segunda-feira, 9 de julho de 2012

CDF

Arte de Paul Klee

A criança superdotada é a que mais sofre em sala de aula, não aquele que tem dificuldade de aprendizado.

Ela tem que esperar a turma aprender para seguir adiante, suportar as negativas da professora na hora de responder as perguntas e aturar o boicote dos colegas quando não passa cola nas provas.

Ouça meu comentário de sábado (7/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com apresentação de Fernando Zanuzo e Georgia Santos:


domingo, 8 de julho de 2012

MEUS NAMOROS DURAM APENAS DOIS ANOS, É MALDIÇÃO?

Arte de Cínthya Verri

“Fisioterapeuta, 32 anos, moro com meus pais, o que me deixa incomodada. Sou de aquário, vivo de amor: pelo próximo, pelos amigos, pais, namorados... Dizer que meus namoros não dão certo é mentira, mas eles nunca passam de dois anos! Sou carente, vivo à procura ou à espera de um grande amor. Josi”.

Querida Josi,

Morar com os pais infantiliza seus namoros – este é o seu grande problema.

Ainda pede permissão, no inconsciente, para a família. Não tem atmosfera para expor as frustrações e os desejos súbitos, uma sala com sua decoração e modos, para se apresentar inteiramente. Um lugar para amar com liberdade e até brigar. Brigas sufocadas aniquilam o relacionamento mais do que as declaradas.

Todo instante requer delicada diplomacia para agradar os parentes e, ao mesmo tempo, demonstrar arrebatamento nas histórias particulares. Servir o passado e o futuro é impossível – cabe escolher seu destino.

A família sempre está perto olhando seus passos, analisando quem chega. Sua residência é superpovoada de curiosidade, quase uma romaria a uma santa, idêntica a uma torre de Rapunzel, cheia de provas e desafios.

Jogue-me suas tranças, Josi. Ou apague as velas do bolo. Está próxima de realizar o sonho da Disney, não da festa de casamento, compreende?

Seu espaço afetivo é um cativeiro de virtudes, limitado para sua idade. Vive questionada, e deve aceitar a invasão familiar nos seus assuntos porque não resta outra opção. Não há namoro que perdure. Os companheiros aguentam os dois anos do estágio probatório da paixão. E, pelo jeito, são bem esforçados e aplicados. Mas terminam obrigados a conviver com sogro e sogra. Não enxergam perspectiva de emancipação. Temem que o relacionamento seja a sombra eterna de uma mesada.

Você coloca sua felicidade nas mãos paterna e materna. Não procura o amor, espera um amor. Não pretende nem sair de casa. É muita moleza.

Que tal tirar seu título amoroso e votar em seu próprio candidato?

Abraço com toda ternura,
Fabrício Carpinejar

Querida Josi,

Era uma vez um viajante que, por acidente, sentou para repousar embaixo de Kalpataru, a árvore dos desejos. E estava com fome, por isso pensou: “Como eu queria comer!”.

No momento em que a ideia de comida surgiu na mente dele, o alimento imediatamente apareceu, e o homem estava tão faminto que nem pensou a respeito. Comeu tudo. Então sentiu sono.

Quando deitou na grama, o pensamento surgiu: “O que está acontecendo? Não vejo ninguém aqui. A comida simplesmente apareceu - talvez haja fantasmas fazendo isso comigo!”.

De repente, apareceram fantasmas. Ele ficou com medo e pensou: “Agora eles vão me matar!”. E eles o mataram.

Josi, talvez você veja aquilo que pensa. E, por isso mesmo, talvez seja o que faz acontecer.

Você tem grande percepção sobre o que precisa fazer para interromper o ciclo, mas não age. Afirma que percebe abandonar as próprias necessidades e deixá-las para o outro se responsabilizar sabendo que isso não funciona.

O amor não é feliz. O amor é o amor: uma geografia complicada, desordenada e que não obedece a comandos. Não tem data de validade, não tem período de expiração. É um terreno duro, que exige conversa e recuperação todos os dias.

O amor aposta no resgate, não tem nenhuma sobrevida. É um paciente terminal, um corpo dependente de cuidados para suas atividades mais corriqueiras. Ele não anda sozinho.

Viver junto com alguém não é esporte: é fisioterapia. Todo cuidado é pouco. Qualquer movimento brusco e perderemos todo o trabalho de meses. Amar é para artesãos.

