sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O GRANDE MENTECAPTO

Foto de Alexandra Martins

Pensava que seria protagonista, cheguei de manhã no set de filmagens e virei coadjuvante. De tarde, já era figurante. No final, terminei como ponta. Essa foi a minha história no divertido comercial da Nextel.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

PREENCHA A LINHA PONTILHADA

Arte de Victor Brauner

No aeroporto, vinha um segurança gigantesco em minha direção. Uma porta fardada. Com roupa azul e frisos amarelos nas mangas. O coldre enviesado indicava seu trabalho de vigilância. Seu andar anabolizava a atenção das mesas da Praça de Alimentação.

Ele se aproximava lentamente, tinha um rosto malvado, duro, tenso. Os bandidos deveriam temê-lo, lembrava o Falcon de minha infância; a barba rala e a cicatriz na testa.

Quando ele passou por mim, eu vi seu crachá e sua maldade desapareceu no ato, foi substituída por uma candura de carrossel, de pônei pintado e música de ninar.

Estava escrito no crachá: EM TREINAMENTO.

Constrangedor fazê-lo prestar serviço com o claro aviso do período probatório. É desarmá-lo moralmente.

O ideal é que seja treinado para depois entrar em atividade. Não entrar em atividade para ser debochado.

Por que não colocar uma tabuleta no pescoço ou prendê-lo no picadeiro?

O estrago é igual. Não havia mais como levá-lo a sério. Emanou uma compaixão reservada aos passarinhos de asa pisada, que correm em círculos pelo jardim.

Coitado, pensei; projetar é recuperar no outro a própria memória, lembrei meu início profissional. Aguentava as provocações do chefe pela esperança de ser efetivado (aquilo não era esperança, mas perpétuo adiamento).

Em treinamento é dizer que o guarda não merece a identidade, que sequer recebe o FGTS, que é uma versão envelhecida de um estagiário.

É um sadismo das empresas estabelecer o sofrimento como critério para merecer o emprego. Mania absurda de considerar sacrifício e renúncia requisitos de um bom trabalhador.

Já não foi provado de que o purgatório não existe, de que é uma invenção da Igreja Católica?

Novatos terminam atrás do balcão com advertência macabra EM TESTE. A tarja no bolso da camisa é um carro colorido de autoescola: mantenha distância. As letras surgem em caixa alta, para não deixar dúvida da ausência de competência.

Com o crachá de aprendiz, os erros de atendimento serão condenados antes do julgamento. Diante do primeiro impasse, os candidatos ao emprego fixo vão se tornar garotos de recado e ouvir sempre o mesmo apelo:

- Por favor, chame o gerente!

Dinheiro é arrogância, os clientes não toleram iniciantes, reclamam da inexperiência, maltratam os novatos.

A identificação temporária difere pouco dos patrões que zombam de seus funcionários ao exigir que usem roupas típicas para atrair consumidores. Expor-se como coelho da páscoa, papai noel e caipira não vale o carimbo da carteira de trabalho.

Fantasia é uma escolha pessoal, torna-se crime quando imposta. Assim como ninguém pode tirar o direito que cada um tem de se humilhar.

Ser provisório é uma ofensa definitiva.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

FALSO BRILHANTE

Arte de Leonardo da Vinci

Há o condicionamento de que amor mesmo, de verdade, é gastar metade do salário para a esquadrilha da fumaça assinar o nome da namorada pelos céus de Porto Alegre.

Temos uma noção de que amor mesmo, de verdade, é exibicionista. Depende de surpresas públicas de afeto como serenata na janela, carro de som, anúncios na TV, outdoors com pedido de casamento.

Mulheres e homens se desesperam por um amor público, encantado, de estádio cheio, e cobram provas mirabolantes de seus parceiros. Reclamam da rotina, da previsibilidade, e exigem declarações barulhentas para despertar a inveja do próximo.

O amor espalhafatoso recebe a fama, mas o amor contido é o mais profundo.

Ao procurar o amor empresarial, desprezamos o amor funcionário público, que atende às ligações e escreve nossos memorandos.

Ao perseguir o amor de cinema, desdenhamos o amor de teatro, de quem encena a peça todo dia ao nosso lado, sempre com uma interpretação nova a partir das falas iguais.

Ao cobiçar o amor sensual de lareira e restaurante, apagamos a delícia de comer direto nas panelas, sem pratos, sem medo do garçom.

Ao perseguir a aventura, negamos a permanência.

Preocupados em ser reconhecidos mais do que amar, esquecemos a verdade pessoal e despojada do nosso relacionamento. Recusamos o amor constante, o amor cúmplice.

Não valorizamos a passionalidade silenciosa, a passionalidade humilde, a passionalidade generosa, a passionalidade tímida, a passionalidade artesanal.

O passional pode ser discreto na aparência e prático na ternura.

O amor mais contundente é o que não precisa ser visto para existir. E continuará sendo feito apesar de não ser reparado.

O amor real é secreto. É conservar um pouco de amor platônico dentro do amor correspondido. É reservar as gavetas do armário mais acessíveis para as roupas dela, é deixar que sua mulher tome a última fatia da pizza que você mais gosta, é separar as roupas de noite para não acordá-la de manhã. E nunca falar que isso aconteceu. E não jogar na cara qualquer ação. E não se vangloriar das próprias delicadezas.

Buscá-la no trabalho é o equivalente a oferecer um par de brilhantes. Esperá-la com comida pronta é o equivalente a acolhê-la com um buquê de rosas vermelhas.

São demonstrações sutis, que não dá para contar para os outros, mas que contam muito na hora de acordar para enfrentar a vida.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 04/10/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16846

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

UMA VOLTA AO BRASIL EM 31 DIAS

03/10 (segunda-feira) – Ibirubá (RS), 19h30
Feira do Livro do Colégio Sinodal Ibirubá
Palestra
Local: Rua Firmino de Paula, 646 - Centro

04/10 (terça-feira) – Ibirubá (RS), 8h
Feira do Livro do Colégio Sinodal Ibirubá
Bate-papo
Local: Rua Firmino de Paula, 646 - Centro

06/10 (quinta-feira) – Criciúma (SC), 17h
6ª Feira do Livro de Criciúma
Palestra
Local: Praça Nereu Ramos

07/10 (sexta-feira) – Campinas (SP), 19h30
Café Filosófico – CPFL Cultura
Curador do módulo Humor com H: sensibilidade masculina
Palestra “Malícia: casamento entre humor e o amor”
Local: CPFL Cultura - Jorge Figueiredo Corrêa, 1632 – Chácara Primavera

08/10 (sábado) – Três Coroas (RS), 10h30
Feira do Livro de Três Coroas
Palestra

10/10 (segunda-feira) – Bento Gonçalves (RS), 19h30
Palestra “VERDADE AFETUOSA: sinceridade não é grosseria”
Local: Al João Dal'Sasso, 800 – Universitário - Bento Gonçalves
Universidade de Caxias do Sul
Campus Universitário da Região dos Vinhedos

11/10 (terça-feira) – Novo Hamburgo (RS), 15h
29ª Feira do Livro de Novo Hamburgo
Palestra
Local: Praça 20 de Setembro

11/10 (terça-feira) – Cachoeira do Sul (RS), 19h
27ª Feira do Livro de Cachoeira do Sul
Palestra
Local: Praça José Bonifácio

14/10 (sexta-feira) – Picada Café (RS), 7h30
11ª Feira do Livro de Picada Café
Bate-papo
Local: Parque Histórico Municipal Jorge Kuhn

18/10 (terça-feira) – Salvador do Sul (RS), 20h
Encontros com o Professor
Mediação Ruy Carlos Ostermann
Bate-papo

19/10 (quarta-feira) – Taquara (RS), 10h30
Feira do livro Centro Sinodal de Ensino Médio Dorothéa Schäfke
Palestra
Local: Rua Pinheiro Machado 1223 (Centro) - Taquara

20/10 (quinta-feira) – Natal (RN), 21h
FLiQ - Feira de Livros e Quadrinhos de Natal
Palestra

27/10 (quinta-feira) – Santa Cruz do Sul (RS), 20h
Confraria do CTRL A
Bate-papo promovido por Rádio Atlântida e jornal Zero Hora

28/10 (sexta-feira) – Leopoldina (MG), 20h
XX Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
Palestra
Local: Plenário da Câmara Municipal

29/10 (sábado) – Porto Alegre (RS), 16h30
57 ª Feira do Livro de Porto Alegre
Mesa sobre o livro Mãe de Dois com Maria Dolores
Local: Sala Oeste do Santander Cultural
Praça da Alfândega Centro POA

30/10 (domingo) – Porto Alegre (RS), 18h30
57 ª Feira do Livro de Porto Alegre
Mesa com Marcelo Rubens Paiva
Local: Sala Leste do Santander Cultural
Praça da Alfândega Centro POA

31/10 (segunda-feira) – Salvador (BA), 18h
10ª Bienal do Livro da Bahia
Sessão “Mídias digitais, e-book: o futuro da literatura”
Mesa com Nelson Pretto sobre “O futuro já chegou?”
Local: Centro de Convenções da Bahia

terça-feira, 27 de setembro de 2011

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO (TCC)

Arte de Hieronymus Bosch

Se você já foi um universitário ou tem um filho na universidade, entende o valor da temida sigla TCC.

TCC é tudo. O resto é nada. Você é nada, uma ameba, um protozoário perto de um TCC.

O Trabalho de Conclusão do Curso é a greve de existir do jovem. Faz o vestibular parecer um feriado.

O TCC é a TPM do Ensino Superior, a cadeira derretida do inferno, a desculpa para não realizar mais nada.

Não se vive com um TCC. A monografia final da graduação é a fita azul que enrola o canudo, é a provação derradeira para emoldurar o diploma, é o que separa o capelo do céu.

Na teoria, a tarefa se exibe fácil. Arrumar um tema, depois juntar material de pesquisa, atender aos conselhos de um professor orientador e, por fim, escrever 60 páginas. O fim nunca se encerra. No momento de pôr as ideias na tela, o último semestre demora mais três e o pânico devora as letras do teclado como um vírus.

O TCC é o Gulag do adolescente, o exílio solar, a solidão noturna. É o bilhete de suicídio prolongado em livro. É o mesmo que receber simultaneamente a notícia de gravidez e esterilidade.

Não se é humano com o TCC. É um crime se divertir, arejar a cabeça, brincar durante o período. A expectativa de solucionar um problema da carreira a partir de um texto acadêmico torna-se o problema. O futuro ganha o sinônimo de PRAZO ESGOTADO. A esperança tem o subtítulo ANOTAR ALGUMA COISA, QUALQUER COISA, POR FAVOR, ME AJUDA. O sujeito não tem mais passado, mas BIBLIOGRAFIA. Não existe lembrança, e sim FONTE.

Muito fácil reconhecer o graduando na rua. Andará vagaroso, vidrado nos cadarços soltos do próprio tênis, rosto maltratado, remela nos olhos, roupas sobrepostas de quem se acordou agora e pegou as primeiras peças pela frente. Demonstrará irritação e uma dificuldade de entender a lógica do idioma. É um poço de culpa, ou porque não dormiu para estudar, ou porque dormiu e não estudou.

Algumas respostas básicas de um universitário redigindo o TCC:

Você namora? – Não posso agora, estou preocupado com o TCC.
Vamos tomar um café no fim de tarde e pôr o papo em dia? – Não dá, tenho que fazer o TCC.
Que tal Green Valley no domingo? – Nem pensar, estou com o TCC parado.
Topa churrasco de noite? – Nunca, não avancei no TCC.
Um cineminha hoje, para descontrair um pouco? – Desculpa, estou atrasado para o meu TCC.
Onde você está? – Tentando achar uma posição confortável para escrever meu TCC.
Você leu a crônica de Carpinejar em Zero Hora? – Não, só leio o que interessa ao meu TCC.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 27/09/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16838

sábado, 24 de setembro de 2011

O EMPALHADOR DE CÃES

Dono de um fox paulistinha, Ubirajara já empalhou 18 mil animais no seu laboratório instalado em casa. Fotos de Ricardo Duarte

O ex-bombeiro Ubirajara Lopes, 60 anos, tem o dom de assegurar vida eterna aos animais. Ou quase isso.

– Meu trabalho dura cinco séculos, o equivalente à infância e à adolescência de um vampiro.

Ele já empalhou mais de 18 mil bichos em seu laboratório nos fundos de sua casa amarela em Carazinho, cidade de 58,2 mil moradores, distante 285 quilômetros da Capital. A maior parte das encomendas são cachorros a pedido de seus donos, inconformados com a perda recente e que buscam manter uma imagem carinhosa do parceiro de estimação.

– Homens surgem chorando em minha porta, ainda sem entender a tragédia. Faço terapia, velório, chá, um pouco de tudo para acalmá-los e depois explico como é feita a homenagem.

Para estar apto ao trabalho de conservação, o bichinho deve ter morrido dentro do prazo de 72 horas. Os casos que mais aparecem para o empalhador são atropelamentos e envenenamento, fins súbitos, que privaram a família do direito a uma despedida.

– Deixo o cão em uma posição bonita, é o dono que escolhe sua cena predileta, como pretende enxergar o animal para sempre: sentado ou deitado ou de pé.

Atuando com taxidermia desde 1980, Ubirajara atende 15 pedidos por mês. Colabora também com Ibama e Museu Regional Olívio Otto de Ciências Naturais. Cada animal tem seu valor (cavalo custa R$ 4 mil; cachorro, R$ 2 mil; peixe grande, R$ 1 mil; coelho e gato, R$ 200; hamster e passarinho, R$ 50).

Nenhum obstáculo complica sua arte funerária, nem o motivo da morte, muito menos o porte da vítima e a raça. Depende de 60 minutos cronometrados para completar o serviço (tira o couro, preserva crânio e os ossos das patas e reveste o pelo com uma armação de ferro).

– Não acho estranho. Sou um fabricante de recordações.

Interessou-se pelo ofício na infância, ao acompanhar o pai em pescarias e caçadas e ficar intrigado com cabeças de dourados e de cervos nas paredes das residências de seus colegas.

– Peças tão reais, verdadeiras, vibrantes, aquilo fisgou minha curiosidade.

Autodidata, com a escolaridade até 6ª série, tornou-se craque em anatomia ao devorar enciclopédias de bibliotecas públicas. Levou adiante seu passatempo e estudou técnicas de embalsamento do Antigo Egito e dos rituais milenares à base de pó de canela, sal e pedra úmida.

Ubirajara é um Francisco de Assis da resina. Tem compaixão por bicho morto na estrada. Recolhe o corpo, desamassa, cuida da aparência e reza pela sua alma. O porta-malas do Ka é um Instituto Médico-Legal improvisado.

– O último olhar é o olhar do perdão, tem um brilho diferente, mantenho aceso para o resto dos dias – diz.

Apaixonado por cães, ele não descarta empalhar Cuca, seu fox paulistinha, quando falecer.

– As lágrimas serão meu formol.

As brincadeiras de mau gosto dos vizinhos representam a única parte chata da história. Ao vê-lo passar pela rua, um deles grita:

– Quanto cobra para empalhar minha sogra?

ALÉM DA VIDA


A sala iluminada apenas pela luz da TV. Como todas as noites, Natalino Cordeiro dos Santos, 52 anos (acima), está acompanhado de seu melhor amigo, o poodle malhado Caco, para assistir à novela. Pela força do hábito, coloca a mão atrás da orelha do cãozinho, é o lugar das cócegas. Mas Caco não se mexe, não late, não geme; morreu em 2008.

– Após ser atropelado, Caco veio cambaleando me abraçar.

Natalino recorreu a Ubirajara para eternizá-lo. Projetista de Passo Fundo, pai de três filhos, carrega o animal empalhado pela residência, reprisando o clima de lealdade.

– Prometi nunca abandoná-lo. Ele comia comigo, passeava na janela do carro, andava em duas patas na hora do mimo e lambia meu rosto ao me descobrir abatido.





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 32, 24/9/2011
Porto Alegre, Edição N° 16835
Veja vídeos do ambiente de trabalho de Ubirajara.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CONVICÇÃO


Quando um jogador erra um pênalti raramente aceitará bater um próximo durante o jogo.

A clara vantagem moral do goleiro apaga a tranquilidade do batedor. O torcedor também não ajuda, e passa a vaiar qualquer ameaça à sua alegria, proveniente de um ídolo ou não.

Sou fascinado pelo exemplo do atacante argentino Martín Palermo, o El Loco. O maior goleador da história do Boca Juniors protagonizou na seleção de seu país a proeza de desperdiçar três penalidades numa única partida. O feito memorável ocorreu contra a Colômbia, em julho de 1999, pela Copa América.

Não me espanto pelas três chances decisivas e letais de gol postas fora, que asseguraria o empate da Argentina, mas sua teimosia inabalável de permanecer tomando a bola para si na marca branca da pequena área.

- Deixa comigo, agora vai!

Sua insistência é heroica, mítica. Palermo é primo de terceiro grau de Electra, dublê de Sísifo, cover dos corvos de Prometeu. Ele não se preocupou em proteger sua trajetória vitoriosa, em conservar sua reputação imaculada, abriu a guarda à crítica, largou a zona confortável da normalidade, permitiu-se extrapolar a cota de vexames que cada um suporta por dia. Enfrentou o próprio azar, para que se tornasse maldição ou redenção.

Muitos dirão que ele perdeu a cabeça, não teve bom senso, vejo o contrário: ele assumiu que era uma noite ruim e foi até o fim, não culpou o vento, a chuteira, o gramado, o juiz, não usou atenuante, não transferiu o peso da falha a possíveis movimentos irregulares do goleiro, não procurou se isentar da responsabilidade de decidir, não se apequenou perante o primeiro tombo, confiou em seu talento e insistiu. Assim que admitiu bater a segunda cobrança, estava fadado a seguir com a terceira, a quarta, a quinta, a sexta, quantas surgissem. Não desistiria nunca. Ele levou para o lado pessoal, como deveríamos fazer sempre, ruim é quando levamos para o lado público e desistimos.

Ele chutaria de tudo o que é jeito, e talvez errasse consecutivamente, pela vida inteira.

Quem teria a mesma intrepidez? Quem bateria numa porta para ser negado sucessivas vezes? Nem o mendigo sobrevive à reincidência. No plano amoroso, só nos declaramos quando temos absoluta certeza da reciprocidade, e olhe lá! Poucos se arriscam sem absoluta confiança de uma resposta positiva. Dizer o "eu te amo" vem engasgado, confuso, rasteiro - o outro pede para repetir de propósito. Na ausência de certeza, recuamos, fingimos que nada aconteceu, escondemos os próprios sentimentos. Existe um medo de se confessar, justamente para não ser zombado, para não ser chamado de burro.

Covardia é fugir do fracasso, coragem é aceitar o fracasso. Palermo não foi palerma.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A UM FILHO QUE SE FOI

Arte de Edgar Degas

Minha amiga Dora perdeu seu filho.

Ela disse que o momento mais difícil do luto foi quando ela riu de uma piada durante jantar entre amigas. Já havia completado dois anos do acidente e um ano que limpara o quarto do adolescente e oferecera suas roupas e pertences para campanha do agasalho.

Não conteve o riso, ele veio, cristalino, por uma história boba. Ela se penalizou pela alegria, acreditou que traía seu filho com a gargalhada, que não poderia mais ser feliz depois da tragédia familiar, que deveria seguir com a feição contraída e casmurra para homenagear a tristeza e avisar aos outros da longevidade e importância de sua ferida.

A lealdade tinha que ser séria, ornada de renúncias. Para indicar que a viuvez de ventre é definitiva, com o berço dos olhos petrificado em jazigo.

Ela se sentiu culpada por rir, envergonhada perante os céus, pediu desculpa ao filho, prometeu que estaria mais concentrada dali por diante e que o descontrole não se repetiria.

Mas ela quebrou a palavra, e riu novamente, como é próprio da vida superar o pesar de repente. Seu rosto agora participava da conversa com todas as rugas e covas. Bateu vontade de cobrir os lábios de batom para brilhar inteira.

Dora me segredou uma frase pura, que guardei na caixinha de sapatos de minha infância:

– Foi uma injustiça meu filho morrer, mas não poderia deixar a morte de meu filho me matar.

Doralice sempre me surpreendeu pela sua lucidez. Foi minha professora de matemática na Escola Estadual Imperatriz Leopoldina. Na última semana, passei pela frente de sua casa no bairro Petrópolis e arrisquei apertar sua campainha. Ela me recebeu com um longo abraço e me convidou a entrar. Reparei que pintava na varanda.

– Começou a pintar, Dora?
– Eu? Não...
– O que é essa tela? (eu me aproximei da moldura que reproduzia uma praia no inverno)
– Ah, é minha dor que estava pintando, coloquei minha dor a se mexer, a aprender algo de útil, e parar de me incomodar.

E concordei com seu raciocínio. Quantas vezes abandonamos nossa dor no sofá, vadia, assistindo TV? Quantas vezes permitimos que ela fique o dia inteiro dormindo, lembrando bobagens? Nossa dor sozinha, sem emprego, sem fazer nada, desejando morrer no escuro. Nossa dor comendo às nossas custas, terminando com os nervos, o casamento, as amizades.

Dor é feita para trabalhar, senão adoecemos no lugar dela.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 20/09/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16831

sábado, 17 de setembro de 2011

DISCRETAS HEROÍNAS

Loreni e Nely atravessam o perigoso Rio da Várzea em canoa para lecionar em aldeia caingangue. Fotos de Tadeu Vilani

Ka é árvore
Kakane é laranja

A menina indígena Taina da Silva, oito anos, transforma sua língua caingangue em português. Com orgulho, impõe a mão esquerda no quadro negro. Desperta o interesse de seus colegas, que viram o rosto a cada nova torção do giz branco.

Kamé é sol
Kanhokre é lua

Taina depende da disposição aventureira de duas professoras para continuar aprendendo.

Loreni Graebin, 47 anos, e Nely Maria dos Santos, 54 anos, moradoras de Rodeio Bonito, cidade de 5,7 mil habitantes, situada a 413 quilômetros de Porto Alegre, são as discretas heroínas do ensino.

Por um salário simbólico, atravessam o perigoso Rio da Várzea para lecionar na aldeia caingangue. Vestem os coletes salva-vidas e assumem um cantinho da canoa verde da Funai, embarcação ainda dependente do remo e do temperamento da correnteza.

– Necessário prestar atenção: para não ser atropelado por um boi morto ou um tronco perdido nas águas – avisa Loreni.

Loreni é a diretora da Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Francisco Kajero, que atende 182 alunos, do outro lado da margem, em Liberato Salzano.

Nely é coordenadora pedagógica e ampara a aldeia de 124 famílias do povoado caingangue, procurando convencer crianças e adolescentes a não abandonar a escolaridade, apesar dos hábitos diferentes e da gravidez precoce (meninas de 12 anos costumam casar e ter filho).

Ambas têm no currículo mais de três décadas de magistério. Também são as únicas do quadro docente de 15 professores, que passam o dia inteiro na escola.

Poderiam estar numa situação mais cômoda, sem correr riscos, sem penar por ônibus de uma em uma hora, sem enfrentar a correnteza de 250 metros, sem percorrer a pé mais de um quilômetro de mata fechada, mas são incansáveis. Pelo prazer de explicar o mundo, continuam acordando às 7h e regressando às 17h.

– Meu marido já cansou de perguntar por que não desisto. Ensinar é um vício, é se apaixonar dentro do amor – afirma Loreni.

– Salto alto na aldeia é galocha, as calças terminam barrentas e não se usa tênis. Eu me envaideço de frases – explica Nely.


Quando não há nenhum morador caingangue esperando na beira para levá-las, as professoras tomam o barco e remam. Não ficam contando as horas.

– O espetáculo tem que continuar – diz Nely.

– Uma vez quase morri, o rio estava crescido e me levou para baixo. Não adianta gritar, mantive a calma e esperei socorro, até que me encontraram presa nas folhagens de Rodeio Bonito.

O perigo é amenizado pela admiração dos alunos, sempre puros, carentes e leais. Houve também melhorias na infraestrutura em 2010. As ocas e galpões tomaram a forma de prédio com ventiladores.

– Os índios têm um respeito formidável pelo conhecimento, ser professor não é visto como uma profissão, mas como um dom, um traço divino – esclarece Nely.

– Eles nos agradecem por estar com eles, é algo da escola de antigamente, de devoção a quem transmite ideias – pontua Loreni.

Unhá é boa/bom

– É a palavra se olhando no espelho – confessa Taina, completamente feliz com sua observação.

– Então vamos penteá-la! – completa Nely.

Taina escreve em letra lenta e caprichada, acentuando as tranças nos dois i:

– Sivi

Nely e Loreni se entreolham e perguntam o que é aquilo:

– Vocês em caingangue: Lindas!





Publicado no jornal Zero Hora
Série semanal BELEZA INTERIOR
(Em todos sábados de 2011, apresentarei meu olhar diferenciado sobre as cidades, as pessoas e os costumes do RS)
p. 36, 17/9/2011
Porto Alegre, Edição N° 16828
Veja vídeos mostrando a travessia do Rio da Várzea.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O PIJAMA DO PAPAI

Arte de Cínthya Verri

Não sou fã de pijama. Dispenso o figurino. Nem que seja marroquino, ou de seda mais pura.

Muito diferente de meus amigos, como Mário Corso, alucinado pelos trajes de dormir, disposto a combinar polaina com pantufas. Ele enxerga rigor no conforto, a ponto de confundir o pijama com um smoking do sono, um fraque da preguiça.

Eu não suporto, é meu pesadelo de pano; tenho alergia, urticária, repulsa. A princípio, alego motivo nobre. Assim como os ambientalistas protestam em desfiles de casacos de pele, participo de campanha ecológica contra o fim do homem.

Pijama, nunca. Em seu lugar, recorro ao abrigo macio, mais apropriado e prático. Já acordo vestido, sem o transtorno de me trocar para atender visitas.

Pijama, nunca. Defendo sua extinção como um princípio imutável do caráter. A escolha reflete bom gosto, refinamento de estilo.

Não me faltam argumentos. Pijama não é sensual, traz sempre bolsos para desfigurar o peito com canetas e papéis. Tem um componente broxante, que é uma braguilha sem zíper. Seu uso adoece os olhos, não sei se são as listras ou as cores, algo faz com que seu dono procure o oftalmologista e passe a adotar óculos de leitura.

O pijama corrompe a moda, estraga a aparência, prejudica a libido. Com ele, o homem aceita a velhice, entrega os pontos. Baixa a crista, o queixo e outras coisas mais. É uma castração moral, um canil de botões. Logo mais o sujeito estará assistindo novela.

Além dos motivos mais do que razoáveis, meu preconceito conta com uma explicação científica. Há um trauma vestindo a rejeição.

Meu pai existia em casa até a hora de pôr o pijama.

Quando colocava as duas peças azuis, desaparecia. Evaporava. Partia para ler romances policiais na cama. Trancava a porta do quarto. Como chefe de gabinete, a mãe repreendia qualquer aproximação:

- Não incomoda seu pai, ele está de pijama.
- Seu pai não pode atender, ele está de pijama.
- Tem certeza que não consegue carona com algum amigo, meu filho? É que seu pai está de pijama...

O pijama era o escritório paterno. Seu isolamento. Sua farda militar. Seu esconderijo matrimonial.

Era o mesmo que estar dormindo, o mesmo que estar morto.

Ele continuava pai com qualquer outra roupa, menos de pijama. Escutávamos seus chinelos pelo piso de madeira, o chiado da asma, o ronco, o barulho da descarga, ouvíamos sua voz comentando de manhã sobre algum colega de trabalho, mas não o enxergávamos. Não podíamos vê-lo.

Até hoje, ao telefonar de manhã para o meu pai, em vez de perguntar se ele está acordado, questiono se ele está de pijama.