domingo, 23 de março de 2014

PIMENTA NOS OLHOS DO OUTRO É COLÍRIO

Arte de Jean Arp

Não era um simples colírio, mas gotas de ouro.

É assim que minha mulher apelidou o conta-gotas para aliviar a irritação dos olhos.

Seus olhos não estão mais irritados, a irritação passou para seus bolsos.

O oftalmologista receitou um medicamento de apenas 5ml que custa R$ 87.

Ela não acreditou quando foi adquiri-lo na farmácia. Continua não acreditando.

Teve que parcelar o produto. Em três vezes sem juros.

Nunca imaginou que iria parcelar um colírio. É o cúmulo da pobreza.

Você não tem noção do desespero quando ela precisa dele. Da concentração que desenvolve para umedecer suas pupilas.

Não posso falar com ela, não posso distraí-la, a casa depende de um estado de suspensão meditativo.

Katy deita no sofá. Respira fundo. Mira o alvo com todo o cuidado. Conta até três.

Um, dois e... pensa direito. E reinicia a contagem.

Não é um ato corriqueiro. Virou perícia, injeção. Requer a precisão de anestesista.

Nem pede ajuda para mim – a falha é pessoal e intransferível.

Porque quando ela erra a gota, perde quase R$ 10. É a lágrima mais cara de sua vida.

Se ela não está chorando, o desperdício atiça as glândulas lacrimais.

Ela não comprou um colírio, mas uma TPM a mais.

Ela não comprou um colírio, mas uma enxaqueca.

Ela não comprou um colírio, mas um dilema.

Ela não comprou um colírio, mas um diamante líquido.

Um transplante de córneas seria mais barato.

Nunca é a hora fatídica de colocá-lo. Adia o quanto pode.

Só vai botá-lo em caso de olho morto. Já fica tensa no instante de definir o uso, é seu momento Hamlet. Anda com o colírio na mão de um lado para o outro da casa:

– Será que devo ou não devo, eis a questão?

Qualquer sugestão de minha parte é irrelevante. Ela entra em transe intelectual, investigação existencial.

Quando estou em desvantagem numa discussão de relacionamento (o que é bem comum), pego o colírio do armário do banheiro e ameaço pingar gotas no chão.

Ela logo para, levanta as mãos para o alto e pede para me acalmar.

É uma tática que sempre funciona.

O oftalmologista dela é um excelente terapeuta de casal.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 18/3/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 17736

sexta-feira, 21 de março de 2014

TEMPESTADES E DILÚVIOS

Tudo o que inunda a cabeça dos casais está no DRnaTV.

Por que os homens traem?

Falta de vergonha na cara? Insegurança? Machismo?

Veja o programa que foi ao ar na terça (18/5), na TVCOM, às 20h30.


ÓBVIO!

Arte de Ernst Ludwig Kirchner

Não precisa me conhecer para saber que estou amando.

Não precisa de intimidade para saber que estou amando.

Não precisa de amizade para saber que estou amando.

É apenas me olhar que o porteiro do prédio  descobre que estou amando.

É apenas me olhar que o verdureiro descobre que estou amando.

É apenas me olhar que o vendedor de flores descobre que estou amando.

É apenas me olhar que o vizinho descobre que estou amando.

É apenas me olhar que o cobrador descobre que estou amando.

É apenas me olhar que o azulzinho descobre que estou amando.

É apenas me olhar que o balconista descobre que estou amando.

As palavras são dispensáveis.

As perguntas são dispensáveis.

É fácil descobrir quem está amando: ri em vez de cumprimentar, conversa sozinho, ouve música no pensamento, anda distraído, quase voando.

É bobo, a pele brilha, o olhar é céu de brigadeiro.

Quando amamos, não temos segredos, somos transparentes pela primeira vez na vida.

Nossa alma aparece antes do que o corpo.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (21/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quinta-feira, 20 de março de 2014

A MÁQUINA RECEBE SOPHIA REIS

Sophia Reis é atriz e apresentadora, comanda o programa "Eu Nunca" na TV Gazeta, e é filha de Nando Reis.

Ela foi minha entrevistada em A Máquina, onde fala sobre sua curiosidade e a produção de sentido nas coisas que faz.

A exibição aconteceu na terça (18/3), na TV Gazeta, às 23h30.


domingo, 16 de março de 2014

HOMEM SE APAIXONA FÁCIL, MAS AMA DIFÍCIL

Arte de Antonio Berni

Homem se apaixona fácil, o que ele tem medo é de amar.

Mulher não se apaixona fácil, mas não tem medo de amar.

São dois fusos diferentes. São duas realidades em desacordo.