Você já sabe cuidar de seus amores mais autônomos. Se quiser mais, será preciso deixar os pensamentos de lado e cumprir com o que você sente.

Beijos meus e coragem sempre,
Cinthya Verri


Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 08/07/2012 Edição N° 17124

Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.
Nossos palpites amorosos não substituem consulta, terapia, exorcismo e qualquer tratamento técnico.
ESCREVA PARA colunaquaseperfeito@gmail.com

sexta-feira, 6 de julho de 2012

ESPOSAMANTE

Arte de Diego Rivera

Sou contrário ao marido chamar a esposa de mãe. E a mãe chamar o marido de pai. Mesmo que seja para educar as crianças, facilitar o ritmo de casa. 

Não podemos subestimar a força das palavras.

É enfraquecer os laços, complicar o romance, esfriar o contato em formalidade.

Não há sexo que aguente. É transformar a cama no divã. É colocar tragédia grega na Sessão da Tarde.

Ouça meu comentário da manhã de sexta (6/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Fernando Zanuzo:

quinta-feira, 5 de julho de 2012

MÁQUINA RECEBE LAERTE

O cartunista Laerte surgiu em meu programa A Máquina, na TV Gazeta. Materializado em minha frente com sua inquietação crítica e sexual.

Elegante de saia e pernas para fora, reprisou momentos importantes de sua trajetória. Um deles quando foi preso pelado na USP, em 1971.

O bate-papo teve sua exibição na noite de terça (3/7).

quarta-feira, 4 de julho de 2012

PÃO-DURO

Quando homem oferece flores de campo, está buscando economizar.

Já é um sinal do que virá. Avareza é o oposto da paixão.

Em DRnaTV, eu e Cínthya Verri desamarmos truques e fantasias sobre namoro e casamento.

O quadro acontece no programa Tudo+, da TVCOM. Confira o elétrico bate-papo da noite de terça (3/7) :

TEORIA DAS CORES

Arte de Cínthya Verri

Todo homem casado é daltônico.

Ele se torna uma vítima da dependência amorosa. A esposa confunde a cabeça do sujeito a ponto dele não diferenciar mais o que é o vermelho do verde, o que é o castanho do cinza. Pensa algo e ela avisa que a cor é outra. Nunca coincide pensamento com realidade. É uma conversa de enlouquecer Romero Britto.

No matrimônio, o mundo se embaralha como pontas dos lápis no fundo do estojo de madeira. Não tente apagar que aumentará a mistura.

A dúvida desemboca em desconfiança e termina em desvalia. O marido questiona onde está seu casaco marrom. A mulher lamenta que não sabe, ajuda a procurar, ambos esquadrinham a casa inteira e nenhum sinal do agasalho.

No último sopro da expedição, o homem localiza a peça no próprio cabide. Tranquila. Como se ela nunca tivesse saído dali. Afinal, sempre perdemos aquilo que não muda de lugar.

— Aqui, amor, achei!
— Mas esse casaco não é marrom?
— É o quê?
— É amarelo!
— Amarelo?

Ela fala com tanta determinação que você fica encolhido e se isola na insignificância monocromática. Desiste de rebater e de explicar, inclusive atinge o extremo de pedir desculpa. Não compreende como passou a vida desconhecendo as matizes certas. Como que atravessou o Ensino Fundamental sem rodar? Como que pintou a cara do Bozo nas cópias xerox das áreas de recreação? Será que os professores e familiares tiveram compaixão?

A partir desse momento fatídico do casamento, nada mais confere. É uma humilhação constante que mina as estruturas mentais e culturais.

Pergunta para a esposa onde está a calça preta, ela confessa que é azul. Pergunta para a esposa se viu o blusão laranja, ela diz que é vermelho. Pergunta onde foi pendurada a cueca, ela lembra que é lilás.

Diante do analfabetismo súbito, decide decorar as falhas e convertê-las num padrão, num segundo idioma, num código bíblico.

Marrom = amarelo
Preto = azul
Laranja = vermelho
Verde = lilás


Agora demora a responder as questões mais elementares. Desenvolve um raciocínio mais lento e longo. Observa qualquer aparência com curiosidade mórbida, precisando consultar a cartela de cores e indicar seu equivalente. Tal casa de câmbio, troca o que achava antes por aquilo que sua companhia estipulou como verdadeira.

Quando memoriza a nova ordem, sua mulher muda de lado e argumenta que o amarelo é amarelo e o preto é preto e o laranja é laranja.

Mas já era tarde demais para reaprender a teoria das cores.

Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 3 de julho de 2012

O CÂNCER QUE LEVOU SEU AMOR

Arte de Pablo Picasso

Meu amigo Antonio ficou viúvo. Sua esposa morreu de câncer de pâncreas. Algo devastador, que derrubou em poucos meses a companhia de temperamento forte, risonho e invencível.

Ele não contou com tempo para se preparar e se despedir. O luto veio como um susto. De repente, depois de 30 anos de casamento, ele se acordava sozinho e tomava café sozinho e conversava sozinho e se desesperava sozinho. Antes, até sofrer, sofria com ela.

Sua primeira atitude, assim que depositou seu coração na pedra do São Miguel e Almas, foi limpar a casa, tirar os objetos de Elisa de perto dos olhos. A casa restou pela metade, uma residência casada com móveis de solteiro. Pôs fora as roupas, os cabides carregados de ombreiras, recolheu os vasos e bibelôs, arregimentou perfumes e produtos de beleza, esvaziou as prateleiras. Não esperou doar para caridade. A dor é puro pânico, egoísta, precisa se libertar da palavra, não consegue ser generosa.

Empilhou caixas e caixas de pertences valiosos na frente do portão, para o lixeiro levar. Em segundos, despachou o que o casal acumulou numa vida inteira. Quando morre a figura de nosso amor, mas o amor não morre, não há o que escolher, tudo é lembrança sangrando de novo, somos crianças mexendo, a cada instante, em cascas de ferida.

Antonio circulava pelos aposentos como um fantasma. Já podia, porém, observar por onde andava. Não tinha que pagar mais pedágio ao tocar em qualquer objeto. A faxina o protegeu dos próprios atos falhos. Ajudava o esquecimento a esquecer.

O espaço dobrou de tamanho e intensidade: vazio, deserto, imenso. Sem nenhuma foto ou quadro na parede. Sem nenhum risco de contato com o passado conjugal.

Mas, ao mexer no armarinho do banheiro e buscar o barbeador, encontrou a escova de cabelos de Elisa no fundo da gaveta.

A escova estava repleta de cabelos da Elisa. Cabelos vivos de Elisa morta.

Ele odiava limpar a escova antes de se pentear, não considerava justo, já que era fruto do descuido dela.

Agora não. Ele começou a suspirar devagar para não chorar. O suspiro é o choro da boca.

Não aceitava que a escova tivesse sobrevivido a sua blitz. Odiou aquele acessório com todo amor e amou com todo ódio.

Nas cerdas da escova, brilhavam cabelos castanhos e longos que ele conhecia como ninguém.

Ele sentou-se no sofá e aproximou o nariz da escova, chegou a raspar a pele, para recuperar o perfume do pescoço de Elisa.

Só que predominava o cheiro de madeira do cabo mais do que o incenso de flor de sua memória.

Como um botânico aflito diante de espécie rara, tratou de tirar um por um os fios da escova.

E fez uma trança dos cabelos de sua mulher morta.

Amarrou a mecha com um laço preto e inspirou longamente sua fragrância. Nebulizou o rosto até reaver o gosto do beijo de Elisa. Nunca o último beijo.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 03/07/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17119

HOTEL MENOS CINCO ESTRELAS

Arte de Edward Hopper

Por que o hotel tem Bíblia?

Em alguns casos, ele é tão ruim que você só pode rezar.

Viajo muito, quase dez cidades diferentes por mês e já sou um especialista do hotel chinelão.

Ouça meu comentário na manhã de terça (3/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Fernando Zanuzo:

 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

POESIA A CÉU ABERTO

Arte de Giacometti

A poesia está nos quadrinhos, na Bíblia, no rock, na bula do remédio, na etiqueta do sutiã. Não há como viver sem poesia. Ficamos incomunicáveis. Ela é um atalho da linguagem. Uma simplicidade comunicativa. Foi estigmatizada de difícil, de complicada, de inacessível, mas é o contrário: facilita o entendimento.

No futebol, o narrador morreria descrevendo um jogo. Ai, eu disse "morreria", desculpa, foi um exagero poético. É uma figura para dizer que ela se cansaria. A poesia exagera ou diminui, para chegar perto da adrenalina do momento. Morreria é uma sensação de ultrapassar os limites. Não é morrer de verdade, morrer literal.

Quando digo que minha mulher me levou aos céus depois de um beijo, eu não fui ao céu e voltei. É a impressão de vertigem do amor. No instante em que Pablo Neruda, poeta chileno Nobel de Literatura, coloca que o cheiro da barbearia lhe faz chorar aos gritos não é para levar a sentença ao pé da letra: ele confessa seu medo da navalha e da tesoura.

Antes as palavras eram somente palavras. O poema veio para colocar o sentimento dentro delas.

O locutor de futebol, na verdade, foi salvo pelas metáforas, senão a partida duraria 360 minutos. Metáfora é falar algo por uma comparação. Quando o radialista comenta que Neymar deu um lençol no Chicão, ele evitou de explicar que o atacante santista lançou a bola por cima da cabeça do zagueiro corintiano e buscou do outro lado. Com uma imagem, resolveu a questão, ganhou valiosos minutos no rádio. A jogada é igual ao desenho de um lençol.

Há um glossário futebolístico imenso que segue essa linha como janelinha, balãozinho, pedalada, bicicleta, elástico, folha seca, embaixadinha, trivela. A poesia é o apelido do mundo. Uma nova forma de nomear e inaugurar as coisas. Pode ser engraçado, pode ser sério. O apelido é um jeito de qualificar semelhanças. Para o bem. E para o mal. Quem pratica apelido, pratica poesia.

Nem o bullying escapa dos versos. Se alguém tem sardas pode ser chamado de Sarampo, isso acontece pela parecença com os sintomas da doença. Nem a sedução dispensa os versos. Mas quem tem sardas pode receber apelidos lindos, como Iluminado. Explico, sardas são como óculos na pele, parece que geram luz e fazem brilhar a coloração dos poros.

A poesia aproxima palavras que não se cumprimentavam. Palavras ranzinzas, que nunca conversavam no dicionário. Quanto mais diferentes, mais a união produz barulho e o efeito desejado de surpreender. Ela gosta mesmo de casar. Perfeito, a poesia é uma agência de casamento entre os vocábulos.

De um lado, o fogo. De outro, a tempestade. Os dois representam forças opostas. Poesia ama novidades, esquisitices, exuberâncias.

Vamos casar o fogo com a chuva? Temos que encontrar um ponto em comum. Que tal a rapidez? Fogo destrói casas com velocidade. Tempestade destrói casas com velocidade.

Feito o poema:

A tempestade é tão rápida quanto o fogo.

Certo?

As peças podem ser antagônicas, o importante é definir uma convergência, uma intersecção.

O que a ovelha tem de igual com a água?

A lã e a espuma são brancas e repousam na superfície.

Desse jeito, permito-me definir que

A lã é a espuma do rebanho.

É uma brincadeira que combina mais com o nosso raciocínio emocional, repleto de desejos, arrebatamentos, vontades.




O ensaísta Nelson Rodrigues enfrentou a pobreza na infância, não tinha almoço e nem janta e enganava o estômago tomando água. Usou a poesia para que o leitor percebesse a gravidade da situação.

― Eu não bebia água, comia a água.

Pois a água era sua refeição. Ele traficou sentidos entre os verbos. Assim como quem já teve infecção na garganta, tem todas as condições para compreender a água como um alimento. Demora a descer, a ponto de necessitar de dentes para ingeri-la.

A poesia fotografa a emoção. É um detector de emoção das frases. Ela recombina palavras, tornando a leitura nervosa. O escritor Paulo Henriques Brito poderia ter escrito em um de seus poemas:

Noite cheia de estrelas.

Mas inventou de digitar:

Noite encaroçada de estrelas.

O adjetivo mudou a feição do verso, apesar de expressar idêntica mensagem. O primeiro verso é um lugar-comum, aquilo que a maioria está cansada de repetir em cartões românticos. Já o segundo, tem um encantamento preciso, sutil. Encaroçada lembra algo penoso, um desafio a superar, uma dor perigosa. Partilha vizinhança com o diagnóstico do câncer (caroço).

Descobrimos que é uma noite particular de sofrimento, não uma noite de prazer e alegria. O caroço também traz a ideia de nascer de novo, de germinar. Uma palavra ― e só uma palavra encaixada com sabedoria ― possibilitou uma gama infinita de interpretações. Quanto mais sugestões o poema produz, mais rico ele é.

A poesia é fábula, pacto mágico com o interlocutor. Toda ação estranha é normalizada. Toda normalidade é estranhada. Se Carlos Drummond de Andrade expõe que

Do lado esquerdo carrego meus mortos.

Tal atitude – ainda que improvável, ainda que não enxerguemos os mortos - tem um resultado:

Por isso, caminho um pouco de banda.

O esquisito resulta em dano prático e razoável. Ele anda torto porque carrega seus fantasmas.

A poesia troca as funções do que é conhecido e comum. Muda as idéias de lugar para chamar atenção. É um jogo gigante dos sete erros com letras.

Ai, dor de pólvora em meus olhos ― exclama o poeta espanhol Federico Garcia Lorca.

Além de inserir pólvora nos olhos, substitui o fogo por dor.

Dor (fogo) + pólvora (explosão) + olhos

Ocorre a mistura de três elementos até então vedados, separados. O mais impressionante é que a cena remete a uma experiência; antigamente, na hora de atirar com uma espingarda, o rastilho de pólvora ardia os olhos.



Animais e coisas são humanizados, e homens são coisificados e animalizados. Para impor uma percepção diferente daquilo que é vivido. Mulheres voam, cavalos batem palmas, peixes correm, cachorros gritam.

O que leva a Manoel de Barros a formular cenas pitorescas. Para apontar que passou muito tempo, ele versifica:

Na outra margem do rio,
as águas já tinham até criado cabelo.

Cabelo que é do homem agora é da água. E faz todo sentido visual: o que é o cabelo do rio senão raízes trançadas das árvores em volta.

Um dos pontos altos da poesia é modificar o senso comum, questionar as aparências. Seu motor de diálogo é a curiosidade infantil, insaciável. O poeta português Gonçalo Tavares estabeleceu uma inversão importante: pagamos a conta da luz todo o mês, mas se pagássemos a conta do escuro, qual seria a maior? Ao apagar a luz, estaríamos acendendo o escuro. Ao acender a luz, estaríamos apagando o escuro. Alguém já pensou sob essa perspectiva ingênua e ― incrível ― pertinente?

A luz representaria nossa alegria, nossa esperança, nossa saúde. O escuro é a nossa tristeza, nossas dores, nossas doenças. Qual usamos mais? A partir de um ponto de vista inédito, propõe a raciocinar como cuidamos de nossa vida. Somos leves ou pesados, otimistas ou pessimistas, confiantes ou desmotivados?

O poema é como uma escada, cada pergunta é um degrau.

Vou entrar numa igreja. Veja a pia com a água benta. Faço o sinal da cruz. O que seria automático não é mais porque eu pergunto.

                                                          - Água está parada? -

                                                          - De onde vem ela? -

                                                          - É potável ou suja? -

Os questionamentos formam a escadinha para atingir o verso, que é o telhado. Então, finalizo:

                                                      Será que Deus é potável?

O leitor não terá a minha escada, lerá somente o verso "Será que Deus é potável?", no qual troquei a água benta por Deus. Eu tiro a escada no livro, para que ninguém descubra como subi no telhado e permitindo que cada um crie suas próprias perguntas. Por isso qualquer verso é cercado de vazios e silêncios. São perguntas que desapareceram.




Porém, não caía na tentação de confundir poesia com doideira. Ela tem método, dinâmica, uma estrutura definida. Traz uma história visível e outra invisível. Como num conto, privilegia a surpresa no desfecho, o choque, o "eu não imaginava" que nos incita a releitura para observar melhor o caminho.


O poema contraria as expectativas. Sempre. Adélia Prado confessa:

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.


Você supõe que ela vai apoiar a repulsa caseira de desventrar o cardume. Veja como continua:

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Entendeu? O que é ruim é maravilhoso, o que é agradável é nocivo. A poeta nada na contramão do clichê e estabelece uma definição diversa da rotina e dos hábitos.

A história visível é: horrível limpar peixes e acompanhar a volta do marido da pescaria. A história invisível, que somente aparece depois, é: amo dividir a madrugada com o marido mesmo que seja limpando o peixe.

Aquele que é do contra está a favor do poema. E nem sabia.





