Uma única noite é insuficiente para amar. Pode até não ser para um dos dois, mas não para os dois.
Um relacionamento nunca se limita a uma transa. Você pode romantizar, alegar que não existiu nada igual, justificar a atração explosiva. Mas uma noite definitiva requer uma segunda noite. O sexo isolado, sem sequência, significa que não houve paixão, não houve algo mais, que não vingou a promessa e a esperança.
Quando se gosta, procura-se sempre o tira-teima. Você quer saber se não é alucinação e se realmente é verdade o impacto da química. Busca confirmar as expectativas. E não demora muito para acontecer. Será na mesma semana. A ansiedade aumenta o desejo. Encontros esporádicos e espaçados não revelam permanência. A fissura é o que gera namoros e casamentos.
Se alguém me diz que a relação vai se segurar com apenas uma saída, não acredito. Ainda que elogie a própria perfomance e destaque a selvageria da entrega. Os efeitos foram unilaterais. Pode existir o agrado, o bem-estar, mas não a crença da cara-metade de uma das partes.
Para conquistar o outro, é necessária a reincidência sexual. O que talvez tenha acontecido é a transa pelo climão, pelo contexto favorável, o que é muito comum.
Estavam bebendo, livres e inconsequentes, e se arriscaram na cama. Estavam carentes e ousaram se experimentar. Estavam numa festa ou balada, curiosos, nada incomodando, anestesiados pela felicidade, e não viram problema de tentar. Só que não seguirão adiante, o coração não estalou depois do ato.
Porque, para amar, não basta os corpos se encaixarem, depende do encaixe das palavras, das afinidades e do silêncio.
Publicado em UOL em 23/02/2018
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sexta-feira, 1 de março de 2019
AMAR E GOSTAR SÃO OPERAÇÕES DIFERENTES
O amor independe de suas características individuais.
É o mais absurdo mistério da vida, por isso que muitos se enxergam amaldiçoados pelo amor, dominados pelo amor e não entendem como são ligados por alguém totalmente diferente e que até lhe faz mal. E não conseguem desamar, apesar do desastre e da comprovação que não há nenhuma sintonia.
Claramente podemos amar o outro e não gostar do outro. São operações diferentes. Você ama, mas detesta o seu temperamento, o seu comportamento, as suas escolhas. Por qualquer coisa, briga. Por qualquer saída a restaurante e cinema, discute. Por qualquer conflito doméstico, seja a arrumação das roupas ou do quarto, entra em zona de atrito. Uma toalha molhada na cama passa a ser imperdoável, não existe o mínimo de tolerância e paciência. Não impera a admiração para se adaptar às divergências. Não prepondera o senso de humor para achar bonito o defeito e criar ternuras da oposição. O que acontece, em ritmo sistemática e constante, é a cobrança - você identifica um estilo oposto ao seu e rejeita a toda hora.
Não terá calma e pausa para conversar, a chance de gritos e barracos são enormes, amigos e familiares estranharão a união doentia.
O amor veio sem gostar. O amor veio sem intimidade. O amor veio pelos caminhos ignotos do trauma e da rejeição, pela porta dos fundos, e não pela campainha da eleição das afinidades e dos projetos em comum.
Fica irritado só de ver a pessoa na sua frente. Nunca seria amigo daquela pessoa. Nunca convidaria para sua casa. Nunca contaria os seus segredos de modo consciente. Se dividisse o ambiente do trabalho, seria o colega de maior enfrentamento e disputa.
Num cruzamento de dados e perfis em agências de namoro, jamais estariam juntos.
Mas, por algum motivo secreto, ama verdadeiramente, sente falta verdadeiramente, tem uma atração física real, pode adoecer de saudade. Está namorando ou casado com quem ama de coração e, ao mesmo tempo, odeia mentalmente. Não aguenta a convivência e tampouco a ideia de permanecer longe.
Um relacionamento onde se ama e não se gosta da companhia não tem como durar muito. Os vizinhos agradecerão a separação.
Publicado em UOL em 16/02/2018
É o mais absurdo mistério da vida, por isso que muitos se enxergam amaldiçoados pelo amor, dominados pelo amor e não entendem como são ligados por alguém totalmente diferente e que até lhe faz mal. E não conseguem desamar, apesar do desastre e da comprovação que não há nenhuma sintonia.
Claramente podemos amar o outro e não gostar do outro. São operações diferentes. Você ama, mas detesta o seu temperamento, o seu comportamento, as suas escolhas. Por qualquer coisa, briga. Por qualquer saída a restaurante e cinema, discute. Por qualquer conflito doméstico, seja a arrumação das roupas ou do quarto, entra em zona de atrito. Uma toalha molhada na cama passa a ser imperdoável, não existe o mínimo de tolerância e paciência. Não impera a admiração para se adaptar às divergências. Não prepondera o senso de humor para achar bonito o defeito e criar ternuras da oposição. O que acontece, em ritmo sistemática e constante, é a cobrança - você identifica um estilo oposto ao seu e rejeita a toda hora.
Não terá calma e pausa para conversar, a chance de gritos e barracos são enormes, amigos e familiares estranharão a união doentia.
O amor veio sem gostar. O amor veio sem intimidade. O amor veio pelos caminhos ignotos do trauma e da rejeição, pela porta dos fundos, e não pela campainha da eleição das afinidades e dos projetos em comum.
Fica irritado só de ver a pessoa na sua frente. Nunca seria amigo daquela pessoa. Nunca convidaria para sua casa. Nunca contaria os seus segredos de modo consciente. Se dividisse o ambiente do trabalho, seria o colega de maior enfrentamento e disputa.
Num cruzamento de dados e perfis em agências de namoro, jamais estariam juntos.
Mas, por algum motivo secreto, ama verdadeiramente, sente falta verdadeiramente, tem uma atração física real, pode adoecer de saudade. Está namorando ou casado com quem ama de coração e, ao mesmo tempo, odeia mentalmente. Não aguenta a convivência e tampouco a ideia de permanecer longe.
Um relacionamento onde se ama e não se gosta da companhia não tem como durar muito. Os vizinhos agradecerão a separação.
Publicado em UOL em 16/02/2018
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
O INDECIFRÁVEL PERFUME FEMININO
Se você não define qual o perfume que a sua mulher usa, não entre em pânico. Não é desinteresse. Não é desamor. Não é má vontade. Não significa que não presta atenção ou o que o seu olfato é falho.
Por mais que a namorada ou a esposa jogue em sua cara a desinformação, como se fosse uma lacuna grave de devoção, como se estivesse cometendo um crime e esquecendo a data que se conheceram, o nascimento dela, o signo.
O universo feminino faz de propósito para sacanear os seus homens. É uma cilada ancestral, elas contam com o erro para obter vantagem, alimentar culpa, e exercer o poder sobre os mais fracos.
Não há como saber. Eu passei muito tempo me recriminando, sentindo-me um farmacêutico incompetente, um laboratorista fracassado.
Como a minha mulher tem três perfumes, pensava que me confundia com a frequência alternada. Guardava os nomes, mas não acertava o dia deles. Fiz experimento em meu pulso com as fragrâncias para memorizar, tampouco fixei o olor. Surgia diferente na pele dela.
Foi quando percebi o óbvio: o excesso me embaralhava. Nem cheirando grão de café seria capaz de limpar o faro e desenredar o enigma.
Não era um único cheiro a ser decifrado, mas vários. Tem o cheiro de xampu e do condicionador no cabelo, tem o cheiro do sabonete líquido, tem o cheiro de creme pra mão, tem o cheiro de creme pra cutícula, tem o cheiro do óleo para cotovelos, tem o cheiro da loção para o pé, tem o cheiro do protetor para o rosto, afora os produtos especiais de combate à estrias e rugas que todas têm.
Não há como descobrir o perfume mesmo. É uma charada. O que nos resta é pular a pergunta no quiz-show do amor.
Publicado em UOL em 02/02/2018
Por mais que a namorada ou a esposa jogue em sua cara a desinformação, como se fosse uma lacuna grave de devoção, como se estivesse cometendo um crime e esquecendo a data que se conheceram, o nascimento dela, o signo.
O universo feminino faz de propósito para sacanear os seus homens. É uma cilada ancestral, elas contam com o erro para obter vantagem, alimentar culpa, e exercer o poder sobre os mais fracos.
Não há como saber. Eu passei muito tempo me recriminando, sentindo-me um farmacêutico incompetente, um laboratorista fracassado.
Como a minha mulher tem três perfumes, pensava que me confundia com a frequência alternada. Guardava os nomes, mas não acertava o dia deles. Fiz experimento em meu pulso com as fragrâncias para memorizar, tampouco fixei o olor. Surgia diferente na pele dela.
Foi quando percebi o óbvio: o excesso me embaralhava. Nem cheirando grão de café seria capaz de limpar o faro e desenredar o enigma.
Não era um único cheiro a ser decifrado, mas vários. Tem o cheiro de xampu e do condicionador no cabelo, tem o cheiro do sabonete líquido, tem o cheiro de creme pra mão, tem o cheiro de creme pra cutícula, tem o cheiro do óleo para cotovelos, tem o cheiro da loção para o pé, tem o cheiro do protetor para o rosto, afora os produtos especiais de combate à estrias e rugas que todas têm.
Não há como descobrir o perfume mesmo. É uma charada. O que nos resta é pular a pergunta no quiz-show do amor.
Publicado em UOL em 02/02/2018
A CHATICE DOS CASADOS
Os amigos casados não podem ver um amigo solteiro. É uma ameaça à estabilidade. Logo entram em parafuso para arrumar um perfil disponível no mercado e mudar o estado civil do conhecido. Plantam coincidências, forçam saídas a quatro, armam ciladas em jantares e festas. Não admitem alguém sozinho no círculo de relações. Afogam o santo Antônio da paciência em cálices de vinho e espumante.
Os encontros arranjados jamais vingam. Pois a atração surge pelos defeitos do outro, não pelas suas qualidades. Eleger um perfil pelas afinidades resultará, no máximo, em uma amizade. Pois o amor é oposição, a exceção, a quebra da regra.
Os amigos casados se transformam em aplicativos de namoro. Tinder. Happn. Não descansam ao procurar candidatos para desencalhar o colega.