Homem logo se entrega para um relacionamento, não mede esforços para ficar com alguém, renuncia sua vida e seus prazeres mais essenciais, altera sua rotina. Na paixão, sua generosidade é corajosa. Facilita as saídas aos bares e restaurantes, facilita a intimidade na casa, facilita o arrebatamento. Nada incomoda, nada atrapalha, nenhum defeito é contabilizado.

Sua complicação é quando passa a amar, quando larga a fase da aventura e do desconhecimento dos meses iniciais para fazer plano junto. Daí ele estaciona, emperra. Tanto que sofre horrores para dizer o primeiro eu te amo. Tanto que sofre horrores para misturar as escovas de dente. Tanto que sofre horrores para dividir as prateleiras. É como se não pensasse até aquele momento.

Na paixão, ele não avalia as separações anteriores, suas falhas de sistema, suas fobias de convivência. Explode por intuição, desmemoriado. É vir o amor que ele recua, entra em julgamento, contrai o olhar e economiza as palavras. É consolidar os laços que se confunde, acumula receios e inventa desculpas.

A mulher é exatamente o contrário, e bem mais coerente. Leva tempo para se apegar, questiona de saída, é desconfiada na paixão, cética na paixão, contida na paixão. Sofre passo a passo. Empenha malha fina da personalidade na apresentação. Sua instabilidade é de imediato, sua crise de consciência é no começo. Quando descobre que gosta realmente, é que se liberta e derruba suas defesas. É realizar projetos e formular expectativas que se solta e se desinibe. Para ela, o amor acontece mais natural do que a paixão. Paixão é choque, dói; amor é costume, cicatriza.

Homem diz “Não quero me envolver”. A mulher diz “não quero me apaixonar”. As declarações são representativas. Ele recusa intimidade após o contato, ela pretende evitar qualquer contato, já que a intimidade não a assusta.

Homem mergulha para reclamar da água. A mulher experimenta a água antes de entrar.

Homem tem primeiro certeza para depois duvidar. A mulher duvida até cansar sua cautela.

Homem oferece tudo para retirar gradualmente. A mulher esconde tudo para oferecer aos poucos.

Homem se mostra desembaraçado e, em seguida temeroso. Mulher se apresenta temerosa e, em seguida, desembaraçada.

Homem decide rápido para desmanchar lentamente sua convicção. Mulher demora a se decidir, mas não volta atrás.

Homem é paixão. Mulher é amor.
  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 16/03/2014 Edição N° 17734

sexta-feira, 14 de março de 2014

A MÁQUINA RECEBE RECEBE RAPPIN' HOOD

Rappin' Hood é rapper e apresentador paulista, recebeu dois Discos de Ouro por mais de cem mil cópias vendidas de seus álbuns.

Ele é meu entrevistado no programa A Máquina, e fala que o brasileiro precisa aprender a perder e não desvalorizar o segundo e terceiro lugar.

A exibição aconteceu na terça (12/3) na TV Gazeta, às 23h30.

ESPUMA INTELIGENTE

Arte de Renata Egreja

A mulher não toma banho para apenas se lavar. Como o homem.

O homem é prático, rápido, funcional.

A mulher toma banho para organizar seu pensamento, para se entender.

O banho é sua solidão, é seu esconderijo, seu escritório, sua porta fechada, é ninguém incomodando, é ninguém interrompendo, é ninguém chateando.

Desde pequena, o banho é sua independência, é onde tem todo o tempo do mundo para raciocinar o que está fazendo de sua vida.

Sem nenhuma pressão. Sem nenhuma interferência.

Pois vai cuidar do cabelo com xampu e condicionador, pois vai usar cremes, pois vai limpar sua calcinha.

Ela demora demora demora porque fica massageando suas ideias, renovando suas críticas, refletindo sobre suas dúvidas.

O banho é sua terapia, sua conversa com a água, seu monólogo.

Quando a mulher briga ou discute, recorre ao banho.

É lá que pretende chorar, desabafar com privacidade, repor sua confiança.

O banho não é somente banho para a mulher, é onde toma suas decisões. Onde define suas certezas. Onde repensa suas opiniões.

Tanto que ela sempre deixa o banheiro decidida, articulada, expondo convicções, como se fosse um outro dia.

A mulher não precisa dormir para esfriar a cabeça, ela toma banho e já pula para o dia seguinte.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (14/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 12 de março de 2014

A MÁQUINA RECEBE DR. REY

Dr. Rey é brasileiro, foi adotado aos 12 anos por uma comunidade religiosa americana e se tornou um dos cirurgiões plásticos mais famosos do mundo.

Em entrevista ao meu programa A Máquina, ele diz que até hoje não acredita como alguém o amará, já que seus pais não o amaram.

A exibição aconteceu na terça (4/3) na TV Gazeta, às 23h30.


terça-feira, 11 de março de 2014

COMIDA CASEIRA

Arte de Kitaj

Rosa convidou meu amigo para jantar. Prometeu que faria um prato especial.

– Vou sair mais cedo do trabalho e cozinhar para você!

Estefan sonhou com romance à moda antiga: meia-luz, mesa feita, fumaça de temperos e a lenta e sensual dança do fogo de quem se dedica à culinária para agradar ao convidado.

Ele teria somente a missão de abrir o vinho e sorrir.

A princípio, uma mulher diferente, que não tinha medo de intimidade, evitava as tradicionais saídas aos restaurantes e conversas impessoais.

Ele tocou sua campainha pontualmente às 21h, carregando um ramalhete de flores e bombons.

Ela agradeceu, e logo desfez a magia do longo olhar chamando-o para dentro. A casa não estava no clima de comédia romântica. Mais parecia um camarim de tragédia grega. Bagunçada, excessivamente iluminada, com roupas espalhadas pelos cantos.

Estefan estranhou, mas desligou os sensores críticos. Queria fruir, relaxar, aproveitar o primeiro encontro. Dificilmente achava alguém caseiro, capaz de perder tempo com rituais e preliminares.

Foi quando Rosa o convidou para a cozinha.

Ele entrou pedindo licença, cheio de cesuras, lembrando os modos da infância.

Agitada e com respiração cortada, ela abriu o congelador e questionou à queima-roupa:

– Ravióli ou canelone?

– Canelone! – exclamou sem pensar muito.

Rosa tirou o papel da bandeja, raspou o gelo e enfiou rapidamente o congelado no microondas.

Zás, vapt, vupt!

Enquanto o prato girava seus 15 minutinhos no interior do aparelho, ele procurava admitir que talvez aquele seria o decisivo menu da noite.

Observou ao derredor. Não havia nenhuma segunda opção, nenhuma salada, nenhuma comida enredada pela preguiça amorosa das mãos. O fogão estava lacrado com a tampa de vidro, intocado, como um piano abandonado.

A partir daquele instante, percebeu que se envolvera com o perfil múltipla escolha.

Tudo o que Rosa falava era uma falsa dúvida, já que nem esperava que ele respondesse.

Na hora de servir:

– Refrigerante ou suco?

Na hora de comer:

– Tevê ou música?

Na hora de transar:

– Cama ou sofá?

Na hora de gozar:

– Amor ou amizade?

Na hora de se lavar:

– Chuveiro ou banheira?

O amigo perplexo, tonteado, apenas conseguiu responder todas as perguntas com uma outra:

- Porta ou janela?





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 11/3/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17729

ESTRANHO EQUILÍBRIO

Arte de Kitaj

Eu descobri ontem um provérbio perfeito: Se quer ser amigo feche um olho, se quer manter uma amizade feche os dois olhos.

Faz muito sentido. Amigo é não se meter, por mais que tenhamos intimidade, é respeitar a decisão mesmo que não seja o que você pensa.

Se ele procura namorar alguém que você não gosta, é dar apoio igual. Se ele pretende permanecer num emprego que você não acha justo, é dar apoio igual. Se ele busca manter uma vida que você não considera ideal, é dar apoio igual.

É estar junto apenas, para qualquer dos lados.

Amizade é dança. Acompanhar o ritmo da música.

É opinar, expor sua crítica, mas não viver pelo outro.

É não intervir, não pesar a mão, não exagerar.

Amigo não é ser pai, não é ser mãe, não é educar.

É aceitar o que ele é, é reconhecer o que ele deseja, ainda que seja muito diferente de suas crenças.

É entender o momento de falar e entender também o momento de silenciar.

Análise demais estraga a amizade. Você estará sendo terapeuta, não amigo.

É discordar e seguir adiante. Não é discordar e fazer oposição, boicote, greve. Até que nosso amigo mude de ideia.

Amigo é oferecer conselho, não um sermão. É alertar, jamais insistir.

Amizade é fugir do julgamento, é compreender a alternância, os altos e baixos, os desabafos.

Amigo não cobra coerência, não fica em cima cutucando feridas.  

É saber tudo e agir como se não soubesse de nada. É não ficar apontando o que é certo ou errado.

Amizade é difícil. Amizade é um estranho equilíbrio.

Mas amizade não é cegueira. É a arte de enxergar com os ouvidos.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (11/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: