frase engraçada. Mãe é nunca acabar de ser.

Mirian mudou completamente o rosto. Está mansa, ela que é conhecida pela rondas entre nomes e novidades. Permanece no mesmo assunto sem nenhuma indisposição. Aguarda que eu termine a pontuação para comentar algo. Fico até intrigado, logo ela afeiçoada à sobreposição de temas e gula insaciável por fofocas.

Achou em si uma serenidade que poucos conhecem. A maternidade é a mais rigorosa espera que há na vida. Depois dela, a gente percebe que o amor platônico da adolescência era superficial. A distância entre as gerações era superficial. Qualquer frustração era superficial.

Uma ilha deserta torna-se insignificante diante do oceano ilhado.

Não estou me referindo à gestação, aos nove meses, à laboriosa arquitetura do quarto, das roupas, da véspera.

A paciência começa agora quando Artur nasceu. É conviver com alguém que não expõe diretamente o que procura e exige nossos rompantes de adivinhação. O bebê se expressa pelo choro. E o choro não é sempre igual. Ele se comove pelo riso, pode ser cócegas. Existem tantas nuances em seus lábios como o leque para o teatro Nô ou as castanholas para a dança flamenca.

Toda mãe gostaria que o filho já falasse. Mas não adianta: ele não fala. Não irá pedir leite, não irá comentar que dormiu mal, não recomendará que se desligue a televisão ou que os pais parem de drama. Não dá para saber se está doendo, se está confortável, se está aquecido, se está com fome, se está incomodado. Deve-se tentar uma coisa e outra, as coisas ao mesmo tempo. Pega-se no colo para conferir a reação, deita-se no berço para controlar o movimento.

É possível montar um histórico dos sinais. Debruçar-se em seus braços indefesos, prevendo uma sequência, um ritmo, uma melodia. Formular uma continuidade dentro das necessidades. É possível criar horários, colher hábitos e condicionamentos, porém nunca ter certeza absoluta do que ele sente. É dormir com a incompreensão do cuidado: Será que ele vive feliz? Trata-se de uma solidão curiosa, uma espécie de incomunicabilidade comunicativa: oferecer tranquilidade ao não desfrutar da própria tranquilidade.

O desejo é ouvir um par de vocábulos para se acalmar. Um aviso de que corremos no caminho certo, de que somos vocacionados; um pouco desajeitados, mas vocacionados.

A vontade é que a criança declare publicamente que é amada.

Não acontece, não vai acontecer.

Pela primeira vez, somos absolutamente incompetentes. Tanto faz se a mãe é aeromoça ou diplomata e conversa em cinco idiomas. Temos que recuar aos gestos e inclinar o corpo para atender uma urgência. Recuar para a absoluta falta de palavras.

O bebê está encarando e pedindo uma solução. E agora? Não é adequado chamar a avó, minuto a minuto, para nos acudir. E agora? Experimenta-se um misto de precipitação e generosidade. Talvez a precipitação seja generosa. Talvez seja loucura de nossa parte, ansiedade, inventamos casualidades e o menino apenas se espreguiça na colcha fofa.

É fazer um gesto e ver que não é aquilo, armar um novo gesto e não ser aquilo. A mãe recente é uma mímica acenando com os cílios para aviões.

Mirian irá se acostumar com o silêncio. Cada vez mais. Descobrirá que ouvir não é entender. Entender depende do esforço da imaginação. Seu filho já tem o que precisa: uma boca para ler.




Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 127, Número 200
Julho de 2010

segunda-feira, 7 de junho de 2010

1, 2, 3 E JÁ!

Arte de Peter Blake


Admiro a espontaneidade dos filhos.

Eles fazem 1 e 2, especialmente o 2, em qualquer lugar: numa loja, no restaurante, no avião, no ônibus. O estômago apontou e não tomam frescura, procuram o banheiro próximo e voltam com rosto alegre e recomposto. Não comentam nada, mas pressinto o despojamento e a vida longe de sacrifícios e renúncias, de medo e boicote. Não castigam o corpo, muito menos maltratam o ciclo por pudor.

Eu não, demorei muito para falar do assunto. Ainda mais para fazer o assunto fora de casa.

