sábado, 31 de julho de 2010
GLOBO NEWS
sexta-feira, 30 de julho de 2010
TESTE CÂMARA CASCUDO PARA CASAIS
Não tive sequer o direito de torcer o nariz, ele já nasceu torto.
Sou complicado para comer. Quando convidado a jantar, minha missão é descobrir antes o que será servido. Depois é que confirmo presença. Há mais opções no cardápio do que não gosto do que gosto. Vivo cheio de restrições e não é por problema de saúde, por uma justificativa séria, nada de intolerância à lactose e diabetes, não irei morrer por alergia; é chatice mesmo. Não aguento strogonoff, pizza então com strogonoff é um pesadelo, mais infernal se coberto de batata palha. É uma espécie de anorexia literária.
Meu paladar é incurável, enjoa com rapidez, recuso lasanha de frango, empada de frango, pastel de frango desde que encontrei um osso no meio do recheio. Nas festas e encontros sociais, o garçom passará reto com a bandeja.
Não admito comida fria. Partilho da turma do 'pode vir quente que estou fervendo'. Não cisco tábua e aperitivos, esnobo pãezinhos com caviar. Meu olhar é um micro-ondas girando.
Para ser meu amigo, o sujeito não deve mastigar vagem - é um princípio. Amigo que engole vagem vai me trair, mostra-se influenciável e disposto a qualquer negócio.
A namorada sofre comigo. Espia o bufê para conferir se uma panela irá me agradar. Volta, aliviada, com o sinal de ok, e me chama em direção à mesa. “Está livre, venha!”. É uma espiã dos pratos prediletos. Chega a traduzir as caretas e os engasgos.
Mas Cínthya me assusta. No fundo, ela me apavora. É o oposto. Depois de dois anos juntos, nunca vi recusar uma especialidade, desdenhar uma opção, insinuar nojo. Nunca confessa que odeia algo. E já viajamos pelo norte, nordeste, sudeste, sul do país. Enfrentamos tacacá, arrumadinho, buchada, macaxeira, sarapatel. Não testemunhei uma negativa, não exprimiu um "argh" ao longo do convívio.
Eu me enxerguei diminuído, sem nenhuma exigência maior. Suava frio com os pressentimentos; seria também vítima de sua caridade? Não admitia a hipótese de que ela comia qualquer coisa. Era uma verdade degradante, insuportável. Necessitava localizar um respaldo, uma esperança, o mínimo de seleção para me sentir eleito.
A sensação é que ela tinha servido no exército, que foi treinada na selva. Se acampássemos, faria uma fritada de insetos, um ensopado de larvas de moscas, um macaco ao molho pardo, e mastigaria fixando o alto das árvores para antecipar a caça do dia seguinte.
No desespero da madrugada, criei um diálogo sem pé nem cabeça. Nossa DR atingia à complicada e delicada fase "Luis da Câmara Cascudo":
- Amor, você comeria bago de bode?
- Já comi.
- Mas não aceitaria moela, né?
- Não sou contra.
- Língua, bochecha, rabo e tutano, não desce?
- Dá sim, deliciosos, é a base da alta culinária francesa.
- Mas tem oposição à galinha cabidela preparada no sangue?
- Que isso? É típica de Portugal. E aprovo pescoço, fígado, coração, asas e patas da ave.
- Rã não, jacaré não?
- Adoro.
- Amorzinho, me diz que não tolera dobradinha, me diz, por favor?
- Essa sim, odeio!
Dormi feliz. Sou, pelo menos, melhor do que o mocotó.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
METAMORFOSE
Rolo Compressor tira a flauta do estojo e analisa a vitória do Inter em cima do São Paulo, na primeira partida da semifinal da Libertadores.
"Quanto ao Celso Roth, o que mais queremos é perder a língua no Alcorão do gramado. Ele é um assombro de humor e carisma, sua transformação só é comparável a de Lula de 1989 a 2002. Achamos que não deve ter sido mais uma obra de marketing do Duda Mendonça, mas aprendizado com os próprios erros. Não deixa de ser prazeroso supor que o Grêmio serviu de rascunho ao seu amadurecimento."
Entre em campo.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
A CLARIDADE É UM CAIXÃO
Após o pulo, bate a culpa pelos passos desengonçados, a vergonha diante do clarão das nuvens. Vem a segunda fase: o abraço coletivo, a formação de bolhas humanas.
Para disfarçar o desequilíbrio, os amigos passam a saltar enlaçados em rodinhas como nas formaturas. Inicia com um trenzinho, logo descarrila, transforma-se em autochoque, parte do grupo despenca e não volta.
Não é mais tempo de exibições, mas de sobrevivência. O desfecho surge com vogais gritadas. Na madrugada, a house music termina em Ilarilarilariê ó, ó, ó — é o que parece. Não sei se é um problema de geração, talvez hipnose coletiva, talvez neurônios queimados.
