terça-feira, 10 de julho de 2012

QUANDO DEIXEI DE SER CRIANÇA

Arte de  Frankenthaler

Foi o amigo e músico Humberto Gessinger, do Engenheiros do Hawaii, que me incomodou com essa pergunta.

- Fabrício, quando você deixou de ser criança?

Eu primeiro ouvi sua resposta. Humberto confessou que abandonou a infância ao apanhar a bola debaixo de um Maverick vermelho. Como era feio o carro visto daquele ângulo. Feio, tão diferente da lataria linda e brilhosa.

Fiquei matutando: quando realmente abandonei o olhar de menino?


Ouça meu comentário de terça (10/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Fernando Zanuzo:

segunda-feira, 9 de julho de 2012

DE PAI PARA FILHO


"Valorizo reverências antigas ao sol. Uma delas é buscar o jornal debaixo da porta. Meu pai era assinante. Meu avô era assinante. Eu me senti adulto não quando tirei carteira de motorista, não quando expedi o título de eleitor, não quando morei sozinho, mas na hora em que assinei o jornal próprio. Orgulho bairrista, que significava emancipação no mágico dicionário familiar."

Leia meu ensaio na revista Seleções Reader`s Digest sobre meu dia-a-dia na web.

CDF

Arte de Paul Klee

A criança superdotada é a que mais sofre em sala de aula, não aquele que tem dificuldade de aprendizado.

Ela tem que esperar a turma aprender para seguir adiante, suportar as negativas da professora na hora de responder as perguntas e aturar o boicote dos colegas quando não passa cola nas provas.

Ouça meu comentário de sábado (7/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com apresentação de Fernando Zanuzo e Georgia Santos:


domingo, 8 de julho de 2012

MEUS NAMOROS DURAM APENAS DOIS ANOS, É MALDIÇÃO?

Arte de Cínthya Verri

“Fisioterapeuta, 32 anos, moro com meus pais, o que me deixa incomodada. Sou de aquário, vivo de amor: pelo próximo, pelos amigos, pais, namorados... Dizer que meus namoros não dão certo é mentira, mas eles nunca passam de dois anos! Sou carente, vivo à procura ou à espera de um grande amor. Josi”.

Querida Josi,

Morar com os pais infantiliza seus namoros – este é o seu grande problema.

Ainda pede permissão, no inconsciente, para a família. Não tem atmosfera para expor as frustrações e os desejos súbitos, uma sala com sua decoração e modos, para se apresentar inteiramente. Um lugar para amar com liberdade e até brigar. Brigas sufocadas aniquilam o relacionamento mais do que as declaradas.

Todo instante requer delicada diplomacia para agradar os parentes e, ao mesmo tempo, demonstrar arrebatamento nas histórias particulares. Servir o passado e o futuro é impossível – cabe escolher seu destino.

A família sempre está perto olhando seus passos, analisando quem chega. Sua residência é superpovoada de curiosidade, quase uma romaria a uma santa, idêntica a uma torre de Rapunzel, cheia de provas e desafios.

Jogue-me suas tranças, Josi. Ou apague as velas do bolo. Está próxima de realizar o sonho da Disney, não da festa de casamento, compreende?

Seu espaço afetivo é um cativeiro de virtudes, limitado para sua idade. Vive questionada, e deve aceitar a invasão familiar nos seus assuntos porque não resta outra opção. Não há namoro que perdure. Os companheiros aguentam os dois anos do estágio probatório da paixão. E, pelo jeito, são bem esforçados e aplicados. Mas terminam obrigados a conviver com sogro e sogra. Não enxergam perspectiva de emancipação. Temem que o relacionamento seja a sombra eterna de uma mesada.

Você coloca sua felicidade nas mãos paterna e materna. Não procura o amor, espera um amor. Não pretende nem sair de casa. É muita moleza.

Que tal tirar seu título amoroso e votar em seu próprio candidato?

Abraço com toda ternura,
Fabrício Carpinejar

Querida Josi,

Era uma vez um viajante que, por acidente, sentou para repousar embaixo de Kalpataru, a árvore dos desejos. E estava com fome, por isso pensou: “Como eu queria comer!”.

No momento em que a ideia de comida surgiu na mente dele, o alimento imediatamente apareceu, e o homem estava tão faminto que nem pensou a respeito. Comeu tudo. Então sentiu sono.

Quando deitou na grama, o pensamento surgiu: “O que está acontecendo? Não vejo ninguém aqui. A comida simplesmente apareceu - talvez haja fantasmas fazendo isso comigo!”.

