Na paixão você só quer ver o que acredita. Os olhos são guardados no estojo dos óculos.
É comum não enxergar os sinais de que se envolveu com um perseguidor. Todo perseguidor simbolicamente mija no poste para demarcar território. Não quis reparar por educação, tão dedicado a acreditar na história de amor e idealizar o encontro.
Ninguém se envolve com um louco sem receber avisos. E não são poucas as advertências. O erro é fazer de conta que é uma exceção ou, mais grave, entender tudo ao contrário.
Se no primeiro encontro, a pessoa lhe morde, banca o Drácula em seu pescoço, deixa um chupão onde o colarinho da camisa não tapa, não significa que o sexo foi selvagem, não ache que é bonito, não são medalhas da paixão, não corresponde a uma entrega total de um animal no cio, não sinta orgulho da noite virada em claro, é o indício de que se envolveu com alguém histérico e ciumento.
É um stalker dando as suas primeiras demonstrações de desequilíbrio e de alternância de humor. Ao admitir as marcas e até se orgulhar, assumirá o papel de incentivador da possessividade.
Qualquer exagero sem intimidade prova uma carência descomunal e perigosa.
Quem arranha a pele arranhará o seu carro numa despedida. As unhas serão pontas das chaves depois em sua lataria.
Os ataques sadomasoquistas somente se agravam com a progressão da convivência, a ponto de normalizar discussões e barracos.
Se o par amoroso tem o costume de se irritar quando visualiza as mensagens e não responde em breves minutos, não compreenda como sintoma da saudade, ele será capaz de persegui-lo pelas ruas no rompimento da relação.
Se ele não gosta quando sai com decotes ou com corpo mais à mostra, não aceite como preocupação pertinente ao seu modo de vestir, pois tratará de insultar a cada foto acompanhada de um colega de trabalho.
Se ele não suporta likes de amigos e comentários engraçados em suas redes sociais, não veja como vigília bem-intencionada contra prováveis críticas, é mais um trailer do filme de terror, inventará fakes para inferniza-lo no fim do namoro.
Há tipos que não acolhem a contrariedade e a recusa, e se debruçam sobre a missão suicida de explodir com as suas conexões sociais. Mergulham no ressentimento puro e escolhem a vingança como uma forma de continuar amando. Não desejam a sua felicidade, mas dominá-lo a ponto de não ter mais ninguém por perto.
A polidez no início da relação e o receio de falar a verdade permitem a criação de monstros. Eles não crescem desprovidos de sua concordância e de seu carinho na cabeça.
Corte o mal pela raiz antes de ser obrigado a morder os frutos envenenados da obsessão.
Publicado em Donna ZH em 24/6/2018
segunda-feira, 25 de março de 2019
RATOS
Eles dizem gostar de mulher, mas são misóginos.
Trocam putarias no celular, expõem partes do corpo feminino como se não existisse o todo, alardeiam a sua virilidade, realizam a competição de quem come mais e de quem mente mais. Contam vantagem entre amigos, apenas entre amigos, porque desejam unicamente a aprovação de um outro homem, não sabem enfrentar uma mulher.
Eles odeiam a mulher. Eles temem a mulher. Eles morrem de receio da mulher.
São covardes. Aproveitam-se de uma mulher só quando está desacompanhada, bêbada, desacordada. Só quando ela não entende o idioma.
Exploram as boas intenções de uma estrangeira para cantar em coro desaforos e fazê-la de idiota.
Idiotas são eles, roedores de restos.
Acham engraçada a violência, pois não possuem educação para se destacar. Guincham. Absolutamente guincham dentro de suas gargalhadas.
São os assediadores compulsivos, os estupradores do inconsciente.
Aqueles que pingam Boa-noite Cinderela no copo de desavisadas, já que conversando não têm chance nenhuma.
Aqueles que forçam um relacionamento, forçam sexo e não escutam as vogais de um não.
Aqueles que juram que dinheiro compra amor, compra silêncio, compra impunidade.
Eles perderam o direito de ter uma mãe. Perderam a chance de ter uma mãe. Perderam a decência de ter uma mãe. Saíram de um esgoto, não de um ventre.
Constrangem e humilham sempre em bando. Sozinhos, acabam sendo medrosos.
São capazes das maiores brutalidades para soar engraçados, para ganhar a simpatia do seu circo de colegas.
Não são homens, mas ratos.
Crônica publicada em 21/6/2018
Trocam putarias no celular, expõem partes do corpo feminino como se não existisse o todo, alardeiam a sua virilidade, realizam a competição de quem come mais e de quem mente mais. Contam vantagem entre amigos, apenas entre amigos, porque desejam unicamente a aprovação de um outro homem, não sabem enfrentar uma mulher.
