quarta-feira, 14 de setembro de 2011

TWITTER

Foto de Tadeu Vilani

Fui eleito um dos 215 melhores perfis do twitter pela Superinteressante. A revista escolheu seis representantes literários da rede. Ao meu lado, estão Millôr Fernandes, Xico Sá, Contardo Calligaris, Ana Guadalupe e João Paulo Cuenca.

COMO EU VEJO A MODA



Moda é opinião. Piso na rua e já estou participando de uma enquete.

Moda é romance. Ajudar uma mulher a se despir é interesse, ajudá-la a se arrumar é cavalheirismo.

Moda é pensar. Toda roupa é um diário: o que imaginamos na hora de comprar, por que compramos, quando se usou pela primeira vez, o que significa emocionalmente, o que ela ofereceu para nossa companhia.

Toda roupa é um confidente: conversamos com os botões, guardamos as mãos nos bolsos, sofremos com as manchas.

Toda roupa é a possibilidade de nascer de novo.

Os tecidos são lembranças daquilo que imaginamos.


Publicado na revista Moda - Joyce Pascowitch
Edição 19, setembro de 2011, P. 14
Coluna Como eu vejo a moda
São Paulo (SP)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O AMOR PERDOA TUDO

Arte de Robert Rauschenberg

Fotos de amor são ridículas, mas ainda mais ridículo é nunca tirar fotos de amor.

Não há como esnobar certas aparições, manter pose de intelectual e prometer que dessa máquina não beberei.
Existem fotografias obrigatórias na nossa existência, fiascos essenciais que continuaremos reproduzindo até o Juízo Final. Representam estreias, nascimento, inaugurações, onde é impossível rejeitar o clique. Guarde a reclamação e a timidez no estojo, ficará condicionado a tolerar o xis, olhar o passarinho, arrumar um lugar na barreira e aceitar as ordens de incentivo do fotógrafo.

São imagens que partilham o mistério da música brega: ninguém conhece, todos sabem a letra.

Referem-se às cenas fundamentais do ciclo da vida, espécie de cartões-postais familiares. Sem eles, a sensação é de que não nascemos, de que não tivemos família, de que não pertencemos à normalidade fotogênica do mundo.

É o mesmo que visitar o Egito e não posar na frente das pirâmides, visitar Paris e não ostentar a Torre Eiffel ao fundo do plano, passar pela China e desdenhar as curvas da Muralha.

De que flagrantes estou falando?

Daqueles que não podemos fugir, senão demonstraremos indiferença, frieza, falta de emoção.

Daqueles que debochamos ao encontrar na gaveta dos outros e que ocupam a maior parte de nossos porta-retratos.

Um deles é a troca de cálices no casamento. Quando o noivo e a noiva embaralham os braços. Apesar do desconforto tentacular, o casal tem que sorrir. Qual o menos pior: este brinde de espumante ou o corte a dois do bolo do casamento? Trata-se de uma disputadíssima concorrência para abrir o álbum.

Lembro também do clássico beijo do pai na barriga da gestante. A grávida sempre está nua, o que é involuntariamente engraçado. O homem surge agachado com roupa social diante de sua companheira pelada. Se não fosse a criança por vir, estaria na parede de uma borracharia.

Não dá para esquecer a grande angular do baile de debutantes: as adolescentes como time de futebol, posicionadas em diferentes degraus. E a nossa foto tomando o primeiro banho, usada pela mãe para nos envergonhar na adolescência. E sem os dentes da frente, e lambuzado de chocolate, e sendo lambido pelo cachorro.

Fotos ridículas e inesquecíveis, adequadas para chantagem e suborno, mas que se tornam – por vias tortas – recompensas do amor.

São justamente as fotos que vamos procurar para sentir saudade. E, ao lado dos filhos, rir e chorar ao mesmo tempo.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 13/09/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16824

sábado, 10 de setembro de 2011

MESTRE-CUCA

Com suas massas recheadas irresistíveis, Borghetti ajudou a sepultar plano de dieta coletiva. Foto de Tadeu Vilani.

Lagoa dos Três Cantos, situada no Planalto Médio, a 277 quilômetros da capital gaúcha, ficou conhecida como a cidade mais obesa do Brasil em 2001, em pesquisa da Organização Mundial da Saúde.

