sábado, 16 de março de 2013

ASILO DOS OBJETOS

Arte de Hannah Hoch

Onde colocamos os objetos que não combinam com a decoração, mas que não desejamos jogar fora?

Na casa dos pais, que é o depósito predileto dos móveis recusados pelos filhos.

Ouça meu comentário na manhã de sábado (16/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Jocimar Farina e Andressa Xavier:
 

SIM OU NÃO?

Arte de Marx Ernest

É sim ou não. Serão três letras para o fim ou para o início. Sim ou não?
 
Não aceito que diga que está cheia de preocupações e que não é o melhor momento.
 
Não peça mais tempo para pensar, tempo não é sabedoria, tempo é adiamento.
 
Dou tempo para arrumar o cabelo, não dou tempo para arrumar a cabeça.
 
Não me diga que não tem como me fazer compreender, ou que não pode me fazer esperar.
 
A despedida é uma aula de desculpas, não revela o que sentimos.
O aceno tem que ser trinco, senão é mero cumprimento. O aceno abre ou fecha portas. 
 
Não venha alegar que sou especial e pretende continuar do jeito que está. A comodidade esvazia a urgência.
 
É sim ou não. É definir antes a vida que não quer. Só a renúncia valoriza a escolha.
 
Preciso perguntar. Não tenho saída. Não ter saída é ficar junto. 
 
É sim ou não.
 
Não serei compreensivo. Acompanhando sua covardia não lhe darei coragem.
 
Não serei maduro. A pressão é honestidade. A pressão é fidelidade.
 
Não venha responder que é cedo para tomar decisões. Já é tarde. Sempre é tarde para quem se necessita.
 
Deve oferecer sua solidão. A solidão da decisão. É sim ou não. Sim sim. Não não.
 
O amor é uma conta exata. Com números quebrados. Nada vai fora depois do sim. Tudo se disfarça depois do não.
 
Sim sim. Não não.
 
O beijo tem som de sim, o abraço tem som de não, qual dos dois?
 
Amar é decidir. Amar é decidir mesmo que seja errado. Não há problema em errar, inventaremos o certo.
 
Não tenho medo de me arrepender, tenho medo de não ouvir o meu desejo pela ânsia de falar. Tenho medo de não deixar meu corpo falar.
 
É sim ou não. Terá que escolher um lado. Fugir do encaixe da cabeça nos ombros ou me amarrar em suas pernas. 
 
Sim ou não. É agora. O grande problema é o pânico de responder na hora. Mas não agir é não me escolher. Não decidir é decidir também. É dizer não fazendo o sim.
 
Eu espero o sim do sim ou o não do não. A grande certeza para vivermos tranquilamente nossas pequenas dúvidas.

sexta-feira, 15 de março de 2013

APETITE MILAGROSO

Para o corneado esquecer a infidelidade?

Massa bolonhesa, com carne de segunda.

Confira estranho e maquiavélico menu em meu programa DRnaTV, da TVCOM, com produção de Fernando Muniz.

A exibição ocorreu na noite de quinta-feira (14/3).

PECADO ORIGINAL

Arte de Sophie Taeuber-Arp

Em restaurante de São Leopoldo, um advogado avisou ao gerente que sua filha só tinha quatro anos, para não pagar nada.
 
A filha olhou para o pai com desencanto e explicou bem alto:
 
— Pai, eu tenho sete anos, já estou na escola, já sei ler e escrever.
 
A menina chorou, abriu um berreiro: o pai não sabia sua idade.
 
Aliás, as mulheres mentem sua idade na vida adulta porque os pais mentiram a idade delas quando elas eram pequenas. Tudo começou com o meio-buffet.
 
Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (15/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

NAMOROS VIBRANTES

Arte de Eduardo Nasi
 
Eu nunca dei um vibrador a uma mulher.

Estou em desvantagem em relação aos meus melhores amigos. Eles costumam oferecer o mimo no início do namoro.

Para mostrar liberalidade e discernimento. Para provar que são maduros e esclarecidos. Ou por sacanagem mesmo.

Quando comentei que jamais ofereci um vibrador de presente, eles me censuraram com um “Oh” e “Nossa!”.

Alegaram que estou defasado, que o vibrador não concorre com o pau, é uma mão hábil e ágil.

— Ele é o pianista, nós somos os cantores —, comparou Renato Godá.

Enrubesci, me vi um reacionário com duas pedras de gelo. Voltei a falar de futebol para me sentir viril de novo.