Criam uma pressão descomunal, não reconhecendo que ser solteiro é uma escolha. Parece uma incompetência, uma doença social, uma completa falta de opções e de dotes.
Não absorvem o básico: qualquer solteiro tem discernimento para se virar e conseguir companhia, não depende de ajuda, caridade e compaixão. Está sozinho simplesmente porque vive melhor assim.
Mas os casados incomodam, talvez por inveja, talvez por insegurança, talvez para não pensar na fragilidade de seus próprios romances. Realizam bullying com brincadeiras sistemáticas e piadas agressivas, tais como “segurar vela”.
Quem é solteiro ou é taxado de boêmio e sedutor incorrigível, desprovido de seriedade, que não toma jeito, ou é um bicho isolado e depressivo, que não quer sair, trancado em casa, somente preocupado com a carreira.
Os casados são chatos. Entendem a liberdade como tolhimento. Sentem a necessidade de um par para completude, quando a individualidade já é inteireza, já é suficiente para transbordar.
Partem do princípio equivocado de que só a pessoa que casou ou tem filhos pode ser feliz. Qualquer outra condição é provisória. A solteirice é percebida como uma entressafra até namorar de novo. Um período de sofrimento e desinteresse, um castigo de antigas histórias frustradas. Aquele que não namora imediatamente sugere ainda sofrer pelo relacionamento passado, o que não é verdade. Quem diz que não está cansado mesmo, enjoado, não querendo negociar o seu prazer e as suas manias, com diferentes fontes de alegria?
Três anos sem ninguém fixo costuma ser interpretado como uma maldição, uma fatalidade, um desterro.
O amor é o único sentimento que não tem fiador. Você constrói o prédio para habitar.
Publicado em UOL em 26/01/2018
Os encontros arranjados jamais vingam. Pois a atração surge pelos defeitos do outro, não pelas suas qualidades. Eleger um perfil pelas afinidades resultará, no máximo, em uma amizade. Pois o amor é oposição, a exceção, a quebra da regra.
Os amigos casados se transformam em aplicativos de namoro. Tinder. Happn. Não descansam ao procurar candidatos para desencalhar o colega.
Criam uma pressão descomunal, não reconhecendo que ser solteiro é uma escolha. Parece uma incompetência, uma doença social, uma completa falta de opções e de dotes.
Não absorvem o básico: qualquer solteiro tem discernimento para se virar e conseguir companhia, não depende de ajuda, caridade e compaixão. Está sozinho simplesmente porque vive melhor assim.
Mas os casados incomodam, talvez por inveja, talvez por insegurança, talvez para não pensar na fragilidade de seus próprios romances. Realizam bullying com brincadeiras sistemáticas e piadas agressivas, tais como “segurar vela”.
Quem é solteiro ou é taxado de boêmio e sedutor incorrigível, desprovido de seriedade, que não toma jeito, ou é um bicho isolado e depressivo, que não quer sair, trancado em casa, somente preocupado com a carreira.
Os casados são chatos. Entendem a liberdade como tolhimento. Sentem a necessidade de um par para completude, quando a individualidade já é inteireza, já é suficiente para transbordar.
Partem do princípio equivocado de que só a pessoa que casou ou tem filhos pode ser feliz. Qualquer outra condição é provisória. A solteirice é percebida como uma entressafra até namorar de novo. Um período de sofrimento e desinteresse, um castigo de antigas histórias frustradas. Aquele que não namora imediatamente sugere ainda sofrer pelo relacionamento passado, o que não é verdade. Quem diz que não está cansado mesmo, enjoado, não querendo negociar o seu prazer e as suas manias, com diferentes fontes de alegria?
Três anos sem ninguém fixo costuma ser interpretado como uma maldição, uma fatalidade, um desterro.
O amor é o único sentimento que não tem fiador. Você constrói o prédio para habitar.
Publicado em UOL em 26/01/2018
DIZER NÃO NÃO É DESAMOR
Não aceitar o não é a mais grave falha do amor. Não haverá amadurecimento sem a negação. A discordância é benéfica e deve ser praticada um pouco por dia, por mais desgastante que seja o cotidiano doméstico.
É quando deixamos de ser o filho mimado e passamos a entender e respeitar que a outra pessoa pensa e sente diferente. Talvez o grande segredo da longevidade afetiva signifique dividir as contas e os problemas, jamais pretender passar uma versão melhor do que realmente se é. Está sem dinheiro: procure solução em conjunto. Não peça empréstimo em segredo. Está sem vontade: explique o que está acontecendo, quais são as preocupações dominando a mente. Não fuja do contato visual.
A teimosia é egoísmo. A teimosia substitui a compreensão, elimina a escuta, descarta a empatia.
A teimosia é a crença de que você pode resolver sozinho e não precisa de ninguém. Se não precisa de ninguém, por que está casado? Precisar é confessar a importância de quem nos acompanha e recorrer a uma segunda instância dos desejos.
O não acaba sendo a medida da saúde do casal. Quanto mais não mais realidade. É não comprar tudo o que se quer, é não fazer tudo o que ambiciona, é não realizar tudo - isso é crescimento pessoal. É negociar entre o possível e o ideal a todo momento dentro de si.
Quem só quer agradar e ser agradado não saiu da infância e da birra maternal. Aceitar a recusa é aceitar a verdade. É admitir que não controla a vida, muito menos a opinião alheia.
O risco é se anular para alguém se sobressair: amar pelos dois, elogiar pelos dois, esconder os males pelos dois, desculpar-se pelos dois.
Sei que terei o dobro de trabalho em casa para explicar para minha mulher o valor de minhas escolhas. Mas não vivo mais sozinho para escolher à revelia de seu apoio. Eu continuo optando, mas com o seu apoio ou com sua oposição. Sua aprovação ou desaprovação me ajuda a avaliar melhor. É uma resistência fundamental para testar se o que procuro é sonho ou capricho. Agradeço o seu não assim como me envaideço do seu sim.
O homem costuma escolher sozinho para apenas repartir as consequências quando não alcança o seu objetivo. O correto é partilhar a origem das vontades, desde a raiz, para não surpreender negativamente a parceria com decisões unilaterais, sem boicote, sem conspiração.
Configura deslealdade não expor os movimentos do pensamento. E o homem não fala com medo de ser recusado, de não conseguir mais cumprir o seu projeto. Que enfrente a vaia no camarim porque depois no palco não tem como mudar a peça.
A adoção do amor como conto de fadas faz com que um dos dois se torne submisso para esconder os defeitos e as imperfeições do relacionamento.
Quem não consegue acolher o não do seu namorado ou namorada ou se seu marido ou esposa vai criar uma simbiose sombria. Porque não existirá independência, mas adulação. Não existirá discernimento e soma de duas personalidades, mas a exploração do mais forte sobre o mais fraco.
Dizer não é uma prova de amor. Receber o não é o milagre do amor.
Publicado em UOL em 19/01/2018
É quando deixamos de ser o filho mimado e passamos a entender e respeitar que a outra pessoa pensa e sente diferente. Talvez o grande segredo da longevidade afetiva signifique dividir as contas e os problemas, jamais pretender passar uma versão melhor do que realmente se é. Está sem dinheiro: procure solução em conjunto. Não peça empréstimo em segredo. Está sem vontade: explique o que está acontecendo, quais são as preocupações dominando a mente. Não fuja do contato visual.
A teimosia é egoísmo. A teimosia substitui a compreensão, elimina a escuta, descarta a empatia.
A teimosia é a crença de que você pode resolver sozinho e não precisa de ninguém. Se não precisa de ninguém, por que está casado? Precisar é confessar a importância de quem nos acompanha e recorrer a uma segunda instância dos desejos.
O não acaba sendo a medida da saúde do casal. Quanto mais não mais realidade. É não comprar tudo o que se quer, é não fazer tudo o que ambiciona, é não realizar tudo - isso é crescimento pessoal. É negociar entre o possível e o ideal a todo momento dentro de si.
Quem só quer agradar e ser agradado não saiu da infância e da birra maternal. Aceitar a recusa é aceitar a verdade. É admitir que não controla a vida, muito menos a opinião alheia.
O risco é se anular para alguém se sobressair: amar pelos dois, elogiar pelos dois, esconder os males pelos dois, desculpar-se pelos dois.
Sei que terei o dobro de trabalho em casa para explicar para minha mulher o valor de minhas escolhas. Mas não vivo mais sozinho para escolher à revelia de seu apoio. Eu continuo optando, mas com o seu apoio ou com sua oposição. Sua aprovação ou desaprovação me ajuda a avaliar melhor. É uma resistência fundamental para testar se o que procuro é sonho ou capricho. Agradeço o seu não assim como me envaideço do seu sim.
O homem costuma escolher sozinho para apenas repartir as consequências quando não alcança o seu objetivo. O correto é partilhar a origem das vontades, desde a raiz, para não surpreender negativamente a parceria com decisões unilaterais, sem boicote, sem conspiração.
Configura deslealdade não expor os movimentos do pensamento. E o homem não fala com medo de ser recusado, de não conseguir mais cumprir o seu projeto. Que enfrente a vaia no camarim porque depois no palco não tem como mudar a peça.
A adoção do amor como conto de fadas faz com que um dos dois se torne submisso para esconder os defeitos e as imperfeições do relacionamento.
Quem não consegue acolher o não do seu namorado ou namorada ou se seu marido ou esposa vai criar uma simbiose sombria. Porque não existirá independência, mas adulação. Não existirá discernimento e soma de duas personalidades, mas a exploração do mais forte sobre o mais fraco.
Dizer não é uma prova de amor. Receber o não é o milagre do amor.
Publicado em UOL em 19/01/2018
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
O QUE A AMANTE PRECISA SABER
O que a amante precisa saber: se ele mente para uma mulher, mentirá para todas. Se ele destrata uma mulher, destratará todas. Se ele esconde algo de uma mulher, esconderá de todas. Se ele não se importa com que os conhecidos comentam sobre a sua mulher, nunca se importará em preservar e proteger qualquer uma outra.
Não existe verdade unilateral. Não existe conversão. Não existe aquela máxima salvadora: “comigo será diferente”. Não existe exceção, que é somente fiadora de desastres.
