quinta-feira, 21 de março de 2019

PARA O AMOR PLATÔNICO VIRAR REALIDADE


Tímido precisa de certeza para se declarar. Ou provocar uma situação para que o outro se declare. O ideal é sugerir a ideia de namoro de forma indireta e bem humorada, para testar a audiência e a receptividade do coração desejado. Apresento cinco modos de soltar a isca e esperar o puxão do anzol.

SONHO

Diga que teve um sonho estranho. “Sonhei que estávamos namorando, acredita? É que queria dividir sorvete comigo, mas eu respondi: tudo bem namorar, mas o sorvete é de cada um, tá?”

Desse jeito, você faz o candidato se acostumar com o clima de namoro, e ainda defende a independência da relação. O sorvete é um disfarce engraçado: parece que você até aguenta namorar (não parece um oferecido), desde que cada um mantenha a sua individualidade. Soa inteligente.

ESTOU BRINCANDO?

Puxe papo como amigo, sempre com a hipótese de estar brincando caso não tenha acolhimento. Proponha beber junto no dia dos namorados, já que ambos estão solteiros, e se ofereçam presentes de gozação. Só para não ficar de fora da comemoração da data. Vá que pinte um clima. Se o outro não aceitar a ideia, afirme que era uma piada. Truque da cartola: falar sério brincando.

CONFUSÃO

Invente que os colegas colocaram na cabeça que você está apaixonado. Pergunte para a pessoa de seus sonhos se ela falou alguma coisa para eles, se deu a entender que há algo mais do que a amizade que um tem pelo outro. Crie intriga, mostre-se espantado e preocupado, para, no fim, concluir que não é uma má ideia, que poderia mesmo se apaixonar desde que contasse com uma chance.

FLORES

Mande flores para o endereço de seu amor platônico. Coloque “anônimo” e faça charadas: se você me descobrir, posso jantar no Dia dos Namorados. Meu celular termina com tais números XXXXXX668 (por exemplo). Deixe a pessoa pirar. Se ela desvendar o enigma, é que tem grandes chances de saber há muito tempo que você está a fim dela. Descobrirá que ninguém ama plenamente (e impunemente) em silêncio.

CONTRÁRIO

Uma grande estratégia para tirar a temperatura é fazer o contrário da própria emoção. Realizar o oposto para ver qual será a reação. No meio da conversa, lamente: A gente nunca funcionaria como casal, né? Somos muito diferentes. Eu gosto de pizza calabresa e você odeia pimenta...

No encontro despretensioso, aproveite para mostrar tudo o que conhece do outro. Tudo o que aprendeu em segredo da companhia - no mínimo, ela se impressionará com a sua atenção e contabilizará pontos no quesito cumplicidade.

Crônica publicada em 11/6/2018

SELFIE DE NOSSO TEMPO

O olhar não sai mais do chão.

Enquanto caminhava pela minha rua, todos que passaram por mim não me viram. Tanto faz ser de carne ou invisível. Tanto faz. Poderia trajar biquíni ou andar com as vestes reluzentes de rei mago, tampouco provocaria escândalo.

As pessoas se fixavam em seu celular. Aguardavam um carro de aplicativo, respondiam uma mensagem, telefonavam para alguém. Ninguém caminhava de verdade. Sugados pela realidade virtual de seus dedos, não interagiam, não cumprimentavam, não poderiam sequer dizer a sua localização precisa.

Largaram a sua residência, mas não as preocupações de suas redes sociais.

O celular está nos encurvando. Não duvido que retomemos a postura de primatas.

Tudo é horizontal, nada é mais vertical.

Não observamos o alto dos prédios, o formato das nuvens, a posição das estrelas. Não procuramos acompanhar o rasante de um pássaro e a tapeçaria dos fios telefônicos. Não espiamos se há ninhos nas árvores e casinhas de joão-de-barro nos postes de luz. Não definimos se irá permanecer o sol na manhã seguinte pelo horizonte avermelhado.

A bússola morreu dentro do relógio. O que vale são números digitais. Poucos conhecem as horas pelos ponteiros.

As crianças não estão mais se situando pelas constelações. Algumas desconhecem até as fases da lua.

Não procuramos mais Órion e Cão Maior. Não mais nos surpreendermos com as Três Marias. Não mais rimos quando achamos Touro e confirmamos que o seu desenho luminoso condiz com o animal. A noite vem sendo uma praia deserta, com seus grãos estelares jamais pisados pelas nossas pupilas.

