terça-feira, 19 de julho de 2011

Q'BOA

Arte de Raoul Dufy


Após infidelidade, Fernanda jogou as roupas de meu amigo Felipe pela janela do prédio. Apareceram todas espalhadas no jardim, na piscina, no telhado do estacionamento.

Aquilo não foi vingança. Ele nem se vestia bem – nunca deu valor para o próprio figurino, capaz de sair com um tênis laranja da Nike e outro azul da Adidas.

Felipe não mexeu o traseiro, não se desesperou para recolher suas coisas. Fez de conta que era uma chuva de mantimentos da ONU no bairro.

Não compreendo por que as mulheres insistem em rasgar nossas roupas ou despejá-las andares abaixo. Não há sentido na atitude. Elas é que sofreriam com isso, não a gente. Cometem a imprudência de nos castigar com dor alheia.

Felipe ficaria fulo e possesso se Fernanda queimasse seu álbum completo da Copa de 82. Seria imperdoável. As figurinhas vinham dentro dos chicletes, ele estragou os dentes, sacrificou bolas de gude no recreio, roubou moedas da bolsa da mãe para finalizar as imagens das seleções.

Homem não tolera perder a infância de novo. É mexer na sua infância que ele esperneia – pode ser na forma de uma coleção de selos, de camisetas de futebol, de bolachas de chope, de LPs. Não há um único macho no mundo que não guarde um acervo emocional. Quer matar seu marido de susto? Põe fora sua nostalgia de guri.

Já a mulher teme agressões contra seu closet (homem não tem closet, mas guarda-volumes). O coração feminino é uma delegacia contendo abusos como desfiamentos, rasgões e puxões. A meia-calça é a vítima mais recorrente da força e falta de jeito dos parceiros.

Portanto, uma das represálias mais diabólicas consistiria em derramar partículas de Q’boa nas calças, camisas e saias da esposa. Pequenas gotas de água sanitária, o suficiente para estragar um tecido pelo resto da vida e transformar qualquer Ocimar Versolato em lembrança de Fátima.

E, de modo nenhum, alardear a maldade. Executar o ato em silêncio, a sangue-frio, deixar que ela encontre uma por uma das máculas ao longo dos dias. Haverá gemidos de pânico quando alguém apontar a descoloração nas peças. No ranking de horror da mulher, a Q’boa surge em segundo lugar, atrás apenas das baratas e seguida das traças.

Mas, sinceramente, eu não teria coragem. Não gostaria de ser um inseto esmagado por um salto 15.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 19/07/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16766

sábado, 16 de julho de 2011

PEQUENAS VERGONHAS, GRANDES MENTIRAS


Entrevista ao jornal O TEMPO, de Belo Horizonte (MG), 16/07/2011

SEM PRESSA DE VIVER

O menino Paulinho, “agitado por dentro”, registra seu dia a dia sem pressa em um diário ilustrado. Fotos de Jean Scharwz

Iberê Camargo (1914-1994), um dos maiores pintores brasileiros, nasceu e viveu os seis primeiros anos em Restinga Seca, cidade de 15 mil habitantes, localizada na região central do Estado, a 257 quilômetros de Porto Alegre.

Foi o período de gestação de suas pinturas, determinante para formar os principais símbolos de suas pinceladas.

De Restinga Seca, ele retirou os clarões do amanhecer, os carretéis, as rodas melancólicas, os postes de ferro, a solidão do cerro.

“As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias da minha infância”, escreveu.

Restinga Seca é um quadro de Iberê Camargo que não foi pendurado. Ele viveu com seu pai Adelino e sua mãe Doralice na Estação da Viação Férrea até 1920. Aprendeu a rabiscar, sentado nas lajes frias da varanda, retratando a rotina do maquinista.

A paisagem é exatamente a mesma de Paulo Henrique Penteado Fernandes, cinco anos, criança que ocupa hoje o quintal de Iberê, em pleno recinto ferroviário.

Pela janela, Paulo Henrique tem a chance de reprisar os olhos do artista: a caixa d’água, a sanga afoita pela chuva, o rancho e as vacas magras, os trilhos e os ninhos de neblina na grama. A semelhança se estende até na companhia de uma caturrita, a Nicota (“a única que pode falar palavrão em casa”, confessa o pequeno Paulo).

