sexta-feira, 5 de novembro de 2010

PERDIGUEIRO NA FEIRA DE POA

Rodrigo Rocha

Acho que nasci dentro da Feira do Livro de Porto Alegre. Meu pai me levava desde pequeno pelas bancas. Minha mãe me erguia para espiar os espetáculos. Há um sabor especial em autografar na Praça da Alfândega. Como um batismo que nunca termina.

Neste sábado (6/11), às 19h30, estarei assinando Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 2010) aos amigos e leitores. No Pavilhão Central. Mais do que dedicatória, prometo dedicação.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

SONHO DE VALSA

"Ama-se para não esquecer. O que mais desejamos é que alguém nos guarde, nos ajude a lembrar. Pense em cenas que passaram juntos, devolva lembranças linha a linha, para sinalizar que tudo o que vive com ela é decisivo. Revele que conhece sua namorada nos gostos mais simples. Ao dizer que tem saudade do cheiro dos seus cabelos, seja específico, diga qual o xampu que ela usa. Intimidade é conhecer detalhes."

Sou jurado de concurso do Sonho de Valsa. Dou conselhos aos apaixonados para seduzir desde o café da manhã. Quem formular a melhor dica receberá uma viagem de uma semana com acompanhante a Paris (França). Os temas são quinzenais, o primeiro é sobre filmes de amor. Participe da promoção. Aqui.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

VARREDORES

Arte de Cínthya Verri

Desço a rua Lageado, em Porto Alegre, as árvores ainda montam sua feira de frutas, a luz vem filtrada pelos galhos, o cheiro é de grama voada, a igreja São Sebastião é meu ponto visual para chegar à Protásio Alves, quase tudo igual a minha infância, menos as pessoas guardadas.

Há um recolhimento de madrugada em pleno sol. Não há mais ninguém varrendo a rua de manhã. A casa somente ficava limpa se a rua era varrida. A rua representava parte da residência. Uma extensão do pátio. Um corredor ansioso ao mundo. Antes das grades e das cercas eletrônicas, do pavor do assalto, a frente funcionava como sala de visitas. Recebia-se namorada nos cantos, o vendedor de enciclopédias e as representantes da Avon no jardim, os mendigos familiares e as campanhas de agasalho na escada. Os únicos riscos que apareciam no chão vinham do jogo da amarelinha e dos carrinhos de rolimã.

Não adiantava nada arrumar os aposentos, ajeitar a cama, lavar a louça, espanar os móveis, se não limpasse a calçada. Como usar roupa bonita com sapato sujo.

A maior parte dos vizinhos saía para se cumprimentar com sua vassoura de palha. Certo o encontro às 8 horas para reunir as folhas. Certo o falatório entre as braçadas firmes e ágeis. Os motoristas que passavam não interrompiam as fofocas. Achava lírico. Assim como os guris jogavam futebol de uma garagem a outra, os moradores conversavam de um portão a outro. Existia uma ordem imutável: o pássaro no fio, o gato na janela, o cachorro espiando no pátio e o varredor de cabeça baixa cuidando de seus domínios, disciplinado, nunca avançando no terreno alheio, amontoando os ciscos e gravetos num pequeno monte a São João.

Parece lenda, mas usávamos a rua como um cinto que apertava o muro, um cinto para a casa não cair no desleixo de um terreno baldio. As aparências se mantinham já na entrada. Quando as crianças iam para escola, os pais comentavam quais as vias mais transparentes de vento. Abria-se um pedágio informal da palavra, um controle asseado, uma vigilância dos serviços alheios. Calçada suja sinalizava doença ou divórcio. Minha mãe já entrava em polvorosa: “Coitado de Fulana, faz quatro dias que não recolhe as folhas. O que será que aconteceu?”

Desço a rua Lageado. Disputando corrida comigo, um vazamento desde o início da lomba, uma torrente de água branca e espumosa serpeando as pedras. Muito mais rápida do que meus passos. Não anseio soltar um barquinho de papel para ancorar no esgoto. Não é engraçado, é infinitamente triste. A água, como a rua, não tem mais olhos — não há quem se importe.