Publicado na revista Vida Simples
São Paulo, Junho 2012 / Edição 120 Ps. 40-45

domingo, 1 de julho de 2012

NEM TODOS SÃO IGUAIS

Arte de Cínthya Verri

“Ele era querido, educado, estávamos há três semanas. No Dia dos Namorados, não apareceu. Me senti uma barata nojenta esmagada. Mandei um SMS: ‘Aconteceu alguma coisa?’. Ele ironicamente perguntou se eu queria discutir por SMS. Pensei: ‘Isso é uma ameaça?’. E acabei com ele. A poeira baixou, liguei e perguntei: ‘Acabou?’. Ele: ‘Sim’. Fiquei arrasada. Preciso MUITO de vocês.
Beijo, Marlene”

Querida Marlene,

Nem todos os homens são iguais, alguns são piores do que os outros. Analise comigo, você sequer concedeu o direito de resposta a ele no momento do desentendimento. Já se consagrou injustiçada, vítima do descaso.

Não cobrou uma posição porque ele não apareceu, condenou a atitude por torpedo. O namoro ainda não havia completado um mês. Não se conheciam de todo e dependiam de maior paciência para ajustar a convivência e harmonizar as personalidades.

Ele tinha razão: não era caso de discutir por SMS. Talvez precisasse de tempo para argumentar e detalhar os impedimentos. Afinal, os olhos são uma boca mais honesta. Mas não admitiu desculpa, descartou sumariamente, como se fosse uma mentira. Perante a pressão desmedida, é evidente que ele se fechou, achando que era excessivamente ansiosa e temperamental. A poeira não vai baixar, pois jogou toda terra nos olhos dele.

Dia dos Namorados não é o mesmo que abandoná-la no altar, porém a sensação é que entendeu assim. Não faz sentido dizer que foi uma barata nojenta. Seu drama excessivo eliminou o discernimento. Será que não despejou nele as frustrações de antigos namoros?

Somos superficiais para terminar. Qualquer fofoca ou suspeita, e transbordamos de arrogância. O fofoqueiro é o cupido do divórcio e se aproveita de nossa paranoia amorosa. Crescemos com a certeza de que um dia – mais cedo ou mais tarde – seremos enganados.

Afortunados os casais que desfrutam da chance de se explicar antes da execução amorosa. Que podem desfazer equívocos e se defender da inveja dos terceiros. Amor nunca será uma única versão. Isso é obsessão.

Abraços com toda ternura,
Fabrício Carpinejar


Querida Marlene,

Já diria o sábio dito popular: mula não se encosta em vaca. Ou, em palavras mais bonitas e palatáveis, procuramos nossos iguais, ficamos juntos pelas afinidades, mesmo que pareçam secretas. Você contou em sua carta sobre como este seria o primeiro Dia dos Namorados de sua vida, conteve-se e comprou um cartão singelo. Alguma coisa em você avisou que não eram tão namorados assim, não é mesmo? Os pequenos alertas são toda nossa intuição. É preciso ligar-se aos instintos no amor. Quem vem com a razão para o relacionamento, está com as mãos ocupadas de si mesmo. Ocupado demais para dar-se ao outro.

Marlene, percebo que você imediatamente ficou se sentindo culpada, colocou-se no centro do que aconteceu. É a síndrome que chamarei de “mulher-barata”: ao primeiro sinal de imprevisto no casal, corre e se esconde, achando que é a mais desprezível das fêmeas, a mais problemática entre todas, aquela que tem o maior mistério abominável que nem ela mesma sabe qual é. Não importa o xingamento: é o mais terrível, o mais nojento... É o “mais-mais”, um tipo de especialização para baixo, uma distinção do horror, mas, ainda assim, uma distinção. Por isso você se sente tão mal.

Não fica apenas triste por ter estado com o “moço-barata” e ele ter partido ao primeiro sinal de cobrança: transforma a simples perda na “Maldição de Marlene”, aquela que nunca teve Dia dos Namorados, seu Halloween particular.

Como é que se faz? Primeiro, você precisa desenvolver a coragem de amar. Aí, garanto, “homens-barata” passam longe de lobas, leoas e ursas.

Beijos meus,
Cínthya Verri

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 1º/07/2012 Edição N° 17117

Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.
Nossos palpites amorosos não substituem consulta, terapia, exorcismo e qualquer tratamento técnico.
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