É uma generosa segunda encarnação da pintura.


O que Paulinho – como é chamado pelos pais Diose, 24 anos, oleiro, e Tanhyana Rodrigues, 26 anos, dona do lar – prefere fazer é desenhar. Mais do que assistir televisão. E sozinho. Sem parente controlando o traço por cima das páginas.

– Quando alguém espia o desenho, o desenho muda – explica.

Ainda na pré-escola, sem saber ler e escrever, criou um diário ilustrado de sua vida. Tudo o que acontece lá fora também acontece em sua imaginação.

Cada folha é dedicada a um personagem. Ou é a saudade de arame farpado das irmãs Daniele, oito ano, e Maria Paula, três anos, que residem com a avó, ou é uma boneca abraçando uma árvore, ou é um patinho bebendo o céu, ou é um mato caminhando de costas, ou é o próprio Paulo se equilibrando na chaminé da locomotiva com a boca inchada.

– Por que a bochecha enorme?
– É o feijão, o arroz e o bife feitos por minha mãe. A bochecha é uma panela.

Nenhum movimento da rua escapa de suas sobrancelhas exclamadas. Além do “bicho-papão escondido na casa ao lado onde não mora ninguém”, sua predileção está concentrada nos pés das galinhas. Tem uma série inteira dedicada a elas.

Qualquer coisa é passível de comparação. A pipa é seu cachorro Maguila com coleira. O fogão a lenha é um vagão perdido dentro da cozinha. A caixa d’água (que Iberê não cansava de olhar) é um passarinho grande de castigo.

O menino tenta nomear o que enxerga, às vezes fala errado, às vezes fala estranho e não é compreendido.

– Ele é agitado por dentro. Conversa sozinho, conversa dormindo, conversa com os próprios dedos – esclarece Tanhyana.

Como todo menino, não tem noção do tempo. Acredita que a vida dura um final de semana. Mas sequer sua mãe tem uma ideia precisa do calendário.

– É a magia do lugar. O relógio era o trem, mas atualmente é de carga e não aparece em horários certos. Não temos pressa de viver.

Paulinho concorda com o riso. Diz que é fácil não morrer, basta grudar um dia no outro com cola Tenaz.

– Será pintor quando crescer? – pergunto.
– Não, ele responde. – Vou ser príncipe.








Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 28, 16/7/2011
Porto Alegre, Edição N° 16763
Veja vídeos de Restinga Seca.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

MUITO IRRITANTE

Arte de Cínthya Verri

Os homens são irritantes. Mas involuntários. Nem tem consciência de quando incomodam e como incomodam, e ainda se sentem vítimas de ciladas femininas.

É precisamente não saber o que fizemos de errado o que irrita as mulheres. E elas pensam que estamos fingindo, o que agrava o nervosismo.

Mas não, não sabemos mesmo. Não é encenação.

É que repetimos as mesmas falhas e não aprendemos e elas não entendem como não assimilamos a lição na primeira ou segunda tentativa; daí concluem que simulamos bobeira para passar bem, que a dúvida é uma fachada sonsa, uma falsidade ingênua, acobertando um poço de maldade viva e faminta.

Acompanhe meu raciocínio: não há sentido em pedir desculpa por aquilo que não registramos. Somos esquecidos, apenas isso. Totalmente amnésicos.

As mulheres deveriam nos agradecer pelos lapsos de memória. Imagina se tivéssemos consciência de nossas irritações para irritar as mulheres ainda mais. Seríamos pais de Maquiavel, avôs de Cardeal Mazarino, bisavôs de Barba Negra.

Olha só o que acontece comigo:

Apresso a minha mulher para sairmos, digo que ela depende de uma hora e apenas faltam 40 minutos para o trabalho. Ela corre alucinada com o estojo de pintura, o secador, os cabides, eu permaneço lendo jornal. Ela atravessa os corredores com um monte de roupas, equilibrando o iogurte numa mão e a agenda noutra, eu permaneço lendo jornal. Vou gritando “Está pronta?” a cada mudança de editoria, como um cronômetro afetivo, para recordá-la que estou atento e demonstrar interesse. “Pronta?” a cada dez minutos, quatro vezes no total.