Crônica publicada no site Vida Breve

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

XIXI DE PORTA ABERTA

Arte de Torres García


Duas gurias trocavam confidências na janela do bar Ocidente. Pensei que estivessem falando eslavo, alemão, russo, não definia a língua. Do mundaréu de chiados, saltavam palavras como saudade, vingança, grosseria, que me abrasileiravam de novo. Era mesmo português, mas modo queda livre.

Fui notando que mulheres conversam assim, com o triplo da velocidade de um papo masculino. São como feirantes vendendo os abacaxis e os morangos dos relacionamentos. Emendam cenas, comentam o passado, atalham o futuro, zoam e se confortam em seguida. Evidente que a explicação para o excessivo conteúdo em poucos minutos é que estavam com a conversa atrasada. Não vale, mulher já nasceu com conversa atrasada.

É impraticável acompanhar ainda que seja o próprio idioma. Tonteei somente de olhar.

O que me leva a crer que – pela comparação – toda esposa se comunica com o marido como se ele fosse um retardado. Lenta, maternal, didática. Chega a apontar para facilitar o entendimento. Apenas aumenta a rapidez do raciocínio na briga, daí não adianta, ninguém escuta mais.

O que me leva a comprovar a aptidão da fêmea para iniciar diferentes assuntos e não terminar nenhum. Mulher acumula inícios. O homem tem dificuldade de começar, por isso é absolutamente linear e monotemático. Quando seu macho fala de futebol, vai falar de futebol até o fim. Perca a fé de que ele possa mudar o tema e o canal.

O que me leva a entender o hábito bem irritante da mulher de fazer xixi de porta aberta. Ela não pretende interromper a conversa. Nunca. De forma nenhuma. Pra quê? É a sua diversão, com ou sem motivo. Xixi é irrelevante perto da possibilidade de esmiuçar dilemas de seu dia e fofocar sobre o trabalho.

Tanto que há um silêncio mortal no banheiro público masculino e um alarido descomunal no feminino.

Minha namorada entra no toalete de nossa casa e continua papeando. Dispensa licença. Nos primeiros momentos, ficava mudo, esperando que ela terminasse. Mas ela gritava: – Não tá me ouvindo? E me obrigava a responder, apesar do barulho da descarga e da torneira.

Como qualquer barbudo, eu fracasso na adoção de sua mania. Tenho problema de conversar enquanto tento acertar o alvo, operação que desprende concentração e domínio total das forças. Naquela hora, não presto para oferecer conselhos, ser simpático, muito menos dizer “eu te amo”. O alívio do esguicho altera a dicção, vem um gemido do fundo do pulmão. Falta tecnologia mesmo no corpo.

O que me leva a concluir que não tem jeito; sou burro como uma porta fechada.





Publicado no jornal Zero Hora
Interino de Luis Fernando Verissimo, p. 2, 1º/11/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16506


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

NOVEMBRO LITERÁRIO

Arte de Vicente



30/10 (sábado) – Porto Alegre (RS), 19h
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Bate-papo Estande Caixa Econômica
Local: Praça de Autógrafos - Praça da Alfândega

3/11 (quarta-feira) – Porto Alegre (RS), 17h
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Bate-papo Estande Caixa Econômica
Local: Praça de Autógrafos - Praça da Alfândega

3/11 (quarta-feira) – Porto Alegre (RS), 18h
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Debate: Culpa e responsabilidade são antônimos
Com Cínthya Verri, Cíntia Moscovich e Paulo Sérgio Rosa Guedes (via skype)
Faço a mediação.
Local: Sala dos Jacarandás, Memorial do RS
e-mail: assessoria1@camaradolivro.com.br

5/11 (sexta-feira) – Santa Maria do Herval (RS), 9h
VI Feira do Livro
Local: S.C.B. Herval
e-mail: smec.smh@ibest.com.br

6/11 (sábado) – Porto Alegre (RS) – 10h
Aula ESADE Laureate International Universities
Local: Rua Luiz Afonso, 84, Cidade Baixa

6/11 (sábado) – Porto Alegre (RS), 19h30
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Sessão de autógrafos de Mulher Perdigueira (Bertrand Brasil, 2010)
Local: Praça de Autógrafos - Praça da Alfândega
e-mail: assessoria1@camaradolivro.com.br

7/11 (domingo) – Porto Alegre (RS), 19h
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Bate-papo Estande Caixa Econômica
Local: Praça de Autógrafos - Praça da Alfândega

8/11 (segunda-feira) – Porto Alegre (RS), 19h
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Debate Primos – Histórias da herança árabe e judaica
Com Tatiana Salem Levy, Moacyr Scliar e Cíntia Moscovich
Mediação de Ricardo Azeredo
Local: Auditório Barbosa Lessa - CCCEV - Área Geral
e-mail: assessoria1@camaradolivro.com.br, com Sandra

9/11 (terça-feira) – Porto Alegre (RS), 9h
Fronteiras do Pensamento - Geração Z
Local: Salão de Atos da UFRGS
(Av. Paulo Gama, 110)
e-mail: relacionamento@fronteirasdopensamento.com.br


10/11 (terça-feira) – Brasília (DF), 9h30
II Simpósio de Crítica de Poesia
Local: Universidade de Brasília
(ICC Ala Norte - Campus Universitário)

10/11 (quarta-feira) – Porto Alegre (RS), 19h
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Oficina "Amar é...": cartas de amor
Local: Biblioteca - Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
(Rua dos Andradas, 1223)
e-mail: assessoria1@camaradolivro.com.br

11/11 (quinta-feira) – Porto Alegre (RS), 19h
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Oficina "Amar é...": cartas de amor
Local: Biblioteca - Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
(Rua dos Andradas, 1223)
e-mail:
assessoria1@camaradolivro.com.br

12/11 (sexta-feira) – Bom Jesus (RS), 10h
Feira do Livro de Bom Jesus
Local: Salão Paroquial de Bom Jesus
e-mail: culturabj@m2net.com.br

12/11 (sexta-feira) – Porto Alegre (RS), 18h30
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Oficina "Amar é...": cartas de amor
Local: Biblioteca - Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
(Rua dos Andradas, 1223)
e-mail: assessoria1@camaradolivro.com.br

13/11 (sábado) – Piracicaba (SP), 20h30
11º Prêmio Escriba de Poesia
Local: Biblioteca Pública Municipal
(Rua do Rosário, 833 – Centro)
e-mail: bibliotecadepiracicaba@hotmail.com

14/11 (domingo) – Campos dos Goytacazes (RJ), 18h
6ª Bienal do Livro
Café Literário, com Viviane Mosé
Mediação: Dedé Muylaert
Local: Praça São Salvador

15/11 (segunda-feira) – Porto Alegre (RS), 17h
56ª Feira do Livro de Porto Alegre
Bate-papo Estande Caixa Econômica
Local: Praça de Autógrafos - Praça da Alfândega

16/11 (terça-feira) – Belo Horizonte (MG), 19h
Sempre um Papo
Debate e sessão de autógrafos de Mulher Perdigueira
Local: Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes
(Avenida Afonso Pena,1537 – Centro )
Informações:(31) 3216 1501

17/11 (quarta-feira) – São Luís (MA), 21h
4ª Feira do Livro de São Luis
Tema: “Melhor o ciúme que a indiferença: a alegria das relações amorosas”.
Local: Praça Maria Aragão Conceito

21/11 (domingo) – João Pessoa (PB), 17h
Salão do livro da Paraíba
Local: Fundação Espaço Cultural José Lins do Rego

26/11 (sexta-feira) – Recife (PE), 19h
Mostra SESC de Literatura Contemporânea - A Criação Literária

28/11 (domingo) – São Paulo (SP), 16h
Virada Cultural - Sarau
Local: Livraria Cultura
(Av.Paulista, 2073)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

DESPACHO DA ESQUINA

Arte de Allen Jones

Conservo algumas pistas sobre a acidentada existência masculina. Pistas!, pois não tenho caminho, só o morto tem.

Antecipo uma delas. Na ausência de culpa, o homem reage mansamente quando sua mulher mexe no seu e-mail, no seu celular ou revista sua carteira. Não fará drama, não subirá no palanque para prometer pena de morte. Ficará ofendido, claro, mas não acabará com o relacionamento, muito menos despejará frases cortantes como “não dá mais”. Acompanhará o que ela tem a dizer e tratará de explicar ponto a ponto, redimindo enganos e distorções.

Marido inocente tem paciência. É incrível, sente-se feliz pela rara chance de exibir a ficha limpa e protagonizar merchandising da aliança. Desenvolverá uma generosidade imprevisível, vai dar colo ao choro e pedir que ela esqueça o desentendimento.

Ele é uma fera apenas quando sabe que tem alguma coisa de errado. Ao aprontar e fazer jogo duplo. Ao manter mensagens duvidosas e insinuações comprometedoras das outras. Não está magoado porque ela fuçou seus pertences (já perdoou a mãe por procurar toco de maconha em suas roupas), mas porque é bem provável que ela encontrou uma prova.

O pânico é a manifestação do crime. Tentará reverter sua posição defensiva em alucinado ataque, encenará a sina de vítima, com a ladainha de que viver assim é doentio ou de que amor nada é longe da confiança.

Quem não deve não teme e paga antecipado. Homem culpado é mais afetado do que mulher histérica. Uma ópera de leques e bufos. Negará antes mesmo de ouvir tudo. Ameaçará antes mesmo de sustentar o contraditório.

O infiel também experimenta uma TPM. Já entra em crise perto da data de receber a fatura do cartão de crédito e da conta do celular. Muda a respiração com o barulho do torpedo. Sofre muito antes de tudo eclodir, cheira a comida com medo de se entregar diante de silêncios demorados. Exagera nos modos e nas portas batendo. Não quer conversar, quer sair logo de perto. De tanto adiantar explicações desde que acorda, sofre de um cansaço mental. É a primeira vez que ela toca no assunto, porém é a centésima que ele pensa.

Homem que traiu age como se ele fosse o corno. Troca os papéis. Como está enganando em segredo, intui que será enganado sem perceber. Delira que ela é igualmente dissimulada. Por receio da vingança, toca o terror a cada questionamento. É a criatura mais possessiva que existe, conhece com domínio suas versões falsas e projeta na companhia as escapadas que vive criando.

Sujeito de consciência tranquila não se apavora com a crise, respeita os despachos da esquina. Pega emprestada uma vela para iluminar a próxima briga.





Publicado no jornal Zero Hora
Interino de Luis Fernando Verissimo, p. 2, 28/10/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16502

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

BORDEL

Arte de Cínthya Verri

Padre mudava o destino de uma cidade. A missa era obrigatória. Não havia domingo sem missa, já dizia Otto Lara Resende. De manhã, Deus; de tarde, futebol.

O sermão influenciava relacionamentos e cargos em comissão. O salão ficava lotado como num comício, mulheres abanavam leques, homens seguravam os chapéus no colo. A leitura do evangelho não acontecia ao acaso, a escolha dos versículos traduzia um recado especial aos pecadores. Padre representava a central de fofocas do município, com insinuações metafóricas e um jogo de adivinhação dos culpados: — De quem ele está falando?

Nos anos 50, padre Corso mandava em Guaporé (RS) tanto quanto o prefeito. Distribuía generosas penitências e fazia indiretas para a população. Construía ou destruía reputações com sua língua presa. No púlpito, tomado de Sodoma e Gomorra, terminava por sugerir informações privilegiadas do confessionário.

A igreja estava separada em duas alas. Na direita, sentavam os partidários do PDS e na esquerda, os correligionários do PTB. Uma disputa de facções para ver quem sofria mais represálias. A mesma divisão se perpetuava no café, no cemitério e no cinema. Direita de um lado, esquerda de outro, neutros não existiam.

Um dos assuntos dominantes veio a ser o sucesso de um cabaré. O cochicho ficou sério quando um frequentador se arrependeu do hábito e procurou lavar sua honra.

— Padre Corso, pequei feio, entrei no bordel.

— Por que, meu filho?

— É que as jovens têm seda, pele macia, perfumada, seus cabelos armados, suspiram quando falam, ronronam como gatas, são pintadas como não se vê por aí, batom, rouge e rímel, tudo importado, padre, de primeira. E cultas, gemem em três dialetos…

Enfurecido, Corso parcelou a dívida espiritual do sujeito em dois anos, por pouco não entregou um carnê de rezas, para que ele não se perdesse na contagem das ave-marias e pais-nossos.

O horror foi o final de semana. Na missa, o sacerdote estava fora da casinha, com cabelos de medusa e olhos de pedra. Num disparate, pediu para que os homens saíssem do recinto, e se reuniu somente com as damas. Discursou durante noventa minutos, sem parar, recorde apenas batido uma década depois por Fidel Castro.

— Esposas, os bons costumes estão ameaçados pela luxúria. Usem todas suas armas. Tratem de se arrumar, comprem seda e perfume, pintem o rosto, cuidem da pele, procurem dançar, não temam esforços… Porque tudo é permitido dentro do casamento!

O bordel fechou logo em seguida para reabrir na cidade vizinha, em Encantado.



Crônica publicada no site Vida Breve

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

OITO ANOS

Arte de Howard Hodgkin

Vivo uma maratona de viagens, descanso numa cidade e acordo noutra. Como durmo pouco, a namorada insistiu para que pelo menos aproveitasse o travesseiro e adquirisse abrigos e camisetas brancas. Dolorido gastar com o sono, sair com uma sacola do shopping para desaparecer, anônimo, entre os lençóis. Eu me via como um idiota, a quantia deveria ter sido direcionada a melhorar o visual no trabalho.

O homem tem pavor do acessório. Não costuma inaugurar roupas na hora de deitar. Usa a que for mais folgada, e não pensa mais nisso. Da mesma forma não se preocupa com cuecas e meias. Nunca repara na cama, nas colchas e edredons, a não ser no início do casamento. Não sei como nossa espécie não foi extinta até hoje. Depois que aceitamos o pijama, também não precisamos mais pagar ônibus – é que ficamos velhos. Aliás, macho não compra pijama, somente recebe de sua mãe ou de sua mulher.

Mas atendi a mudança de costumes e separei as peças para testar no hotel de Torres. Vencido o compromisso, de banho tomado, sossegado no quarto, abri a mala para colocar a calça. Ela murchou, não entrava. Estranhamente encolheu. Parecia grande, mas não o suficiente. Confundi o número na loja? Botei a perna esquerda e trancou mesmo. Observei que não era minha, mas de Vicente.

A possibilidade do engano é que me transtornava. Como meu filho amadureceu tanto a ponto de confundir minha calça com a dele? Cético, pasmo, estendi o abrigo na cama para comprovar sua altura, assim como meu pai conferia meu crescimento com a fita métrica – lembro que ria todo orgulhoso com o veredito. Às vezes, o pai mentia o avanço (não podia crescer três centímetros todo dia), porém acreditava, não desconfiava das boas notícias.

Acariciei cada linha do pano e imaginei o peso, o tamanho, a envergadura atual do meu Vicente. Não é que sou distraído, é que ele me surpreende sempre. Fui tocando em seu tempo, nos fios costurados de seu tempo, revendo suas gargalhadas na banheira azul, o espanto com o vaivém do balanço, as corridas vacilantes de cisne, o andar firme e decidido ao atravessar a rua, a concentração na primeira aula, o temperamento de virar a cabeça quando apanhado no colo, os cabelos compridos de roqueiro. Seus oito anos deslizaram pelos dedos. Transformei as mãos num ferro elétrico, desamassando os vincos, desfazendo as dobras. O rio subia os muros, avançava as marcas. Já havia uma enchente na minha respiração.

Ai,Vicente, você cresceu e nem me avisou.




Publicado no jornal Zero Hora
Interino de Luis Fernando Verissimo, p. 2, 25/10/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16499

SARAU CARPINEJAR 38

Foto de Edison Vara

Completo 38 anos, volto a ser calibre de arma - isso que já atirava para todos os lados.

Minha festa de aniversário é como gosto: lendo textos no Sarau Elétrico nesta terça (26/10), às 21h, no Ocidente (Rua João Telles esquina Osvaldo Aranha, 51 3312.1347, Ingresso R$ 10) em Porto Alegre (RS). Ajudando a soprar as velas, terei a companhia de Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno, Claudia Tajes e Katia Suman.

Na canja musical da noite, minha namorada Cínthya Verri, acompanhada do violão de Rodrigo Prado.

Te espero.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

VERISSIMO



Qual o maior cronista vivo? Luis Fernando Verissimo. Até no mundo dos mortos, ele se daria bem. Acredito que arrebataria o vice-campeonato, ficando somente atrás de Rubem Braga. A vantagem do capixaba seria simbólica, talvez pelo saldo de gols. Os dois foram fundamentais na definição do gênero no Brasil. O primeiro construiu toda a estrutura da crônica, diferenciando o texto leve e lírico do conto; o segundo confundiu tudo, aproximando a crônica novamente do conto com o uso perfeito dos diálogos.

E de quem sou interino? Luis Fernando Verissimo. Ao receber cumprimentos pela substituição, sempre penso que são pêsames. Minha culpa é explicar:

– Logo Luis Fernando volta, meu trabalho é aumentar a saudade dele.

Vejo que o jornal Zero Hora se dispõe a destruir minha carreira. Não há como sobreviver a sua interinidade. Mesmo que tocasse clarinete nas horas vagas e criasse um Jazz 7.

Ainda por cima, sou uma matraca, correndo graves riscos de dizer bobagem. Verissimo é o contrário: contido. Suas palestras são mímicas, dispensam a tradução para Libras. Os amigos falam por ele e ele retribui escrevendo pelos amigos. Um negócio perfeito.

Emudeci nos momentos em que abracei o autor. Permaneço quieto, e ele, quieto. É possível ouvir nossa respiração soletrada. Um repete o outro. Tudo bem? Tudo bem. Céu azul? Céu azul. Ele não sofre com o desespero. Não é problema de falta de assunto, é temperamento. Encontrar-se com Verissimo é entrar no elevador: ninguém solta um pio. É ter a solidão reembolsada com juros.

Ansioso, faço loucuras para romper o nervosismo, inclusive confessar os pecados. Como ele é célebre pela sua timidez, qualquer timidez em sua frente é uma imitação. Para ele, aquilo é rotina; para mim, é mal-estar. Praticamente impossível ser inteligente ao lado de um homem quieto.

Como não conseguirei vencê-lo na escrita, decidi superá-lo no silêncio. Precisava de muito treino. Experimentei dois dias longe de minha voz. Os filhos não compreendiam, sondavam que virei Hare Krishna. Não atendi telefone, e almocei e jantei calado.

Quando calculei que estava pronto, fui ao combate. Empreguei golpes baixos como piscar e pigarrear. Quase bati palmas perto de seus cílios. Ele se conservava imutável. Não mexia os braços e os lábios.

Uma hora e meia de completa meditação, e desisti, perguntei se tinha um lenço para secar o suor. Ele me alcançou do bolso de trás da calça. E, sem piedade, o cretino não proferiu nenhuma palavra de consolo. Não posso brincar de estátua com quem já é uma.




Publicado no jornal Zero Hora
Interino de Luis Fernando Verissimo, p. 2, 21/10/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16495