Atravessei três décadas evitando cocô em locais públicos. Não ria, por favor, é sério. Temia de vergonha, tremia que alguém visse ou comentasse o fedor, que fosse denunciado numa festa ou que um desconhecido pensasse que estive ali somente para minhas necessidades. Claro que estava no banheiro para necessidades, mas a loucura consistia em acreditar que as pessoas reparavam em mim. Experimentava viagens cansativas e aguentava uma semana de prisão de ventre, até regressar aos azulejos azuis e terapêuticos do meu toalete. Relaxava apenas em meu toalete, a porta chaveada com duas voltas.

Não mudava de opinião, ainda que ameaçado pelo número 3, ainda que atravessando o Oceano Atlântico, suava frio e permanecia com a coerência educada. Na volta, já estava irritado, ilegível para conversa, tamanho o desespero e o bloqueio.

Não era problema de limpeza, da tampa seca, do pavor de micróbios, pois não sou famoso para ser Michael Jackson, celebridade é que coleciona fobias de contaminação e usa máscara e cuecas descartáveis; guardava receio da fofoca.

Há três anos que me libertei do condicionamento e abri exceção para cagar (ai, disse!) em hotéis. Tranquei-me no quarto por cinco horas lendo as revistas de programação de tevê. Quando atingi a grade dos canais abertos, o milagre aconteceu. Passei por fases de transição, óbvio, e consegui me acostumar com a ideia de que inclusive o papa compra e usa papel higiênico. Agora não corro riscos, todo ponto é normal e viável. Nasci para o mundo recentemente.

Mantive a repressão por trauma. Os pais e manos gostavam de debochar do cheiro, existia uma diversão sádica acentuada pela falta de espaço. Sentia-me vigiado na infância, acovardado pelas dores de barriga.

Família grande com um único banheiro rendia disputas e golpes baixos. Nas contas domésticas, masturbar recebia o crédito de pecado, já ir aos pés respondia a um crime. Não havia ética e Piaget que aliviasse a barra. Três irmãos não geram pressão, e sim terrorismo. Começavam com pancadas na porta para que terminasse rápido, logo mexiam o trinco como num filme de terror, em seguida gritavam para quem se encontrava na sala. Suportava o escândalo duas vezes por dia. O relógio biológico não tinha paz, funcionava pela corda da descarga. Apertava várias vezes fingindo o fim para ganhar alguns minutos de prorrogação.

Complicada também a chacota da saída, os comentários maldosos como "está podre", "morreu e não foi enterrado", "é a Borregar" (fábrica de celulose poluente da época), "olha o esgoto", "não dá para receber visitas". Virava um programa de debate esportivo na hora do almoço e da janta.

Eu me constrangia de humanidade, e me tolhia como modo de pedir desculpa.

Nunca brinquei com meus filhos sobre o tema, muito menos cometi alguma piada indiscreta. Sei o quanto custa e o quanto que tira a fome.

Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 111, Número 199
Junho de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

FARDO DOS DENTES

Arte de Paul Klee

Namoro mesmo começa quando mostramos os álbuns de fotografia da família. Antes disso é flerte ou amasso.

Experimenta-se uma operação frágil e delicada, desde retirar o pó das caixas até virar as folhas plastificadas com capricho de colecionador. Nosso passado é sempre um livro raro, requer uma longa pausa dos dedos.

Reprisei as cenas de menino e não encontrei nenhuma foto rindo dos seis aos nove anos. Meu rosto estava sério, compenetrado, quase ameaçando a câmera. Não olhava passarinho, muito menos fazia xis. Ué, que estranho, eu me tinha por uma criança alegre, caseira, alucinada por colo nas poses. Os ombros da mãe correspondiam às minhas pernas-de-pau. Seu vestido, uma lona colorida de circo.

- Nossa, como você era mal-humorado?, comentou a namorada.
- Eu?

Inspirava realmente ares sombrios, de um guri problemático, com ternura violenta, represada. Poderia constar naqueles fascículos escolares como um futuro psicopata.

Fiquei intrigado durante semanas, assobiando a dúvida entre as tarefas do trabalho. Assobiar é minha hipnose regressiva. Com a cauda melódica de uma canção, sou capaz de passar o meu nascimento e pousar no piano de Beethoven.

