quarta-feira, 7 de maio de 2014

MAIS DO QUE AMOR 20: AMOR 21

Arte de Eduardo Nasi

Não há maior orgulho materno do que cuidar de uma criança com síndrome de Down. 

O rosto de mãe já é coberto de ternura. Mas o rosto de mãe de uma criança portadora é de uma pureza contagiosa. Rosto transfigurado pela doação. E pela recompensa de ver o filho crescendo miudamente.

Eu tenho arrebatamentos ao avistar uma mãe caminhando com seu filho na praça.

Ela não se entregou para aparência, não escondeu a feição de seu rebento em nenhuma imagem, não se diminuiu em preconceitos, não fugiu dos amigos e familiares, descobriu a beleza dos olhos graúdos e oblíquos pescando o infinito, a delicadeza daquelas orelhas pequenas que lembram uma boca fazendo bico para a foto.

Não se arrependeu em nenhum momento e nem rifou sua paz pela idealização.

Assimilou a lição de que o que vale é um dia atrás do outro. O que vale é o dia imperfeito (o dia imperfeito é o que completamos, o dia perfeito se faz sozinho).

Um filho com síndrome de Down é inteiro porque se comemora também os números quebrados de cada façanha.

Ele não aprende a andar uma única vez, aprende a andar sempre. Ele não aprende a falar uma única vez, aprende a falar sempre. Ele não aprende a amar uma única vez, aprende a amar sempre.

A repetição aperfeiçoa a intimidade e cristaliza os laços.

Não há o extremismo da ternura. Extremismo é imaturidade: ou é o meu sonho ou será o pesadelo daqui por diante.

Compreende-se que viver é provisório, um meio-termo, aceitar o possível.

Melhor o que é real e pode ser dividido do que aquilo que é imaginário e morre com a gente.

Ela passeia com uma altivez de mãos dadas que deve influenciar o voo dos pássaros e o salto dos gatos.

Não sinto pena, não sou contraído por compaixão, é admiração pura.

Não sofro pontadas de curiosidade, é encantamento mesmo.

Invejo a entrega irrestrita, generosa, compreensiva.

— Aquilo é amor! —, minha ânsia é apontar e completar as palavras com as mãos.

Ela tem o dobro de preocupações, porém recebe o dobro de esperança.

É como se sua criança jamais abandonasse o apelo infantil, a honestidade infantil, a confiança infantil.

Trata-se de um outro diálogo, em que exige paciência para ouvir e conversar.

O tempo suspende seu passo de ponteiro, ela baixa a cabeça para entender o que está sendo desejado pelo seu filho.

Não escuta correndo, distraída. Não escuta avoada, dispersiva. Escuta olhando nos olhos.

É óbvio que a criança tem uma outra fé no mundo quando tem alguém para si que só fala olhando nos olhos.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
7/5/2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

TELECOLO



Os casais não têm tempo para cuidar do outro. 

Marido e esposa chegam arrasados em casa, destruídos pelas preocupações do dia e antecipando as expectativas da semana. 

São como lutadores de boxe, suados e inchados, pedindo um abraço, uma trégua, antes de desferir os próximos socos. 

Entram em seu lar e, mesmo bem intencionados, fracassam em consolar sua companhia. Não encontram ânimo para manter uma conversa inspiradora e incentivar o casamento.

Deitam no sofá, encalhados. Ambos querem chamego, precisam de cuidados e não se oferecem por absoluta falta de energia.

É deitar que desmaiam.

O que abre a possibilidade de um novo negócio no mercado: o tele-colo.

Pessoas capazes de oferecer um colo amigo.

Nada a ver com sexo, com prostituição, com taras eróticas.

Nada a ver também com terapia e confissão.

Uma profissional da ternura.

Nas horas de estresse absoluto e desesperança, chamaríamos o tele-colo.

Procuraríamos o telefone no ímã da geladeira.

Apareceria em sua residência uma tia, com idade superior a 65 anos e cheiro de vó, vestindo pijama e calçando pantufas.

Sim, pijama e pantufas, para desfazer qualquer apelo erótico.

Seu serviço poderia durar apenas trinta minutos, o suficiente para espantar a enxaqueca dos ossos.

Consistiria em carinho nos cabelos, cafuné, e um silêncio entremeado de palavras de apoio e frases afirmativas.

Nenhuma discussão, nenhuma pergunta, nenhum questionamento.
Nenhuma desconfiança, nenhum julgamento.

Conheceríamos a paz absoluta da cumplicidade.

Sua primeira providência seria preparar um chá e alcançar um analgésico, naquela atitude preocupada, de pé, esperando os movimentos da nossa boca.