A voz chicoteia o tempo, o propósito é criar uma alucinação militar, afobada, estressante para ajudá-la a se superar e merecer elogios ao final. Por evitar o atraso, o homem jura que receberá um emocionado agradecimento.

Quando ela se apronta, finalmente linda, maquiada, cabelos secos, cheirosa, após cumprir o impossível de 40 minutos, exatos quarenta minutos!, fecho o jornal e aviso que vou tomar banho.

— Mas um banho rápido, tá? Para não nos atrasar?

Acelero minha esposa quando não estou vestido porque deduzo que sou rápido e ela lenta, sobrecarregada de miudezas e detalhes.

Cínthya bufa de raiva, bate o pé para não me enforcar com o próprio cinto de lantejoulas.

É que o homem sempre tem uma defesa mirabolante quando a vida pede uma resposta simples. Além de nossa esquisita mania de não acreditar no inconsciente.



Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 12 de julho de 2011

VINTE RAZÕES PARA AMAR UM CARECA


1. Não é que o careca é careca, ele tem mais rosto. É somente rosto. Sua mulher nunca erra um beijo em sua face. Atrás da cabeça ainda é bochecha. Não há aquele risco desagradável de engolir cabelo.

2. O careca é um ponto de referência em qualquer lugar público. No supermercado, por exemplo:
- Onde é o corredor do arroz?
- Depois daquele careca, à esquerda.

3. O homem larga a pose alfa, tem um maior contato com a natureza, arrepia-se com as gotas da chuva ou as lufadas geladas do vento.

4. A careca é uma zona erógena e pode ser aplicada como instrumento preciso para massagens eróticas nas costas da mulher. Trata-se de uma plataforma vibratória, com funções aeróbica, anaeróbica e terapêutica.

5. Fim dos furtos dentro de casa. O xampu e o condicionador da esposa duram o dobro de tempo.

6. O macho deixa de ser hipócrita, não perguntará para a mulher de quem são os cabelos no ralo ou na pia. Com o fim da concorrência, agora tem certeza que são dela.

7. Não corre o risco de se afeminar com o uso excessivo do secador.

8. Na pressa, não precisa tomar banho, apenas completar o polimento.

9. O careca não passará pelos vexames sociais da caspa ou do piolho.

10. Nunca envergonhará sua companhia pintando os cabelos de acaju ou recorrendo às luzes.

11. Reduz as possibilidades de câncer de pele. Começa a pôr protetor solar para sair ao trabalho, não se restringindo a se prevenir da radiação ultravioleta nas férias.

12. Não é bobo de gastar R$ 50 mil como Eike Batista para comprar uma peruca italiana. Não é bobo de virar sósia de Silvio Santos com peruca de R$ 50.

13. O careca é maduro, confiável, único homem que realmente abandonou a adolescência.

14. Ninguém reclamará que ele é vaidoso e que vive se olhando no espelho para ajeitar o topete.

15. Se cometer algum crime, pode mudar de personalidade colocando um chapéu, uma boina ou um boné.

16. O careca não enrola, assume o romance. É tudo ou nada. Não admite meio-termo: implante, aplique, calendário pilomax. Prefere uma cabeça raspada a falsas esperanças.

17. Rejuvenesce no ato. Aparenta cinco anos menos do que os seus colegas grisalhos ou de mechas tingidas.

18. Não existe mais nenhum problema que possa fazer o careca perder cabelo.

19. Elas gostam dos carecas porque os carecas se gostam.

20. Todo careca sabe quem foi Yul Brynner.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 12/07/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16757

sábado, 9 de julho de 2011

AEROMOÇA DO CINEMA

Carine explica o filme, mas promete não entregar nenhuma pista sobre o final. Fotos de Nauro Júnior.

Não existe espectador desavisado em Rio Grande, município de 195 mil habitantes, no extremo sul do Estado, a 311 quilômetros de Porto Alegre. Todos conhecem o filme que vão assistir. Ou ficam conhecendo às vésperas da projeção.

Talvez seja o único lugar do mundo que tem horóscopo cinematográfico.

Você entra na sala e não acompanhará, como de costume, o trailer dos lançamentos. Haverá uma mulher uniformizada de vermelho, que explicará a história a ser exibida.

