quinta-feira, 10 de abril de 2014

A MÁQUINA RECEBE PRISCILA FANTIN


Meu programa A MÁQUINA, da TV Gazeta - Oficial, completou a centésima entrevista em dois anos de atividade. 

Para a edição especial, recebi Priscila Fantin.  A atriz, que ficou quatro anos afastada das novelas, conta que nunca quis ser famosa, e crítica a condição de celebridade. Revela que sofre com o fato das pessoas acharem que ela é apenas bonita. 

Casada há quatro anos, Priscila confessa que, quando conheceu Renan Abreu nos ensaios de uma peça de teatro, não simpatizava com ele. "Mistérios do amor. Achava meio esquisito, muito arrogante. Foi um vilão que me conquistou", ri. 

Em 100 programas, ‘A Máquina’ já sabatinou os mais diversos convidados, como Ronaldo Fraga, Jean Wyllys, Lenine, Danilo Gentili, Carlos Nascimento, Eduardo Suplicy, Mauricio de Souza, entre outros.  

Assista minha conversa com Priscila, que foi ao ar na noite de terça-feira (8/4) :


segunda-feira, 7 de abril de 2014

SOU ESTRANHO - FEIO É PARA AMADOR

"Mulher prefere a estranheza. A estranheza é masculinidade. Ter algo fora do padrão seduz, intriga, é um convite para o inesperado."

"Mulher quer que o homem fale bonito. A voz do homem é seu rosto."

"Mulher é rádio. Homem é televisão."

Veja minha divertida participação no programa Encontro com Fátima, da Rede Globo, na manhã desta segunda (7/4):


http://globotv.globo.com/t/programa/v/carpinejar-assume-eu-sou-estranho/3264631/

sábado, 5 de abril de 2014

JOGANDO AMARELINHA


Se amor fosse por afinidades, estaríamos resolvidos. 

Se amor fosse por semelhanças, estaríamos tranquilos. 

Se amor fosse por amizade, estaríamos calmos.

Mas amor não é feito de razão, não é uma decisão, não é uma escolha consciente. 

Amor é um tormento, um redemoinho de pássaros, uma inquietação espantosa. 

Não há como estabelecer: vou amá-lo, vou amá-la, apesar de ser a pessoa ideal para estar conosco. 

As pessoas ideais jamais são amadas. Elas são desejadas, mas não amadas. Elas são admiradas, mas não amadas. 

Não há como se convencer de que se gosta de alguém, infelizmente, assim seria mais fácil.

Ama-se quem a gente menos espera, quem mais nos surpreende, quem mais nos irrita, quem mais nos desafia.

O amor é do contra, o amor é oposição, o amor é uma insegurança atenta.

Amor é a primeira vista ou não é amor - paga-se com a vida antecipadamente. Não é parcelado, não é um costume agradável. 

O amor não vem com o tempo, fecha o tempo.

Pode se apaixonar, pode ter arrebatamentos, atração, gana de ficar, mas amor mesmo é fulminante desde o início e sempre. 

Não é uma negociação, não é uma definição pelo melhor. É uma imposição química, emocional, seja como for. 

Amor não é dote, não é indicação de pais e amigos, não é perfil equilibrado. É um erro inspirado. Aquele que erra ao amar acerta o amor. 

Por isso, é tão difícil amar. Por isso, é tão difícil deixar de amar. 

Amor não é caminhar na chuva, é ser sorteado pelo relâmpago.

Talvez encontre alguém que adore conversar, adore transar, adore estar junto, mas não significa que amará. Os dias felizes serão agradáveis, os dias tristes serão agradáveis, mas não será suficiente. Faltará aquela intensidade explosiva.  

Com o amor, talvez brigue na hora de conversar, na hora de transar, na hora de estar junto, só que se enxergará inteiro como nunca, porque tudo faz sentido na falta de sentido, tudo é o dobro de ardor. Os dias felizes serão os mais felizes, os dias tristes serão os mais tristes. Não terá a mornidão, a neutralidade, o purgatório. 

Amor é extremo: céu ou inferno. O jogo da amarelinha é feito de pedras, não de flores. 

Amor é contundência implacável, não é adiamento e concordâncias. 

Ou você acredita no amor ou confia no amor. São duas posturas distintas. 

Quem acredita no amor não ama, tem vontade de amar, faz uma volta ao mundo para se convencer que está amando, é capaz de fingir ou mentir para si que está amando. No fundo, sabe que está sozinho, que vive racionalmente, que tem o domínio da situação, que tem condições de sair da relação a qualquer momento e não sofrerá absolutamente nada. Acreditar no amor é forçar o amor. Inventar o amor. Forjar o amor. 

Já confiar no amor é quando não temos mais controle sobre o próprio sentimento: a mera possibilidade de uma separação é devastação. Confiar no amor é aceitar o amor. Obedecer ao amor. Sofrer com o amor. 

Quem acredita no amor vive se explicando. Quem confia não precisa nem de explicação: o amor é uma realidade incontornável.


Publicado na Revista Isto É Gente
Abril de 2014 p. 54
Ano 14 Número 707
Colunista

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A MÁQUINA RECEBE NANY PEOPLE

Nany People nasceu em Minas Gerais, é atriz, humorista e transexual.

Ela foi minha convidada em A Máquina, onde fala que a adolescência foi o pior período da sua vida e aos 16 anos não se matou por causa da mãe.

A exibição do programa aconteceu na terça (1/4), na TV Gazeta, às 23h30.

terça-feira, 1 de abril de 2014

MEU AMOR

Arte de Giacomo Balla

Todo mundo repara ou lembra quando empenhou a primeira vez eu te amo numa relação.

Qual o momento exatamente. O dia, a hora, os minutos. Após o sexo, embevecido. Ou no cinema escorregando as palavras num beijo. Ou antes de um aceno ao trabalho.

Aquele eu te amo que rodopiou na garganta até ganhar a forma da boca. Aquele eu te amo que fora ensaiado em diversos momentos de alegria, e recuou por vergonha.

Quando ele vem, é um balbucio: estranho, inseguro, desajeitado como um pedido de desculpa.

Sim, o primeiro “eu te amo” é um pedido de desculpa:

– Desculpa, eu te amo.

– Desculpa, eu me ferrei.

– Desculpa, não quis, só que aconteceu.

O primeiro eu te amo é uma série vitoriosa de fracassos. Fracasso da amizade (não consigo ser mais seu amigo). Fracasso da independência (não consigo mais viver longe de você). Fracasso da mentira (não consigo mais mentir para você).

A declaração aparece tímida. Temos que sempre repetir – este é o constrangimento. O primeiro eu te amo nunca é ouvido. E ainda enfrentaremos a pergunta desconfiada de nossa companhia: “O que você disse?”.

Ai, como é sufocante. Muitos mentem e, já acovardados, não insistem. Expor o eu te amo parte de uma tontura, repetir é embriaguez.

O primeiro eu te amo surge com voz de adolescente, aquele timbre indefinido, arenoso: metade infância, metade adulto. Soprado, sussurrado, comovido.

É um caminho sem volta. Um desabafo que se consome em decisão e que se impõe como destino. Depois não tem como alegar que errou, que se confundiu, não há retratação possível, seu advogado não poderá construir nenhuma versão convincente para desfazer o mal-entendido.

Mas o primeiro eu te amo, ainda que represente uma estreia da vida a dois, é discreto diante de outro movimento dos lábios que costuma passar despercebido.

Quando chamamos o nosso par de “Meu Amor”. Quando personificamos o Amor.

Quando ele deixa de ser um nome, alguém, para ser o nosso próprio sentimento.

Quando abandonamos seu registro, seu batismo, para tratá-lo como se fosse a nossa emoção encarnada.

Não tem como consertar, a projeção virou realidade. É quando realmente confiamos nossa individualidade.

É amor para cá, é amor para lá, é amor para acordar, é amor para dormir, é amor para pedir qualquer coisa, é amor no e-mail, no telefone, nos cartões. É amor amor amor infinito, dobrado, multiplicado, incansável.

Está feito o estrago. Se nos despedirmos, se nos separarmos, não estaremos nos afastando de uma pessoa, e sim do Amor.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 1/4/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17750

segunda-feira, 31 de março de 2014

VOLTAS NAS PERGUNTAS

Tente resolver as questões amorosas.

O que é a sua voz e o que é eco do relacionamento?

A rotina do casal atrapalha a individualidade?

Veja DRnaTV, que foi ao ar na terça (25/3), na TVCOM, com produção de Fernando Muniz.

CHORE POR MIM ARGENTINA!



Tinha esquecido o que é pisar em cocô de cachorro até visitar Buenos Aires.

Era atalhar a praça: pisava na m. Era descer do carro: pisava na m. Era atravessar a rua: pisava na m.

Quando vi placa de não pise na grama entendi como ironia. Não pise no cocô da grama. A grama é a última visita dos meus calçados.

Passei noites escovando meus tênis em baldes, enfrentando a repulsa de tirar a porcaria dos frisos.

Ninguém merece lavar as solas no tanque. Uma escovinha jamais resolve, é preciso partir um prendedor e cavar os resquícios em linhas horizontais e verticais. Serve faquinha velha, desde que não reponha na gaveta.

É o equivalente a jogar um cubo mágico com a nojeira. Mexer o quadrado de um lado e de outro. O nariz desaparece para não influenciar a boca.

Fui figura desagradável em vários momentos portenhos. Entrava em espaços fechados (teatro, livraria e cinema) e alguém gentilmente me informava que não cheirava bem.

Abortei sessões pela metade, frustrei passeios, incomodei a família com desengonçado tango.

Estava desacostumado. Foi quando percebi o quanto Porto Alegre evoluiu nos hábitos.

Recebi aquela saudade boa, que vem do orgulho.

Eu não mais atolo meu pé em nenhum cocô de cachorro na minha cidade. Faz muito tempo. Quase uma eternidade.

Na minha infância, ir para a escola consistia num caminho com obstáculos. Não havia chance aos distraídos. Observava a lua se despedindo do céu e já pagava o pedágio do chão.

Derrapava em dois cocôs por semana. No mínimo. E muitas vezes de chinelo, com a matéria gosmenta e viscosa atingindo os pés. Outras vezes, encardia o cadarço, spaghetti al sugo.

Nada disso mais acontece. Os donos dos cães porto-alegrenses modificaram radicalmente sua conduta. Civilizaram as calçadas. Recolhem as necessidades de seus cachorros no ato. Todos passeiam com uma sacolinha plástica. Quem esquece é malvisto pelo bairro, banido moralmente das redondezas. Existe uma fiscalização sutil, uma educação de respeitar o próximo, de poder sonhar livremente com poemas e suspiros sem se importar em tropeçar nos contratempos mundanos.

Minha mãe sempre me consolava dizendo que pisar em cocô de cachorro significava sorte. Prefiro ser azarado a ser argentino.

  

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 30/03/2014 Edição N° 17748

sexta-feira, 28 de março de 2014

DIFICULDADE TELEFÔNICA

Arte de Mike Worrall

Homem não consegue conversar ao telefone e atender qualquer pergunta de sua mulher ao mesmo tempo.

Ele se perde todo, fica desequilibrado. Gagueja.

Se a mulher começa a fazer um gesto, ele salta o tom de voz, escorrega no silêncio, entra em parafuso, em estado de furadeira.  Esquece o que tinha para dizer.

Homem sempre acha que está cometendo algo errado - é sua esposa fazer uma menção com as sobrancelhas ou parar em sua frente e ele cai em pânico. Broxa. Apaga o motor do timbre. Não toca a ligação para frente. Parece que foi desmascarado, que falou uma bobagem e ela ouviu. E agora terá que enfrentar uma discussão de relacionamento.

Homem não consegue manter duas conversas ao mesmo tempo. É obrigado a desligar. É obrigado a saber primeiro o que ela deseja.

Ele fica constrangido com alguém mandando nele. O problema do homem não está em ser mandado, mas que os outros descubram que ele é mandado.

A mulher sim, a mulher pode ser interrompida enquanto conversa ao telefone e não terminará nem um pouco constrangida. Nasceu com o telefone na orelha. O telefone para a mulher é um ponto. O telefone para a mulher é um brinco.

Não se sentirá ofendida. Pode brincar com a mímica do marido. Pode rir  de sua presença incômoda. Ou colocar o fone para o lado e perguntar: - Por que está me incomodando, hein?

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (28/3) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

terça-feira, 25 de março de 2014

ALFAIATE INJUSTO

Arte de Otto Müller

O trabalho é insaciável. Todo emprego. Não terá trégua, folga, desconto.

Desde que comecei a trabalhar, aos 15 anos, não obtive nenhuma moleza. Nenhuma compreensão.

Apesar do excelente desempenho, é faltar por atestado médico, é se atrasar por engarrafamento ou greve de transporte, que estarei enforcado.

No trabalho, corda no pescoço é colar.

Não aceitamos desculpas e justificativas, a única coisa que vale é baixar a cabeça e se puxar.

O currículo só conta para contratação, depois o passado é abolido. A desmemória é valorizada. Render o máximo possível sempre, até quebrar. Se quebrar, não era tão bom assim.

E todos quebram. E todos cansam. E todos pedem um colo e um corrimão das escadas.

Não receberá intervalo para se restabelecer, período para se recuperar. É quebrar e suportar a troca imediata.

Ter feito milagres antes não é recomendação. Somos amplamente descartáveis.

Carreiras são jogadas fora num piscar de olhos, trajetórias consolidadas são dissolvidas num rearranjo de forças.

Pode ser um super-herói, um mago, um santo, um Hércules, um samurai, e não encontrará imunidade.

Demoramos um tempo imenso para adquirir credibilidade e facilmente extraviamos a confiança.

O trabalho é implacável. Não queira ser reconhecido, o reconhecimento dura 24 horas. A prática é se desconhecer ininterruptamente e recomeçar.

Você poderá ser o melhor vendedor de uma loja por seis meses consecutivos, mas é arcar com um dia ruim, somente um dia ruim, e será cobrado. Você pode ser o melhor corretor de imóveis, acumular vendas irreais, mas é enfrentar uma semana de deserto, que será criticado. Você poderá ser o melhor negociador agropecuário, mas é assistir a um mês de vacas magras, que perderá seu chão.

O trabalho é voraz, o que explica o quanto somos substituíveis.

Saudade não existe no mundo corporativo. Saudade é um sentimento proibido. Saudade é um luxo.

O trabalho não respeita ausência. Ausência é vaga. Ausência é lugar a ser preenchido, é alegria dos outros.

Quem já saiu de um emprego e jurou que nada mais funcionaria e se frustrou porque tudo continuou igual? Quem já largou um emprego de décadas, onde construiu a maior parte de suas amizades, organizou surpresas e amigo-secreto, e acreditou que ganharia um abaixo-assinado dos colegas para sua volta e não obteve um e-mail sequer de solidariedade? Quem já foi o primeiro a entrar e o último a sair no negócio e sua disciplina não rendeu ponto extra e bonificação na crise?

O trabalho é um alfaiate ao contrário. Um alfaiate ao avesso.

Não é a roupa que deve ser ajustada ao nosso corpo, é o corpo que deve ser ajustado para a roupa.

Não é o caso de cortar o tecido ou fazer bainha, nós é que temos que cortar mãos e pés e emagrecer e nos adaptarmos de qualquer jeito.

Não existe justiça no trabalho, talvez nem mais na família.

Nossa esperança agora é não ser demitido dentro de casa.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 25/3/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17743

domingo, 23 de março de 2014

DEIXA COMIGO

Arte de Francis Bacon

Sofro de cacoete de vereador. Prometo antes de cumprir, me comprometo antes de pesar as consequências.

Minha generosidade é de véspera. É como assinar antes de escrever a carta. É como preencher um cheque e não abrir a conta.

Sempre posso tudo. Antes de fazer, já estou falando, já estou comemorando, já estou acertando detalhes.

Atropelo ao tirar a palavra da boca. Não verifico a disponibilidade, não sondo as chances, subestimo esforços anteriores, já confesso que será barbada, que convivo com gente capaz de facilitar o trâmite e que basta um telefonema.

É um exagero só, passo a impressão de que experimento o centro do poder de qualquer assunto. Para impressionar os envolvidos, transformo meros conhecidos em grandes amigos, converto pessoas importantes - que jamais encontrei – em confidentes.

Improviso um gabinete na varanda. Armo uma tenda de milagres na cozinha.

Em vez de ficar quieto e resolver, em vez de solucionar secretamente e anunciar o feito apenas quando realmente é certo, assumo a pendência na primeira conversa. Não declaro meus limites, muito menos respeito às peculiaridades de cada situação.

A honestidade depende do senso de realidade. E fantasio de modo inconsequente.

Há uma falsa onipotência me reinando, um Napoleão adormecido em minha mente, um Kublai Khan sedado em meu sangue.

Sim, gostaria de ajudar, mas a vontade maior é de se sentir importante ajudando. Como se precisasse eternamente do voto dos meus amigos.

Prometi um emprego ao Diego, prometi encontrar uma editora para Beto e Éverton, prometi um marchand para Tiago, prometi apressar uma cirurgia para Geverson... Todos estão esperando religiosamente. Já foram meses, e não obtive nenhum resultado. Não vingou minha influência, não rendeu minha lábia, não alcancei nenhum privilégio. Tentei, e tampouco fui ouvido, igual a eles.

E agora, o que respondo?

Serei obrigado a dizer um “não” constrangido quando poderia ter dito um “não” altivo.

Eu me decepciono frustrando os outros. Criei expectativas à toa. Mexi com destinos e alegria familiares impunemente. Não respeitei ciclos da vida e a ordem natural da burocracia, procurei demonstrar facilidades irreais.

Meu comportamento não decorre da falta de popularidade, é megalomania mesmo. Sou um hospital de caridade sem leitos, sou uma creche infantil sem brinquedos.

Deveria ser cassado, isso que nem tenho cargo eletivo.
  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 23/03/2014 Edição N° 17741