Como se o nosso mundo fora reduzido a altura das mãos, como se tivéssemos eternamente cinco anos, com a estatura entre a cama e a mesa.

Estamos mais próximos da cova do que do céu. Mais próximos da morte do que da esperança.
Se aparecessem anjos voando pelos telhados, não seriam percebidos. Levitariam anônimos pelas chaminés. Milagres não chamariam atenção. Só acreditamos em posts e vídeos, não naquilo que acontece em nossas janelas.

Perdemos a capacidade de olhar nos olhos de quem amamos. É muito alto, muito fora do perímetro do aparelho.
Temos medo de encarar o que é vivo e intenso, o que pede ajuda e abraço. Olhar nos olhos é dizer alguma coisa, é romper o silêncio de nossos casulos.
Desaprendemos a nos reconhecer no outro. Somos distantes mesmo próximos. Nosso espelho é a selfie, não mais o amor.

Publicado em Donna ZH em 10/6/2018

DEI A MINHA METADE DA LARANJA

Quando decidi me casar na igreja com Beatriz, não estava realizando um capricho meu ou dela, tínhamos a convicção de que seria um gesto para toda a vida. Pois, no religioso, só se casa uma vez.

Naquela hora, estávamos assumindo um compromisso para o resto de nossos anos. Um laço pensado, pesado, sério, infinito. Sem possibilidade de recuo. Sabíamos que não podíamos nos enganar.

Não era um jogo de cena ou uma demonstração de poder, pelo contrário, correspondia a uma definição de humildade: não importa o que aconteça de errado ou de ruim na relação, não usaríamos mais a porta da rua para resolvermos os dilemas. Terminar não existia mais como saída fácil das crises. Ninguém nos obrigava a nada, elegemos um e o outro como vocação e também trabalho: tornar-se o melhor possível.

O matrimônio nos impedia claramente a infidelidade, estabelecia a concordância da monogamia, a recusar o envolvimento com pessoas diferentes, a alimentar o prazer egoísta, a mentir os pensamentos e desejos. Não saciávamos um dos objetivos da vida, como plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Não nos iludimos pela paixão, a ponto de apressar o altar e aprisionar os nomes na certidão do cartório.

Queríamos aquilo, queremos aquilo, é a nossa constante liberdade. Vou envelhecer com a Beatriz, vou prosseguir ao seu lado para sempre, dia por dia, por mais que poucos acreditem no amor eterno. Basta apenas que eu e ela acreditemos.

Não trocamos uma promessa, porém antecipamos a nossa realidade das próximas décadas.

Casar não é uma leviandade, uma aposta com o destino, uma aventura bêbada a Las Vegas, com direito a arrependimento, ressaca e pedido de desculpa. Não dá para dizer depois que foi mal. Talvez seja a grande responsabilidade da experiência adulta, porque ela me concedeu a maior parte da vida dela, o que não é pouca coisa. Mantenho em minha mente o alto valor de sua companhia. Ela poderia permanecer sozinha, divertindo-se com a sua rotina, mas confiou a mim o poder de seu futuro. Assim como realizei a mesma renúncia das distrações pela fé em comum. Preciso ser atento o dobro do que eu era para não fazê-la infeliz e ressentida. Que, daqui a trinta anos, ela se recorde da opção acertada de me eleger entre tantas alternativas que contava para ser feliz.

É costume o solteiro brincar que busca a sua metade da laranja, mas ninguém pretende descascá-la para o outro. Ninguém pretende sujar as mãos. Pode ser tangerina, e o carinho de abrir a casca de cheiro forte e repartir os gomos, com o capricho de tirar os fios da parte branca. Pode ser maçã, e o desenrolar da casca espiralada com a faca, tendo o cuidado de retirar as sementes.

Dê a metade de sua fruta, em vez de ficar procurando a outra metade. Casamento é dividir o que se tem, multiplicar o suco no beijo. A árvore crescerá de novo e de novo dentro do coração do casal, se a palavra não foi da boca para fora, se a palavra tinha raiz.

Crônica publicada em 10/6/2018

HOMEM-AÇOUGUE E HOMEM-PADARIA

No amor, cada vez menos merece atenção o homem-açougue. Aquele que se dedica ao sexo, e mais nada. Ele surgirá como o pretendente ideal, já que não fica em cima, não pressiona, não telefona, e bate em sua porta só quando começa a sentir saudade. Tem o dom da medida certa. Demonstra ser completamente resolvido e arejado. Quer ir com calma, sem planos. Despertará a sua libido e os seus sonhos mais selvagens. Será um grande parceiro para viagens e aventuras. Não definirá nunca o que ele está pensando e qual o seu próximo passo. O mistério aguçará a sua curiosidade.

Apesar da tentação, enfrente a coragem de descartá-lo. Mantenha distância do seu cutelo: trata-se de um conquistador serial, não contará com a mínima piedade para amputar os anéis e a esperança. É interessante porque está desinteressado em você. Não lhe procura com ansiedade, pois está ocupado em namorar outras pessoas. Seu tempo livre é o tempo que sobra.

Por outro lado, cada vez mais deve ganhar destaque o homem-padaria. O homem dos doces, do café da manhã, do pãozinho quente, disposto a gentilezas e agrados. A princípio, vai parecer grudento, piegas, sensível demais. Aguente as quatro primeiras semanas de dependência e declarações, não grite quando receber mensagens de bom-dia às 6h da manhã, não bloqueie quando ligar seis vezes. Faça yoga, feng-shui, respiração com abdômen. Eu sei que não é o tipo mais excitante, lembrará mais os seus melhores amigos do ensino fundamental do que os candidatos sérios de suas fantasias. Mas o enjoo passa com a rotina e ele deixará de provocar antipatia. Começará até a rir de seus dramas, de seus atropelos, do excesso apaixonado e da sua pressa por compromisso.

Reconhecerá, pouco a pouco, o prazer da lealdade e a constância da fidelidade. Daí mudará o seu condicionamento sexual pelos canalhas e cafajestes, a sua predileção pelo perigo, o seu entendimento de amor difícil, a sua atração pela recusa. Amará quem lhe ama, algo estranho, tão afeiçoada antes a amar quem lhe negava. Terá recompensas por aguentar a barra inicial. Ele providenciará sopa quando estiver doente e dançará coladinho nas noites de saúde.

Os melhores homens no início são os piores no final. Os piores homens no início são os melhores no final.

Crônica publicada em 07/6/2018

DEDICAÇÃO


Há algo melhor que o autógrafo do autor: a dedicatória do leitor. Quando o leitor autografa o livro como se fosse seu. Quando o leitor escreve uma cartinha na folha de rosto para alguém especial. Quando o livro vira presente depois da leitura. Quando o livro é dado, não emprestado, pela necessidade de dividir as lembranças.

Como a Cris fez para a sua filha em minha obra “Cuide dos pais antes que seja tarde”.

Já não é meu livro, é muito mais valioso: é a correspondência entre mãe e filha. Virou um exemplar único, customizado pelo afeto. A letra foi poupada, economizada ao extremo, nota-se a caligrafia pequena para aproveitar todo o espaço da página e toda a emoção do coração. Existe uma ânsia para deixar um testamento, um sentido para a vida. A narrativa cresce dentro das juras de duas pessoas.

Trata-se de uma carta para o futuro, já que a criança tem 3 anos. Desculpe, 3 anos, 4 meses e 4 dias, porque os pais ainda comemoram os números quebrados, acostumados com a contagem da gestação.

Estou no meio do amor entre as duas. Nenhuma estante poderia ser melhor.

Crônica publicada em 07/6/2018

ROTINA AJUDA O CASAMENTO

Condenamos a rotina. Culpamos a rotina. Apedrejamos a rotina. Mas a rotina é para ser o que mais amamos, a ponto de nunca cansarmos de repetir.

Uma de minhas alegrias é me vestir ao lado da esposa de manhã. É uma alegria sempre nova apesar de acontecer todo o dia. Abrir o janelão para o sol entrar e ver as roupas dela em cima da cama. A combinação escolhida com esmero, inclusive com os sapatos alinhados embaixo. Que capricho, que lindeza. Suas peças colorem o nosso edredom.

Já sei o que vai usar e posso me deliciar com o ensaio.

No casamento, o melhor não é apenas estar no palco, mas conviver no camarim. Dividir os bastidores dos pensamentos e dos gestos mínimos na hora de se arrumar para os personagens do trabalho (no caso, ela advogada, eu poeta). Quer algo mais cúmplice do que escovar os dentes juntinho? Ambos emparelhados no espelho, sincronizando os cotovelos e rindo da intimidade que é também uma molecagem. Ou alcançar a toalha no banho, aproveitando para receber a recompensa de um beijo molhado.

Só não é feliz quem não é agradecido. Eu sou, estou a cada minuto com quem gostaria de estar.

Crônica publicada em 06/6/2018

EXÉRCITO DE TARADOS

A facilidade da pornografia na web é sinal de ausência de intimidade.

Como nunca, existe a profusão de vídeos pornôs nos grupos de WhatsApp. Qualquer um pode acessar canais e cenas dantescas do seu celular. O sexo que antes era explícito ficou escancarado. Não existe mais solenidade proibida e reserva para assistir ao material. Não tem mais revistas escondidas em casa e vergonha das taras em público (alguém lembra das prateleiras reservadas nas videolocadora?). Olha-se de qualquer lugar e a qualquer hora.

Os estímulos visuais apenas indicam o tamanho da solidão e da falta de romantismo. Propaga-se a ideia do sexo rápido e imediato, sem enredo, sem aproximação, sem envolvimento. É a cultura de transar por transar. Não cultivamos mais as palavras, o erotismo dos segredos e das juras, as provocações da saudade. Não há o exercício do olfato - de sonhar com um perfume - e da imaginação - será que vai gostar de mim?Não se fantasia como outrora, morreram a véspera e a sala de conversa, não resta nem paciência para chats, vivemos mentalmente trancados num quitinete da carnificina.

O machismo e a ditadura do corpo prosseguem o seu reinado em gifs. Ensina-se a subjugar a parceira na cama, a escravizá-la, a contrariá-la. O que adianta toda a campanha contra o assédio se ainda se partilha compulsivamente a violência sexual na privacidade e exemplos de maus-tratos?

Não há vídeos ensinando a flertar, a seduzir com educação, a respeitar os limites. Ninguém divide bons modos. Bons modos não geram ibope.

O que fará um adolescente hoje diante do manancial abundante de imagens contraproducentes a sua disposição? Será treinado a se satisfazer e nunca dar prazer ao outro. Achará que o encontro é feito de bundas, quadris e seios. Será talhado para somente finalizar no MMA do amor, e entenderá que a força física é superior à força emocional e psicológica. As transas espalhadas são como lutas, com clara implicação sado-masoquista. Puxa-se o cabelo da mulher, bate-se na cintura da mulher, pega-se a mulher mesmo dizendo que ela não quer. Não encontrará sequências de interesse real pela personalidade, não localizará jamais a suavidade do beijo e a recompensa do suspiro.

Ele não terá paciência para esperar e saber o momento. Dos vídeos pulará para os aplicativos desejando se relacionar o mais breve possível e jamais suportando recusas e negativas. Procurará a próxima vítima quando alguém não quiser sexo. Não perderá tempo com o carinho.

Estamos criando tarados. Um exército de brutos e analfabetos sensuais. O cavalheirismo é artigo em extinção, assim como o namoro.

Publicado em O Globo em 06/6/2018

A PORTA ABERTA DE MEU QUARTO

Toda criança antiga era uma artesã.

Eu, por exemplo, inventava os meus brinquedos. Não tinha videogame, computador, celular. Os jogos custavam caro.

Tudo o que a minha mãe dispensava da cozinha, eu aproveitava: potes de margarina, sacos de papel do mercado, garrafas. Fui a coleta seletiva da família.

Brincava no pátio, nunca dentro de casa. A minha porta do quarto sempre esteve aberta: não havia necessidade de bater, não havia ninguém dentro.

Com o meu amigo Zé, fiel ombro até hoje, fazíamos luta medieval com a tampa do lixo servindo de escudo e a vassoura como lança. Passávamos horas entretidos em armaduras imaginárias.

Também gostávamos de fazer pontes para as formigas com os palitos que sobravam dos raros picolés de domingo. Abrimos uma transamazônica do abacateiro até a ameixeira.

As formigas continuam nos cumprimentando pela construção, jamais fomos picados por elas. Nutrem um imenso respeito pelo nosso trabalho.

Com as folhas que meu pai jogava fora de sua máquina de escrever (os poemas que não davam certo), aproveitávamos para montar aviãozinho. Nossa diversão se valia dos rascunhos. Dobrávamos os papéis com perfeição, criando caças e jatos supersônicos. Quando descobrimos que as dobras inversas nas pontas tornavam os nossos modelos imbatíveis, gritamos aos céus palavrões proibidos pela escola, com uma liberdade sem tamanho.

Os aviõezinhos permaneciam por 15 segundos planando. Enxergávamos anjos partindo de nossas mãos.

Subíamos ao telhado da residência para realizar os testes de lançamento. Nossa meta de Nasa consistia em atingir a janela da Bete, vizinha e colega. Por duas vezes, conseguimos entrar pelas suas vidraças com recados amorosos. Nem eu nem ele namoramos com ela, mas a esperança pelo seu beijo ocupou boa parte do nosso Ensino Fundamental.