60% dos moradores estavam acima do peso e fugiam da balança.

A partir de convênio da Prefeitura com o Hospital Santa Casa de Misericórdia, houve uma dieta coletiva que durou até 2004. O programa de reeducação alimentar utilizou o telefone e a internet (www.emagrecendo.com.br) para monitorar pacientes. Os alimentos foram transformados em números. As mulheres não poderiam ultrapassar 330 pontos por dia, os homens estavam restritos a 450 pontos. As refeições ganharam reforço de matemática. A calculadora tomou o lugar de honra do guardanapo. Um copo de cerveja valia 33 pontos, um bife à parmegiana correspondia a 185 pontos.

A população bem que tentou, chegou a emagrecer quatro toneladas, a média decresceu de 82 para 75 quilos, mas no fim a comunidade sucumbiu à terrível tentação: as cucas deliciosas do Borghetti.

O italiano Ivaldo Fioravante Borghetti, 70 anos, é o vilão do regime da pequena localidade alemã. Ninguém resiste às suas massas caseiras, recheadas de morango, framboesa, uva, tangerina, coco, chocolate e doce de leite.

– O regime é propaganda para a comida. Controlando as calorias, sentimos saudade da liberdade da infância – teoriza.

Ele é o Anticristo dos anoréxicos e dos bulímicos, o inimigo número 1 do colesterol. O perfume de sua padaria na Avenida Otto Radtke tonteia os passantes e vicia os vizinhos.

– A cuca de Borghetti é uma arma irresistível de açúcar. Se uma fatia da cuca equivale a 89 pontos e é impossível comer uma só, não dava para segurar mesmo a cota – explica a funcionária pública Georgia Walker, 38 anos.

– Ele arruinou nossas pretensões de magreza. Eu inicio e termino o expediente comendo cuca. Não consigo parar – expõe Cláudia Regina Schmidt, 32 anos.

A desculpa de Ivaldo para a expressiva venda é o grande número de turistas consumidores.

– Já mandei produto por sedex para Mato Grosso. Atendo muito pedido de fora – defende.

– Me engana que eu gosto, nós é que comemos demais – desmente a agricultora Rejane Freis, 42, que sofreu o efeito sanfona dos conterrâneos, emagreceu 36 quilos e voltou a engordar tudo de novo.

Ivaldo não tem o que explicar. Sua padaria vende 1,6 mil cucas por semana, exatamente o mesmo número de habitantes de Lagoa dos Três Cantos. Durante março, abril e dezembro, períodos festivos, a fabricação dobra para 3 mil unidades.

Não existe toalha de mesa que não conheça os farelos de seus confeitos.

A mulher, Lairdes, 63 anos, a responsável pela famosa receita do doce, também ganhou seis quilos. Nem ela escapou do feitiço:

– Nosso problema é que comemos ligeiro, e nunca é o suficiente.

A filha de Ivaldo, Claudete, 45 anos, acha que o sobrepeso é resultado da interminável vocação festiva.

– Todo final de semana tem festa. Ou é bolão ou é bocha ou é futebol ou é galeto de Igreja ou é churrasco de escola – afirma.

O padeiro encolhe os ombros alegando que não tem nada a ver com a gula do município.

– Não tenho culpa se o pecado é bom. O inferno é o céu da boca.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 36, 10/9/2011
Porto Alegre, Edição N° 16821
Veja vídeos mostrando a rotina da famosa padaria.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

INSCRIÇÕES ABERTAS PARA OFICINA LITERÁRIA

Imagem de Tadeu Vilani



Após oficina sobre amor e sete pecados capitais, apresento um intensivo de escrita criativa explorando os seis sentidos. 

As inscrições estão abertas e podem ser feitas pelo e-mail atendimento@clinicaverri.com.br ou pelo telefone (51) 3022 4444.

É meu último curso em Porto Alegre neste ano, onde reunirei técnicas como terapia literária, consultório poético e laboratório de crônicas e contos.

Serão seis encontros ao longo da última quinzena de setembro, das 20h às 22h, no Espaço Madame Bovary, do restaurante Suzanne Marie (Rua Tobias da Silva, 304). Cada aula será dedicada a explorar ficcionalmente nossas principais forças sensoriais: 21/9, quarta (Visão), 22/9, quinta (Audição), 23/9, sexta (Tato), 26/9, segunda (Olfato), 27/9, terça (Paladar) e 28/9, quarta (Intuição).

O objetivo é compreender o passado e investigar as virtudes e possibilidades do corpo e da mente. A oficina inédita pretende trabalhar a confissão e os relacionamentos na articulação de experiências de estilo, a partir de leitura de clássicos e autores contemporâneos.

O aluno receberá ajuda para selecionar o que tem importância literária daquilo que foi vivido, incentivado a despertar evocações e lembranças secundárias, comparações e relações imprevisíveis do cotidiano.

Vinte vagas. 
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Apoio:


A CHAMA AZUL



"As estrelas
não caem longe da árvore"


Depois de sete anos, minha mãe Maria Carpi volta a lançar um livro de poesia. Estará autografando A Chama Azul (AGE Editora), uma meditação lírica sobre Joana D'Arc, na segunda (12/9) , às 19h, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping (Av. Praia de Belas, 1181 - 2º piso). Todos estão convidados.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

TODO CABELEIREIRO É TERRÍVEL

Arte de Jasper Johns

Nunca converse com o cabeleireiro. Fale por mímica. Não responda a nenhuma pergunta pessoal. Ao cair em tentação, perderá o controle de sua vida.

Resista ao charme andrógino. Evite encará-lo. Como a Medusa, somente olhe pelo espelho. Essencial entregar o pedido por escrito e se calar durante a próxima meia hora.

O movimento inicial dele é de ópera. Levantará suas mechas para cima, num sorteio de cartas, para lamentar o azar:

– Não sei o que você fez até hoje, seu cabelo está desidratado, sem forma, sem brilho...

Mantenha-se quieta, impassível, perante as reticências. Com uma simples concordância, ele ganhará confiança e escreverá sua biografia. Com um mero aceno de queixo, ele ditará o destino do seu cartão de crédito.

– Não dá mais, amiga, para se judiar tanto. Melhor se matar logo, não morrer lentamente para o mundo inteiro ver sua decadência. Tem que iluminar o rosto, abrir o tom, repicar as pontas. Assim é juízo final, início de novela, quinto dos infernos. O que houve, amor, anda infeliz? Falta de sexo?

Primeiro, ele responde por você, em seguida pergunta como se não soubesse da resposta.

Ficará impressionada com a sensibilidade da figura. O cabeleireiro é um cartomante dos cachos – ele nos convence com nossas próprias confissões.

Aceitará fazer luzes, corte, banho de creme, pintura, tudo o que for proposto como saída da crise. Estará chorando debaixo do secador (que é mais confortável do que no chuveiro), descrevendo horrores de seu marido, que não é valorizada e se arrependeu de casar.

O cabeleireiro é letal, uma manicure pessimista. Não deixa pedra sob pedra, fio sob fio, palavra sob palavra. Muito diferente do barbeiro, que se mantinha respeitoso e distante.

O barbeiro foi a última fronteira heterossexual do século 20. Dava uma dignidade para a luta do macho, a lâmina subjugava a tesoura. Havia a certeza de que, mesmo a vida não sendo fácil, valia o esforço, era importante seguir firme sustentando a família.

O barbeiro alcançava o status de confessionário perfeito, guardava os nomes dos clientes e esquecia os pecados. O cabeleireiro é o contrário: um DJ, alarmista e incendiário, espalha os segredos pela pista, mistura verdades, arranha discos, não poupa ninguém. Seu olhar é julgamento, sempre há algo de errado que devemos corrigir ou que não cuidamos ou que não prestamos atenção. Ele anda com seu coldre para mudar as cabeças das pessoas.

O que me põe a pensar que a mulher não corta o cabelo quando se separa. Mas ela se separa depois de cortar o cabelo.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 06/09/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16817

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SETEMBRO BOM À BEÇA

Imagem de Tadeu Vilani

06/09 (terça-feira) – Porto Alegre (RS), 9h
Fronteiras do Pensamento - Geração Z
Local: Salão de Atos da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110)
Contato: (51) 30192314

06/09 (terça-feira) – Venâncio Aires (RS), 15h e 19h30
12º Feira do Livro de Venâncio Aires
Patrono
Local: Pavilhão São Sebastião Mártir
Contato: (51)3741 5668

07/09 (quarta-feira) – São Paulo (SP), 20h
VII Encontros de Interrogação
Mesa Redonda com Lygia Fagundes Telles, Marcelino Freire e Maria José Silveira
Local: Sala Itaú Cultural (Avenida Paulista 149)
Contato: (11) 2168 1736

8/09 (quinta-feira) – Rio de Janeiro (RJ), 17h30
Bienal do Livro do Rio de Janeiro
Palestra na sessão Mulher e Ponto com Viviane Mosé
Tema: Quem são as mulheres de hoje? Independentes ou em crise com a independência conquistada?
Local: Riocentro (Av. Salvador Allende, 6555 - Barra da Tijuca, RJ)

09/09 (sexta-feira) – Gramado (RS), 17h
XIX Congresso da Associação Junguiana Brasileira
Mesa redonda A Hora da Maldição – Veia Poética
Local: Hotel Serra Azul (Rua Garibaldi, 152)
Contato: (51)33329293

12/09 (segunda-feira) – Guarapuava (PR), 19h30
Semana Literária Sesc Maringá
Palestra com Alice Ruiz – Literatura e Sedução
Local: Sesc Guarapuava
Contato: (44) 32623232 Ramal 2755

13/09 (terça-feira) – Campo Mourão (PR), 20h
Semana Literária Sesc Maringá
Palestra com Alice Ruiz – Literatura e Sedução
Local: Salão Social do Sesc Campo Mourão
Contato: (44) 32623232 Ramal 2755

14/09 (quarta-feira) – Umuarama (PR)
Semana Literária Sesc Maringá
Palestra com Alice Ruiz – Literatura e Sedução
Local: Salão Social do Sesc Umuarama
Contato: (44) 32623232 Ramal 2755

15/09 (quinta-feira) – Paranavaí (PR)
Semana Literária Sesc Maringá
Palestra com Alice Ruiz – Literatura e
Local: Centro Esportivo do Sesc Paranavaí
Contato: (44) 32623232 Ramal 2755

16/09 (sexta-feira) – Maringá (PR), 20h
Semana Literária Sesc Maringá
Palestra com Alice Ruiz – Literatura e Sedução
Local: Sesc Maringá
Contato: (44) 32623232 Ramal 2755

24/09 (sábado) – Ilha de Santana (RN), 20h
III Feira do Livro do Seridó
Palestra

27/09 (terça-feira) – Porto Alegre (RS), 9h
Fronteiras do Pensamento - Geração Z
Local: Salão de Atos da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110)
Contato: (51) 30192314

29/09 (quinta-feira) – Porto Alegre (RS), 19h30
18ª Feira do Livro do Colégio João Paulo I
Patrono
Local: Unidade Sul  (Travessa Pedra Redonda, 400)

sábado, 3 de setembro de 2011

A INFÂNCIA DE MINHA MULHER

Fabrício Carpinejar na entrada da casa onde Cínthya Verri (na foto, aos três anos)...... sua musa, morou em Constantina. Foto de Tadeu Vilani

Eu imaginava como teria sido a infância de minha mulher: onde cresceu e como formou seu temperamento. Desejava tê-la conhecido quando pequena: o que ela diria para mim se eu fosse seu coleguinha de jardim? Será que me cuidaria e pediria para que limpasse a mancha de pasta de dente no rosto como faz hoje? Será que me amaria quando ainda não me amava?

Decidi reconstituir a primeira década de vida da minha esposa Cínthya Carina Santos Verri, médica e psicoterapeuta, que completou 31 anos ontem. Fui visitar sua terra natal, Constantina, município de 10 mil habitantes, situado a 355 quilômetros de Porto Alegre, no extremo norte do Estado.

Ela me falava que Constantina era uma cidade vermelha. E vi que é mesmo, com barro manchando as pedras das calçadas. Ela me falava do cheiro de madeira e de hortelã de manhãzinha. E constatei o incenso natural descendo a ladeira da João Mafessoni. Ela me falava das ruas largas. E confirmei que são mesmo, folgadas como roupas de gestante.