Na frente da tela, Carine Duarte de Cantes, 32 anos, realiza uma sinopse falada da obra. Antecipa o enredo em três linhas.

– Boa tarde, bem-vindo ao Cine Dunas e a Kung Fu Panda 2. Neste filme, Panda terá que lutar junto aos seus amigos contra um vilão que deseja destruir a China...

Carine conta com um microfone natural no pulmão. Desafia o silêncio com sua voz jazzística, alcançando notas de coro gospel.

– É que já fui telefonista de motel – ri.

Ela é a porta-voz das gentilezas do casarão antigo, que mantém os adornos portugueses do prédio original de 1933.

– Juro que não entrego o final, digo apenas o comecinho – brinca.

O Cine Dunas é a única rede na cidade, adepta do cinema de calçada, com uma filial no Centro (desde 2008) e a sede na praia de Cassino (2005).

Cada sala tem duas sessões por dia, de terça a sexta, às 19h e às 21h, e quatro no final de semana, também nos horários das 15h e das 17h. Com exceção de sábado e domingo, a média de frequência é de 80 pessoas ao dia, que pagam R$ 10 de ingresso.

– Para os saudosos da figura do lanterninha e do pianista, temos a explicadora, uma função antiga, que personaliza o nosso contato – afirma o proprietário Cleyton Martins Abreu, 51 anos.

Carine desfila entre as poltronas de couro com a elegância envaidecida de atriz. Transformou-se numa lenda do lugar, musa dos cinéfilos e tia predileta das crianças.

Interage como se fosse uma aeromoça. Usa os braços para mostrar as saídas de incêndio e as recomendações de respeito como não fumar e desligar o celular. Por pouco, não recebe aplausos.

– Estudo a tarefa em casa e me concentro. Uma palavra errada, um simples tropeço e estrago a expectativa do público.

Mas o sucesso não subiu à cabeça; trabalha duro, sem parar, até meia-noite: atende na bomboneria, apronta café, prepara a pipoca, retira o lixo das poltronas e recolhe os ingressos na entrada. É olhar para o lado e ela desaparece, para assumir uma nova atividade.

– Ainda não sou a projetista – esclarece.


Devido à mania de decorar argumentos, sua memória ganhou a velocidade de uma enciclopédia. Para o contentamento de sua filha Endyana, 15 anos, que vive tirando dúvidas do roteiro de alguma estreia.

– Amo os pequenos resumos, sei centenas de cor, são meus poemas – compara.

O que deseja fazer, e que não teve chance na adolescência, é namorar no cinema e dividir a pipoca, o grande teste de relacionamento.

– Se o homem pede um pote somente para ele não é romântico. Pipoca foi feita para ser dividida.

Solteira, de cílios grandes, a estrela do Cine Dunas aguarda seu galã surgir antes dos créditos finais.

– Queria ter alguém para curtir, abraçar e beijar no escuro da sessão. De repente, esquecer o filme em nome de uma história de amor.








Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 28, 9/7/2011
Porto Alegre, Edição N° 16754
Veja a descrição do filme na voz de Carine Duarte de Cantes.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

ABRAÇO DE JUDAS

Arte de Cínthya Verri


Todo presidiário tem dez minutinhos de sol, um recreio para banhar o rosto com a luminosidade da manhã.

Já quem é livre talvez passe 24h longe de um pátio, desprovido de um mísero contato com a luz do dia. Talvez não abra a janela, sequer levante as persianas, para espiar o azul do horizonte e criticar a temperatura dos relógios da rua.

Quem é livre age com culpa. Encarna-se na profissão como um condenado, debruçado a atender os múltiplos sinais do celular, laptop, iPad, televisão.

Sempre encontra um tempo para adiantar uma tarefa, mesmo que seja necessário abdicar do almoço, mas nunca abre frestas para se sentir no mundo.

Suas frases mais comuns são que não tem escolha; precisa se sustentar; há muito a fazer.

Aparentemente solto, está confinado na solitária do seu trabalho — e não percebe o valor de respirar a cerração, espirrar quando surge um vento mais gelado e descascar tangerinas no meio-fio solar, fugindo do lado das sombras.