De repente, apareceram fantasmas. Ele ficou com medo e pensou: “Agora eles vão me matar!”. E eles o mataram.

Josi, talvez você veja aquilo que pensa. E, por isso mesmo, talvez seja o que faz acontecer.

Você tem grande percepção sobre o que precisa fazer para interromper o ciclo, mas não age. Afirma que percebe abandonar as próprias necessidades e deixá-las para o outro se responsabilizar sabendo que isso não funciona.

O amor não é feliz. O amor é o amor: uma geografia complicada, desordenada e que não obedece a comandos. Não tem data de validade, não tem período de expiração. É um terreno duro, que exige conversa e recuperação todos os dias.

O amor aposta no resgate, não tem nenhuma sobrevida. É um paciente terminal, um corpo dependente de cuidados para suas atividades mais corriqueiras. Ele não anda sozinho.

Viver junto com alguém não é esporte: é fisioterapia. Todo cuidado é pouco. Qualquer movimento brusco e perderemos todo o trabalho de meses. Amar é para artesãos.

Você já sabe cuidar de seus amores mais autônomos. Se quiser mais, será preciso deixar os pensamentos de lado e cumprir com o que você sente.

Beijos meus e coragem sempre,
Cinthya Verri


Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Caderno Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 08/07/2012 Edição N° 17124

Preservamos a identidade do remetente com nome fictício.
Nossos palpites amorosos não substituem consulta, terapia, exorcismo e qualquer tratamento técnico.
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sexta-feira, 6 de julho de 2012

ESPOSAMANTE

Arte de Diego Rivera

Sou contrário ao marido chamar a esposa de mãe. E a mãe chamar o marido de pai. Mesmo que seja para educar as crianças, facilitar o ritmo de casa. 

Não podemos subestimar a força das palavras.

É enfraquecer os laços, complicar o romance, esfriar o contato em formalidade.

Não há sexo que aguente. É transformar a cama no divã. É colocar tragédia grega na Sessão da Tarde.

Ouça meu comentário da manhã de sexta (6/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Fernando Zanuzo:

quinta-feira, 5 de julho de 2012

MÁQUINA RECEBE LAERTE

O cartunista Laerte surgiu em meu programa A Máquina, na TV Gazeta. Materializado em minha frente com sua inquietação crítica e sexual.

Elegante de saia e pernas para fora, reprisou momentos importantes de sua trajetória. Um deles quando foi preso pelado na USP, em 1971.

O bate-papo teve sua exibição na noite de terça (3/7).

quarta-feira, 4 de julho de 2012

PÃO-DURO

Quando homem oferece flores de campo, está buscando economizar.

Já é um sinal do que virá. Avareza é o oposto da paixão.

Em DRnaTV, eu e Cínthya Verri desamarmos truques e fantasias sobre namoro e casamento.

O quadro acontece no programa Tudo+, da TVCOM. Confira o elétrico bate-papo da noite de terça (3/7) :

TEORIA DAS CORES

Arte de Cínthya Verri

Todo homem casado é daltônico.

Ele se torna uma vítima da dependência amorosa. A esposa confunde a cabeça do sujeito a ponto dele não diferenciar mais o que é o vermelho do verde, o que é o castanho do cinza. Pensa algo e ela avisa que a cor é outra. Nunca coincide pensamento com realidade. É uma conversa de enlouquecer Romero Britto.

No matrimônio, o mundo se embaralha como pontas dos lápis no fundo do estojo de madeira. Não tente apagar que aumentará a mistura.

A dúvida desemboca em desconfiança e termina em desvalia. O marido questiona onde está seu casaco marrom. A mulher lamenta que não sabe, ajuda a procurar, ambos esquadrinham a casa inteira e nenhum sinal do agasalho.

No último sopro da expedição, o homem localiza a peça no próprio cabide. Tranquila. Como se ela nunca tivesse saído dali. Afinal, sempre perdemos aquilo que não muda de lugar.

— Aqui, amor, achei!
— Mas esse casaco não é marrom?
— É o quê?
— É amarelo!
— Amarelo?

Ela fala com tanta determinação que você fica encolhido e se isola na insignificância monocromática. Desiste de rebater e de explicar, inclusive atinge o extremo de pedir desculpa. Não compreende como passou a vida desconhecendo as matizes certas. Como que atravessou o Ensino Fundamental sem rodar? Como que pintou a cara do Bozo nas cópias xerox das áreas de recreação? Será que os professores e familiares tiveram compaixão?

A partir desse momento fatídico do casamento, nada mais confere. É uma humilhação constante que mina as estruturas mentais e culturais.