O infiel dificilmente pedirá o divórcio. Aliás, o caso faz com que o casamento dure ainda mais, porque confere um lazer e um entretenimento adicionais para uma rotina regrada. Não escolher é manter as opções. A aventura acaba fortalecendo a imobilidade: por que mudar se tenho tudo o que quero?
A questão central é que ele mente mal e você, amante, é generosa em ouvir e crédula em aceitar. A separação é iminente e nunca acontece, não é estranho? E os motivos para o perpétuo adiamento são sempre iguais: ou a mulher está doente ou ela depende financeiramente dele ou não encontrou o momento certo ou os filhos não aceitarão bem o desenlace ou enfrenta um momento delicado no trabalho.
É evidente que ele nunca vai se separar, desfruta de uma situação cômoda. Homem apaixonado não pensa, joga o compromisso para o alto e depois assume as consequências. Quem calcula demais fundamenta o medo e não se joga no precipício - é um estrategista do abandono de causa.
Quando a relação passa da quarta noite e não há mudança, ele não romperá nenhum vínculo. Ou ele perde a cabeça nas primeiras semanas ou jamais terá o coração dele.
Não se engane com as juras fartas. Aquele que promete acertar as contas e que reclama do casamento está faltando com a verdade: quem diz que ele não vem transando seguidamente com a esposa e se divertindo em casa? Conta apenas com a sua desinformação para seguir com a impunidade da vida dupla. Isso quando não tem segunda e terceira amantes e se arma da confusão para não amar ninguém.
Os encontros podem garantir satisfação na hora, porém desgastam a esperança, criam insalubridade emocional e arrastam personalidades fortes para a desvalia e depressão. Não dá para ser clandestino e feliz durante muito tempo.
Publicado em UOL em 12/01/2018
Não existe verdade unilateral. Não existe conversão. Não existe aquela máxima salvadora: “comigo será diferente”. Não existe exceção, que é somente fiadora de desastres.
O infiel dificilmente pedirá o divórcio. Aliás, o caso faz com que o casamento dure ainda mais, porque confere um lazer e um entretenimento adicionais para uma rotina regrada. Não escolher é manter as opções. A aventura acaba fortalecendo a imobilidade: por que mudar se tenho tudo o que quero?
A questão central é que ele mente mal e você, amante, é generosa em ouvir e crédula em aceitar. A separação é iminente e nunca acontece, não é estranho? E os motivos para o perpétuo adiamento são sempre iguais: ou a mulher está doente ou ela depende financeiramente dele ou não encontrou o momento certo ou os filhos não aceitarão bem o desenlace ou enfrenta um momento delicado no trabalho.
É evidente que ele nunca vai se separar, desfruta de uma situação cômoda. Homem apaixonado não pensa, joga o compromisso para o alto e depois assume as consequências. Quem calcula demais fundamenta o medo e não se joga no precipício - é um estrategista do abandono de causa.
Quando a relação passa da quarta noite e não há mudança, ele não romperá nenhum vínculo. Ou ele perde a cabeça nas primeiras semanas ou jamais terá o coração dele.
Não se engane com as juras fartas. Aquele que promete acertar as contas e que reclama do casamento está faltando com a verdade: quem diz que ele não vem transando seguidamente com a esposa e se divertindo em casa? Conta apenas com a sua desinformação para seguir com a impunidade da vida dupla. Isso quando não tem segunda e terceira amantes e se arma da confusão para não amar ninguém.
Os encontros podem garantir satisfação na hora, porém desgastam a esperança, criam insalubridade emocional e arrastam personalidades fortes para a desvalia e depressão. Não dá para ser clandestino e feliz durante muito tempo.
Publicado em UOL em 12/01/2018
O AMOR CANSA DE SER MALTRATADO
Há pessoas que só sabem amar se separando e voltando.
Ou você se salva ou salva o relacionamento. Quem já não passou por esse duro dilema?
Entre se afogar e voltar para a margem. Entre deixar à deriva quem você gosta ou manter a sua vida dentro dos limites da sanidade.
E sempre sofrendo pela ternura desperdiçada, sempre penando por sacrificar uma manifestação sincera de apego.
Há romances que não nasceram para a felicidade. Por mais difícil que seja aceitar essa irreversibilidade. São intensos, passionais, selvagens, porém inviáveis socialmente. É como namorar com Mogli numa cidade grande e tentar usar os talheres.
Porque há pessoas que somente sabem amar pela violência das rupturas. Só sabem amar se separando e voltando. Não aceitam outra forma de dependência senão pelo grito.
Têm uma noção de amor como briga, estremecimento, discussão. Viveram na infância sob o jugo de pais quebrando os pratos e batendo boca e não entendem os laços na frequência da gentileza e da concordância. Enxergam o entendimento como submissão.
Se tudo está bem é que está mal. Se tudo está calmo é que está entediante.
Logo arrumam uma bronca para tornar a rotina mais excitante. Mesmo que seja uma suspeita inventada.
Transam unicamente com vontade após chantagens e ameaças de despedida. O sexo é uma demonstração de poder e possessividade, não de confiança e carinho. A intimidade precisa ser testada para oferecer liga. O ódio costuma vir à tona para renovar a atração.
Você tem aquela dúvida constante se vem sendo amada ou odiada, se ele lhe deseja mesmo ou recorre ao pretexto da carne para lhe ofender na cama.
Não existe jeito de contentar o tipo que se relaciona somente pela guerra. Nunca ficará saciado. Você pode fazer todos os caprichos e não será suficiente. Pois ele age por crises e surtos periódicos, usando os melhores sentimentos para justificar as piores atitudes. É treinado para a tortura psicológica, para o jogo de nervos. Não senta para discutir, não tem paciência, logo se levanta virando as costas e esmurrando as portas. Por uma banalidade, cria uma epopeia para a sua raiva.
Um ano ao lado de alguém assim é o equivalente a uma década de casado.
Não me arrisco a dizer se o amor termina, mas guardo a convicção de que ele cansa.
Ou você se salva ou salva o relacionamento. Quem já não passou por esse duro dilema?
Entre se afogar e voltar para a margem. Entre deixar à deriva quem você gosta ou manter a sua vida dentro dos limites da sanidade.
E sempre sofrendo pela ternura desperdiçada, sempre penando por sacrificar uma manifestação sincera de apego.
Há romances que não nasceram para a felicidade. Por mais difícil que seja aceitar essa irreversibilidade. São intensos, passionais, selvagens, porém inviáveis socialmente. É como namorar com Mogli numa cidade grande e tentar usar os talheres.
Porque há pessoas que somente sabem amar pela violência das rupturas. Só sabem amar se separando e voltando. Não aceitam outra forma de dependência senão pelo grito.
Têm uma noção de amor como briga, estremecimento, discussão. Viveram na infância sob o jugo de pais quebrando os pratos e batendo boca e não entendem os laços na frequência da gentileza e da concordância. Enxergam o entendimento como submissão.
Se tudo está bem é que está mal. Se tudo está calmo é que está entediante.
Logo arrumam uma bronca para tornar a rotina mais excitante. Mesmo que seja uma suspeita inventada.
Transam unicamente com vontade após chantagens e ameaças de despedida. O sexo é uma demonstração de poder e possessividade, não de confiança e carinho. A intimidade precisa ser testada para oferecer liga. O ódio costuma vir à tona para renovar a atração.
Você tem aquela dúvida constante se vem sendo amada ou odiada, se ele lhe deseja mesmo ou recorre ao pretexto da carne para lhe ofender na cama.
Não existe jeito de contentar o tipo que se relaciona somente pela guerra. Nunca ficará saciado. Você pode fazer todos os caprichos e não será suficiente. Pois ele age por crises e surtos periódicos, usando os melhores sentimentos para justificar as piores atitudes. É treinado para a tortura psicológica, para o jogo de nervos. Não senta para discutir, não tem paciência, logo se levanta virando as costas e esmurrando as portas. Por uma banalidade, cria uma epopeia para a sua raiva.
Um ano ao lado de alguém assim é o equivalente a uma década de casado.
Não me arrisco a dizer se o amor termina, mas guardo a convicção de que ele cansa.
Publicado em UOL em 05/01/2018
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
QUEM DIZ QUE NÃO SE ARREPENDE DE NADA NÃO TEM AUTOCRÍTICA
Não acredito em quem diz que não se arrepende de nada na vida. Ninguém acerta sempre. Não se arrepende ou não quer admitir que falhou alguma vez? Não se arrepende ou é orgulho enrustido? Não se arrepende ou receia mexer nas feridas? Não se arrepende ou não pretende desabafar? Não se arrepende mesmo ou não deseja passar a imagem humana, honesta, defeituosa para os mais próximos? Quem não se arrepende de nada não é que aceitou a vida do jeito que ela veio. Não é serenidade. Não é maturidade. É tão somente falta de autocrítica. Eu me arrependo. Não sou um semideus para não ter rascunhos. Eu tropecei feio dentro de mim, eu troquei os pés pelas mãos, eu menti, eu fui desleal. E pedi desculpa, retratei-me e jamais me envaideço dos meus enganos. Não empregarei desculpas retroativas, a amnésia é uma proteção do ressentimento. O perdão não deleta o que cometi de torto em minha trajetória, os fatos ruins continuarão existindo como um marco de meus problemas, um limite de minha sanidade, um exemplo para não repetir e magoar os outros. Guardo um espelho dos fracassos pessoais no lado interno do armário das lembranças - espio de vez em quando para não perder o prumo. As decepções perseverarão na memória, apesar de resolvidos todos os impasses. Não há ainda borracha para apagar o que foi escrito com o sangue. Poderia ter sido melhor pai, poderia ter sido melhor filho, poderia ter sido melhor marido, poderia ter sido melhor amigo. Deixei gente na estrada com a pressa de andar e ser feliz sozinho, abandonei quem amava na ânsia das certezas. Se eu pudesse voltar atrás, não faria de novo. Sei exatamente o que precisava modificar em meu comportamento, com datas e horários. O pecado também usa relógio. Uma coisa é errar, processo natural e previsível de nossa condição sujeita a acasos e provações permanentes, uma bem diferente é não manter a consciência do erro pelo resto dos dias. Publicado em UOL em 29/12/2017
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
BROXADA GERA RELACIONAMENTOS LONGOS
Homem jura que perderá a mulher ao broxar. Mas, curiosamente, é broxando uma vez que nunca vai se separar.