Eles odeiam a mulher. Eles temem a mulher. Eles morrem de receio da mulher.
São covardes. Aproveitam-se de uma mulher só quando está desacompanhada, bêbada, desacordada. Só quando ela não entende o idioma.
Exploram as boas intenções de uma estrangeira para cantar em coro desaforos e fazê-la de idiota.
Idiotas são eles, roedores de restos.
Acham engraçada a violência, pois não possuem educação para se destacar. Guincham. Absolutamente guincham dentro de suas gargalhadas.
São os assediadores compulsivos, os estupradores do inconsciente.
Aqueles que pingam Boa-noite Cinderela no copo de desavisadas, já que conversando não têm chance nenhuma.
Aqueles que forçam um relacionamento, forçam sexo e não escutam as vogais de um não.
Aqueles que juram que dinheiro compra amor, compra silêncio, compra impunidade.
Eles perderam o direito de ter uma mãe. Perderam a chance de ter uma mãe. Perderam a decência de ter uma mãe. Saíram de um esgoto, não de um ventre.
Constrangem e humilham sempre em bando. Sozinhos, acabam sendo medrosos.
São capazes das maiores brutalidades para soar engraçados, para ganhar a simpatia do seu circo de colegas.
Não são homens, mas ratos.
Crônica publicada em 21/6/2018
CASINHA PARA OS PAIS
Tenho inveja dos jogadores de futebol. Logo que assinam o primeiro contrato profissional com um grande time, o pontapé inicial do mundo adulto é comprar uma casa para a mãe. O maior interesse deles é resolver a vida dos pais, realizar o sonho da velhice feliz.
Para quem se manteve com pouco, no pouco, na economia de se virar em muitos para juntar o básico no mês, o nome na certidão de registro de imóvel é a verdadeira certidão de nascimento.
Algumas pessoas realmente nascem com a casa própria - vem um alívio de ter finalmente o seu cantinho depois de viver emprestado e de favor toda a trajetória.
Os jogadores entendem o valor desse ideal. Apesar do deslumbramento adolescente com o sucesso, não pensam egoisticamente, não se esbaldam em gastança para o seu benefício, buscam retribuir, antes de tudo, os sacrifícios e renúncias de sua senhora. A prioridade é a mãe, depois que vão caçar um lugar para si. Anseiam pela benção das suas santas, agradecendo as madrugadas viradas e as marmitas das viagens aos treinos.
Acabo chorando com o choro materno diante da loteria do filho. Com o beijo do marmanjo na testa suada de sua velha. Controlo as lágrimas dos olhos, porém elas são caprichosas e insistem em escapar pela boca.
Não importa que seja clichê, o clichê pode ser tão verdadeiro.
O que me dói, por outro lado, é perceber tantos filhos com condições, bem resolvidos financeiramente, esclarecidos intelectualmente, com carreiras sólidas e de projeção, que abandonam os próprios pais à sorte.
Nem é o caso do gesto grandiloquente de oferecer uma residência, mas pelo menos deveriam separar um quartinho para os seus protetores. Só que nem isso, sequer planejam um espaço mínimo em sua casa, um espaço com nome e sobrenome, para eles se sentirem à vontade e acolhidos.
Fazem a maior diferença as gavetas vazias para colocar as roupas da mala, fazem a maior diferença os lençóis cheirosos e a toalha dobrada na cama, fazem a maior diferença a véspera e ser desejado.
Simplesmente os filhos abrem o sofá da sala, como que dizendo que os pais são hóspedes do amor, que devem pernoitar e jamais permanecer.
Crônica publicada em 20/6/2018
Para quem se manteve com pouco, no pouco, na economia de se virar em muitos para juntar o básico no mês, o nome na certidão de registro de imóvel é a verdadeira certidão de nascimento.
Algumas pessoas realmente nascem com a casa própria - vem um alívio de ter finalmente o seu cantinho depois de viver emprestado e de favor toda a trajetória.
Os jogadores entendem o valor desse ideal. Apesar do deslumbramento adolescente com o sucesso, não pensam egoisticamente, não se esbaldam em gastança para o seu benefício, buscam retribuir, antes de tudo, os sacrifícios e renúncias de sua senhora. A prioridade é a mãe, depois que vão caçar um lugar para si. Anseiam pela benção das suas santas, agradecendo as madrugadas viradas e as marmitas das viagens aos treinos.
Acabo chorando com o choro materno diante da loteria do filho. Com o beijo do marmanjo na testa suada de sua velha. Controlo as lágrimas dos olhos, porém elas são caprichosas e insistem em escapar pela boca.
Não importa que seja clichê, o clichê pode ser tão verdadeiro.
O que me dói, por outro lado, é perceber tantos filhos com condições, bem resolvidos financeiramente, esclarecidos intelectualmente, com carreiras sólidas e de projeção, que abandonam os próprios pais à sorte.
Nem é o caso do gesto grandiloquente de oferecer uma residência, mas pelo menos deveriam separar um quartinho para os seus protetores. Só que nem isso, sequer planejam um espaço mínimo em sua casa, um espaço com nome e sobrenome, para eles se sentirem à vontade e acolhidos.
Fazem a maior diferença as gavetas vazias para colocar as roupas da mala, fazem a maior diferença os lençóis cheirosos e a toalha dobrada na cama, fazem a maior diferença a véspera e ser desejado.
Simplesmente os filhos abrem o sofá da sala, como que dizendo que os pais são hóspedes do amor, que devem pernoitar e jamais permanecer.
Crônica publicada em 20/6/2018
O INÍCIO DA INFIDELIDADE
Não é nenhuma operação complexa definir a origem da infidelidade. Não depende de nenhum truque adivinhatório e macete psicanalítico.
A traição tem o seu início quando você passa a apagar as mensagens do WhatsApp. Se está apagando é que sabe que fez algo errado, que falou o que não devia, que passou do ponto, que abriu a guarda.
Ao deletar o histórico de um bate-papo e sumir com as próprias palavras, já tem a consciência do perigo daquele contato.
Você automaticamente se condenou, percebeu que existe um farto potencial para a sua companhia concluir de que se trata de um novo romance.
Conhece muito bem a sua namorada ou namorado, a sua esposa ou marido, para antecipar o que será dito a respeito da conversinha mole.
Se avaliou o material como ameaça à relação ou como gerador de ciúme, era para logo dar um basta ao mi-mi-mi.
As regras da monogamia são claras. Não existe meio-termo, atenuantes, desculpas. Sedução é traição, assim como um beijo é traição, assim como o sexo é traição.
Eliminar o conteúdo do celular tampouco trará tranquilidade, apenas lhe deixará com mais pinta de culpado.
O correto é voltar lá e desfazer insinuações, esclarecer as entrelinhas e objetivamente mostrar que não está a fim.
Remover as provas é dar seguimento para o erro, é proteger o flerte com o anonimato, é guardar a escada para depois pular a cerca, é assumir o risco de envolvimento, por mais que diga que não é nada, que só ocultou para não perder tempo explicando e que desejava evitar brigar por bobagem.
Quem não deve não teme, não precisa de modo algum adulterar os fatos. Deixa tudo documentado, registrado, do jeito que aconteceu.
WhatsApp editado é deslealdade.
Publicado em O Globo em 20/6/2018
A traição tem o seu início quando você passa a apagar as mensagens do WhatsApp. Se está apagando é que sabe que fez algo errado, que falou o que não devia, que passou do ponto, que abriu a guarda.
Ao deletar o histórico de um bate-papo e sumir com as próprias palavras, já tem a consciência do perigo daquele contato.
Você automaticamente se condenou, percebeu que existe um farto potencial para a sua companhia concluir de que se trata de um novo romance.
Conhece muito bem a sua namorada ou namorado, a sua esposa ou marido, para antecipar o que será dito a respeito da conversinha mole.
Se avaliou o material como ameaça à relação ou como gerador de ciúme, era para logo dar um basta ao mi-mi-mi.
As regras da monogamia são claras. Não existe meio-termo, atenuantes, desculpas. Sedução é traição, assim como um beijo é traição, assim como o sexo é traição.
Eliminar o conteúdo do celular tampouco trará tranquilidade, apenas lhe deixará com mais pinta de culpado.
O correto é voltar lá e desfazer insinuações, esclarecer as entrelinhas e objetivamente mostrar que não está a fim.
Remover as provas é dar seguimento para o erro, é proteger o flerte com o anonimato, é guardar a escada para depois pular a cerca, é assumir o risco de envolvimento, por mais que diga que não é nada, que só ocultou para não perder tempo explicando e que desejava evitar brigar por bobagem.
Quem não deve não teme, não precisa de modo algum adulterar os fatos. Deixa tudo documentado, registrado, do jeito que aconteceu.
WhatsApp editado é deslealdade.
Publicado em O Globo em 20/6/2018
MALDITO INTERFONE, BENDITO PORTÃO
Hoje o interfone toca e todos de casa já perguntam: quem deve estar incomodando a essa hora? Não importa o turno, o barulho intermitente é um dos menos desejados pela família.
Qualquer visita soa como perturbação da ordem doméstica. O imprevisto surge como sinônimo de problema. As pessoas se fazem de surdas para não sair do conforto de seus afazeres e cantinhos. Atender ao interfone é se responsabilizar pelo trabalho de descer. Ninguém quer assumir o compromisso.
Não sei em qual momento de nossa vida as visitas passaram a ser malquistas, mas isso significa o quanto reduzimos a nossa capacidade de acolhimento. Somos avarentos com o nosso tempo. Não nos permitimos distrações generosas.
A residência se transformou num bunker de isolamento, um espaço fóbico, uma extensão do escritório, onde não se pode sacrificar o andamento das demandas planejadas e dos objetivos a se cumprir.
Quando exatamente que passamos a odiar as visitas, a nos afastar do ato de receber quem gostamos? Até os amigos são penetras de nossa felicidade.
Talvez seja uma decorrência do uso crescente do celular, poder ligar a qualquer instante serviu também para restringir a convivência.
Os encontros com os nossos confidentes são monitorados, agendados, como se estivéssemos confinados em uma cela.
Na minha infância, no fim dos anos 70, não funcionava assim, com essa monstruosa indiferença.
Não existia nem campainha. Tínhamos que bater palmas no portão e gritar o nome do morador: Ó Ó Ó Fulano.
Feliz desse tempo em que casas eram aplaudidas. Realizávamos uma serenata à capela. Os latidos dos cachorros nos ajudavam a sermos vistos. Aparecíamos sem avisar, sem ter a certeza se haveria gente para nos receber. Não praguejávamos a viagem perdida, não se reclamava das tentativas. Às vezes batíamos com a cara na porta, nem por isso nos sentíamos ofendidos e maltratados. Sempre explicávamos com modéstia: “estava por perto”.
Mas nada apagava a emoção quando alguém nos localizava na janela e nos convidava a entrar, com sincero interesse.
E nos agradecia a surpresa, realmente feliz.
E nos convidava a almoçar ou a jantar, não por mera educação, e sim com uma leveza indescritível, pondo mais um prato na mesa e as conversas em dia.
Não inventávamos desculpas para os amigos. Mentíamos menos.
Publicado em Jornal Zero Hora em 19/6/2018
Qualquer visita soa como perturbação da ordem doméstica. O imprevisto surge como sinônimo de problema. As pessoas se fazem de surdas para não sair do conforto de seus afazeres e cantinhos. Atender ao interfone é se responsabilizar pelo trabalho de descer. Ninguém quer assumir o compromisso.
Não sei em qual momento de nossa vida as visitas passaram a ser malquistas, mas isso significa o quanto reduzimos a nossa capacidade de acolhimento. Somos avarentos com o nosso tempo. Não nos permitimos distrações generosas.
A residência se transformou num bunker de isolamento, um espaço fóbico, uma extensão do escritório, onde não se pode sacrificar o andamento das demandas planejadas e dos objetivos a se cumprir.
Quando exatamente que passamos a odiar as visitas, a nos afastar do ato de receber quem gostamos? Até os amigos são penetras de nossa felicidade.
Talvez seja uma decorrência do uso crescente do celular, poder ligar a qualquer instante serviu também para restringir a convivência.
Os encontros com os nossos confidentes são monitorados, agendados, como se estivéssemos confinados em uma cela.
Na minha infância, no fim dos anos 70, não funcionava assim, com essa monstruosa indiferença.
Não existia nem campainha. Tínhamos que bater palmas no portão e gritar o nome do morador: Ó Ó Ó Fulano.
Feliz desse tempo em que casas eram aplaudidas. Realizávamos uma serenata à capela. Os latidos dos cachorros nos ajudavam a sermos vistos. Aparecíamos sem avisar, sem ter a certeza se haveria gente para nos receber. Não praguejávamos a viagem perdida, não se reclamava das tentativas. Às vezes batíamos com a cara na porta, nem por isso nos sentíamos ofendidos e maltratados. Sempre explicávamos com modéstia: “estava por perto”.
Mas nada apagava a emoção quando alguém nos localizava na janela e nos convidava a entrar, com sincero interesse.
E nos agradecia a surpresa, realmente feliz.
E nos convidava a almoçar ou a jantar, não por mera educação, e sim com uma leveza indescritível, pondo mais um prato na mesa e as conversas em dia.
Não inventávamos desculpas para os amigos. Mentíamos menos.
Publicado em Jornal Zero Hora em 19/6/2018
TITE: O PROFESSOR
E se o Tite é El Profesor de Casa de Papel? E premeditou os erros da Seleção Brasileira com antecedência maquiavélica? E somente criou pistas falsas?
Se ele imaginou os desdobramentos da partida com a Suíça? Se ele previu que Neymar seria caçado e sofreria dez faltas - e fez questão que ele, o seu comandante na Casa da Moeda, o seu Berlim, monopolizasse a atenção dos seus defensores?
Se ele pediu para Neymar mudar o corte de cabelo, assim formaria um novo fato, um golpe publicitário, e desviaria o foco do que aconteceria em campo?
Se ele planejou os erros de arbitragem para denunciar que nada adiantaria a retaguarda do juiz de televisão porque quem manda é o árbitro em campo? Se foi uma armação inclemente, enquanto todos só elogiavam a tecnologia, para mostrar que o futebol não é exato? Curioso que o goleiro Alisson (Oslo) não tenha saído na pequena área (será que ele recebia ordens?).
Se ele treinou o chute indefensável de Philippe Coutinho, o seu Rio, de fora da área para demonstrar o poder bélico?
Se ele mandou Paulinho, o seu Denver, desaparecer para as suas infiltrações não serem mais manjadas?
Se não foi ansiedade, mas nervosismo calculado de atores?
Se ele deixou intencionalmente o lado direito do Brasil capenga com Danilo, para que os adversários tentem atacar por lá nas próximas partidas e ele possa articular ciladas?
Se ele forçou o empate com a Suíça para tirar o favoritismo das costas da seleção e surpreender com mais eficácia no restante dos confrontos? Afinal, não pôs nada a perder, era o oponente mais difícil do grupo; ganhando da Costa Rica e da Sérvia ainda obtém a liderança da chave. Melhor do que treino fechado para preservar segredos é o jogo aberto e ensaiado para confundir.
Se ele arquitetou o tropeço para readquirir a liberdade de ação, usou do blefe com o objetivo de diminuir as expectativas e elevar a confiança do plantel?
Se ele, ciente dos pontos perdidos dos favoritos como Alemanha, Argentina e Espanha, não quis se destacar demais para não aumentar a pressão?
Se ele fez um país inteiro de refém para ter mais tempo para produzir a réplica da taça de ouro da FIFA?
Se ele está sabendo de tudo com os seus mapas e máscaras, já pensou nisso?
Não farei spoiler, acompanhe o próximo episódio na sexta.
Crônica publicada em 18/6/2018
Se ele imaginou os desdobramentos da partida com a Suíça? Se ele previu que Neymar seria caçado e sofreria dez faltas - e fez questão que ele, o seu comandante na Casa da Moeda, o seu Berlim, monopolizasse a atenção dos seus defensores?
Se ele pediu para Neymar mudar o corte de cabelo, assim formaria um novo fato, um golpe publicitário, e desviaria o foco do que aconteceria em campo?
Se ele planejou os erros de arbitragem para denunciar que nada adiantaria a retaguarda do juiz de televisão porque quem manda é o árbitro em campo? Se foi uma armação inclemente, enquanto todos só elogiavam a tecnologia, para mostrar que o futebol não é exato? Curioso que o goleiro Alisson (Oslo) não tenha saído na pequena área (será que ele recebia ordens?).
Se ele treinou o chute indefensável de Philippe Coutinho, o seu Rio, de fora da área para demonstrar o poder bélico?
Se ele mandou Paulinho, o seu Denver, desaparecer para as suas infiltrações não serem mais manjadas?
Se não foi ansiedade, mas nervosismo calculado de atores?
Se ele deixou intencionalmente o lado direito do Brasil capenga com Danilo, para que os adversários tentem atacar por lá nas próximas partidas e ele possa articular ciladas?
Se ele forçou o empate com a Suíça para tirar o favoritismo das costas da seleção e surpreender com mais eficácia no restante dos confrontos? Afinal, não pôs nada a perder, era o oponente mais difícil do grupo; ganhando da Costa Rica e da Sérvia ainda obtém a liderança da chave. Melhor do que treino fechado para preservar segredos é o jogo aberto e ensaiado para confundir.
Se ele arquitetou o tropeço para readquirir a liberdade de ação, usou do blefe com o objetivo de diminuir as expectativas e elevar a confiança do plantel?
Se ele, ciente dos pontos perdidos dos favoritos como Alemanha, Argentina e Espanha, não quis se destacar demais para não aumentar a pressão?
Se ele fez um país inteiro de refém para ter mais tempo para produzir a réplica da taça de ouro da FIFA?
Se ele está sabendo de tudo com os seus mapas e máscaras, já pensou nisso?
Não farei spoiler, acompanhe o próximo episódio na sexta.
Crônica publicada em 18/6/2018
NAMORO NÃO É BRINCADEIRA
Leitora diz que vem passando por uma situação complicada com quem ama. Lista tudo o que julga de entrave: as discussões, o medo de se entregar, a família difícil. E não cita um único detalhe: ele tem namorada. Como se fosse uma irrelevância, um detalhe insignificante, um cravo na pele, que basta espremer com as unhas para tirar.
Omite o essencial, mas de propósito: “ele merece ser meu, eu mereço ser dele”. A namorada não existe, é apenas uma simples barreira removível.
O que me faz entender o pouco caso que se tem com o namoro, que é tratado como uma situação provisória, na qual se pode sair a qualquer instante, sem trauma e vínculo.
Namoro não teria o status de casamento. Assim poderia ser rompido com desinteresse.
De acordo com a teoria da leitora, qualquer namorado ou namorada estaria ainda disponível para cantadas e flertes, para assédios e conquistas. Flutuaria pelo mundo virtual livre de contrato.
Quantos acreditam, como ela, nessa distorção e não respeitam os beijos e as mãos dadas de pares românticos e avançam o sinal? Aproximam-se com segunda intenções, aproveitando as brechas das crises e das brigas, mostrando-se compreensivos e carinhosos. Exploram a fragilidade da confissão para se dar bem, vender as suas virtudes e se posicionar como uma opção confiável.
Quem já não viu um colega de trabalho escolher de alvo alguém namorando e investir no papel de confidente para questionar a relação, a ausência de felicidade, confundir a cabeça inocente da pessoa, argumentando que merecia mais e não deveria se contentar com migalhas?
O que há de urubus e abutres rondando o céu com as asas falsas de cupidos. São interesseiros, oportunistas, promovendo golpe de estado.
A sensação que se impõe, altamente irreal, é que os namorados não estariam juntos de verdade, mas partilham um estágio probatório, de teste, entretidos apenas enquanto não chega o amor eterno. Ou seja, aberto a ataques dos demais solteiros.
Ora bolas, namoro é compromisso como casamento. É um pacto de convivência e de lealdade tão importante quanto o registro no cartório. Não diminui a gravidade da infidelidade. Não apaga os sentimentos de exclusividade dos envolvidos. A dor diante de casos e mentiras é igualmente devastadora.
Não incomode quem se encontra acompanhado. Reconheça o valor do romance alheio. Nenhuma felicidade será legítima depois de estragar e cobiçar a vida do próximo.
Crônica publicada em 16/6/2018
Omite o essencial, mas de propósito: “ele merece ser meu, eu mereço ser dele”. A namorada não existe, é apenas uma simples barreira removível.
O que me faz entender o pouco caso que se tem com o namoro, que é tratado como uma situação provisória, na qual se pode sair a qualquer instante, sem trauma e vínculo.
Namoro não teria o status de casamento. Assim poderia ser rompido com desinteresse.
De acordo com a teoria da leitora, qualquer namorado ou namorada estaria ainda disponível para cantadas e flertes, para assédios e conquistas. Flutuaria pelo mundo virtual livre de contrato.
Quantos acreditam, como ela, nessa distorção e não respeitam os beijos e as mãos dadas de pares românticos e avançam o sinal? Aproximam-se com segunda intenções, aproveitando as brechas das crises e das brigas, mostrando-se compreensivos e carinhosos. Exploram a fragilidade da confissão para se dar bem, vender as suas virtudes e se posicionar como uma opção confiável.
Quem já não viu um colega de trabalho escolher de alvo alguém namorando e investir no papel de confidente para questionar a relação, a ausência de felicidade, confundir a cabeça inocente da pessoa, argumentando que merecia mais e não deveria se contentar com migalhas?
O que há de urubus e abutres rondando o céu com as asas falsas de cupidos. São interesseiros, oportunistas, promovendo golpe de estado.
A sensação que se impõe, altamente irreal, é que os namorados não estariam juntos de verdade, mas partilham um estágio probatório, de teste, entretidos apenas enquanto não chega o amor eterno. Ou seja, aberto a ataques dos demais solteiros.
Ora bolas, namoro é compromisso como casamento. É um pacto de convivência e de lealdade tão importante quanto o registro no cartório. Não diminui a gravidade da infidelidade. Não apaga os sentimentos de exclusividade dos envolvidos. A dor diante de casos e mentiras é igualmente devastadora.
Não incomode quem se encontra acompanhado. Reconheça o valor do romance alheio. Nenhuma felicidade será legítima depois de estragar e cobiçar a vida do próximo.
Crônica publicada em 16/6/2018
quinta-feira, 21 de março de 2019
A PIOR OFENSA DA MULHER PARA O HOMEM, E DO HOMEM PARA A MULHER
Homem odeia quando a mulher lhe chama de pobre, pão-duro, avarento. Ele ainda vê a sua virilidade como sinônimo de poder, de status social. É como se ele ficasse ofendido por algo que está fora dele, que não depende dele. Talvez, porque, por pura bobagem, acredita na mentira de que a mulher gosta mesmo de dinheiro (o perfil feminino anseia, na verdade, uma única coisa: se sentir admirado e desejado, não importando se o filme é de baixo orçamento, não tem nenhuma ligação com a opulência).
Não há como entender o quanto o macho se sente depreciado pela posse, o quanto se julga pelo fundo de sua conta. Tanto que a impotência costuma flertar com quem está desempregado.
Homem ainda dentro de si não se livrou da imagem retrógrada de provedor. Acha que vale nada se não está sobrando financeiramente. Precisa ostentar para ser, gastar para aparecer. Ainda age como uma criança birrenta numa discussão de relacionamento.
Dinheiro é compensação para a ala masculina, ou para a sua falta de beleza ou para a sua ausência de sensibilidade, o que cria distorções no envolvimento: enxerga interesse onde há bons sentimentos. Trata-se de uma desvalia paranoica, sempre pensa que alguém vai namorá-lo com segundas intenções. Jura que o amor pode ser comprado - não largou a idade medieval dos dotes.
Pior que as insinuações de pobretão, que terminam sendo indiretas sobre a sua sexualidade, para derrubá-lo numa briga, só mesmo os golpes que atingem em cheio os países baixos, como broxa ou pequeno.
Já, por outro lado, a mulher se preocupa mais com o seu caráter, o que demonstra o quanto é evoluída. Coloca-se na posição de insultada quando o homem lhe chama de falsa ou mentirosa. Mexe com os brios toda farpa que envolva respeito e reputação. Ela privilegia os valores espirituais da personalidade. Preocupa-se com a coerência de vida, com a sua honestidade, com o ato de praticar aquilo que fala. Tanto que qualquer insinuação sobre sexo não lhe faz cócegas, atacá-la afirmando que é mal-comida apenas lhe fará escolher melhor as companhias dali por diante. Nem mais críticas sobre a aparência, que lhe incomodavam antigamente, como gorda ou feia, causam danos.
Ofender uma mulher não dá para ser da boca pra fora, tem que oferecer provas para ela começar a ouvir.
Publicado em O Globo em 13/6/2018
Não há como entender o quanto o macho se sente depreciado pela posse, o quanto se julga pelo fundo de sua conta. Tanto que a impotência costuma flertar com quem está desempregado.
Homem ainda dentro de si não se livrou da imagem retrógrada de provedor. Acha que vale nada se não está sobrando financeiramente. Precisa ostentar para ser, gastar para aparecer. Ainda age como uma criança birrenta numa discussão de relacionamento.
Dinheiro é compensação para a ala masculina, ou para a sua falta de beleza ou para a sua ausência de sensibilidade, o que cria distorções no envolvimento: enxerga interesse onde há bons sentimentos. Trata-se de uma desvalia paranoica, sempre pensa que alguém vai namorá-lo com segundas intenções. Jura que o amor pode ser comprado - não largou a idade medieval dos dotes.
Pior que as insinuações de pobretão, que terminam sendo indiretas sobre a sua sexualidade, para derrubá-lo numa briga, só mesmo os golpes que atingem em cheio os países baixos, como broxa ou pequeno.
Já, por outro lado, a mulher se preocupa mais com o seu caráter, o que demonstra o quanto é evoluída. Coloca-se na posição de insultada quando o homem lhe chama de falsa ou mentirosa. Mexe com os brios toda farpa que envolva respeito e reputação. Ela privilegia os valores espirituais da personalidade. Preocupa-se com a coerência de vida, com a sua honestidade, com o ato de praticar aquilo que fala. Tanto que qualquer insinuação sobre sexo não lhe faz cócegas, atacá-la afirmando que é mal-comida apenas lhe fará escolher melhor as companhias dali por diante. Nem mais críticas sobre a aparência, que lhe incomodavam antigamente, como gorda ou feia, causam danos.
Ofender uma mulher não dá para ser da boca pra fora, tem que oferecer provas para ela começar a ouvir.
Publicado em O Globo em 13/6/2018
BEIJO BOM É DE OLHOS FECHADOS
O que eu farei para Beatriz, minha esposa, no Dia dos Namorados será somente para ela. Sem posts, sem fotos, sem vídeos. Toda surpresa e todo encantamento reservados aos seus olhos castanhos. Não existe nada mais poderoso na vida de um casal do que formar segredos, preservar a intimidade das juras e exercitar a memória a guardar as declarações. Em vez da propaganda do meu amor, ofereço a exclusividade do meu amor.
Crônica publicada em 12/6/2018
Crônica publicada em 12/6/2018
PARA SEMPRE NAMORADO
Não se pode perder de vista o namorado dentro do papel de marido. Ele é a base do relacionamento feliz.
O namorado é o menino do amor, o moleque do amor, o palhaço do amor. Ele deve ficar de tocaia na personalidade séria e aparecer de vez em quando para a sua mulher não ter certeza absoluta de quem é você.
Conhecer demais o outro é intimidade. Desconhecer um pouco é paixão.
Sem um quê de loucura, o amor não sobrevive. Temos que manter uma dose de inconsequência para sacudir a mesmice e desestressar os ritos da convivência e das contas em comum. Dê férias ao chato do matrimônio, que cobra, reclama e fiscaliza para o funcionamento da família.
Os casais avançam por explosões de tempo em tempo. Promova, portanto, um surto de declarações que sustentará a memória durante as dificuldades. É não esquecer o motivo primeiro de estarem juntos e dar novos motivos para continuarem enlaçados.
Lembra o que era capaz de fazer quando começou o namoro? Aquele desatino de gritar o nome dela na madrugada, quando ela, envergonhada, pedia silêncio para não acordar os vizinhos. Aquela fissura de inventar uma viagem de manhã só para se curtirem longe de todos. Aquela necessidade de chamar atenção: de pular na piscina de roupa, de entoar uma homenagem no karaokê, de ser o último a sair de uma festa e dançar até ficar descalço. Resgate a irreverência da época.
Não é propor tudo o que ela quer, mas mostrar o quanto ainda é surpreendente.
São gestos simples para indicar o enamoramento da pele.
Cochiche safadezas no ouvido dela, tire o seu par para dançar em pleno silêncio, dê um beijo de adolescente tentando bater o recorde de minutos, promova um strip que no mínimo será engraçado, crie uma disputa de tequila e limão em casa para ver quem cai primeiro, monte um pen drive com as trilhas da adolescência, organize um mural com as fotos da relação e renove os porta-retratos, compre sacolinhas para acondicionar os sapatos dela, preencha o teto com balões de gás, prepare um café da manhã e a desperte com bolinhas de sabão no rosto, esconda-se no guarda-roupa com presentes e provoque um susto de alegria. Banque o massagista, o motorista de plantão, o cozinheiro. Mude de profissão por um instante pela fantasia de agradar.
Depois, pode voltar à rotina, a sua esposa não será a mesma, estará sempre esperando, atenta, com olhos arregalados, a ressurreição do apaixonado.
Publicado em Jornal Zero Hora em 12/6/2018
O namorado é o menino do amor, o moleque do amor, o palhaço do amor. Ele deve ficar de tocaia na personalidade séria e aparecer de vez em quando para a sua mulher não ter certeza absoluta de quem é você.
Conhecer demais o outro é intimidade. Desconhecer um pouco é paixão.
Sem um quê de loucura, o amor não sobrevive. Temos que manter uma dose de inconsequência para sacudir a mesmice e desestressar os ritos da convivência e das contas em comum. Dê férias ao chato do matrimônio, que cobra, reclama e fiscaliza para o funcionamento da família.
Os casais avançam por explosões de tempo em tempo. Promova, portanto, um surto de declarações que sustentará a memória durante as dificuldades. É não esquecer o motivo primeiro de estarem juntos e dar novos motivos para continuarem enlaçados.
Lembra o que era capaz de fazer quando começou o namoro? Aquele desatino de gritar o nome dela na madrugada, quando ela, envergonhada, pedia silêncio para não acordar os vizinhos. Aquela fissura de inventar uma viagem de manhã só para se curtirem longe de todos. Aquela necessidade de chamar atenção: de pular na piscina de roupa, de entoar uma homenagem no karaokê, de ser o último a sair de uma festa e dançar até ficar descalço. Resgate a irreverência da época.
Não é propor tudo o que ela quer, mas mostrar o quanto ainda é surpreendente.
São gestos simples para indicar o enamoramento da pele.
Cochiche safadezas no ouvido dela, tire o seu par para dançar em pleno silêncio, dê um beijo de adolescente tentando bater o recorde de minutos, promova um strip que no mínimo será engraçado, crie uma disputa de tequila e limão em casa para ver quem cai primeiro, monte um pen drive com as trilhas da adolescência, organize um mural com as fotos da relação e renove os porta-retratos, compre sacolinhas para acondicionar os sapatos dela, preencha o teto com balões de gás, prepare um café da manhã e a desperte com bolinhas de sabão no rosto, esconda-se no guarda-roupa com presentes e provoque um susto de alegria. Banque o massagista, o motorista de plantão, o cozinheiro. Mude de profissão por um instante pela fantasia de agradar.
Depois, pode voltar à rotina, a sua esposa não será a mesma, estará sempre esperando, atenta, com olhos arregalados, a ressurreição do apaixonado.
Publicado em Jornal Zero Hora em 12/6/2018
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