O que me desagrada numa rave é que ela põe fim à ilusão. Não poderia ser permitido ver de manhã com quem você ficou de noite. Provoca embaraços. A mulher pensa ter seduzido São Jorge e quem resta ao seu lado é o dragão. Como se manter abraçadinho? Como preservar as palavras de amor e devassidão? A jura apenas funciona no escuro quando a pálpebra é a boca.
De repente, a luz descortina os traços e desvendamos a companhia. Não se terá advogado perto, muito menos preparação psicológica. Alguns não disfarçam o espanto e soltam um “oh” de pântano.
Invadir a hora do café cria o impasse, além de expor o tamanho do estrago no corpo, simbolizado pela montanha de latinhas de energéticos, garrafas de vodka vazias e guimbas de cigarro pelo chão. Não veio o sono para se perdoar — a civilização começa com a reposição das oito horas de descanso.
Deveria ser proibido ultrapassar as seis horas da matina. No sexto badalo, é o momento de cortar o som, antes que a claridade revele a identidade secreta.
O sol não cega, tira a cegueira. Toda festa é um baile de fantasia porque você está bêbado e a sombra melhora o rosto. É necessário respeitar o transe. As filas no banheiro de manhã são metade de gente tentando fugir dos constrangimentos com seus parceiros.
Um turno ininterrupto de farra aniquila o mistério do dia seguinte. O suspense afetivo. Aquela sensação boa de desconhecido, de descobrir com quem se envolveu, armar a investigação no Google e no Orkut, definir se telefonará ou não.
As raves eliminam a chance de se despedir romanticamente, ou de se arrepender devagar e manter a educação.
Não vejo tristeza em acordar indeciso com os acontecimentos. Trauma é não dormir e enxergar o que ocorreu no ato, sem nenhum tempo para formar as lembranças.
Crônica publicada no site Vida Breve
sábado, 24 de julho de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
O AMOR É FALSO QUANDO VERDADEIRO
Nunca reparei direito em mim - ninguém procura o espelho em movimento. Cínthya é que me alertou que em todo momento descrevo a mastigação do filho. Descrevo não, narro, sou um comentarista esportivo de sua refeição. A cada cinco minutos, espio seu prato e teço um julgamento de seu desempenho.
- Olha o ovo.
- Não esquece a carne.
- Mais um pouco de purê.
- Come mais!
A namorada pretendia dizer que eu era chato, encontrou uma maneira para que suportasse a crítica. Ela é meu espelho em movimento. Falou de lado, contida, como se limpasse o canto dos lábios com o guardanapo:
- Deixe que as coisas sejam naturais.
Eu vi que ela acertou, eu incomodava, repreendia, comentava, educava sem parar. Quase doentio. Serei franco: absolutamente doentio!
Ao experimentar um momento alegre, estou confessando que é alegre na largada. Defino antes de concluir. Se o filho é gentil, escrevo carta de recomendação. Se surge nervoso, atravesso a madrugada criando teses. Não há descanso. O certo e o errado estão no sangue.
Sou um pai insistente e cansativo. Necessário, porém desagradável. Acho que nunca mais serei espontâneo.
Descobri junto dessa observação que o amor dos pais não é mesmo natural. É teatral. Histriônico. Parece falso quando autêntico. Por isso, irrita na infância, enjoa na adolescência, ocupa metade das análises nos consultórios durante a fase adulta.
Pai não tem rosto, mãe não tem rosto, são caricaturas. Traços rápidos para apressar a identificação.
Não conseguimos nos controlar. É reiterar um cuidado até ultrapassar a redundância, é não abolir nenhuma prevenção. Nasce o filho e mergulhamos num estado de pânico completo, numa carência interminável, numa provação incurável. Viramos bulas, cartilhas, manuais, guias, catálogos, explicando de novo o que foi entendido.
Só é natural quem não ama. Somos despojados quando não temos interesse. Atuamos por comandos: sim, não, e deu. Nenhum desespero, nenhuma miséria no abraço, nenhuma insistência.
O que me põe a afirmar que um casal enamorado é formado de péssimos atores. Vai trocar juras ridículas, alternar diminutivos e apelidos, escandalizar restaurantes com exclamações e adjetivos.
Quando a gente se emociona é artificial, uma afronta ao bom gosto.
Enxergar uma família feliz consiste num espetáculo bisonho. Os pais apertam, beijam, afofam, cutucam, gargalham, reclamam e soluçam mais alto do que é aconselhável.
A passionalidade é uma imitação. O afeto é uma dublagem. Queremos tanto provar o que sentimos que passamos da conta.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
O CONTROLE REMOTO É MEU!
A mulher assumiu a maior parte das direções da vida masculina: a filial, a amorosa, a da casa e a da empresa. Não reclamamos: o mundo está finalmente em ordem e bem mais justo. Mas não aceitamos que a mulher deseje mandar na direção de nosso mijo. É demais, é autoritarismo, é extrapolar o poder. É entrar num dos últimos redutos da masculinidade, ao lado de matar baratas. É promover a extinção da espécie.
Ela vem com um moralismo de faxineira, uma censura de governanta, explicando que é fácil mirar no vaso, que não entende o descontrole, como despejamos a mangueira para o piso, professa o desleixo e a ausência de vontade.
Claro que não entende, faz xixi sentada. Desconsidera uma experiência inacreditavelmente diferente.
Conclui que é prender firme e centrar o ângulo, que é pouca a distância, elementar como bater um pênalti, e esquece a alta taxa de desperdício dos cobradores nos campeonatos.
Muitas mães tentam evitar a sujeira e ensinam os meninos a sentar na patente. É um travestimento perigoso. Não percebem o mal que estão cometendo, gerando problemas na sexualidade dos filhos devido a uma mania de limpeza. Afetará as posições sexuais no futuro e aumentará a preguiça na busca pelo prazer.
A mulher confunde o mijo do seu parceiro com um esporte: dardo ou arco em flecha. Confia na preparação existencial, na força psicológica do exercício e do condicionamento. Falta apenas aconselhar a contratação de um personal trainer e treinador, e incitar a desenvolver o talento e competir nas olimpíadas domésticas. Ficaria estranho entrar no banheiro acompanhado, logo seu varão sairia com camisa cavada e piercing no umbigo.
Receio que instale câmera na descarga para acompanhar as investidas ou, quem sabe, crie uma autoescola de mijo, com um mínimo de 20 aulas práticas e aprovação em psicotécnico a partir de desenhos, placas e passo a passo.
Ela vive dando orientações que desse jeito não dá para continuar. Reclama da tortura de sentar na tampa úmida, do cheiro de rodoviária e recorre a uma filosofia preventiva de infecção hospitalar. Usa, inclusive, o golpe baixo de alardear que não se pensa na bunda da criança que ocupa o trono em seguida.
Por que ela não defende a limpeza depois da bagunça, em vez de insistir para que não aconteça o irremediável?
Não é que o homem distorce a pontaria quando está bêbado. Ele é naturalmente bêbado. Nasceu embriagado, amaldiçoado a segurar um misto de rojão e peteca. De repente, está mole e no meio endurece e muda a frequência da velocidade. Não há monotonia nos movimentos. Não há freio nas veias. É uma guinada abrupta no planejamento do ritmo. Os pilotos mais experientes aguentam a alternância; de qualquer forma, o balanço do final atinge a todos. A balançadinha estraga a operação até então impecável, limpa, escorreita. A saída desmoraliza o andamento higiênico da mijada. O suspiro desordenado do jato acaba impulsionando a venda dos desinfetantes. E sofre muito mais quem tem fimose ou o contrário, aquele que foi circuncidado, sem pele para conter a pressão.
Se a esposa e namorada está magoada com o caos, peça que coloque mictório no toalete. Nas situações extremas, uma banheira para não penar mais com o assunto.
Caso não funcionar, sugiro que segure um dia para descobrir o que significa. Daí acho que vai virar outra coisa e tudo continuará como está.
Crônica publicada no site Vida Breve
terça-feira, 20 de julho de 2010
O AMOR NÃO É CLICHÊ
Curso Inédito na Perestroika
- Porto Alegre (RS) -
Escrever sobre amor é o maior desafio da literatura. São grandes as possibilidades de cair no clichê e esbarrar na auto-ajuda. Depois de passar por esse teste, qualquer criação fica mais fácil.
O curso inédito pretende trabalhar a confissão e os relacionamentos na articulação de experiências de estilo. A cada aula, haverá exercícios inusitados e desafios para despertar a criatividade.
A inspiração surgirá da contação de histórias e da combinação gradual da autocrítica e do humor. O aluno receberá ajuda para selecionar o que tem importância literária daquilo que foi vivido, incentivado a despertar evocações e lembranças secundárias, comparações e relações imprevisíveis do cotidiano.
O objetivo é compreender a própria vida como uma invenção, a partir de célebres cartas de amor e de passagens de clássicos. E, com base na tradição, investigar as tendências do comportamento diante dos dilemas amorosos.
É um misto de escrita criativa, terapia, curso de sedução e consultório sentimental aplicado na formulação de tramas e poemas e que busca identificar pontos de vista originais.
No total, são 10 encontros. São 9 encontros às segundas-feiras e 1 numa quarta. Sempre das 20h às 22h30.
Aula 1: 23/08
Aula 2: 01/09(quarta)
Aula 3: 06/09
Aula 4: 13/09
Aula 5: 27/09
Aula 6: 04/10
Aula 7: 11/10
Aula 8: 18/10
Aula 9: 25/10
Aula 10: 01/11
Local
Sede da Perestroika
(Rua Furriel Luiz Antônio de Vargas, 250/1302, Porto Alegre/RS)
Inscrição aqui.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
OS OUVIDOS DA PAREDE
É o modo mais sadio para não se enredar no jogo dos amantes e na duplicidade da infidelidade.
Consultório Poético descarrega sua munição. Meu conselho aqui.