A impotência eventual traz longevidade ao casal. Ainda mais nas noites iniciais.
Ele pedirá a mulher em namoro de bate-pronto, na primeira semana. Casará com a mulher sem frescura, já no primeiro mês. Tudo para ela não contar a mais ninguém o que aconteceu. Fará tudo pela relação para manter o segredo intacto. Será submisso e obediente, incansável e compreensivo. Suportará crises, barracos, ciúme, explosões. Encontrará o ponto de equilíbrio digno de Dalai Lama: o olhar infinito e cordial.
A broxada se apresentará como fiador do apartamento a dois. Ele não vai se arriscar a encerrar um romance e sofrer com a boataria. Prefere largar a sua vida de solteiro para manter a reputação.
Quando o homem falha, deixa de ser galinha, Don Juan, Casanova, comedor. Vira automaticamente um sujeito sério, comportado, disciplinado para o amor. Não espiará aos lados, não pulará a cerca.
Sua vulnerabilidade lhe salva da infalibilidade. Como já errou, não terá uma postura arrogante, de cobrar os vacilos dos outros. Nem cogitará a deslealdade. Passará o tempo inteiro lembrando e renovando a dívida de gratidão. Homem que já broxou é fiel. Irreversivelmente fiel.
Já a mulher não largará o flerte que fracassa na cama. Achará o nervosismo honesto e bonito. Julgará o parceiro como sensível, diferente dos antecedentes que apenas queriam sexo. Ao broxar, ele prova que o sexo não é tão importante.
Da mesma forma, ela vai querer ajudá-lo a superar o bloqueio. Oferecerá mais chances, mais disponibilidade, mais oportunidades. Muito mais do que um caso comum e tradicionais paqueras.
Ela assumirá o fiasco masculino como uma missão pessoal, até para se confirmar desejável. Abusará dos artifícios da luz, da trilha sonora, dos figurinos, dos fetiches, disposta a vingar a noite em seco.
Quando o homem broxa, a mulher se desespera em criatividade e ele tem o luxo inigualável de vê-la se matando com todos os seus recursos e artimanhas de sedução.
Homem que broxa é o único a desfrutar de um banquete.
Publicado em UOL em 22/12/2017
A impotência eventual traz longevidade ao casal. Ainda mais nas noites iniciais.
Ele pedirá a mulher em namoro de bate-pronto, na primeira semana. Casará com a mulher sem frescura, já no primeiro mês. Tudo para ela não contar a mais ninguém o que aconteceu. Fará tudo pela relação para manter o segredo intacto. Será submisso e obediente, incansável e compreensivo. Suportará crises, barracos, ciúme, explosões. Encontrará o ponto de equilíbrio digno de Dalai Lama: o olhar infinito e cordial.
A broxada se apresentará como fiador do apartamento a dois. Ele não vai se arriscar a encerrar um romance e sofrer com a boataria. Prefere largar a sua vida de solteiro para manter a reputação.
Quando o homem falha, deixa de ser galinha, Don Juan, Casanova, comedor. Vira automaticamente um sujeito sério, comportado, disciplinado para o amor. Não espiará aos lados, não pulará a cerca.
Sua vulnerabilidade lhe salva da infalibilidade. Como já errou, não terá uma postura arrogante, de cobrar os vacilos dos outros. Nem cogitará a deslealdade. Passará o tempo inteiro lembrando e renovando a dívida de gratidão. Homem que já broxou é fiel. Irreversivelmente fiel.
Já a mulher não largará o flerte que fracassa na cama. Achará o nervosismo honesto e bonito. Julgará o parceiro como sensível, diferente dos antecedentes que apenas queriam sexo. Ao broxar, ele prova que o sexo não é tão importante.
Da mesma forma, ela vai querer ajudá-lo a superar o bloqueio. Oferecerá mais chances, mais disponibilidade, mais oportunidades. Muito mais do que um caso comum e tradicionais paqueras.
Ela assumirá o fiasco masculino como uma missão pessoal, até para se confirmar desejável. Abusará dos artifícios da luz, da trilha sonora, dos figurinos, dos fetiches, disposta a vingar a noite em seco.
Quando o homem broxa, a mulher se desespera em criatividade e ele tem o luxo inigualável de vê-la se matando com todos os seus recursos e artimanhas de sedução.
Homem que broxa é o único a desfrutar de um banquete.
Publicado em UOL em 22/12/2017
SUBIR A MÃO É O VERDADEIRO TALENTO NA SEDUÇÃO
Os homens têm pressa pelo sexo. E a ansiedade só destrói a intimidade.
Sofrem com a mania de descer a mão assim que começa o envolvimento. E costumam tomar a iniciativa em festas e baladas.
Não sei da onde que julgam que a bolinação em público é agradável. É apenas constrangedor, não desenvolve a libido, não arrebata nenhuma mulher. Ainda demonstra uma falta de cuidado com a privacidade e com aquilo que os outros podem pensar.
Homem às vezes trata a mulher como homem logo querendo tudo de uma vez, chamando para o atrito (com semelhanças histéricas de uma briga), não importando a hora e o lugar.
Colocou na cabeça que precisa de uma atitude depois do beijo, que não pode ficar somente no beijo. Ou que o beijo é um semáforo verde para o resto do corpo. Engana-se, o beijo não é uma pulseira VIP para o camarote. O beijo já é tudo, já é explosivo suficiente para garantir a excitação. É no beijo que encontramos quem é capaz de voar no trapézio da nossa língua.
Como o homem jura que a pegação deve ser selvagem, ele se esparrama como um polvo em toques sem perícia alguma. Seria cômico se não fosse invasivo. E ele acha que a mulher segura a mão dele como provocação, ela segura a mão dele para que ele realmente pare, não está sendo divertido mesmo.
Pegada não é sair metendo os dedos. Mas exercitar o mistério do olhar e do elogio. Um beijo no pescoço arrepia mais do que alisar a calcinha, uma dicção séria cochichada no ouvido desperta mais estremecimento do que apertar o peito, uma carícia no rosto gera mais calor do que esfregar a bunda.
Segurar a cintura com firmeza, por exemplo, costuma obter grande sucesso na conquista, e revela uma destreza maior que qualquer afobação.
Isso não é um pedido conservador por recato e romantismo, é química. A sensualidade depende exatamente da mistura dos elementos, da hesitação e da insinuação, jamais da explosão direta do laboratório.
As palavras são as preliminares. Homem que não tem capacidade para falar nunca tocará o coração de uma mulher.
Publicado em UOL em 15/12/2017
Sofrem com a mania de descer a mão assim que começa o envolvimento. E costumam tomar a iniciativa em festas e baladas.
Não sei da onde que julgam que a bolinação em público é agradável. É apenas constrangedor, não desenvolve a libido, não arrebata nenhuma mulher. Ainda demonstra uma falta de cuidado com a privacidade e com aquilo que os outros podem pensar.
Homem às vezes trata a mulher como homem logo querendo tudo de uma vez, chamando para o atrito (com semelhanças histéricas de uma briga), não importando a hora e o lugar.
Colocou na cabeça que precisa de uma atitude depois do beijo, que não pode ficar somente no beijo. Ou que o beijo é um semáforo verde para o resto do corpo. Engana-se, o beijo não é uma pulseira VIP para o camarote. O beijo já é tudo, já é explosivo suficiente para garantir a excitação. É no beijo que encontramos quem é capaz de voar no trapézio da nossa língua.
Como o homem jura que a pegação deve ser selvagem, ele se esparrama como um polvo em toques sem perícia alguma. Seria cômico se não fosse invasivo. E ele acha que a mulher segura a mão dele como provocação, ela segura a mão dele para que ele realmente pare, não está sendo divertido mesmo.
Pegada não é sair metendo os dedos. Mas exercitar o mistério do olhar e do elogio. Um beijo no pescoço arrepia mais do que alisar a calcinha, uma dicção séria cochichada no ouvido desperta mais estremecimento do que apertar o peito, uma carícia no rosto gera mais calor do que esfregar a bunda.
Segurar a cintura com firmeza, por exemplo, costuma obter grande sucesso na conquista, e revela uma destreza maior que qualquer afobação.
Isso não é um pedido conservador por recato e romantismo, é química. A sensualidade depende exatamente da mistura dos elementos, da hesitação e da insinuação, jamais da explosão direta do laboratório.
As palavras são as preliminares. Homem que não tem capacidade para falar nunca tocará o coração de uma mulher.
Publicado em UOL em 15/12/2017
NÃO EXAGERE NA MENTIRA DE SEU PERFIL NA WEB
Até o fingimento tem ética. Até o fingimento tem limite.
Se você quer falsear em conversa online sobre as suas características não extrapole o bom senso. Tenha a decência de não propor uma cirurgia plástica nas palavras. Minta proporcionalmente, não a ponto de transfigurar o seu perfil.
Entendo que deseja agradar, respeito a sua insegurança diante da ditadura do padrão estético, nem todos estão prontos para dizer a verdade de cara limpa, às vezes a carência fala o que não deve, mas não exagere. Não apresente traços impossíveis e contrastantes. Não nasça de novo para agradar pretendentes. A paixão permite dez por cento de invenção.
Se no chat ou nos aplicativos de namoro recorrer a uma superdose de distorção, dificultará o café presencial e o envolvimento real. Ficará constrangedor aparecer com a cor de cabelo e dos olhos mudados. Ou com uma profissão nova. Ou ainda falido, depois de ostentar viagens e uma mansão imaginária. Ou casado e com uma penca de filhos, quando pregava a completa solteirice.
Lembre que existe a opção de pesquisa online e de confirmação dos dados antes do encontro. As suas fotos e antecedentes dependem de uma razoabilidade para a comparação. Causa mal-estar e medo de possível psicopatia quando um crush destoa grosseiramente de sua descrição inicial.
Há uma licença poética, o que não significa permissividade. É admissível a margem de erro de Ibope na sedução de cinco percentuais para cima ou para baixo. Pode mentir cinco quilos a menos, cinco anos a menos, cinco centímetros a mais, não passe disso. Não se mostre com 60 anos e depois surja envelhecido milagrosamente, em duas semanas, com 80. Não dará certo. Será patético, será revoltante. Acabará descartado não devido a um preconceito com a idade, porém pelo preconceito com a mentira.