E observei muito mais; que os moradores confiam um nos outros e põem os tapetes na grama da praça para secar ao sol e murmuram boa-noite para dormir a sesta.

Cínthya nasceu de cesárea em 1980, no Hospital da Comunidade, dirigido pelo seu pai Ciro. Ela morava numa casa de esquina, ao lado do ambulatório, junto da mãe Wanda e seus dois irmãos mais velhos Ciro Gustavo e Ciro Ricardo.

– Ela chamava a casa de “três garagens”, por ser o único imóvel na localidade que apresentava a trinca de box – acrescenta sua professora da 2ª série, Neusa Ana Giacomini Rosa, 53 anos. – E se sentia encabulada por ser filha do médico, fugia de privilégios – completa.

Por mais que tentasse desaparecer, a caçula da família Verri chamava a atenção pela elegância. Sua mãe arrumava um jeito de diferenciá-la, sem desobedecer ao uniforme obrigatório da Escola Santa Terezinha. Diante da exigência da blusa branca e do abrigo laranja, ela surgia com uma inacreditável gravata-borboleta, extremamente harmoniosa com o conjunto.

– Cínthya? Filha do Dr. Ciro? Vestida como uma princesa, aventureira como um guri – comenta sua colega Daviana Paula Leal, 31 anos.

Eu ouvia e comparava sua meninice com as atitudes de nossa relação, tudo fazia sentido, é apaixonada por esportes (rapel, surf, maratona) e longas viagens, detesta ser favorecida, odeia depender de alguém, escolhe o traje do dia em função de um acessório e coleciona gravatas.

A “profe” Neusa recorda de sua inteligência elétrica.

– Ela não marcava a linha com o dedo no momento de ler, veio alfabetizada para a 1ª série e terminava as tarefas antes da turma.

Cínthya não admitia perder tempo. Enquanto esperava a classe encerrar os trabalhos, inventava presentes, trazia cola e fitas. Seu estojo de lápis se assemelhava a uma caixinha de costura.

– Criava brincos e pulseiras e me entregava, e depois cobrava quando não colocava, lamentando que eu não tinha gostado – ri Neusa.

Minha esposa continua igual, repara se uso ou não o presente e exige que seja sincero. E nunca renunciou o hábito de elaborar camisetas e quadros para os aniversários dos amigos.

A vizinha Terezinha Paludo, 68, destaca que ela chefiava as filhas Patrícia e Angela nas brincadeiras:

– Era a menor e a mais decidida. Organizou o concurso Miss Rua Nereu Ramos, em que convocava as conhecidas para desfilar de maiô.

– Consertava as Barbies do bairro, já sonhava em ser médica – confessa Angela, 31 anos, uma de suas assistentes de beleza na época.

Compreendi que a Cínthya é a própria cidade: sensível, desconfiada, destemida, direta.

Para tocar o coração do passado, entrei na residência em que ela morou até se mudar para Passo Fundo, em 1990.

O casarão está abandonado, pronto para ser demolido. Procurei a seringueira no pátio, árvore da qual ela caiu aos cinco anos e que sobreviveu graças ao socorro rápido do pai, mas não estava mais lá. Procurei seu quarto amarelo, mas não havia cor nas paredes para diferenciar os cômodos. Sentei na borda da piscina suja e com água a meia-altura, fechei os olhos e, por um breve momento, parecia que ouvia os pedais de uma bicicleta. Uma menina gargalhava e dava voltas pelas bordas. Cada vez mais rápidas. Era Cínthya aprendendo a andar com a bicicleta vermelha de rodinhas.

Eu agora poderia amá-la pela vida inteira, com toda a vida dela: conhecia sua infância.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 35, 03/9/2011
Porto Alegre, Edição N° 16814
Veja vídeos da procura de Carpinejar por informações de seu amor em Constantina.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

MENTIRA OU VERDADE?

Veja minha participação no Jornal do Almoço, na RBSTV, na sexta (2/9). Respondi dúvidas de telespectadores sobre mentiras e verdades na relação.

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