Não compreendia a extravagância entre o que me lembrava e aquelas imagens. Pasmo com o tanto que me iludi.

Ao levar o Vicente para escola, caíram finalmente seus dois últimos dentes de leite da frente. Ele estava agora banguela, com uma inocência comovente. Festejei:

- Que lindo, como é mimoso!

Ele fechou o rosto e pisou num silêncio adulto e fúnebre, sequer me encarou. E lembrei, lembrei que eu não ria nas fotografias pelas lacunas da dentição. Emudeci os lábios, selei como envelope secreto. Eu me achava desengonçado, patético.

Reconheci como é terrível para o filho ganhar elogio na queda dos dentes. Os pais pulando em torno, pedindo para que ele mostre, fofocando aos amigos, orgulhando-se da transformação, oferecendo as pedras brancas às formigas em troca de dinheiro.

É impossível quitar essa dívida. Ele não está se sentindo bonito, terá que enfrentar a escola, abrir a fome na merenda, suportar mais duas séries até que os permanentes ocupem seus espaços, disfarçar o desfalque nos flashs dos torneios da escola. Tempo de apreensão, de passar toda hora a língua na gengiva. Período confuso, em que reconhecemos uma ausência e velamos o fim iminente da infância.

Para ele, não era engraçado, mas dolorido.

Vou respeitá-lo. Darei uma gaita para que complete – por enquanto - sua boca com música.

Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 119, Número 197
Abril de 2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

VICENTE E MARIANA



Meus filhos não são impossíveis, eles me tornam possível.

Há segredos de Mariana que Vicente sabe, há segredos do Vicente que Mariana sabe. Não sei de nenhum dos segredos e não sinto falta. Eles se bastam.

Sou pai e meu trabalho é fazer com que eles se defendam de mim, inclusive de minha paixão por eles, que não é pouco.

Mariana tem 16 anos e fica uma criança ao lado do caçula. O caçula tem 8 anos e fica um adolescente ao lado de sua mana. Trocam as fases com facilidade. Eles me enganam com suas frases espirituosas.

A árvore tem frutos para poder voar. Temos idades diferentes para não morrer.

Mariana decidiu pintar o cabelo de vermelho. Vulcânico. Vicente decidiu que seu cabelo irá crescer. Vendaval. Uma atitude é ligada à outra. Complicado definir quem segue o exemplo de quem. Eles dividem um quarto virtual, o blog, radiomilpontozero.blogspot.com, para trocar suas canções prediletas.

Mariana toca violão, Vicente é que dirige seus videoclipes. Quando estão juntos nas férias, atravessam a noite conversando. Eu finjo que estou dormindo. Não vou atrapalhar se não há escola. Estou errado, mas é um erro emocionado.

Vicente me explicou como fazer para interromper a tristeza da Mariana. "Conversa sobre signos com ela, pai". Ele decorou os horóscopos para dar colo às suas dores.

Mariana me explicou como distrair o choro do Vicente. "Fale sobre as raças de cachorros, pai." Mariana estudou a fundo os pedigrees para passear com a angústia do menino.

Ambos me chamam de "Pánceps". Tento fazer barriga para honrar o apelido.

Eles guardam uma mãe em comum, apesar das mães diferentes: a amizade.

Fácil identificar quando os filhos se amam. No momento em que aprontam. A bagunça detém o mistério da cumplicidade.

Não se entregam, nunca se denunciam. Não importa a pressão. São leais no tropeço. Não consigo ficar brabo. Estou errado de novo. Deliciado com o improviso, ouço um completar a história mais maluca do outro.

Num dia de palestra, eles ficaram com a avó. Meia-noite e recebo a ligação materna, incapaz de controlar a felicidade dos dois.

- Eles não me respeitam. O Vicente está com um abajur na cabeça fingindo que teve ideias geniais.
- O que , vó?
- Isso, ele falou que a eternidade não dorme.
- Depois a gente se fala, tá?

Meia-noite e meia e Vicente me liga.

- A gente só estava brincando.
- Precisam respeitar a avô?
- Tá, mas posso te contar....

Meia-noite e quarenta e Mariana me chama.

- Não foi bem assim.
- Mari, não força a barra. Cuida da avó que está velha.
- Tudo bem, mas não é justo. Posso te contar....
- Ok, mas desliga a cabeça do Vicente, por favor!

Repetiram exatamente a mesma versão. Igual até nos engasgos. Não sou bobo, aquilo que é ensaiado é mentira. Mas eles não escondem a verdade, protegem e cuidam da verdade melhor do que eu. Um dia vão me devolver.

Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 119, Número 196
Março de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O SACRIFÍCIO FILIAL

Arte de Andrea del Verrocchio

Meu pai se separou da mãe quando tinha sete anos. A saudade apertava. Tanta saudade que conversava com as roupas dele. Criava diálogos imaginários com seus bonés, com suas gravatas, com suas camisas listradas. Eu me trancava no armário, dormia entre seus casacos, o desespero brinca com qualquer lembrança, eu entendia que dormir ali significava subir de novo em seu colo.

Mas minha mãe não me contou que o casamento dos dois acabou. Ficou no ar. E não perguntava para evitar o choro. A dor nos proíbe de falar certos assuntos.

O que ouvi é que o pai simplesmente viajou. Havia a expectativa de que ele pudesse voltar a qualquer momento. A qualquer hora. Como uma loucura que se cansa. Como um trabalho que se termina. Até hoje olho a porta por hábito, minha esperança não é de um homem, mas de um cão. Farejo as frestas e vou latir para a campainha.

Eu protegia minha mãe porque jurava que ela tinha sido enganada pelo destino. Que a vida não tinha sido justa. Que o pai nos esqueceu. A espera se transformou em resignação e migrou para uma raiva silenciosa.

Não calculo bem se me tornei um menino obediente por mim ou por ela. Não ansiava atrapalhar, somente isso, e talvez tenha me anulado. Fui mais fixo e previsível do que uma mesa de jantar. Odiei meu pai durante anos para ser fiel à mãe. Depois odiei minha mãe para conseguir me reconciliar com o pai.

Nunca escapei daquilo que não foi dito. Careci de alguém que nomeasse exatamente o que aconteceu. Uma frase me contentaria:

- Eu e seu pai nos separamos e vamos continuando criando vocês em casas diferentes.

O subentendido me apavora, tremo diante de silêncios longos.

Não pretendo levar, portanto, minha filha a me repetir e decorar meus problemas com flores.

Ela ama sua mãe. Reclama, lamenta a ausência de compreensão, mas nunca irá morar comigo. Por mais que insista, acredita que me viro sozinho. Ama com veemência, com determinação, pode dedicar toda sua vida para provar que sua mãe não está errada. Não duvido que consiga.

É o sacrifício de Isaac sendo reencenado ano a ano, família a família.

Eu admiro minha adolescente, admiro os filhos que desculpam sua mãe tentando ser iguais a ela. É uma renúncia espartana, uma oferenda secreta. Não é fácil, não é pouco. De repente, escolhem uma carreira, casam, tomam uma atitude que não aceitariam por desejo próprio, somente para abençoar um exemplo. É um agrado involuntário. Para ficar do lado delas. Para defendê-las da verdade.

Apagam suas vocações, suas biografias, suas aspirações para concordar com a educação que receberam, mesmo sabendo que poderia ser diferente. As explicações para o abandono de sonhos serão idênticas as alegações maternas. Para dizer que sua mãe não estava enganada, vão largar o balé, o futebol, o cinema, a música, a literatura. Oferecem um amor sem limites e, conseqüentemente, sem personalidade.

Amargam um dilema: ou discordam com o enfrentamento (e uma grande dose de traumas) ou apóiam tentando conservar aquilo que foi ensinado. Não serão filhos, mas advogados, elogiados quando concordam no ato, incentivados quando obedecem. Não questionam a versão oficial, confiam em absoluto nas descrições do berço. É fácil descobrir quando isso acontece: as histórias são mais sentimentos do que fatos, mais suspeitas e impressões do que lembranças.

Há mães que não entendem que os filhos não são iguais, nem devem. Não cortam o cordão umbilical. Não alcançam à ideia de que a felicidade é pessoal. Aquilo que pode me deixar eufórico, por exemplo, é capaz de deprimir o outro. Pensam assim: "tudo que foi bom para mim será bom para o meu filho". Não respeitam diferenças de idade, carências, temperamentos diversos. Anulam a época, as mudanças de costumes, as conexões da linguagem.

Se a mãe estudava seis horas por dia, o filho também terá que seguir a mesma receita. Se ela namorou tarde, não custa o filho esperar mais tempo. Se trabalhou cedo, permanecer no quarto é vadiagem. Se a moda é secundária, o filho não depende de nenhum luxo, usará somente o básico. Se ela dorme cedo, nada de luz acesa de madrugada. Se não gosta de música, som alto é barulho. Se não viveu com pai, o filho tampouco necessita.

É óbvio que a casa explodirá em brigas, censuras e castigos. Não existe modo de convencer a criança a fazer do nosso jeito. Porque a ditadura vem da falta de escolha, uma simples mudança de costume surgirá como uma birra, uma afronta inaceitável. Dar o exemplo não é ser o exemplo.

Essas mães, como a minha, como a sua, como a de qualquer um não fazem por mal, ainda não descobriram que podem mudar o passado e repetem suas mães para provar que elas também não estavam erradas. É um efeito dominó, longe de um fim.

Por mais alguns anos, suportarei a distância de minha filha. Mas não quero sua dependência para me sentir importante, quero sua independência para que ela seja importante.




Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 58, Número 195
Fevereiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

O PINTO DO ALIENÍGENA



Cinema é conversar depois dele. Com meu filho Vicente, 7 anos, recapitulamos as cenas mais engraçadas, os achados do roteiro, chegamos até a cotar o desempenho dos personagens de animação. É engraçado. Entramos numa cafeteria como num bar de faroeste. Só falta a bota de cano largo. Pedimos duas doses de café com leite. Usamos uma voz grossa, distorcida, de Johnny Cash. Largamos nossos bonés na mesa, virados para cima, para mostrar a intenção de paz. Fixamos os olhos um no outro, já entendendo que o homem dá a mão quando se deixa olhar.

Somos adultos no amor. É preciso muita infância para ser adulto no amor. Apesar da cumplicidade, ainda desvalorizo seu raciocínio e omito as passagens que considero intrigantes. Ele sempre me devolve. O filme era Planeta 51, em que um astronauta pousa numa terra povoada por alienígenas simpáticos, com duas anteninhas na cabeça. O detalhe: o humano é, na verdade, o alienígena, o invasor de uma pacata cidade de carros voadores. Seus traços diferentes assustam aos mais ardentes adoradores de ficção científica daquela galáxia.

- Pai, quando o alienígena vê o astronauta nu diz que ele tem a antena em outro lugar.

O susto não foi sua frase, e sim a gargalhada. Sua risada indica a experiência no assunto. Presumi que o trecho tinha passado em branco. Foi rápido demais, como pescou? Ele me deixou preocupado. No fundo, não é que meu menino seja precoce, eu é que sou lento. Na maioria das vezes, os pais fingem que o sexo tem a mesma representação proibida e secreta de sua criação e mantém um boicote de palavras. Antigamente discordar era desobedecer. Hoje discordar é respeitar. Há a queda da autoridade paterna e materna de antes, não dá para afirmar que é assim e terminar o papo e não se discute mais. Muito menos mandar a criança para o quarto. Não há como educar por ordens. O que existe é influência, orientar e apresentar uma argumentação realmente eficiente. Sentar e detalhar, com paciência e disponibilidade, se possível com Power Point.

O filho não desistirá com contos de fadas. Ele quer o conto de fadas e a realidade para comparar.

Após bobear por um lapso de cinco minutos, confessei que era a minha piada favorita. Levantei a xícara, concluindo que não tínhamos mais nada para tirar do episódio. Meu filho sabe o que é sexo e como se faz, tudo bem, não ficarei com inveja dele, mesmo descobrindo que as cegonhas não entregavam os bebês somente aos nove anos. Mas ele retomou a sequência:

- O estranho é que se o alienígena repara que a antena do humano é na cintura, onde é o pinto do alienígena?

Pior é que eu não tinha alcançado esse desdobramento. Vou assistir de novo ao filme.


Publicado na minha coluna
"Primeiras Intenções"
Revista Crescer
São Paulo, P. 72, Número 194
Janeiro de 2010