Esquece que o centro tem praças, que as praças têm bancos, que nos bancos caem máscaras de oxigênio das árvores.

Esquece o livre-arbítrio, envolvido na onipotência de desdenhar da vida.

Se fossemos samambaias, estaríamos mortos. Secos. Murchos. Somos vasos e demoramos a rachar. A longevidade não é saúde.

Até abraçar desaprendemos. Ninguém mais abraça com vontade. Com sinceridade de velório.

Odeio abraço falso, como aquele beijo de frígida, no qual a face bate na face e os lábios se transformam em beiço.

Abraço tem que ter pegada, jeito, curva. Aperto suave, que pode virar colo. Alento tenso, que pode virar despedida.

É pelo abraço que testo o caráter do outro. Não confio em quem logo dá tapinhas nas costas. A rapidez dos toques indica a maldade da criatura.

Não sou porta para bater. Nem madeira para espantar azar.

Abraço com toquinho é hipócrita. É abraço de Judas. De traidor. O sujeito mal encosta a pele e quer se afastar. Pede espaço porque não suporta os pecados dos pensamentos.

Devemos fechar os olhos no abraço, respirar a roupa do abraçado, descobrir o perfume e a demora no banho.

Abraço não pode ser rápido senão é empurrão. Requer cruzamento dos braços e uma demora do rosto no linho.

Abraço é para atravessar o nosso corpo. Ir para a margem oposta. Nadar para ilha e subir ao topo da pedra pela gratidão de sopro.

Sou adepto a inventar abraços. Criar abraços. Inaugurar abraços. Realizar um dicionário de abraços. Um idioma de abraços.

O meu é o de cadeira de balanço. Giro nas pontas dos pés. Não largo, os primeiros minutos são para sufocar, os demais servem para o enlaçado se recuperar do susto.

Não entendo onde terminará o abraço. Se a pessoa vai chorar ou vai rir. Abraço é confissão.

Dez minutinhos de sol e de liberdade.



Crônica publicada no site Vida Breve

terça-feira, 5 de julho de 2011

NA HORA DO RECREIO

Arte de Oskar Kokoschka

Não é falta de educação perguntar a idade a um professor, e sim seu salário.

Questionar o vencimento a um educador municipal ou estadual é uma afronta, um constrangimento perante os outros. Melhor evitar; manter a amizade silenciosa, o respeito telepático, a pose compreensiva.

Mas não perguntar não significa que não sei quanto ele recebe. Acabo descobrindo. É impossível não saber.

Eu vejo cada centavo, cada real de seu contracheque. Toda vez que entro numa sala de professores testemunho um deles comercializando roupas, lingerie ou uma série inédita de produtos da Avon ou da Natura.

Varais preenchem as cadeiras de fórmica: uma festa junina de etiquetas, desafiando a procura pelas térmicas da água quente e do café.

As mesas estarão ocupadas de embalagens sendo abertas e reviradas pela ansiedade do recreio.

O salário aparece nítido no desespero da muamba.

A sala de convivência é casa de penhor, comércio ambulante, camelô.

O professor tornou-se uma formalidade cheia de informalidades. Coleciona rifas além do seu trabalho, senão não sustenta a família, não aguenta o tranco do final do mês, não tem como fazer rancho aos filhos.

É humilhante pensar que aquele que ensina não ganha o suficiente apenas para ensinar.

O magistério é total ausência de exclusividade. Não é uma carreira, é uma mesada do Estado. O professor vive eternamente como um estagiário, aguardando ser efetivado e abandonar a miragem salarial.

Professor usa o intervalo para completar seu orçamento. Acumula tarefas, sobrevive de reforços da receita, não respira à toa, não tem margem para incrementar seu currículo com cursos e especializações.

Professor não conhece férias, mas greve. Não conhece promoção, mas reajuste.

São extras e extras e extras sem fim. Bicos e bicos e bicos infinitos.

É uma comissão aqui, uma porcentagem acolá. Tudo é dinheiro contadinho para as passagens.

Escola é rodoviária. Nosso professor chega com uma malinha pesada. Não são livros, não são cadernos de estudo, são novidades imperdíveis e baratas para serem revendidas.

Ele espalha os pertences pelo sofá e não descansa um minuto tentando convencer seus colegas a levar um dos itens.

Pena que nenhum pode comprar. Porque também são professores.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 05/07/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16750

sábado, 2 de julho de 2011

PARA VER A BANDA PASSAR

Nas ruas da fria Bom Jesus, banda colegial ensaia para os desfiles de 7 de setembro com a aprovação dos moradores e aprende, naturalmente, lições de criatividade e de disciplina. No destaque, Kathleen, portadora de necessidades especiais auditivas. Foto de Renato Bairros
Se tiver de escolher entre ver a neve ou a banda, optará pela banda, sem dúvida. Franciane Borges, 10 anos, é a caçula do grupo marcial da Escola Estadual Conde de Afonso Celso. Toca caixa ao lado de 32 colegas, da 5ª a 8ª série. Tem um riso ladeado de covinhas, próprio de tímida recentemente confiada a uma missão especial.

– Acho que a neve poderia servir de instrumento – brinca, para logo se envergonhar mais um pouco.

Tem lógica: o céu branco se assemelha a um tambor. É início de julho, e Franciane já está treinando para o desfile de 7 de setembro. Com dois meses de antecedência. Gente prevenida? Capaz! Não há nada mais importante na pequena e gelada Bom Jesus, terra de 11,5 mil habitantes, a 238 km da capital gaúcha, nos Campos de Cima da Serra. A trupe marcha de noite pela Avenida Manuel Silveira de Azevedo, onde será o palco da apresentação das três escolas do município. Disposta em cinco filas, interrompe o trânsito reproduzindo a trilha do filme A Pantera Cor-de-Rosa.

A perda de tempo soa estranha para moradores de Porto Alegre como eu, mas absolutamente normal aos filhos do Interior. Os motoristas não reclamam, sequer buzinam, compreendem o benefício terapêutico do triângulo, do tarol, do bumbo e do surdo. O pessoal assiste à movimentação pela janela com reverência. Alguns não controlam a nostalgia ou a corujice, e aplaudem.

– Ai, me dá um aperto no coração, é uma maneira de amar de novo a menina que fui – desabafa Neusa Monteiro Costa, 57 anos, uma das que esperam a banda passar.

Os instrutores são ex-alunos. Não suportaram o exílio das cadências e pediram para voltar na condição de voluntários. Dionathan Silveira, 17 anos, é o que segura a baliza, sopra o apito e põe em ordem a rapaziada.

– Não preciso gritar, o respeito vem da emoção.

Kaiube da Silva, 14 anos, concorda com o professor. Finge coriza ao falar. No fundo masca chiclete para não ser contagiado pelo choro. Sua carência some com os golpes agudos da percussão.

– Aqui é o único momento que recebo elogio durante o dia.

A banda atravessa as principais ruas do Centro até desembocar nas escadarias da Paróquia Senhor Bom Jesus.

A diretora da escola Carli Varela de Oliveira, 46 anos, entusiasma as atividades fora do ginásio, das 17h30min às 19h30min.

– É bom que os pais vejam seus filhos empenhados, para tomar vergonha e não faltar no Dia D.

Ela diz que a música é a recuperação de conceito que realmente funciona. Desperta a criatividade dos estudantes com notas baixas.

– Quando alguém está mal, se entra na banda, melhora. Onde se assimila a força do grupo: se um desafina, todo mundo erra. Aprende-se a cuidar do outro.

Tento me aproximar de Kathleen Tais da Silva, 14 anos, menina tímida que toca caixa lá atrás no agrupamento. Faço perguntas, e ela não responde. Descubro que ela não escuta nada: é portadora de necessidades especiais auditivas. Sua voz é bonita, doce, ela lê os meus lábios.

– Sigo a vibração. Meus olhos tremem por dentro com as batidas – explica.

Tem lógica: as pálpebras são sensíveis ao som, assim como sensíveis aos flocos de gelo.


– A banda inicia no inverno e termina no fim da estação. Aparecemos uma vez por ano no desfile. Como a neve em Bom Jesus – compara o instrumentista Jemerson Camargo, 18 anos.









Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 28, 2/7/2011
Porto Alegre, Edição N° 16747
Acompanhe nossos vídeos da banda escolar de Bom Jesus.

sexta-feira, 1 de julho de 2011