Pergunta para a esposa onde está a calça preta, ela confessa que é azul. Pergunta para a esposa se viu o blusão laranja, ela diz que é vermelho. Pergunta onde foi pendurada a cueca, ela lembra que é lilás.

Diante do analfabetismo súbito, decide decorar as falhas e convertê-las num padrão, num segundo idioma, num código bíblico.

Marrom = amarelo
Preto = azul
Laranja = vermelho
Verde = lilás


Agora demora a responder as questões mais elementares. Desenvolve um raciocínio mais lento e longo. Observa qualquer aparência com curiosidade mórbida, precisando consultar a cartela de cores e indicar seu equivalente. Tal casa de câmbio, troca o que achava antes por aquilo que sua companhia estipulou como verdadeira.

Quando memoriza a nova ordem, sua mulher muda de lado e argumenta que o amarelo é amarelo e o preto é preto e o laranja é laranja.

Mas já era tarde demais para reaprender a teoria das cores.

Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira

terça-feira, 3 de julho de 2012

O CÂNCER QUE LEVOU SEU AMOR

Arte de Pablo Picasso

Meu amigo Antonio ficou viúvo. Sua esposa morreu de câncer de pâncreas. Algo devastador, que derrubou em poucos meses a companhia de temperamento forte, risonho e invencível.

Ele não contou com tempo para se preparar e se despedir. O luto veio como um susto. De repente, depois de 30 anos de casamento, ele se acordava sozinho e tomava café sozinho e conversava sozinho e se desesperava sozinho. Antes, até sofrer, sofria com ela.

Sua primeira atitude, assim que depositou seu coração na pedra do São Miguel e Almas, foi limpar a casa, tirar os objetos de Elisa de perto dos olhos. A casa restou pela metade, uma residência casada com móveis de solteiro. Pôs fora as roupas, os cabides carregados de ombreiras, recolheu os vasos e bibelôs, arregimentou perfumes e produtos de beleza, esvaziou as prateleiras. Não esperou doar para caridade. A dor é puro pânico, egoísta, precisa se libertar da palavra, não consegue ser generosa.

Empilhou caixas e caixas de pertences valiosos na frente do portão, para o lixeiro levar. Em segundos, despachou o que o casal acumulou numa vida inteira. Quando morre a figura de nosso amor, mas o amor não morre, não há o que escolher, tudo é lembrança sangrando de novo, somos crianças mexendo, a cada instante, em cascas de ferida.

Antonio circulava pelos aposentos como um fantasma. Já podia, porém, observar por onde andava. Não tinha que pagar mais pedágio ao tocar em qualquer objeto. A faxina o protegeu dos próprios atos falhos. Ajudava o esquecimento a esquecer.

O espaço dobrou de tamanho e intensidade: vazio, deserto, imenso. Sem nenhuma foto ou quadro na parede. Sem nenhum risco de contato com o passado conjugal.

Mas, ao mexer no armarinho do banheiro e buscar o barbeador, encontrou a escova de cabelos de Elisa no fundo da gaveta.

A escova estava repleta de cabelos da Elisa. Cabelos vivos de Elisa morta.

Ele odiava limpar a escova antes de se pentear, não considerava justo, já que era fruto do descuido dela.

Agora não. Ele começou a suspirar devagar para não chorar. O suspiro é o choro da boca.

Não aceitava que a escova tivesse sobrevivido a sua blitz. Odiou aquele acessório com todo amor e amou com todo ódio.

Nas cerdas da escova, brilhavam cabelos castanhos e longos que ele conhecia como ninguém.

Ele sentou-se no sofá e aproximou o nariz da escova, chegou a raspar a pele, para recuperar o perfume do pescoço de Elisa.

Só que predominava o cheiro de madeira do cabo mais do que o incenso de flor de sua memória.

Como um botânico aflito diante de espécie rara, tratou de tirar um por um os fios da escova.

E fez uma trança dos cabelos de sua mulher morta.

Amarrou a mecha com um laço preto e inspirou longamente sua fragrância. Nebulizou o rosto até reaver o gosto do beijo de Elisa. Nunca o último beijo.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 03/07/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17119

HOTEL MENOS CINCO ESTRELAS

Arte de Edward Hopper

Por que o hotel tem Bíblia?

Em alguns casos, ele é tão ruim que você só pode rezar.

Viajo muito, quase dez cidades diferentes por mês e já sou um especialista do hotel chinelão.

Ouça meu comentário na manhã de terça (3/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Fernando Zanuzo: