segunda-feira, 31 de maio de 2010

ÉPOCA



A revista Época fez um especial sobre redes sociais, é sua matéria de capa. Apontou as 27 personalidades mais influentes na internet. Sou um dos escolhidos.


Revista Época, 30/05/2010
São Paulo (SP), Nº. 628, P. 96

sábado, 29 de maio de 2010

DIA DA OFENSA


Arte de Gustav Klimt


Brigamos quando não desejamos brigar. Existe paz e amor. Não existe paz no amor. John Lennon errou a equação.

Por isso, decidi que agora vou planejar uma briga com a namorada. Agendar uma briga. Arrumar uma data mensal para o inferno dos berros, choro e insultos. É o dia da ofensa no lugar das pequenas e irritantes DRs.

Em vez de avisar que pretendemos nos acalmar e ajudar, que somente pretendíamos conversar na boa, assumiremos que é uma guerra desde a primeira palavra. Dará no mesmo ao querer e não querer discutir.

Não será fácil, vamos rir dispersivos no início, haverá a inclinação para comentar algo do trabalho ou cafungar o pescoço, sentiremos fome, dependeremos de concentração e orelhas fervendo. Mas vale o sacrifício, trata-se de uma catarse necessária para empobrecer os recalques.

Prefiro uma mulher que me ofenda tudo num dia do que uma mulher que me ofenda um pouco por dia. É melhor. Mais sadio. Menos insano.

Desde que os casais aceitem uma regra básica: não vale colher insultos durante o entrevero para cobrar depois.

Pode falar as maiores perversidades e mentiras nos 90 minutos do confronto, incluindo intervalo e troca de lado na cama (gritaria que não dura um jogo de futebol indica o fim do amor). Pode juntar suspeitas avulsas, perguntas ancestrais e rumores antigos. É uma promoção: só nome feio e ofensa de baixo calão. Até xingar a mãe é permitido.

A única exigência é respeitar o território da hostilidade, fazer um círculo de giz no espaço e no tempo e permanecer naquela roda. Nada sai do contexto. Não vale embrulhar salgados e impropérios para a manhã seguinte. Deve-se comer somente na festa da raiva. No instante da cólera. Com sangue quente.

O grande problema dos atritos domésticos é que o insulto de uma briga passa a ser transportado para a seguinte e para a seguinte. No fim das contas, a batalha é uma só que nunca terminou. Uma gripe mal-curada que gera a vontade de cuspir na próxima gripe.

Caso reunirmos uma noite para limpar o pulmão, cansaríamos de tossir e bufar. E o suspiro reencontraria a brisa e pediria para andar de mãos dadas com o beijo.

Feito esse passo, agora é o momento de lavar a honra do ciúme.

Pior do que ciúme é a falta de ciúme. A indiferença é uma doença muito mais grave. Alguém que não está aí para o que faz ou não faz, para onde vai e quando volta. De solidão, chega a do ventre que durou nove meses.

Tão cansativa essa mania de ser impessoal no relacionamento, de ser controlado, de procurar terapia para conter a loucura. Loucura é não poder exercer a loucura.

Permita que sua companhia seja temperamental, intensa, passional. As consequências são generosas. Ela suplicará o esquecimento com mimos, sexo e delicadeza. O perdão é sempre mais veemente do que o rancor.

Repare que no início do namoro todos são descolados, independentes, autônomos. Aceitam ménage à trois, swing e Chatroulette. Não caia, é disfarce, medo puro de desagradar.

Se minha namorada arde de desconfiança, agradeço. Surgirá a certeza de que se importa comigo.

A vontade é abraçá-la com orgulho e reconhecimento, como um aniversário secreto. Às vezes ela cumpre seu ciúme, às vezes ela satisfaz um capricho e atende minha expectativa de ciúme. O importante é que não falha.

Com uma mulher ciumenta ao lado nunca estaremos isolados, nunca estaremos tristes, nunca estaremos feios. Deixo que ela mexa em meu Orkut, deixo que ela leia meus e-mails e chamadas no celular, deixo que ela cheire as minhas camisas, deixo que ela veja meus canhotos e confira os cartões de crédito (com sua revisão, nem dependo de contador, é improvável um engano nas faturas).

Facilitarei o acesso às máquinas, devidamente abertas e ligadas em cima da mesa, e tomarei banho para não incomodar. No jantar, esclarecerei qualquer dúvida.

Perigoso é não responder e deixar a namorada imaginar. Entre a realidade e sua fantasia, mil vezes contar o desnecessário. Estarei em lucro. Não faço nem metade do que ela pressentiu.

Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Donna, domingo (30/05/10), p.19
Porto Alegre (RS), N° 16351

quarta-feira, 26 de maio de 2010

VOLÚVEL

Arte de Tereza Yamashita


Não gostava da escola, mas do cheiro de caderno novo, da caixa de lápis de cor com as pontas finas, dos livros com as páginas grudadas. Do primeiro dia de aula em que desfraldaria o material e descobriria se a turma permaneceria a mesma.

Mantenho o deslumbramento pelas estreias. Curto me inscrever em academia de musculação. Pago adiantado dois meses para doer os bolsos e fundamentar a disciplina. Marco o compromisso de madrugada, disposto a não correr riscos de cruzamento com outras atividades. Aviso que não vou de carro, e sim de bicicleta para fortalecer o aquecimento. Fico excitado com a possibilidade de viver até os oitenta anos, morar em Veranópolis e participar das estatísticas de longevidade do lugar.

Com a matrícula na mão, passo a noite inteira comentando a guinada nos hábitos, o quanto não irei adiar mais os cuidados com o corpo, que a intenção nem é alcançar um porte sarado, inadequado ao meu tipo físico, quero procurar mais saúde nos hábitos. Eu me ironizo, resmungando que não dava para continuar assim, que meu peitoral apenas fica rijo de tensão. Desfio, então, o típico discurso de morrer bem velhinho e tarado. Não percebo que é o que todo sedentário diz.

Minha namorada Cínthya, que corre oito quilômetros no domingo e realiza ginástica três vezes por semana, pensa que finalmente tomei jeito.

Faço o exame médico, compro halteres, roupas e tênis, redireciono a casa a atender às exigências esportivas. Compro até espelho no quarto para treinar nas folgas e não sonegar os movimentos dos abdominais.

No dia inaugural, é uma maravilha, já falo como um atleta, com postura ereta e controlando datas das próximas provas de maratona na internet. No segundo dia, chego trinta minutos atrasado (é inverno e dormi tarde) e encurto com pesar a sequência de exercícios. No terceiro dia, já não compareço pela correção acumulada dos trabalhos na universidade. No quarto dia, academia? Que academia? Já foram oito em cinco anos. E desisto sem ao menos perguntar o nome do professor.

Não duro em meus planos, a não ser que sejam necessidades. Mas nunca transformo objetivos em necessidades. Sou fogo de palha, um tipo curioso: o volúvel previsível.

Foi igual com curso de italiano, ioga, dança de salão e tênis. Eu me apresentava aos colegas, justificava a mudança gloriosa de costumes e logo abandonava os planos culpando o excesso de trabalho.

As lorotas são de um viciado, que defende a recuperação em casa e anuncia que o fim das drogas é mera questão de força de vontade.

Desisti de me enganar quando tentei subornar uma máquina de farmácia. Atingi o fundo do poço.

É aquela branquinha, com visor verde, que mede o índice corporal a partir da altura e do peso.

O estabelecimento estava vazio, aproveitei a quietude das prateleiras, o tédio dos funcionários para consumar a fraude. Pisei no tapete da balança gigante. A voz metálica ordenou que colocasse R$ 1. Perguntei se ela não tinha filhos para sustentar e não aceitaria receber quatro vezes a quantia. Abri a niqueleira ruidosa e mostrei a tentação. Como ela silenciou, enfiei quatro moedas garganta abaixo.

Orgulhoso da propina, ergui o peito e esperei o canto.

Ela meio que engasgou, piscou como um brinquedo Genius em sua última fase, deve ter sofrido uma crise de consciência, mas colocou a língua para fora.

Peguei o bilhete:

140 kg, 1m50, IMC 62,22…

A única coisa que irá morrer de velho em mim é o discurso.




Crônica publicada no site Vida Breve

segunda-feira, 24 de maio de 2010

DICAS


Publicado no jornal O Globo
Segundo Caderno, coluna Gente Boa, p. 5
Joaquim Ferreira dos Santos
Domingo (23/5/10), Rio de Janeiro (RJ)

sábado, 22 de maio de 2010

INTIMIDADE DOS DEFEITOS

Eu e minha namorada Cínthya Verri, autora do blog Matando Carpinejar, participamos do programa Galera de Atitude, da TVE/RS (exibido em 20/05). Conversamos sobre amor, amizade e ciúme. Um calor danado no estúdio.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

LONGE DE UM LAR

Arte de Tristan Tzara



Casal inteligente enriquece junto?

Por favor, me dá um desconto.

Ter objetivos em comum separa o casal. É confundir a relação com um negócio. Daí não será um namorado, mas um sócio. Daí não será uma namorada, mas uma investidora.

Não há engano maior do que partilhar metas. Trocar a televisão pelas planilhas do Excel. O que parece uma referência de parceria, tampa de margarina, é um se aproveitando do outro.

Estão preocupados em não perder tempo, em render o máximo desempenho com o mínimo esforço, em aproveitar as chances e as ocasiões para eliminar as exigências domésticas. Não têm afinidades, a não ser a vontade de crescer profissionalmente.

Invente de retirar o interesse dos dois, não sobrará coisa alguma, pedra sobre pedra, cartão sobre cartão. Não terão assunto. Adoram a distância para simular saudade. A única sintonia é a carreira, o que um oferece e o segundo aceita, não vão partilhar o futuro. O mercado é muito instável para um casamento. Afinal, é preciso ser livre para atrair ofertas.

Alguns podem até delirar que é amor, chegue perto com o olfato: o perfume excessivo é ambição. Dividir o poder não significa cumplicidade, é adoração de si. A paixão é o espelho da obsessão. Um espelho que nunca fica embaçado.

É conveniente amar a prosperidade de um homem ou sucesso de uma mulher. Tomar carona.

Amor é empobrecer junto, se for o caso. É ser inútil e continuar tentando. É não ter medo de começar com um colchão no chão e com as mesas dos joelhos. Não aguardar o momento, ficar ao lado até que ele venha ou não venha. Suportar as dívidas, os credores, as piores fases e encontrar humor dentro das contas.

É admirar mesmo sem qualquer identificação imediata. Respeitar os caminhos diferentes, opções distantes, vocações opostas e procurar entender para conversar e recolher os farelos de pão e arrumar a gola na hora de partir.

Não se escolhe uma companhia por aquilo que ele faz, porém por aquilo que deseja. Por aquilo que ele guarda no desejo.

Sempre estranhei casal que se esbarra no corredor de casa e passa reto. Encontra seu par e não diz nada. Como dois desconhecidos, mesmo que já tenham se visto há um minuto. Alheios, fantasmagóricos. Não contraem culpa pela desatenção, acham natural ver e não ver, estar ocupado e seguir adiante. Não se intrigam de ternura, não se espantam com a falta repentina. Não mencionam um toque. Não se pronunciam com um beijo ou um abraço. Não se provocam com as perguntas irritantes e tão necessárias: "O que está pensando?" ou "O que está fazendo?"

Estão longe de um lar. Suas casas são escritórios.

DUELO NO ESCURO

Inter na semifinal da Copa Libertadores.

Os torcedores passam a procurar coincidências com a campanha vitoriosa de 2006: o time também perdeu o Gauchão, enfrentou o São Paulo e Chivas estava entre os quatro finalistas. Coisas que somente a sorte explica, como o gol de Giuliano no final da partida contra o Estudiantes.

Após muito Jack e tequila na madrugada, Rolo Compressor analisa a borra do café.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

AUTÓGRAFOS DE MULHER PERDIGUEIRA


4/6 (sexta), 19h30 - Rio de Janeiro (RJ)

Debate com a cantora Ana Carolina
Sessão de autógrafos do meu novo livro de crônicas Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 336 páginas)

Livraria Argumento
(Rua Dias Ferreira, 417)
21 2239-5294


7/6 (segunda), 19h30 - Porto Alegre (RS)

Debate "O AMOR É SIMPLES", com Martha Medeiros e José Pedro Goulart
Sessão de autógrafos do meu novo livro de crônicas Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 336 páginas)

Livraria Cultura
Bourbon Shopping Country
(Av. Túlio de Rose, 80 - Loja 302)
51 3028-4033

OFICINA LITERÁRIA DE TWITTER NO RJ

Arte de Peter Blake


O QUÊ: Conduzo uma inédita oficina de literatura no twitter, aperfeiçoando a síntese e a concisão do pensamento. Pretendo mostrar a importância do aforismo, da frase de efeito e das máximas para criar um espaço poético, bem humorado, particular e sensível nas redes sociais. A partir de brincadeiras e jogos interativos, o propósito é contrariar certezas e desafiar clichês. Acredito que 140 caracteres não são uma limitação, mas um afrodisíaco na arte do corte e da captura do que é essencial a ser escrito. É uma oportunidade criativa para sugerir mais e acentuar a ambiguidade e a duplicidade das experiências do cotidiano.

Serão trabalhados versos e minicontos, assim como o estilo de grandes frasistas como Otto Lara Resende, Antonio Maria, Millôr, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Mario Quintana e de pensadores como Karl Kraus, Chamfort, La Rochefoucauld, Rousseau e Pascal.

QUANDO: 4/6 (sexta), das 14h às 17h, e 5/6 (sábado), das 9h às 12h.
VALOR: R$ 200,00
ONDE: Estação das LetrasRua Marquês de Abrantes, 177 Loja 107
Flamengo Rio de Janeiro/RJ
CONTATO: (21) 3237-3947
estacaodasletras@estacaodasletras.com.br

ESTAREI EM BRASÍLIA

Arte de Vicente Carpinejar


Taguatinga (DF)
27/5 (quinta), 8h

Debate com João Gomes e Fábio Yabu
Mediação: João Bosco

Local: Auditório do Colégio e Faculdade Projeção – Prédio II
(CNB 14, Lotes 7/9)


Brasília (DF)
27/5 (quinta), 14h

Debate com Nurit Bensusan, Marcelo Duarte e Bruno Berlendis.
Mediação: Lucília Garcez

Local: Auditório do Colégio Sigma
(SGAS 912 SUL - Conjunto A)