Aquilo me gerou pesadelos depois. Sou um tosco, devo ser um covarde, um limitado sexual.

Criei teorias para me absolver: “Não é que tenha medo da concorrência, é que eu pensava em não invadir a solidão feminina” ou “O vibrador é presente de namorado preguiçoso”.

Teses bonitas que escondiam meu ciúme de Eduardo, que voltou de Berlim com um consolo de última geração, dádiva para sua namorada.  Ele venceu as aparências para trazer o bichinho evoluído, que não precisa de pilhas e funciona em contato com corpo.

— É superultramoderno! — anunciou.

Só para explicar o mecanismo do negócio, ele demorou vinte minutos, que é uma baita preliminar. Ele disse que o aparelho é movido por ímãs, apto ao bolso, discreto e potente.

De qualquer forma, não entendi a mecânica: Como que carrega?

É assustador um vibrador que é necessário ler manual de instruções. Ainda mais em alemão.

Além do desprendimento de adquirir a peça, ele enfrentou a alfândega, e foi convidado a abrir a mala e desembrulhar o apetrecho.

Os funcionários perguntaram como é que ligava. Ele gaguejou:

— Tem que colocar na pele.

— Na pele, tá de brincadeira?

Não estava. O aparelhinho zuniu no braço peludo do policial, no meio da revista do Aeroporto de Berlim-Brandemburgo, para a diversão de milhares de passageiros.

Todo macho resolvido tem sempre a fama de gay.
 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
 

terça-feira, 12 de março de 2013

ME DEIXE EM PAZ

Arte de Paula Modersohn-Becker

Meu filho foge das fotografias.
 
É alguém alçar o celular para o alto e ele se esconde debaixo de colunas e cortinas. Não aguenta máquinas por perto.
 
Não me chateio, não obrigo que ele mude de ideia, nem lamento a desistência precoce da vida pública.
 
Ele não está doente, tampouco é timidez. Não colocarei Vicente em terapeuta para resolver sua retração. Não vou ofendê-lo de bicho de mato e constrangê-lo entre os amigos.
 
O nome do que sente é estresse. Uma postura defensiva extremamente sadia. Ele está farto de flash, de olhar para cá e ser feliz.
 
Bombardeamos nossos filhos com a facilidade de imagem. Exageremos na dose. Eles enjoaram, cansaram, taparam a câmera com a mão.
 
É Instagram. É Facebook. É Twitter. É Tumblr. Temos que alimentar diariamente os demônios das redes e eles são nossas vítimas prediletas.
 
Vicente entrava no ônibus da escola: foto! Vicente almoçava: foto! Vicente jogava futebol: foto! Vicente bocejava: foto! Vicente pulava na piscina: foto! Vicente chorava bonito: foto!
 
Coitado. Aos 11 anos, ele tem um acervo fotográfico do tamanho do de Justin Bieber. Desde o nascimento, são centenas de fotos minuto a minuto de sua existência. Não diria que ele possui um álbum, mas já uma fotobiografia.
 
Minha infância foi de plebeu, com 50 fotos no máximo, todas com roupas de domingo e ao lado dos irmãos. A infância do Vicente é de imperador, uma muralha da China de poses.
 
Os pais se transformaram em paparazzi alucinados e loucos para demonstrar seu amor digital. Montam guarda nas janelas. Realizam vigília nas portas do banheiro e do quarto.
 
Encantados com os aparelhos modernos e as versões anuais de Android e iPhone, perderam o pudor e o senso de medida. Seguem seus pequenos nas cenas mais recatadas e pessoais para obter o clique diferenciado, que ficará um luxo com o uso dos filtros.
 
Não é brincadeira. Subtraímos a privacidade das crianças. Hoje, estão expostas como atores e atrizes mirins, empurradas precocemente para a ribalta. Tudo é festa. Tudo é mostrado.
 
Os meninos e as meninas não têm sossego. Não podem nos olhar com cara engraçada. Não podem inventar de nos abraçar longamente. Um instante de bobeira, e seus familiares aproveitam o registro para pôr na web.
 
Vicente rejeita luzes. Ele pede:
 
– Me deixe crescer em paz.
 
Bem que ele faz.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 12/03/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17369

RISOTO NA PANELA

Arte de Pisanello

Não faça surpresa para seu amor. Estraga as melhores relações. 
 
A surpresa só traz decepção. A surpresa só acarreta infelicidade.
 
A surpresa é autoritária, tirana, não admite improvisar.
 
Ou é do jeito imaginado ou não serve.
 
Sua mulher prepara um jantar para você.
 
Ela espera com um risoto de funghi, seu prato predileto, às 22h, horário que volta do trabalho.
 
Mas, naquela maldita noite, optou por sair com os amigos.
 
Telefona para ela e avisa que não vai retornar tão cedo. Ela fica furiosa. Você não entende o motivo da fúria.
 
Quando aparece em casa pela meia-noite, vê a mesa posta com dois pratos e luz de velas. Toda mulher, quando arma um jantar-surpresa, não tira a mesa para mostrar que você é insensível e não adivinhou que tinha algo de especial sendo feito em segredo.
 
Ela finge que está dormindo. Toda mulher finge que dorme quando está com raiva. Mas a gente identifica pela respiração que ela está com raiva, e não está dormindo.
 
Aliás, ela acabou de deitar e correr para as cobertas quando batemos a porta.
 
Na manhã seguinte, ela fará questão de dizer que não arruma mais nada para você. Nunca mais. Que está cansada de investir no casamento e não ser valorizada.
 
Você não sabia de nada, esse é o problema da surpresa.
 
Você não cumpriu o que não sabia.
 
Você não compareceu para um encontro que não agendou.
 
Quem faz surpresa está louco para se separar e procurava um motivo.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (12/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


segunda-feira, 11 de março de 2013

A MÁQUINA RECEBE LENINE

A casa afinada para o palco. A orquestra dos talheres. A serenata das frestas da janela.

Lenine é o regente dos sons domésticos. Ele é o entrevistado do meu programa A Máquina, da TV Gazeta.

O encontro aconteceu na noite de terça-feira (5/3).

DAR A SOMBRA

Arte de Hannah Hoch

Pouco se fala da depressão pós-parto masculina.

Existe um medo de tocar no assunto. Como se fosse folclore e exagero. Mas é grave e desconfio que atinja 30% dos casados.

Todos temos um amigo que pulou fora de uma relação no momento em que virou pai. Antes de supor que é safadeza, talvez seja necessário reconhecer que é uma tendência perigosa.

Muitos pais não suportam o nascimento de seu filho. Muitos pais terminam o casamento quando o bebê ainda nem completou um ano.

Não é desamor, porém receio de não corresponder às exigências e frustrar os planos de família perfeita.

O homem se enxerga preterido pela sua mulher, substituído pela criança.

Alguns dos sintomas mais comuns são tristeza, desvalia, culpa, distúrbio de alimentação e de sono, irritabilidade, sensação de incompetência, anedonia e isolamento social.

É um mal silencioso, já que teoricamente ele não pariu seu filho. Mas o fato de não contar com uma gestação no corpo faz com que a mudança de realidade seja ainda mais abrupta e violenta.  Ele não se preparou para ser coadjuvante.

Acostumado à exclusividade da atenção durante o namoro e casamento, não se encaixa no rearranjo de forças domésticas, onde é obrigado a largar o cetro emocional e assumir uma condição de penumbra e de apoio.

Agora ele ajuda, não provê. Agora ele colabora, não ordena. Agora ele participa, não decide.  Agora ele observa, não age.

A mulher conserva o hábito ancestral de ouvir e atender pedidos, o homem não, quer falar acima de tudo. Na sua concepção, falar é ser. Infelizmente desconhece a zona privilegiada de admiração e aprendizado pela escuta.

A mulher tem maturidade para desaparecer e voltar, o homem não. É altamente carente e não admite sumir por um tempo, não respeita períodos de exceção e de maior cansaço. Não aceita sequer a queda do rendimento sexual do casal.

O problema é que ele não cobra o desconforto, não expõe suas fraquezas e dúvidas, e sim procura imediatamente outro relacionamento, sem nenhum dos novos encargos e responsabilidades. A infidelidade é sua saída de emergência, por absoluta incapacidade comunicativa e vergonha dos sentimentos.

Não é mesmo uma tarefa fácil. Natural escolher a fuga da realidade a admitir ciúme do próprio filho.

O período esplendoroso de descobertas do primeiro ano do rebento costuma ser o apogeu das separações: logo quando o pequeno começa a sorrir, a balbuciar, a engatinhar, a reconhecer a mãe.

A Renascença de gestos e fotografias infantis é a Idade Média do macho.

Na mentalidade do marido ou namorado, ele permanece trabalhando loucamente, só que desprovido das recompensas afetivas. O mimo e a dedicação estão totalmente concentrados no berço. O sujeito chega em casa e não vai relaxar, não será mais recebido com alarde e festa. É apenas mais um dentro da residência, e deve entrar na escala de horários de cuidados ao nenê: dividir a ronda, trocar as fraldas e aquecer o leite. 

A situação piora se o homem percebe sua esposa como uma segunda mãe. Apesar do aparente discernimento adulto, ele sofrerá aquela inveja aguda que assola um irmão com a vinda de mais um herdeiro.

Mulher tem depressão pós-parto após dar luz ao seu bebê, e o homem tem depressão pós-parto ao dar a sombra ao seu bebê.

COLUNA "LUNETA MÁGICA"
Fabrício Carpinejar, 40 anos, descobriu a receita da felicidade: sempre é aniversário quando acorda. Assim também nunca erra seu nascimento. Pai de dois filhos (Vicente e Mariana), autor de 22 livros, já ganhou os principais prêmios literários do país, como Jabuti duas vezes, Associação Paulista dos críticos de Arte e Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. E-mail: carpinejar@terra.com.br
Minha estreia como colunista da revista Pais & Filhos
P. 100, Março 2013, Ano 44, 516

domingo, 10 de março de 2013

QUASE PERFEITO AGORA É CRÔNICA

Depois de um ano de sucesso do consultório sentimental no jornal Zero Hora, volto a escrever crônicas livres sobre relacionamento. Foi emocionante a experiência de responder semanalmente cartas de leitores na revista Donna. Uma troca intensa e absurdamente sincera.
 
Meu papel agora é fazer reflexões líricas, engraçadas e inusitadas sobre romance e vida familiar.

P.s: Quem depende de conselho amoroso pode continuar mandando mensagens para colunaquaseperfeito@gmail.com, que darei dicas no meu programa Quase Perfeito, da Rádio Gaúcha, toda quinta-feira, da meia-noite até 2h.

SUPERPODER FEMININO

Arte de Fatturi

Só a mulher tem a liberdade de se sentir ofendida e se retirar a qualquer momento de qualquer local.
 
Ela tem um passe-livre da mágoa. Uma pulseira vip do camarote da tristeza. O homem não. O homem nem pensar.
 
Eu invejo esse superpoder. É uma habilidade sobrenatural, muito melhor do que os dois braceletes indestrutíveis da Mulher-Maravilha, que repele balas e raios, ou de sua tiara que funciona como bumerangue. Sua namorada pode estar conversando com você num bar, de uma hora para outra fechar a cara e deixá-lo plantado na cadeira.
 
Ela evaporará da multidão sem explicar nada. Você herdará a caipirinha de morango ainda cheia.  Terá que ir atrás dela. Pagar a conta e ir atrás dela. Pagar a conta, retirar seu carro do estacionamento e ir atrás dela.
 
Não entenderá o que aconteceu para gerar a atitude intempestiva. Mas ela é que tem razão. Foi você que disse algo que a desagradou profundamente. Uma palavra áspera, uma grosseria involuntária, uma falta de gentileza são suficientes para abandoná-lo.
 
Por se ver sempre culpado, o homem corre igual a uma ovelha no encalço de sua pastora. Como não compreende o desaparecimento, conclui que é um idiota. Além de ferir, tampouco percebeu que feriu. Duplamente consternado por não conter a agressividade e não se dar conta dela.
 
Todo sujeito se desespera. Não tem tempo de pensar e voa em direção ao pedido de desculpa. Ela não facilitará as pazes: em prantos, desligará o celular, não permitirá que entre em casa e dirá que não quer mais falar com você.
 
Nenhum marmanjo resiste a ser esquecido em público: é a flechada derradeira do cupido.
 
Já fui largado em cinema, teatro, balada, pub, shopping, boliche. E nunca permaneci parado, atirei-me à rua para reavê-la. Bate um medo da fúria feminina, do que ela pode cometer quando consternada.  Responsabilizo-me por eventual fatalidade. Esquecerei pudores e cuidados com a reputação. Gritarei “me espera!” na Padre Chagas lotada, vou subir o velocímetro na Ipiranga (não há maior perseguição policial do que entre dois motoristas apaixonados e brigados).
 
Já o homem não desfruta desse direito. Se abandonar sua companhia no meio de um compromisso, mesmo com a realidade a seu favor, ele é um estúpido, um mau caráter, um boçal.
 
Será visto como um covarde pelo resto do relacionamento. Como que ele leva uma convidada para um lugar e não sai do estabelecimento acompanhado dela?
 
O sofrimento masculino tem a obrigação de ser educado.
  
 
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 10/03/2013 Edição N° 17367