Nos dias de chuva (tempestade não nos assustava), armávamos barquinhos, arremessados pela correnteza do meio-fio. Quem atingisse o bueiro mais distante ganhava a corrida.
Não servimos ao Exército, mas merecíamos uma medalha de honra ao mérito por tanta cabeça de papel projetada em nossas rondas pelos terrenos baldios do bairro.
Minha infância e de Zé foi feita da riqueza das sobras. Nunca sobrava tempo para o tédio.

Publicado em Jornal Zero Hora em 05/6/2018

NINGUÉM TEM NADA A VER COM ISSO

Quando nos descobrimos amando, o que mais precisamos é de tempo para não pensar. E mais tempo para ser.

Não se preocupe com o que deve acontecer, se o par está correspondendo à altura. Não cobre, não julgue, não compare. Apenas se deixe existir.

Não se fie nas ponderações negativas dos amigos, nos conselhos assustados da família, nas dores das relações passadas. Não acredite no pior, que tem o dedo podre, que não escolhe o melhor para você.

Aceite o convite sem raciocinar muito, vá dançar, se divertir, se emocionar, confiar na pele e no tato, andar de mãos dadas sem a vergonha de esbarrar em algum colega no caminho.

Beije pelo beijo, fale pelo prazer de falar.

Se dará certo ou errado, ninguém tem nada a ver com isso. Apaixonar-se não é cartório, não é profecia, não há como adivinhar por antecedência. Só saberemos mais tarde, o caráter vem com a paciência.

Não queime etapas, quem namora devagar vai longe.

Não queira se apressar, mostrar a todos que está amando, não crie restrições, não banque o difícil, não estabeleça joguinhos, não se angustie com o seu status vago no Facebook.

Relaxe no inesperado. É óbvio que sair da rotina traz apreensão. Mas dependemos do novo para sentir diferente.

Recuse a neurose do ciúme e da possessividade, permita se conhecer e conhecer o outro. Teste os limites de seus gostos, experimente o que nunca saboreou, o que nem sonhava fazer.

Acumule alegrias primeiro, para depois decidir se vale a pena. Será mais fácil pesar o coração com a visão do conjunto.

Viva antes de pular fora. Não ouça as razões do medo. Não poderá nunca lamentar que não tentou de verdade.

Nem sofra com a hora das declarações. A saudade dirá por você o “eu te amo”.

Não pense, por enquanto não pense, pensar é se defender do amor.

Crônica publicada em 04/6/2018

BOLACHA DERROTADA

Todo sobrinho é um ensaio para ter um filho. Não há como não se apaixonar e perder os preconceitos. Se você enxergava a gravidez como ameaça da liberdade e da independência, muda de ideia com os papos inventivos e irreverentes das crianças. É redescobrir a aventura da língua.

Sobrinho tem uma fofura altamente concentrada, capaz de flechar os corações empedernidos dos tios, que se transformam em uma espécie de avós jovens. Trata-se de uma regra de compensação da vida (os filhos são chatos e os netos são queridos, assim sendo, os irmãos são chatos e os sobrinhos são amáveis).

Sofro recaídas de ternura convivendo com Francisco, menino de cinco anos de meu mano Rodrigo e da Ieda.

O pequeno já criou guerras folclóricas em sua casa. Há dois anos, ele não queria cortar os cabelos, de acordo com a lógica de que estaria perdendo pedaços do corpo. Ieda e Rodrigo não encontraram jeito de acalmar e convencer o Sansão em miniatura. Como não funcionou o bom senso, usaram a imaginação infantil a seu favor. Foi então que explicaram que as penugens no pescoço cresceriam na forma de asas e que ele acabaria sendo passarinho. Assustado, ele resignou-se a frequentar o salão sem qualquer resistência. Hoje seus pais apenas dizem: vai virar passarinho, e ele já se movimenta para o cabeleireiro.

Na última semana, ele cismou que não desejava bolacha derrotada.

- Mãe, busca a minha bolacha recheada de chocolate no mercado? Mas que não seja bolacha derrotada.

Ieda quebrou a cabeça para entender o que seria a bolacha derrotada. Talvez quebrada, esfarelada, amassada, de pacote feinho. Não conseguia alcançar o cerne da expressão. Decidiu ir com ele para ter a devida explicação.
Nas prateleiras dos doces, ele pediu com ansiedade:
- Olhe a data do biscoito...Está derrotada?
Ela riu, e traduziu na linguagem dos adultos:
- Não, filho, essa aqui não está vencida.

Publicado em Donna ZH em 03/6/2018