Deitaríamos nos ombros dela com a confiança de travesseiros ortopédicos.

Resmungaríamos que está difícil, complicado, que não enxergamos saída e sentido para tanta entrega.

Ela responderia com ênfase: "Vai passar", "É só cansaço", "Está fazendo seu melhor".

A voz deve ser mansa, legível, reconfortante, de rádio AM.

Fecharíamos os olhos docemente, para ensaiar o sonho em rápido cochilo.

Ela nos colocaria na cama, puxaria nossas cobertas até o início do queixo. Programaria a televisão para desligar em quinze minutos e armaria o alarme do celular.

Dependendo do desespero, cantaria uma música de ninar. Mas só em último caso.

Sairia de cena sem deixar vestígios.

Amanheceríamos com a sensação de banho tomado. Banho de alma.

  

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 4/5/2014 Edição N° 17737

A MÁQUINA RECEBE HÉLIO DE LA PEÑA

O humorista Hélio de la Peña, criador da revista Casseta Popular, membro do Casseta & Planeta e escritor, conta que os filhos já sofreram bullying por conta do seu humor, especialmente quando ele se vestia de mulher.

Ele fala sobre o racismo antes e depois da televisão em meu programa A Máquina de terça (29/4).

Veja a entrevista completa que foi ao ar na TV Gazeta, às 23h30.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

SEXO É BOM E EU GOSTO

Arte de Eduardo Nasi

Sexo é treino. Não é como andar de bicicleta, que nunca desaprendemos. Não é como dirigir, que decoramos naturalmente.

Sexo é intimidade. Depende mais da transpiração do que da inspiração.

Quatro semanas sem sexo e será incomodado pela estranheza: a lentidão do gesto, a carência de aptidão, a aspereza decorrente dos maiores intervalos da fala.

O distanciamento pesa na pele. É como tirar de repente a música ambiente, e mergulhar no silêncio ensurdecedor da criação do mundo.

Haverá um toque cômico, patético, que virá da ausência de ritmo. Prenderá o cabelo dela com o cotovelo, esticará a perna além do necessário e confundirá com sessão de alongamento, baterá a cabeça na cabeceira da cama.

Sexo é sequência. É se afastar e terá que superar o desconforto, refinar o tato, reinventar o ritmo. Terá que quebrar o gelo.

Para remediar a distância, abusará do aquecimento, da insistência obsessiva, da alternância obrigatória das palavras ora ternas, ora safadas.

Tanto o homem como a mulher percebe o estremecimento; tira-se a roupa meio no seco, meio temerário, quase à meia-luz.

Não dá para puxar a cintura com ímpeto, entrar com vontade debaixo da camisa e da calça. Sacrifica-se a continuidade, a avidez lúbrica.

O sexo já pede explicações, já envolve desculpas.

Até para começar a transa é difícil, com interrogatórios desnecessários, educação exagerada, pudor de estreia.

Quando o par está há muito tempo sem sexo surge o questionamento se o outro quer transar. A pergunta é a prova do esfriamento da relação.

Os beijos pela casa tornam-se também raros, assim como aquele avanço bobo da língua na nuca e nas orelhas.

Ninguém se pegará na cozinha, na sala, fora de hora. O encontro fica restrito ao colchão e, de preferência, à noite.

Menos sexo equivale a menos romantismo. Estão diretamente ligados. Quem transa com frequência acaba mais receptivo e sensível, mais aberto e comunicativo, mais generoso e atento.

O sexo é o romance em ação. É dependência química. É vício dos laços.

Quanto mais transar, mais vontade de transar. Quanto menos transar, menos vontade de transar.

Não confio na máxima “Sexo é algo que não esquecemos”. Muita gente esquece de como se faz.

Casais que permanecem um mês de jejum enfrentarão a formalidade, a solenidade do início, a avareza do fôlego (interessados em guardar energia para o trabalho no decorrer da semana).

Sexo é mecânica amorosa. Demorar demais é encarar uma nova virgindade.

E a primeira transa – lembre! – nem sempre é boa.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
30/4/2014

domingo, 27 de abril de 2014

TROQUE O PNEU!


Arte de Duchamp

Não faça como eu, que chamou a seguradora, e não se pôs em ação.

Não faça como eu, que já decepcionou a co-piloto ao lado.

Ela aguardava o Hércules de graxa dentro de mim, um Sansão suado de minhas clavículas.

Estava ansiosa pelo mecânico que se escondia por detrás do poeta, curiosa pelo macacão jeans debaixo do terno.

Não deixe que um terceiro diga que o pneu furou, repare que o carro está manco enquanto dirige, mostre que conhece o equilíbrio de seu automóvel tal extensão de seu corpo.

Não permita que esta chance de masculinidade se evapore com a preguiça.

Ao constatar que o pneu murchou, desça do carro e chute a roda. No meio da calota, para fazer barulho de cuíca. Solte desaforos, critique a injustiça.

Pode babar, cuspir, xingar o prefeito e os buracos.

Cai bem o acesso de raiva diante da plateia feminina.

Descubra o motivo do infortúnio. Se localizar um prego, não trate com a insensibilidade de uma agulha na almofada de costura, exagere que é do tamanho de um arpão. Não subestime a cratera com delicadezas, não aja com melindres, não alise os frisos.

É o momento de ser truculento, passional, tosco.

Não tente contornar o problema técnico com cantadas e declarações açucaradas.

Naquela hora, sua companhia não quer um Wando, não aplaudirá um Sidney Magal.

O palco da conversa é outro. Sem requebros. Sem palavras inteiras e rimas. Explore urros e resmungos. Não é para entender o que está falando mesmo.

É ação, aventura, adrenalina. Não explique seus passos. Mantenha o mistério.

Sua companhia procura o homem primitivo. Alguém que ofereça proteção e conforto, resolva as crises e enfrente a vida quando enguiça.

Ela espera sua destreza no instante de levantar o assoalho do bagageiro, que não pergunte onde fica a estepe, a maior humilhação na reposição de peças. Espera que pegue a chave e o macaco com rapidez. Que não peça ajuda de ninguém e, principalmente, que não reze. Espera uma longa imundície avessa a qualquer compaixão, que tenha os cotovelos e os joelhos besuntados e não se importe em como retirar as manchas. Espera que demonstre sincera aptidão ao girar a manivela e alçar o veículo dois degraus acima. Espera o exame da Ordem dos Machões do Brasil (OMB), o gabarito, o despojamento para desenroscar os parafusos gigantes. Espera o trabalho completo, que se agache com brilho e virilidade, não de quatro, não expondo o cofrinho, não de qualquer jeito.

Capriche, mas não demore. Pois sua mulher permanecerá atenta ao tempo da troca enquanto simula conferir o estado do esmalte de suas unhas. Ligará o cronômetro, é o Pit stop do casamento.

Ao final da operação, diga que foi fácil e simples, esfregue as mãos com desleixo e busque abraçá-la.

O troféu da cena é o empurrão de seu amor, reclamando que assim vai sujá-la.

Você será respeitado dali por diante.

Respeitado – pelo menos – dentro do carro.


  

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 27/04/2014 Edição N° 17776

ESSE MENINO ERA SEU FILHO


Não posso nem chamá-lo de caro ou prezado, mas apenas usar seu nome: Leandro. Educação e respeito vão soar como cinismo.

Tampouco posso chamá-lo pelo sobrenome para indicar formalidade. Perdeu o direito do sobrenome. Seu filho pequeno está enterrado em seu sobrenome para sempre. Ele carregava seu sobrenome, você não soube carregar coisa alguma dele.

Tenho enfrentado vários pesadelos desde que ouvi a notícia de que seu menino de 11 anos fora morto pela madrasta.

Que seu menino foi posto numa cova às margens de um rio em Frederico Westphalen (RS), coberto pela terra quando deveria ser coberto pelo edredon para não passar frio de noite.

Seu filho foi enganado. Toda a vida enganado. Toda a vida humilhado. Na hora de seu fim, aceitou o passeio para longe de Três Passos porque jurava que receberia uma televisão.

Quando seu menino acordar dentro da morte, ele vai chamá-lo. Assim como toda criança chama seu pai quando tem medo do escuro. Vai chamá-lo e onde estará?

Ele acreditava que você era o herói dele. Estava exagerando para pedir que o salvasse, não entendeu o apelo?

Você nem pai foi. Nem homem foi. Você foi o que restou.

Como médico, não acha Bernardo uma criança um pouco grande para fazer um aborto?

O que dirá para irmãzinha dele? Que Bernardo está no céu? Que é uma estrela?

Perdeu também o direito de mentir. É você e sua memória sozinhos no silêncio. Só resta a memória para quem matou a consciência.

Nunca encontrará perdão. Deixou Bernardo desamparado. Deixou Bernardo com as mesmas roupas curtas, o mesmo uniforme escolar surrado, desde que a mãe faleceu. Deixou seu filho mendigar atenção pela cidade. Pelo fórum.

Não entendo o que leva um homem a anular sua família anterior por uma nova namorada. O sexo é mais importante do que a paternidade? A bajulação é mais importante do que a ternura? Queria estar disponível para festas? Cortar gastos?

Fingiu que Bernardo não existia para não atrapalhar a ambição da sua mulher? Fingiu que Bernardo não havia nascido para atender à exclusividade de sua mulher?

Filho não é escolha, é responsabilidade. Já casamento é escolha...

Se a mulher não gostava de seu filho, não deveria ter recusado o relacionamento?

Como seria simples. Bastava dizer "Ou meu filho ou nada!". É o que se fala no início do namoro.

Para você, nada.

Não é que você não tem mais nada, você não é mais nada. Abdicou de seu filho para ficar com alguém. Você não se contentou em abandonar sua família para criar uma segunda família, você aniquilou sua família para criar uma segunda família.

Obrigava Bernardo a esperar fora de casa até você chegar do trabalho, agora é você quem espera fora de casa.

Obrigava Bernardo a lavar as mãos para brincar com a irmã. Pois tente lavar suas mãos agora para tocar no rosto dele.

Tente todos os dias de sua paternidade. Sangue não sai com a culpa.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O PAÍS DO INVISÍVEL

Arte de Eduardo Nasi

A superstição é a inteligência dos objetos.

É quando repassamos para a madeira a autoridade do acaso, quando transferimos para a escada o domínio do infinito, quando autorizamos a vassoura a determinar casamentos.

Minha avó vivia cuidando de doenças e de problemas pela superstição. Ou preparava um chá especial ou providenciava uma simpatia. Espantava febres, tonturas e desconfortos com sua farmácia caseira.

Nunca foi bruxa, mas tinha palavras santas. Preventiva e curativa, com um pé no passado e outro no futuro.

Pelos talheres, já antecipava visitas. Sempre que um deles caía na cozinha, profetizava a campainha. Garfo era homem. Faca era mulher. Não havia erro.

Pelos ouvidos quentes, já descobria se alguém andava falando mal dela. E desafiava o povo a contar as maldades recém-feitas.

Regia sua casa com uma legislação do sobrenatural. Eu me sentia importante seguindo suas regras. Às vezes desejava ser castigado para testar a veracidade dos rituais.

Entrava em sua residência em Guaporé como se fosse um novo país. O país do invisível. O país dos pressentimentos.

Respeitava mais porque não a entendia inteiramente. O mistério engrandece as pessoas.

Meus pais escreviam poesia, a avó colocava em prática.

Ela jamais deixava a bolsa no chão, para não perder dinheiro.

Ela jamais abria o guarda-chuva dentro de casa, que trazia morte.

Ela invertia o rodo atrás da porta para afastar visitas indesejadas.

Ela derramava flores de maracujá no chão dos invejosos.

A vó inventava soluções. Depois que morreu, minha vida ficou sem respostas.

Na infância, um dia acordei com telhas debaixo da cama. Ela explicou que aquilo serviria para dar telhado aos meus sonhos.

Adorava seus argumentos. Ela estava à frente de seu tempo porque respeitava tempos antigos.

Quando os pais brigavam, recomendava que limpassem os espelhos.

Todos os espelhos da casa, inclusive dos banheiros e dos quartos. Pois os espelhos se comunicavam entre si.  Como um riacho pelas paredes.

As ofensas, as caretas e os horrores das discussões permaneceriam dentro dos reflexos, e o casal repetiria brigas passadas. A memória do ódio cobriria seus rostos no momento de se arrumar na manhã seguinte.

Eu acredito na loucura de minha avó.

Meus espelhos sempre estão brilhando para dias inéditos.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
23/4/2014

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A MÁQUINA RECEBE MARAT DESCARTES


O ator Marat Descartes, premiado com Kikito e Shell, um dos mais inventivos atores da nova geração, é o entrevistado do meu programa A Máquina.

Recentemente atuou nas séries da Globo, "Teia" e "O Tempo e o Vento", e no longa "Quando Eu Era Vivo", de Marco Dutra, contracenando com Sandy e Antônio Fagundes. 

Ele descreve sua trajetória teatral e no cinema.

O programa foi exibido na noite de terça-feira (15/4) na TV Gazeta


quarta-feira, 16 de abril de 2014

SIRVAM NOSSAS FAÇANHAS DE MODELO A TODA TERRA

Arte de Eduardo Nasi

O gaúcho é o único terrorista autorizado. O único terrorista aceito pela ONU. O único terrorista sociável. O único terrorista de cara lavada e CPF desimpedido. O único terrorista que não é obrigado a se esconder, muito menos negar sua origem.
 
O único terrorista que é incentivado a abrir células — CTGs — em tudo que é parte do planeta, até no Japão, e não ser malvisto, fichado, perseguido.
 
Ele espalha sua crença, suas convicções, com imensa alegria. Nas escolas, nas creches, nos hospitais. Não tem nenhuma necessidade de deixar a barba crescer, falsificar passaportes, usar disfarces e fazer plástica.
 
O gaúcho é o único terrorista livre do mundo.
 
Pode erigir estátuas homenageando seus líderes, pavimentar ruas destacando seus guerreiros.
 
Pode soltar apelos de guerra em praça pública com direito a banda e microfone: “Não podemos se entregar pros home / Mas de jeito nenhum amigo e companheiro / Não tá morto quem luta e quem peleia”.
 
O gaúcho pode, inclusive, andar estranho, de pilcha e bombacha, e não ser discriminado.
 
É o único que pode gritar o hino no estádio e não ser chamado de separatista.
 
É o único que comemora o início da revolução, não o fim da revolução, e não ser visto como insurgente pelo resto do país.
 
É o único que pode declamar versos chulos, e jamais ser identificado como tarado e bagaceiro.
 
No fim das contas, o gaúcho é o único que pode entrar num avião com bomba e erva e não sofrer represália. Alguém mais pode?
 
Ninguém!, só o gaúcho desfruta desse privilégio.
 
E não será barrado no detector de metal e na alfândega.
 
E não será encaminhado para interrogatório em sala fechada.
 
E não será preso por alguma autoridade.
 
E não será extraditado.
 
Ainda receberá cumprimentos e apoio dos guardas, do comandante, das aeromoças, dos passageiros. Terá a simpatia bondosa das crianças, a curiosidade carente dos velhos.
 
Na aeronave, é capaz de desentupir a bomba com a maior tranquilidade, na frente de todos, sem suar frio ou se recolher ao banheiro.
 
É capaz de desempacotar a erva, soprar os farelos e sugá-la com a serenidade lenta de seu pulmão.
 
O gaúcho é o sonho de civilização de qualquer terrorista.
 




Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

quinta-feira, 10 de abril de 2014

REPARTINDO O PÃO, ME REPARTINDO AO PÃO

Arte de Kitaj

Eu jamais dou mordidas no pão de queijo. 

Nunca levo o pão de queijo direto para a boca, como costuma acontecer com a maioria dos fiéis da receita de Minas Gerais. 

Meu hábito é tirar nacos com os dedos e comer um pouquinho de cada vez.

Eu vou abrindo o pão de queijo em pedaços e levando aos lábios devagar. 

Aprecio dividir o calor do polvilho, enxergar o coração branco pulsar na pele e mastigar com calma.

Parece que rende mais. Parece que tenho mais disponibilidade e que não sou vítima da pressa. 

Transformo um pãozinho em mesa das mãos.  

A mania não é de agora. Vem de uma lembrança. Vem de um tempo paterno, sem garfos e facas. Vem de um tempo cheirando a balões de gás, picolés e pipoca doce. 

Eu incorporei o costume das idas à praça, quando levava meus filhos a passear e oferecíamos comida às pombas. 

Despedaço o pão como quem irá jogar farelos para as aves. 

Já passaram dez anos desde a última vez que fiz esse gesto, só que o gesto continua em meu sangue.

Não há balanços, gangorras, escorregador, minhas crianças cresceram, e prossigo cortando o pão com as unhas como se fosse distribuir ao solo.  

Como se fosse ainda reunir uma porção de bicos próximos aos meus sapatos.

Como se fosse atender a fome do céu e a necessidade de chão de meus pequenos. 

Permaneço reproduzindo aquele ato de singela paciência, aquele ato de despojada generosidade.  

Não tem jeito de alterar a conduta, estou livre de qualquer ânsia, predomina em mim um cuidado de piquenique, o lento ritual das antigas manhãs ensolaradas.

Não é mais somente um pãozinho de queijo, mas meus filhos, os brinquedos, a migração da infância habitando seu recheio. 

Ao dividir o miolo, sempre serei uma família e o centro de um parque. Eu me divido para meu passado. Presto homenagem a minha memória. 

Ou talvez, envelhecendo, esteja realmente virando um passarinho. Um passarinho de minhas crianças. Um passarinho barbudo, de olhos imensos e pernas finas. 

E arremesso as migalhas para mim. E alimento sem querer o voo da paternidade. 


Revista Pais & Filhos
Coluna Luneta Mágica, p. 76
Ano 45 Abril de 2014