Oscilações são perdoáveis, desde que pequenas. O que incomoda é se passar por outro. Já mostra que não se aceita e não se ama. Sem amor próprio, é impossível amar alguém. A confiança é a maior beleza que existe.
Publicado em UOL em 08/12/2017
Se você quer falsear em conversa online sobre as suas características não extrapole o bom senso. Tenha a decência de não propor uma cirurgia plástica nas palavras. Minta proporcionalmente, não a ponto de transfigurar o seu perfil.
Entendo que deseja agradar, respeito a sua insegurança diante da ditadura do padrão estético, nem todos estão prontos para dizer a verdade de cara limpa, às vezes a carência fala o que não deve, mas não exagere. Não apresente traços impossíveis e contrastantes. Não nasça de novo para agradar pretendentes. A paixão permite dez por cento de invenção.
Se no chat ou nos aplicativos de namoro recorrer a uma superdose de distorção, dificultará o café presencial e o envolvimento real. Ficará constrangedor aparecer com a cor de cabelo e dos olhos mudados. Ou com uma profissão nova. Ou ainda falido, depois de ostentar viagens e uma mansão imaginária. Ou casado e com uma penca de filhos, quando pregava a completa solteirice.
Lembre que existe a opção de pesquisa online e de confirmação dos dados antes do encontro. As suas fotos e antecedentes dependem de uma razoabilidade para a comparação. Causa mal-estar e medo de possível psicopatia quando um crush destoa grosseiramente de sua descrição inicial.
Há uma licença poética, o que não significa permissividade. É admissível a margem de erro de Ibope na sedução de cinco percentuais para cima ou para baixo. Pode mentir cinco quilos a menos, cinco anos a menos, cinco centímetros a mais, não passe disso. Não se mostre com 60 anos e depois surja envelhecido milagrosamente, em duas semanas, com 80. Não dará certo. Será patético, será revoltante. Acabará descartado não devido a um preconceito com a idade, porém pelo preconceito com a mentira.
Oscilações são perdoáveis, desde que pequenas. O que incomoda é se passar por outro. Já mostra que não se aceita e não se ama. Sem amor próprio, é impossível amar alguém. A confiança é a maior beleza que existe.
Publicado em UOL em 08/12/2017
iFOOD SEXUAL
As pessoas não se conhecem mais presencialmente. Estão medrosas na sedução. Os aplicativos e as redes sociais vem matando a coragem. O que noto é uma fobia da intimidade. É sexo sem intimidade, é sexo sem o mais bonito da relação: a amizade do corpo e das palavras.
São cenas patéticas: o homem descobre o nome da mulher interessada e some do bar, evapora da balada, não entabula nenhuma curiosidade, não realiza nenhum pergunta, não desenvolve nenhuma aproximação, não explora o seu raciocínio, prefere chamar no inbox do Facebook para conversar em segredo aquilo que deveria fazer presencialmente. Isso quando não caça a pessoa no Tinder ou no Happn para cortejar mais diretamente. Ele se tornou preguiçoso, crianção, infantil, confinado na bolha tecnológica da facilidade. Tem medo frente a frente, de encarar respostas imprevisíveis e improvisar. Ele não sabe mais agir no calor dos acontecimentos. Não deseja se machucar e enfrentar a vida. Não se mexe para articular a fala e criar afinidades. Treme com a possibilidade de ser sabatinado por uma turma estranha e interagir em grupo para estreitar os laços e ganhar o espaço ao lado de uma atração. Seu projeto é conquistar alguém sem sair do quarto.
A timidez coletiva é pavor do sofrimento real, das cicatrizes e dissabores. O enamoramento virou um game, com bonecos de emojis e joystick na mão.
Assim como ele tampouco quer perder tempo com gentilezas e agrados. Ambiciona o iFood carnal, a tele-entrega virtual imediata, o sexo rápido desprovido de envolvimento, inteligência e memória. A operação canhestra se desenvolve em duas frases: gostei de você e vamos nos encontrar. O contato depende apenas de duas frases tecladas absolutamente genéricas para se chegar à cama.
Ou seja, foge-se do encontro inicial para agendar pela web, de modo lacônico, um encontro de verdade. Mas o encontro somente pode acontecer quando tudo estiver resolvido e nada mais precisa ser dito.
O flerte digital também disfarça o assédio e as grosseiras que seriam mais visíveis cara a cara. É um silenciador de ofensas e ameaças, já que tem a impunidade do jogo rápido do celular e do bloqueio do número e da conta.
Vivemos um conto de fadas de avatares. Nem o amor nem a dor são reais, dando lugar a felicidade e tesão artificiais.
Publicado em UOL em 01/12/2017
São cenas patéticas: o homem descobre o nome da mulher interessada e some do bar, evapora da balada, não entabula nenhuma curiosidade, não realiza nenhum pergunta, não desenvolve nenhuma aproximação, não explora o seu raciocínio, prefere chamar no inbox do Facebook para conversar em segredo aquilo que deveria fazer presencialmente. Isso quando não caça a pessoa no Tinder ou no Happn para cortejar mais diretamente. Ele se tornou preguiçoso, crianção, infantil, confinado na bolha tecnológica da facilidade. Tem medo frente a frente, de encarar respostas imprevisíveis e improvisar. Ele não sabe mais agir no calor dos acontecimentos. Não deseja se machucar e enfrentar a vida. Não se mexe para articular a fala e criar afinidades. Treme com a possibilidade de ser sabatinado por uma turma estranha e interagir em grupo para estreitar os laços e ganhar o espaço ao lado de uma atração. Seu projeto é conquistar alguém sem sair do quarto.
A timidez coletiva é pavor do sofrimento real, das cicatrizes e dissabores. O enamoramento virou um game, com bonecos de emojis e joystick na mão.
Assim como ele tampouco quer perder tempo com gentilezas e agrados. Ambiciona o iFood carnal, a tele-entrega virtual imediata, o sexo rápido desprovido de envolvimento, inteligência e memória. A operação canhestra se desenvolve em duas frases: gostei de você e vamos nos encontrar. O contato depende apenas de duas frases tecladas absolutamente genéricas para se chegar à cama.
Ou seja, foge-se do encontro inicial para agendar pela web, de modo lacônico, um encontro de verdade. Mas o encontro somente pode acontecer quando tudo estiver resolvido e nada mais precisa ser dito.
O flerte digital também disfarça o assédio e as grosseiras que seriam mais visíveis cara a cara. É um silenciador de ofensas e ameaças, já que tem a impunidade do jogo rápido do celular e do bloqueio do número e da conta.
Vivemos um conto de fadas de avatares. Nem o amor nem a dor são reais, dando lugar a felicidade e tesão artificiais.
Publicado em UOL em 01/12/2017
OS TORMENTOS AMOROSOS DAS PESSOAS SENSÍVEIS
Conviver com pessoas sensíveis é uma proeza. Tem o lado ruim. Elas farejam uma briga na véspera do desentendimento. Pescam no ar que as coisas não estão bem. A palavra nem ficou torta e já notam a insinuação da curva na linguagem. Discutem por premonições, na ânsia de resolver crises antecipadamente. Flagram os problemas por imperceptíveis mudanças de hábitos. Não aguardam a eclosão da raiva, a pétala do ódio, colhem as folhas como se fossem flores. São antenas das ações dos mais próximos. Intuem o estranhamento e já puxam o assunto: Você não está legal, né?
O sujeito em questão ainda não tem consciência da esquisitice, sempre acaba informado por sua companhia. É algo que vai acontecer dali a dois dias, mas o sensível notou a diferença com larga antecedência.
Pela sintonia incomum com o outro, os sentimentos correm mais rápido nos olhos. Parece que o sensível está normalmente puxando briga, porque nunca descansa em observar, comparar e questionar. Jamais relaxa, jamais põe o seu instinto a dormir. Adivinha mais do acredita naquilo que escuta.
Arca com o preconceito da profecia. Pois o profeta é culpado socialmente também pelas catástrofes que anunciou. Se ele enxerga uma enchente, mesmo sendo inocente de qualquer envolvimento, torna-se responsável por não ter feito nada para conter as águas.
Na intimidade então, é muito mais grave, o adivinho não conta com a compreensão de ninguém. O sexto sentido não ajuda o relacionamento, somente atrapalha. Prevenir é incomodar e chamar as crises para perto.
O sensível passa a ser taxado de louco e paranoico, porque usa a emoção como fiadora de suas atitudes. Por exemplo, é capaz de captar o interesse de seu namorado ou namorada por alguém com uma antecedência assustadora, somente pelo jeito que menciona o nome em casa. Seu dom é confundido com a natureza de um defeito e de constante ameaça. Assim começa a ser visto apenas como ciumento. E um ciumento sem motivos.
Não há provas, não há infidelidade, não há dados concretos, existe unicamente a percepção quase sobrenatural de uma atração se desenvolvendo para justificar a desconfiança.
Não deseje estar na pele de um sensível. Ele sofre o dobro antes para não sofrer na hora.
Publicado em UOL em 24/11/2017
O sujeito em questão ainda não tem consciência da esquisitice, sempre acaba informado por sua companhia. É algo que vai acontecer dali a dois dias, mas o sensível notou a diferença com larga antecedência.
Pela sintonia incomum com o outro, os sentimentos correm mais rápido nos olhos. Parece que o sensível está normalmente puxando briga, porque nunca descansa em observar, comparar e questionar. Jamais relaxa, jamais põe o seu instinto a dormir. Adivinha mais do acredita naquilo que escuta.
Arca com o preconceito da profecia. Pois o profeta é culpado socialmente também pelas catástrofes que anunciou. Se ele enxerga uma enchente, mesmo sendo inocente de qualquer envolvimento, torna-se responsável por não ter feito nada para conter as águas.
Na intimidade então, é muito mais grave, o adivinho não conta com a compreensão de ninguém. O sexto sentido não ajuda o relacionamento, somente atrapalha. Prevenir é incomodar e chamar as crises para perto.
O sensível passa a ser taxado de louco e paranoico, porque usa a emoção como fiadora de suas atitudes. Por exemplo, é capaz de captar o interesse de seu namorado ou namorada por alguém com uma antecedência assustadora, somente pelo jeito que menciona o nome em casa. Seu dom é confundido com a natureza de um defeito e de constante ameaça. Assim começa a ser visto apenas como ciumento. E um ciumento sem motivos.
Não há provas, não há infidelidade, não há dados concretos, existe unicamente a percepção quase sobrenatural de uma atração se desenvolvendo para justificar a desconfiança.
Não deseje estar na pele de um sensível. Ele sofre o dobro antes para não sofrer na hora.
Publicado em UOL em 24/11/2017
VIAGEM COM OUTRO CASAL É MANCADA
Não recomendo viajar com casal de amigos. Será uma lua-de-mel ao contrário. Nunca é agradável, com raras exceções.
Em vez de relaxar, atravessará uma tensa terapia coletiva, consolando, dando conselhos e procurando relativizar a crise.
Você desejava ardentemente descansar, pôr os pés para cima numa rede e somente se incomodará, arremessado para uma zona de guerra e precisando negociar com sequestrador para atender exigências extravagantes e liberar reféns.
Quando não é você que briga com a sua companhia, é o outro casal que se desentende por uma bobagem. Um emburrece, embirra, trava e já deseja antecipar a volta para casa.
Sempre acontece um mal-estar do nada, suspendendo passeios, cortando festas pela metade e aguando o café da manhã.
Viajar em casais é um inferno imprevisível. Talvez a convivência com modelos diferentes de afetos gere incontrolável inveja. Os casais começam a se comparar, a fiscalizar as atitudes, a vigiar a quantidade de beijos e afagos, a determinar quem é mais ou menos feliz.
São naturais comentários como “viu o jeito que ele trata ela?” ou “ela não se mexe para a relação!”
Quanto maior o percurso, maiores os danos e as possibilidades de atrito.
Depois do escândalo e do cansaço psicológico do drama, quem discute logo faz as pazes, esquece a rusga, mas não percebe que estragou o final de semana e as férias. Repassou apenas adiante o infortúnio: estragou o ânimo e a confiança dos demais. É um efeito dominó, as peças da racionalidade vão caindo em sequência, abrindo espaço para catarse, aborrecimentos e ataque de nervos.
E quando não ocorre nenhuma discussão evidente, aflora o contraste de personalidades e de dinâmica. Existirá um par amoroso hiperativo que baterá no seu quarto às 5h30 para não perder o amanhecer na praia. Você foi lá para dormir até mais tarde, namorar calmamente, com um objetivo absolutamente divergente dos seus companheiros de estrada, e sofrerá para negar expectativas de suor, caminhada, trilhas e aventuras.
Viajamos em casais pela nostalgia das excursões de turma da escola. Com a diferença de que não há professores para abafar as confusões e resolver os impasses.
Publicado em UOL em 17/11/2017
Em vez de relaxar, atravessará uma tensa terapia coletiva, consolando, dando conselhos e procurando relativizar a crise.
Você desejava ardentemente descansar, pôr os pés para cima numa rede e somente se incomodará, arremessado para uma zona de guerra e precisando negociar com sequestrador para atender exigências extravagantes e liberar reféns.
Quando não é você que briga com a sua companhia, é o outro casal que se desentende por uma bobagem. Um emburrece, embirra, trava e já deseja antecipar a volta para casa.
Sempre acontece um mal-estar do nada, suspendendo passeios, cortando festas pela metade e aguando o café da manhã.
Viajar em casais é um inferno imprevisível. Talvez a convivência com modelos diferentes de afetos gere incontrolável inveja. Os casais começam a se comparar, a fiscalizar as atitudes, a vigiar a quantidade de beijos e afagos, a determinar quem é mais ou menos feliz.
São naturais comentários como “viu o jeito que ele trata ela?” ou “ela não se mexe para a relação!”
Quanto maior o percurso, maiores os danos e as possibilidades de atrito.
Depois do escândalo e do cansaço psicológico do drama, quem discute logo faz as pazes, esquece a rusga, mas não percebe que estragou o final de semana e as férias. Repassou apenas adiante o infortúnio: estragou o ânimo e a confiança dos demais. É um efeito dominó, as peças da racionalidade vão caindo em sequência, abrindo espaço para catarse, aborrecimentos e ataque de nervos.
E quando não ocorre nenhuma discussão evidente, aflora o contraste de personalidades e de dinâmica. Existirá um par amoroso hiperativo que baterá no seu quarto às 5h30 para não perder o amanhecer na praia. Você foi lá para dormir até mais tarde, namorar calmamente, com um objetivo absolutamente divergente dos seus companheiros de estrada, e sofrerá para negar expectativas de suor, caminhada, trilhas e aventuras.
Viajamos em casais pela nostalgia das excursões de turma da escola. Com a diferença de que não há professores para abafar as confusões e resolver os impasses.
Publicado em UOL em 17/11/2017
QUANDO O HOMEM APRESENTA A FAMÍLIA NÃO SIGNIFICA NADA
Mostrar a família é um passo importante no relacionamento para a mulher - o equivalente a oficializar o laço. Não é qualquer um que ela apresenta aos filhos. Não é qualquer um que ela apresenta aos pais e irmãos. Denota o momento de maior nervosismo pessoal, quando ela unifica a felicidade privada com a aceitação pública.
Casos, rolos, peguetes e crushs mudam de natureza vocabular ao conhecer a intimidade da mulher. Ela é reservada e comedida na hora de trazer alguém para dentro das fofocas, histórias vergonhosas e apelidos de casa. Só faz se tem certeza do amor ou do encaminhamento do amor. Só faz se está muito apaixonada e convicta. Não quer parecer leviana e inconstante, criar expectativas infundadas e ter que explicar depois onde se encontra o futuro ex namorado.
O que a mulher não entende é que o comportamento masculino não reflete iguais gravidade e responsabilidade. Abrir o convívio
familiar não resultará em relacionamento sério. Não é a mesma moeda, o mesmo valor, o mesmo peso. Não simboliza pré-requisito para alterar o status do Facebook.
O engano é supor que ele se importa com o que os parentes pensam dele. Ele dá de ombros para as suposições e maldades. Separa, desde sempre, a vida amorosa da familiar.
Desse jeito, você pode passear com os filhos ou com os pais dele, ser acolhida e festejada, e ele nunca mais telefonar. Não representa um compromisso, o marco do início do namoro, o anúncio oficial do fim da solteirice. Não ganhará o sujeito alcançando as esferas caseiras. Não significa nada, absolutamente nada. Por acaso, a família estava por perto e se encontraram e ele apresentou com quem vinha saindo, assim como pode apresentar outra pessoa na semana seguinte. E não haverá crise de consciência e não será malvisto como promíscuo (afinal a sociedade machista perdoa o sexo variado do homem - enxerga como experiência - e condena os inúmeros parceiros da mulher - entendido como inconsequência e imaturidade).
Homem não tem hierarquia de encontros. Não é porque ele lhe convidou para formar o seu par no casamento do melhor amigo ou porque lhe chamou para uma formatura de colega ou porque lhe levou para uma confraternização de trabalho que vem avisando de que optou pela exclusividade e estabilidade na relação.
Não, você não passou de fase, nem alcançou bônus, eventos são meros eventos, ele somente não deseja aparecer sozinho nas festas e compromissos (porém, estranhamente, ainda pretende se manter sozinho, livre e desimpedido).
Carregará a sensação amarga de que foi usada, de que serviu como companhia de luxo, de que foi parte da decoração de uma vitrine. E não deixa de ser verdade.
Publicado em UOL em 10/11/2017
Casos, rolos, peguetes e crushs mudam de natureza vocabular ao conhecer a intimidade da mulher. Ela é reservada e comedida na hora de trazer alguém para dentro das fofocas, histórias vergonhosas e apelidos de casa. Só faz se tem certeza do amor ou do encaminhamento do amor. Só faz se está muito apaixonada e convicta. Não quer parecer leviana e inconstante, criar expectativas infundadas e ter que explicar depois onde se encontra o futuro ex namorado.
O que a mulher não entende é que o comportamento masculino não reflete iguais gravidade e responsabilidade. Abrir o convívio
familiar não resultará em relacionamento sério. Não é a mesma moeda, o mesmo valor, o mesmo peso. Não simboliza pré-requisito para alterar o status do Facebook.
O engano é supor que ele se importa com o que os parentes pensam dele. Ele dá de ombros para as suposições e maldades. Separa, desde sempre, a vida amorosa da familiar.
Desse jeito, você pode passear com os filhos ou com os pais dele, ser acolhida e festejada, e ele nunca mais telefonar. Não representa um compromisso, o marco do início do namoro, o anúncio oficial do fim da solteirice. Não ganhará o sujeito alcançando as esferas caseiras. Não significa nada, absolutamente nada. Por acaso, a família estava por perto e se encontraram e ele apresentou com quem vinha saindo, assim como pode apresentar outra pessoa na semana seguinte. E não haverá crise de consciência e não será malvisto como promíscuo (afinal a sociedade machista perdoa o sexo variado do homem - enxerga como experiência - e condena os inúmeros parceiros da mulher - entendido como inconsequência e imaturidade).
Homem não tem hierarquia de encontros. Não é porque ele lhe convidou para formar o seu par no casamento do melhor amigo ou porque lhe chamou para uma formatura de colega ou porque lhe levou para uma confraternização de trabalho que vem avisando de que optou pela exclusividade e estabilidade na relação.
Não, você não passou de fase, nem alcançou bônus, eventos são meros eventos, ele somente não deseja aparecer sozinho nas festas e compromissos (porém, estranhamente, ainda pretende se manter sozinho, livre e desimpedido).
Carregará a sensação amarga de que foi usada, de que serviu como companhia de luxo, de que foi parte da decoração de uma vitrine. E não deixa de ser verdade.
Publicado em UOL em 10/11/2017
A MÃO BOBA DA MULHER
Mulher conquista o homem pela barriga. Mas não é cozinhando.
Revela suas segundas intenções, quando numa foto, desliza a mão para a barriga do homem. Ela está dizendo que deseja ficar com ele. É mais do que um convite, trata-se de uma imposição.
Colocar a mão ali é fatal: significa que está interessada, e gostaria que ele fosse seu.
A mão na barriga desenha relacionamento sério, invoca os santos a baterem cabeça. É altamente perigosa e pornográfica.
De repente, é o primeiro contato da figura feminina e já finca de saída a bandeira dos dedos no umbigo. Crava a flâmula da dominação no Everest da gordura.
A mão na barriga não mente, não engana. Por ser invasiva, denuncia promessa de intimidade. Se ele está casado, expõe igualmente clara intenção de roubo
É diferente de qualquer aproximação, da amistosa mão no ombro, própria de amigo, ou da inofensiva mãos nas costas, característica do respeito, ou ainda da mão no peito, exclusividade dos apaixonados, quando existe uma concordância de mostrar contos de fadas para as redes sociais.
A barriga do homem é seu ponto mais frágil, onde guarda as suas noitadas e vida boêmia.
Quando a mulher põe os dedos sobre o ventre masculino vai avisando que acabou a cervejada, as saídas sem fim com os amigos, a churrascada orgiástica. Ela censura o futuro com um único gesto. E, ao mesmo tempo, naquele aceno despretensioso no volume do corpo, entrega a sua esperança de gestação, de ser mãe, de formar família.
A mão na barriga é um ato falho. Talvez ela nem tenha premeditado o toque, pois foi sem querer querendo. O que importa é que não há erro no prognóstico, ela demarcou território para a posteridade.
Pode olhar as primeiras fotos de seu namoro. Veja se não existe a profética mão na barriga.
Publicado em UOL em 03/11/2017
Revela suas segundas intenções, quando numa foto, desliza a mão para a barriga do homem. Ela está dizendo que deseja ficar com ele. É mais do que um convite, trata-se de uma imposição.
Colocar a mão ali é fatal: significa que está interessada, e gostaria que ele fosse seu.
A mão na barriga desenha relacionamento sério, invoca os santos a baterem cabeça. É altamente perigosa e pornográfica.
De repente, é o primeiro contato da figura feminina e já finca de saída a bandeira dos dedos no umbigo. Crava a flâmula da dominação no Everest da gordura.
A mão na barriga não mente, não engana. Por ser invasiva, denuncia promessa de intimidade. Se ele está casado, expõe igualmente clara intenção de roubo
É diferente de qualquer aproximação, da amistosa mão no ombro, própria de amigo, ou da inofensiva mãos nas costas, característica do respeito, ou ainda da mão no peito, exclusividade dos apaixonados, quando existe uma concordância de mostrar contos de fadas para as redes sociais.
A barriga do homem é seu ponto mais frágil, onde guarda as suas noitadas e vida boêmia.
Quando a mulher põe os dedos sobre o ventre masculino vai avisando que acabou a cervejada, as saídas sem fim com os amigos, a churrascada orgiástica. Ela censura o futuro com um único gesto. E, ao mesmo tempo, naquele aceno despretensioso no volume do corpo, entrega a sua esperança de gestação, de ser mãe, de formar família.
A mão na barriga é um ato falho. Talvez ela nem tenha premeditado o toque, pois foi sem querer querendo. O que importa é que não há erro no prognóstico, ela demarcou território para a posteridade.
Pode olhar as primeiras fotos de seu namoro. Veja se não existe a profética mão na barriga.
Publicado em UOL em 03/11/2017
A DITADURA DAS UNHAS
Que deixe uma semana sem fazer as unhas. Que se permita uma unha descolorida, uma unha gasta, uma unha desfeita, não há maior libertação do que participar de uma reunião com somente o coração da unha pintado e as bordas descascadas.
Que não se importe com o que o namorado pensa, com o julgamento do amor, com a cobrança da paixão. Peça primeiro para que ele arrume as cutículas das palavras e aja com educação e respeito.
Que não sofra com a obrigação da manicure semanal, a ponto de morrer pela aparência. A liberdade não é ansiosa. Não se escravize para agradar. Desligue a câmera dos outros em si.
Uma unha limpa e pura tem o seu valor, a sua sedução, a sua tranquilidade. Assim como os dentes, combinam com o guarda-roupa inteiro.
Não aceite a imposição de sempre cavar um horário a ponto de enlouquecer. Que o salão seja um prazer, que a bacia de água quente se faça em batismo. Não enxergue a poltrona como uma extrema unção, um deus-me-acuda, um senhor chefe me acusa.
A obrigação é machismo, achismo, controle. Que as mãos espalmadas não sirvam para algemas, e sim para o pássaro do pincel relaxar do voo e espalhar a tinta.
É inaceitável o jugo. A perfeição é pressão. Resista. Pule o calendário de vez em quando, salte a agenda ora e vez.
Qualquer pessoa riscará as unhas digitando, mexendo no celular, dirigindo o carro, escolhendo as chaves. Não é problema do esmalte, mas de mentalidade. Não volte para reparar, não entre em pânico para corrigir: abandone as cismas pelo improviso.
Não existe como se prevenir do acidente, da fricção, do contato. Mulheres não são bonecas para a exibição em caixa e plástico. Unhas desfeitas não correspondem a defeitos de fábrica. Cuspa as pilhas para fora das costas. Não se apequene para se mostrar impecável. Não se diminua para impressionar.
A naturalidade é afrodisíaca. Segure a felicidade com a ponta das unhas, sem medo de estragar.
Publicado em UOL em 27/10/2017
Que não se importe com o que o namorado pensa, com o julgamento do amor, com a cobrança da paixão. Peça primeiro para que ele arrume as cutículas das palavras e aja com educação e respeito.
Que não sofra com a obrigação da manicure semanal, a ponto de morrer pela aparência. A liberdade não é ansiosa. Não se escravize para agradar. Desligue a câmera dos outros em si.
Uma unha limpa e pura tem o seu valor, a sua sedução, a sua tranquilidade. Assim como os dentes, combinam com o guarda-roupa inteiro.
Não aceite a imposição de sempre cavar um horário a ponto de enlouquecer. Que o salão seja um prazer, que a bacia de água quente se faça em batismo. Não enxergue a poltrona como uma extrema unção, um deus-me-acuda, um senhor chefe me acusa.
A obrigação é machismo, achismo, controle. Que as mãos espalmadas não sirvam para algemas, e sim para o pássaro do pincel relaxar do voo e espalhar a tinta.
É inaceitável o jugo. A perfeição é pressão. Resista. Pule o calendário de vez em quando, salte a agenda ora e vez.
Qualquer pessoa riscará as unhas digitando, mexendo no celular, dirigindo o carro, escolhendo as chaves. Não é problema do esmalte, mas de mentalidade. Não volte para reparar, não entre em pânico para corrigir: abandone as cismas pelo improviso.
Não existe como se prevenir do acidente, da fricção, do contato. Mulheres não são bonecas para a exibição em caixa e plástico. Unhas desfeitas não correspondem a defeitos de fábrica. Cuspa as pilhas para fora das costas. Não se apequene para se mostrar impecável. Não se diminua para impressionar.
A naturalidade é afrodisíaca. Segure a felicidade com a ponta das unhas, sem medo de estragar.
Publicado em UOL em 27/10/2017
NÃO CASE SE A RELAÇÃO É SÓ FELIZ: TEM ALGO ERRADO
Se o namoro não teve nenhuma discussão, não enfrentou nenhuma separação, não aguentou nenhuma fossa, não enfrentou nenhuma adversidade profissional ou de doença, se tudo é maravilhoso e alegre, calmo e tranquilo, sem sobressalto, jamais case.
Namoro perfeito desencadeia separações trágicas e irreversíveis. As imperfeições são preventivas, desenvolvem uma noção de verdade para não cobrar em demasia e respeitar os limites do outro.
Você não casará somente com as qualidades de seu par, portanto, precisa também se preparar o quanto antes aos sentimentos ruins, tais raiva e angústia, para no futuro não estranhar e se manter junto.
Uma relação muito correta não é a certa. Há grandes chances de se separar logo na primeira crise. Quem se encontra apenas em lua de mel depois não aguenta o trabalho árduo debaixo do sol.
É fundamental experimentar desgostos dentro da convivência para aprender a desarmar defeitos e diferenças.
Encanto que se perde de supetão é traumático. A impressão é de profundo engano: que se relacionou com um impostor e não sabia com quem lidava.
Aconselhável uma briga no decorrer dos laços para se habituar ao lado sombrio da força do amor e encontrar formas de iluminá-lo.
Um casal excessivamente feliz não contará com resistência e anticorpos para assumir as tristezas. Quedará no início das dissidências. A decepção será maior porque não foi antecedida de pequenas frustrações. Tampouco o par se fortalecerá trabalhando a intimidade e a empatia na superação dos contratempos. Estará fora da realidade, numa idealização difícil de regressar a sós.
Publicado em UOL em 20/10/2017
Namoro perfeito desencadeia separações trágicas e irreversíveis. As imperfeições são preventivas, desenvolvem uma noção de verdade para não cobrar em demasia e respeitar os limites do outro.
Você não casará somente com as qualidades de seu par, portanto, precisa também se preparar o quanto antes aos sentimentos ruins, tais raiva e angústia, para no futuro não estranhar e se manter junto.
Uma relação muito correta não é a certa. Há grandes chances de se separar logo na primeira crise. Quem se encontra apenas em lua de mel depois não aguenta o trabalho árduo debaixo do sol.
É fundamental experimentar desgostos dentro da convivência para aprender a desarmar defeitos e diferenças.
Encanto que se perde de supetão é traumático. A impressão é de profundo engano: que se relacionou com um impostor e não sabia com quem lidava.
Aconselhável uma briga no decorrer dos laços para se habituar ao lado sombrio da força do amor e encontrar formas de iluminá-lo.
Um casal excessivamente feliz não contará com resistência e anticorpos para assumir as tristezas. Quedará no início das dissidências. A decepção será maior porque não foi antecedida de pequenas frustrações. Tampouco o par se fortalecerá trabalhando a intimidade e a empatia na superação dos contratempos. Estará fora da realidade, numa idealização difícil de regressar a sós.
Publicado em UOL em 20/10/2017
EMPRÉSTIMO ESTRAGA A AMIZADE
Dinheiro estraga a amizade, corrompe a amizade, prejudica a amizade. Nunca a relação de paz e cumplicidade será como antes se um amigo pede dinheiro emprestado. Pois a devolução interdita a confiança. Um telefonema ou um encontro arcará depois com a sombra monetária - esse corvo incansável - pairando sobre as cabeças.
Mesmo com a lealdade de décadas, mesmo que seja um acordo entre pessoas generosas, mesmo que ambos estabeleçam datas certinhas de reposição, não há como inibir os danos emocionais.
O dinheiro retira a pureza do convívio, amaldiçoa a espontaneidade das atitudes, macula o pensamento com segundas intenções. A naturalidade soará, em seguida, como oportunismo. As fronteiras entre a gratuidade e o interesse sumirão com o tempo.
Quem cede não pode cobrar, quem recebe fica tenso para devolver e os prazos nunca se confirmam. O adiamento produz fofocas de uma parte e desculpas de outra.
Não constranja o seu amigo solicitando um empréstimo. Ele não terá como negar. E se negar, devido ao orçamento apertado, realmente se achará a mais avarenta das criaturas. A cumplicidade vai recuar para o terreno minado das insinuações.
Todos têm gastos controlados com esposa ou marido ou pais ou filhos, qualquer saída de caixa acabará implicando mais gente e trará mais julgamento. Quem dá se enxergará obrigado a se explicar aos próximos o motivo da filantropia, porque tirou da receita e beneficiou alguém em detrimento dos demais. Os familiares pensarão que a situação anda cômoda, que vem sobrando recursos e passarão a exigir o dobro. O paraíso costuma ser vizinho do inferno das especulações.
Aquele que pede dinheiro é insaciável, tampouco se contenta com uma única ajuda, não se basta com a exceção, consolidará o confidente como uma saída fácil e conhecida para fugir dos juros dos bancos e dos cartões de crédito.
Amigo não é banco, amigo não é seguradora, amigo não é doleiro, amigo não é cambista, amigo é a simplicidade descompromissada.
O amigo deve ajudar apenas permanecendo junto, retirando conselhos e risadas dos bolsos. É arriscado assumir o papel de provedor e de pai das crises - o personagem não descolará do rosto.
Amizade não pode sair da mentalidade da infância, da época sem salário e sem cobranças, em que o máximo que se emprestava era balas, chiclete, bolachinha recheada, o canudinho do refrigerante e a felicidade dos braços nos ombros.
Publicado em UOL em 13/10/2017
Mesmo com a lealdade de décadas, mesmo que seja um acordo entre pessoas generosas, mesmo que ambos estabeleçam datas certinhas de reposição, não há como inibir os danos emocionais.
O dinheiro retira a pureza do convívio, amaldiçoa a espontaneidade das atitudes, macula o pensamento com segundas intenções. A naturalidade soará, em seguida, como oportunismo. As fronteiras entre a gratuidade e o interesse sumirão com o tempo.
Quem cede não pode cobrar, quem recebe fica tenso para devolver e os prazos nunca se confirmam. O adiamento produz fofocas de uma parte e desculpas de outra.
Não constranja o seu amigo solicitando um empréstimo. Ele não terá como negar. E se negar, devido ao orçamento apertado, realmente se achará a mais avarenta das criaturas. A cumplicidade vai recuar para o terreno minado das insinuações.
Todos têm gastos controlados com esposa ou marido ou pais ou filhos, qualquer saída de caixa acabará implicando mais gente e trará mais julgamento. Quem dá se enxergará obrigado a se explicar aos próximos o motivo da filantropia, porque tirou da receita e beneficiou alguém em detrimento dos demais. Os familiares pensarão que a situação anda cômoda, que vem sobrando recursos e passarão a exigir o dobro. O paraíso costuma ser vizinho do inferno das especulações.
Aquele que pede dinheiro é insaciável, tampouco se contenta com uma única ajuda, não se basta com a exceção, consolidará o confidente como uma saída fácil e conhecida para fugir dos juros dos bancos e dos cartões de crédito.
Amigo não é banco, amigo não é seguradora, amigo não é doleiro, amigo não é cambista, amigo é a simplicidade descompromissada.
O amigo deve ajudar apenas permanecendo junto, retirando conselhos e risadas dos bolsos. É arriscado assumir o papel de provedor e de pai das crises - o personagem não descolará do rosto.
Amizade não pode sair da mentalidade da infância, da época sem salário e sem cobranças, em que o máximo que se emprestava era balas, chiclete, bolachinha recheada, o canudinho do refrigerante e a felicidade dos braços nos ombros.
Publicado em UOL em 13/10/2017
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
CORAGEM DE APOIAR
É necessário coragem para trocar de planos e recomeçar. Mas ainda é preciso mais valentia para aceitar que o outro altere de repente o seu papel no relacionamento e o seu ideal de existência.
Certamente é corajoso quem muda de vida, mas heroico mesmo é quem apoia a mudança. Maridos e esposas, namorados e namoradas que compreendem a reviravolta, seguram a barra, improvisam na crise, para não deixar a sua companhia adoecer em frustração.
Não vão pesar o caminho com âncoras e chantagens. Não vão censurar as novidades pelo conforto das decisões já assumidas. Não vão limitar o seu parceiro em nome da segurança. Não vão usar os filhos como escudo para o medo. Não vão inibir a ousadia para manter o patrimônio.
Não acham que é loucura seguir os sonhos, acreditam que o maior desatino é não fazer aquilo que se gosta, por mais que a descoberta seja tardia e inesperada.
São álibis de viagens, de intercâmbios, de vestibulares, de reposicionamento de carreira. Nem uma possível distância física alimenta o ranço e o ressentimento. Sabem que o sucesso não vem fácil, porém entendem que o prazer pessoal deve vir antes. Melhor a liberdade do aperto a prisão nababesca da apatia.
Enquanto todos olham com desconfiança a desistência, eles não desaprovam, ainda que isso custe dinheiro a menos no final do mês e sugira caso psiquiátrico para a família.
Enquanto todos classificam o abandono de uma vaga estável por um ofício absolutamente inconstante e de complicada aceitação, eles criam condições para que ocorra a transição sem trauma e culpa. Abdicam das férias, de um certo luxo, daquela reserva preventiva pela felicidade de seu par. Duplicam as suas tarefas, multiplicam a sua paciência, dedicados a garantir uma retaguarda para sua companhia se encontrar. Não ostentam a privação, muito menos recuam com as adversidades.
Amar é oferecer a mão ao desconhecido e combater a covardia da inércia.
Lembro da história exemplar do britânico Dean Koontz, autor da trilogia Frankenstein e hoje um dia dez escritores mais ricos do mundo. Ele trabalhava como assistente social e como professor de inglês e reclamava que não sobrava tempo para escrever. Os finais de semana eram curtos para pôr em prática seus alentados projetos de romance. Cansada da lenga-lenga e do infinito adiamento da vocação, a sua esposa Gerda lhe fez uma proposta: que ele pedisse demissão. Em contrapartida, ela o sustentaria por cinco anos para que ele se dedicasse com exclusividade para as suas histórias. Não foi fácil, o orçamento minguou e qualquer página rasgada prenunciava o fracasso. Várias vezes ele quis desistir, e talvez só tenha conseguido o êxito pela inabalável insistência de alguém ao seu lado. Koontz ultrapassou os 450 milhões de exemplares vendidos, descobrindo assim que ninguém é corajoso sozinho. Há sempre um anjo da guarda fazendo sombra com as suas asas.
Publicado em UOL em 06/10/2017
Certamente é corajoso quem muda de vida, mas heroico mesmo é quem apoia a mudança. Maridos e esposas, namorados e namoradas que compreendem a reviravolta, seguram a barra, improvisam na crise, para não deixar a sua companhia adoecer em frustração.
Não vão pesar o caminho com âncoras e chantagens. Não vão censurar as novidades pelo conforto das decisões já assumidas. Não vão limitar o seu parceiro em nome da segurança. Não vão usar os filhos como escudo para o medo. Não vão inibir a ousadia para manter o patrimônio.
Não acham que é loucura seguir os sonhos, acreditam que o maior desatino é não fazer aquilo que se gosta, por mais que a descoberta seja tardia e inesperada.
São álibis de viagens, de intercâmbios, de vestibulares, de reposicionamento de carreira. Nem uma possível distância física alimenta o ranço e o ressentimento. Sabem que o sucesso não vem fácil, porém entendem que o prazer pessoal deve vir antes. Melhor a liberdade do aperto a prisão nababesca da apatia.
Enquanto todos olham com desconfiança a desistência, eles não desaprovam, ainda que isso custe dinheiro a menos no final do mês e sugira caso psiquiátrico para a família.
Enquanto todos classificam o abandono de uma vaga estável por um ofício absolutamente inconstante e de complicada aceitação, eles criam condições para que ocorra a transição sem trauma e culpa. Abdicam das férias, de um certo luxo, daquela reserva preventiva pela felicidade de seu par. Duplicam as suas tarefas, multiplicam a sua paciência, dedicados a garantir uma retaguarda para sua companhia se encontrar. Não ostentam a privação, muito menos recuam com as adversidades.
Amar é oferecer a mão ao desconhecido e combater a covardia da inércia.
Lembro da história exemplar do britânico Dean Koontz, autor da trilogia Frankenstein e hoje um dia dez escritores mais ricos do mundo. Ele trabalhava como assistente social e como professor de inglês e reclamava que não sobrava tempo para escrever. Os finais de semana eram curtos para pôr em prática seus alentados projetos de romance. Cansada da lenga-lenga e do infinito adiamento da vocação, a sua esposa Gerda lhe fez uma proposta: que ele pedisse demissão. Em contrapartida, ela o sustentaria por cinco anos para que ele se dedicasse com exclusividade para as suas histórias. Não foi fácil, o orçamento minguou e qualquer página rasgada prenunciava o fracasso. Várias vezes ele quis desistir, e talvez só tenha conseguido o êxito pela inabalável insistência de alguém ao seu lado. Koontz ultrapassou os 450 milhões de exemplares vendidos, descobrindo assim que ninguém é corajoso sozinho. Há sempre um anjo da guarda fazendo sombra com as suas asas.
Publicado em UOL em 06/10/2017
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