terça-feira, 15 de julho de 2014

SÓ AS DÚVIDAS SÃO CERTAS

A mulher discute para se explicar, discute para se organizar.

Abre suas vacilações e temores para dividi-los. Não procura obter ajuda de ninguém, conselho de ninguém, apoio de ninguém.

Está pensando alto, repartindo suas inquietações.

Às vezes a briga é só uma sessão de gritos, de agudos, de lamentos.

Mas o homem não tem paciência. Sua vaidade é maior do que sua paciência.

Diante da mínima conversa séria, já leva para o lado pessoal, já se sente acusado, já se põe ameaçado e cobrado. Nem escuta até o fim e se defende.

Identifica-se como culpado de algo que ainda não sabe o que é e não pagará para ver. Seu anseio imediato é revidar e se proteger. Se não vira as costas de verdade, vira as costas dos ouvidos.

Carente, o homem se posiciona como o centro do mundo, sempre no papel de protagonista. Sofre de antropocentrismo amoroso. Jura que tudo o envolve e que a mulher não tem outros anseios, outras preocupações, outras necessidades que não ele.

Se ela está insatisfeita, entende que é problema dele. Se ela está deprimida, entende que é problema dele. Se ela está chateada, entende que é problema dele.

Jamais raciocina que ela pode estar falando apenas de seus problemas e que não é uma indireta, direta, cilada, armação, ironia, sarcasmo.

Esta é a grande diferença: a mulher pretende ser ouvida (e se ouvir acompanhada), descarregar a tensão, espantar as aflições, e o homem se vê atingido pelo desabafo e se coloca como o provedor de todas as dificuldades do mundo.

Durante a discussão de relacionamento, a mulher senta no divã enquanto o homem se acomoda no tribunal.

O homem quer resolver logo a questão, a mulher quer problematizar para definir a melhor escolha.

O homem acha que está perdendo tempo com divagações; a mulher acredita que ganha tempo analisando diferentes perspectivas.

Como se percebe atacado, o homem não acolhe a catarse com a alegria da cumplicidade, não recebe a confissão com o entusiasmo da confiança. É um péssimo espelho: atalha, conclui antes da hora, resume. Irrita a mulher com sua pressa e sua ânsia de sair logo daquela cena.

Tem resistência em exercitar hipóteses, possibilidades remotas, vidas imaginárias.

Qualquer dúvida que vem de sua mulher é sinal de infelicidade. Qualquer crise que vem de sua mulher é sinal de fraqueza e covardia.

Ele somente se acalma com certezas. Porém, as certezas não existem. Nunca existiram.


Publicado na Revista Isto É Gente
Julho de 2014 p.46
Ano 14 Número 710
Colunista

sexta-feira, 11 de julho de 2014

SETE PASSOS PARA SER EX

Arte de Francis Bacon

Parodiando Felipão, apresento os sete passos para atravessar uma separação e esquecer o fim do amor:

1) Lembrar que você era feliz antes do relacionamento, o relacionamento não foi o nascimento de sua felicidade, então não pode significar a morte dela.

2) Ocupar-se e não pensar nos próximos dois meses. Deixar para pensar quando já está fortalecido para suportar a saudade.

3) Fazer cursos, dedicar-se ao trabalho e aceitar viagens no final de semana são recomendações para desviar o foco.

4) Ficar perto dos seus melhores amigos, frequentar cinema, tomar café e comentar banalidades e notícias do momento. Não fale do seu relacionamento anterior, pergunte das dificuldades dos seus amigos. A curiosidade é terapêutica.

5) Não cair na gandaia. Desbundar-se na vida solteira com a troca intensa de parceiros acaba provocando estresse e aumentando a falta da rotina de antes. Terminará também adquirindo novos vícios como fumar ou beber em demasia.

6) Evitar passeios demorados no Facebook e redes sociais, o risco de encontrar algo do ex é imenso.

7) Redecore a casa, troque de cama, mude seu cabelo, renove seu guarda-roupa.

Se nada der certo, a culpa é do Felipão.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (11/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 9 de julho de 2014

ESQUENTADOS E REQUENTADOS

Arte de Eduardo Nasi

Os esquentados, os passionais e os ciumentos correm grandes riscos com a comunicação imediata.

Podem acabar a relação por um SMS, um WhatsApp ou um email e não tem como pedir de volta as mensagens em caso de arrependimento.

E todos se arrependem: ou por uma palavra agressiva ou pelo tom debochado ou por não refletir um pouco mais.

Imbuídos do sentimento de vitimização e de injustiça, apelam para ataques frontais. No momento da raiva, jamais cogitam a hipótese do erro. Estão convictos de sua atitude porque não aguentam mais sofrer.

Curiosamente todos os grandes sofrimentos são gerados por alguém que não deseja mais sofrer.

Depois de enviar, é esperar o estrondo do outro lado. Não tem como cancelar a operação militar.

Esses sujeitos deveriam substituir a caixa de saída pela pasta rascunhos, com uma hibernação obrigatória de vinte e quatro horas.

Como não virá resposta da grosseria, o sujeito mudará de ideia ao longo do dia. E manda uma, duas, três mensagens diferentes, contemporizando o que disse, até pedir desculpa ao final, sem nenhum contra-argumento.

Ele usa as mensagens para pensar, não pensa antes das mensagens.

Passa a conversar sozinho, endoidecido, inventando o que sua companhia estaria respondendo se tivesse tempo de responder.

Ou seja, começa o dia cheio da razão e anoitece arrependido de sua cólera.

De louco fica sendo um chato. Só um chato briga sozinho, reata sozinho, chora sozinho e seca as lágrimas sozinho.

Certamente sua namorada ou seu namorado se verá com mais vontade de se separar. Afinal, louco tem seu charme, chato não.

No lugar da tecnologia, defendo os bilhetes escritos à mão. São superiores no trato amoroso, flexíveis.

Primeiramente, podem ser compreendidos errados, o que salva qualquer relacionamento. A dúvida é amor, a certeza é o fim.

Magda estava ansiosa para encerrar o namoro com Lucas. Moravam juntos há dois anos.

Deixou um bilhete na geladeira, preso com ímãs de melancia e foi trabalhar.

“Pode arrumar tuas coisas, não aguento mais. Não me espere para a janta.”

Quando Magda chegou em casa, estranhou o perfume de lavanda, a casa limpa, límpida, brilhante. Lucas entendeu que ela reclamava de sua bagunça e tratou de faxinar o apartamento. Guardou seus tênis e roupas espalhados, organizou os livros, criou caixas com seus pertences.

Ficaram juntos, evidente, pois Magda terminou envergonhada diante da incompreensão e faceira com a repentina mudança de comportamento.

Além de românticos e imprecisos, os bilhetes são naturalmente removíveis.

Vitor, por exemplo, decidiu pôr um ponto final em seu casamento de quatro anos com Elisabete.

Redigiu uma longa carta de despedida, explicando os motivos do desinteresse e a tristeza da ruptura, que não desejava magoá-la, mas não tinha jeito. Colocou o envelope em destaque em cima do tampo de vidro do fogão, e saiu para o serviço logo cedo.

Quando voltou para o almoço, disposto a reunir suas coisas, sua esposa não tinha ainda acordado, era folga dela e ele não sabia.

Ele releu o testamento e jogou fora.

Elisabete jamais soube do fim do casamento e permanece casada até hoje com Vitor.

O sono cura qualquer crise. Mesmo que seja o sono dos outros. 





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
9/7/2014

terça-feira, 8 de julho de 2014

ENTRE NÓS

Arte de Thomas Lawrence

Sou do tempo em que as famílias tinham sempre uma criança que morria.

Ou no ventre ou dos perigos da hora. Ou por alguma doença ou por uma fatalidade na infância.

Morria-se de tuberculose, de pneumonia, de descuido.

Nascimento não oficializava filho, era preciso ainda sobreviver.

Mães geravam cinco a 15 crianças, uma gravidez atrás da outra. Dificilmente todas chegavam à vida adulta. Raramente alcançavam a velhice.

Junto às lápides dos avós, nos cemitérios do interior, natural localizar uma cruz infantil. Com a data de nascimento próxima da data de morte, de doer a vista para quem visitava os parentes falecidos.

Bebês quase aproveitavam o mesmo grito de nascimento para sua despedida, representavam verdadeiros relâmpagos da existência.

Qualquer casa contava com uma criança morta, um fantasma mirim, alguém para lamentar o fim precoce e rezar rolando as pedras do terço pela mão.

Edir Macedo, o líder da Igreja Universal, é um dos sete filhos que restaram de 33 gestações de sua mãe. Trinta e três gestações! Eugênia sofreu 16 abortos e perdeu 10 filhos prematuros. Suportou a perda de 26 rebentos. Enterrou 26 rebentos em seu coração. Não podia nem se dar ao luxo de se entristecer porque seus meninos e meninas vivos esperavam o jantar ficar pronto.

Não era fácil atingir a maioridade. Filhos se viravam, trabalhavam cedo, pegavam na enxada, estavam sujeitos a acidentes, sem nenhuma proteção.

Os berços de madeira formavam caixões.

Sou do tempo em que morrer não rendia cerimônia. Lamentava-se por uma semana, e resolvia o luto observando as estrelas e contando histórias.

Meu pai teve sete irmãos, um deles faleceu: Elisabete, aos 12 anos. Ele lembra que dividia a escova de dente com sua irmã e aceitou o fato como uma provação.

As famílias sofriam uma baixa, uma perda invariavelmente. Uma cama restaria vazia, um lugar na mesa se manteria maldito, brinquedos seriam reutilizados como talismãs de um ente querido.

Sou o terceiro filho de quatro irmãos. Eu, Rodrigo e Miguel guardamos uma diferença de dois anos exatamente. Entre a Carla e o Rodrigo, a diferença é de cinco anos, quebrou-se a escadinha, pois a mãe perdeu uma gestação no meio deles.

Na minha adolescência, a mãe escutava esse filho que não veio conversando com a gente. Diante da ausência falante, não reagíamos com medo e pavor; filhos morriam ou não nasciam e seguiam sendo lembrados a trajetória inteira.

Não separávamos morrer e não morrer. Não representavam dimensões opostas, conceitos antagônicos. O sobrenatural não nos assustava, tampouco nos ameaçava. Não se culpava Deus por aqueles que se iam, mas se agradecia a Deus por aqueles que permaneciam.

Sou do tempo em que se acreditava que um dia todos se encontrariam novamente no céu – só era questão de tempo.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2,  2/7/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17853

QUAL O MOTIVO DA GRAÇA?

Arte de Duta Razvan

Conhece algo mais estraga-prazer do que ver duas pessoas rindo e se aproximar e perguntar do que estão rindo?

Acaba com qualquer vontade de rir.

A inveja da gargalhada dos outros é muito chata. O ciúme da alegria dos outros é muito feio.

Perdeu a piada, adeus, não tem recuperação, reforço, segunda chance.

Piada não tem repetição. Piada é momento.

Piada é relâmpago. Viu ou não viu.

Piada não tem retrospectiva. Não adianta pedir para que conte de novo porque já gastou a força e a surpresa.

Piada não tem passado. É só futuro.

Piada não tem como explicar. Ou lembrar alguma parte. Envolve expressão facial, sotaque, cenário.

Piada é na hora.

Não há nada mais sem graça do que os atrasados na piada.

Calma, existe ainda um tipo mais insuportável: é aquele que já conta a piada rindo. E não termina. E se engasga e fica rindo sozinho. Se não sabe contar, por educação, nem tenta.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (8/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A ÚLTIMA BOLACHA RECHEADA DO PACOTE

Arte de Mimi Parent

A vingança é um efeito colateral da vaidade. É um sinal da arrogância que existia desde o começo da relação.

Ninguém se torna vingativo, as pessoas já são vingativas e demonstram a predisposição de destruir logo no primeiro encontro.

A vingança não é uma novidade do fim, mas uma notícia velha do início.

Não venha dizer que só conheceremos com quem a gente se casou quando nos separamos. A gente conhece de quem a gente vai se separar quando casamos.

Quem se acha demais acaba se vingando. Porque pensa que, ao namorar, realiza um favor. Porque pensa que, ao namorar, concede o bilhete premiado de sua companhia. Porque pensa que, ao namorar, está garantindo a simpatia de sua conversa, a gentileza de sua personalidade, a dádiva de sua alegria, o luxo de seu humor, atributos raros e impossíveis de se jogar fora.

Quem se acha demais não namora, na verdade dá uma chance.

O tipo narcisista se coloca na posição de provedor da verdade. É afetado, unilateral e autoritário – tornou-se assim pela beleza, pelo dinheiro ou pela projeção social.

A questão é que se enxerga perfeito e intocável e confunde sua presença amorosa com filantropia.

O narcisista não admitirá qualquer crítica, e a separação é a maior delas, discordância evidente de seu modo de vida.

Jamais aceitará que errou, jamais pedirá desculpa, jamais arcará com a responsabilidade de seus atos, jamais carregará culpa pelo distanciamento. Não tem humildade da autocrítica para acolher suas falhas, muito menos sente o remorso que vem da saudade. Não tem aquela pontada natural após uma ruptura, aquela tristeza baldia e consciência aguda de que foi desatento e que poderia ter sido diferente.

Não atravessa o luto, parte direto para a represália. Uma vez rejeitado, fará de tudo para mostrar que a pessoa nada é sem ele. Diante de uma ruptura, pode deflagrar perseguição, boicote e uma série de constrangimentos sociais. Procura humilhar quem antes adorava, procura rebaixar quem antes endeusava. Troca de lado: odeia com todo o ânimo quem amava.

Sua generosidade é investimento ou um modo de manter o controle da situação. O que oferece ao longo da convivência cobrará no final.

É tão centralizador que usa a dor para aumentar seu poder e castigará qualquer um que renunciou o prazer de seu reflexo.

O narcisista é vingativo por perceber o amor como uma monarquia. Sem ele, o outro não é nada, não tem história, não tem passado, não tem futuro. Distanciado de seu domínio, perde o direito à coroa e converte-se, de novo, em reles súdito.

A vingança é vaidade, mas não tema, não se acovarde.

A última bolacha recheada do pacote ficará para as formigas.

  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 6/7/2014 Edição N° 17851

PENSE GRANDE TODA PEQUENEZA

Arte de Oleg Korolev

Repasso dica de minha amiga Lya Luft, do seu novo livro O tempo é um rio que corre.

Valorizamos apenas os grandes projetos, os projetos gigantescos e maiúsculos, os projetos de gente adulta, séria e comprometida, como comprar uma casa, um carro, viajar para o exterior, casar, ter filhos, abrir uma empresa, criar nosso próprio negócio, alcançar sucesso profissional.

Mas a alegria não nasce da ambição, e sim dos pequenos projetos.

Nosso bom humor vem dos pequenos projetos. Nossa esperança só vinga com os pequenos projetos. Não adianta ter grandes projetos sem os pequenos.

As expectativas mais banais renovam nossa vontade de viver.

O que nos salva do desespero e do tédio são os pequenos projetos como ir ao cinema no fim do dia, almoçar uma comida diferente, comprar uma flor para a casa, visitar um irmão, ler um livro, fazer matrícula no curso de idiomas, voltar para a ginástica.

Os pequenos projetos são os degraus para os grandes.

O futuro virá para quem gosta de seu presente. 

É importante sonhar alto, sem esquecer o valor dos cochilos, das sestas, das pestanas.

Ouça meu comentário na manhã de sexta (4/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


A TEIMOSIA DO GANDULA

Arte de Eduardo Nasi

Minha mãe saía para trabalhar e eu ficava sozinho em casa até o anoitecer.

Antes de se despedir, ganhava as instruções de arrumar o quarto, aquecer a comida, tomar banho e realizar os temas da escola. Mas havia sempre aquela advertência mais severa, dada no abraço e beijo de tchau:

— Não abra a porta para ninguém! Ninguém, viu? Ninguém!

Numa dessas tardes desamparadas, a campainha tocou. Era minha tia Cléia. Já havia identificado pelo som meloso de seu timbre:

—Adorável sobrinho…

Toda tia carrega no perfume e na adjetivação. Toda tia é exagerada, o que soa involuntariamente cínico.

Espiei pela janelinha e não abri a porta.

Ela insistiu:

— Vejo você mexendo na cortina, meu adorável sobrinho, sua mãe me mandou aqui.

— Não posso, respondi. Não posso abrir para ninguém.

Ela gritou, esperneou, produziu escândalo, chamou os vizinhos, só que não cedi. A mãe depois veio reclamar que sua exigência não valia para quem era da família.

— Ninguém é ninguém!, bati o pé.

Lembrei de minha teimosia quando vi um gandula brigando com o jogador da Alemanha, nas oitavas de final da Copa do Mundo, em partida contra a Argélia, em Porto Alegre.

O atacante Kramer pediu a bola para aquecer no intervalo da prorrogação.  Gesto natural, já que seria a próxima substituição do técnico Joachim Löw. Menos para o gandula. Na puberdade de seu bigodinho, enfrentou o número 23 da seleção germânica. Nem aí para a hierarquia do momento, ou para a importância do jogo tenso e dramático, sob o risco de ser decidido nos pênaltis.

— Não, impossível, só posso dar a bola dentro da partida — explicou o gandula.

Ele não falava alemão, o alemão não falava português. A linguagem que vingou foi a da coerção. Kramer teve que arrancar com violência a bola das mãos do adolescente.

O guri ainda tentou lutar em vão, reaver o objeto de sua estima. Em represália, ensaiou correr ao campo, porém recuou pelos assobios da torcida.

Eu me identifiquei com seu gesto. Mesmo se Joseph Blatter solicitasse a bola, ele negaria. Aquele homenzinho de capuz e tênis colorido recusaria com convicção qualquer infração à ordem recebida. Não abriria exceção para presidente da FIFA, tia, carteiraço, privilégios. Não estava em campo para interpretar a lei, e sim para executar tarefas até o fim. Custe o que custar.

Para a maioria dos torcedores, sua ação terminou sendo alvo de deboche, acolhida como falta de senso e burrice. Gerou longas vaias e risos. Não segui a hola de bullying. De pé, rompi a gozação, aplaudi isoladamente, bati palmas com força.

A obediência é tão rara, tão incomum, tão inesperada hoje em dia.  Eu me alegrei ao testemunhar a ingenuidade comprometida com a palavra, a missão sendo cumprida à risca. Como é bonita a responsabilidade amadurecendo em um menino.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
2/7/2014

DONO DO MUNDO

Arte de John Everett Millais

Não tenha medo de quem é ciumento, mas de quem é possessivo.

O ciúme não é nocivo, é um sentimento sadio e normal para revelar os limites da aceitação e da dependência. Moderado, transmite inclusive uma sensação charmosa de cuidado e de proteção. No início do relacionamento, revela paixão e comprometimento.

Ciúme é uma insegurança passageira, uma carência pontual. Costuma ser mais uma dúvida do que uma desconfiança.

O problema é a possessividade, que impõe conclusões e não questiona, sempre incontrolável e insaciável.

A possessividade é o ápice do machismo, escraviza e anula personalidades.

Com a fachada da adoração, o sujeito cria uma prisão emocional. Não permite que a mulher viva nada além do que é concedido dentro da relação. Seus elogios são mesadas. Suas gentilezas são oportunistas. Seu cerco é castrador.

O que ele busca é enfraquecer sua companhia de tal maneira que ela não apresente mais individualidade e forças para se opor. Sua tática é cansá-la perguntando e exigindo explicações para qualquer coisa. Disposta a não se incomodar e evitar os conflitos, ela vai dizendo sim e apagando as diferenças.

É como ter um pai patrão, não um marido. É como ter um chefe, não um cúmplice. É como ter um dono, não um parceiro.

A possessividade não é brincadeira, não é engraçada, não é bem-vinda.

O possessivo será rude com seus amigos e familiares, será grosseiro com seu círculo de convivência, armará barracos e escândalos nos momentos de suas maiores alegrias, sob o pretexto de sinceridade e transparência e que precisa dizer o que vem sentindo.

Sem se dar conta, estará pedindo autorização para se vestir, para sair, para falar, para se comportar, para se divertir. Tudo o que fizer dependerá de relatórios minuciosos e narrativas detalhadas, e nada agradará para garantir a confiança e a liberdade.

Um cafetão seria mais discreto e generoso.

Terá seu Facebook administrado pelo marido, seu celular monitorado pelo marido, seus gastos checados pelo marido. O controle começará com o tamanho e o perfil das roupas, depois avançará para as fotos nas redes sociais, prosseguirá nas amizades (seus conhecido dependem de aprovação à semelhança de linha de crédito) e, por último, desembocará na utilização das palavras em mensagens.

A possessividade é a ameaça de bomba dentro de sua casa. Pode evacuar o coração. Não costuma ser trote.





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2,  1/7/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17846

terça-feira, 1 de julho de 2014

ACABOU O AMOR

Arte de Paul Delvaux

Estava tomando café com um amigo.

E o telefone dele tocou, tocou, tocou sem parar.

Eu perguntei: não vai atender?

Ele disse que não, não era nada demais, que era a mulher dele.

Pode ser importante, insisti.

Ele explicou que não tinha vontade de ouvi-la.

Busquei entender: aconteceu alguma coisa? Brigaram?

Não, ele me respondeu, não haviam discutido, não aconteceu nada, somente não tinha interesse.

O número da esposa apareceu na tela mais duas vezes sem esperança, em histérico silêncio.

Daí entendi algo importante: quando a esposa deixa de ser prioridade, acabou o amor.

Quando a esposa é adiada não tem mais amor.

Quando não há mais curiosidade, desejo de escutar sua voz acima de tudo e de qualquer coisa, no meio do trabalho ou da alegria entre amigos, acabou o amor.

Quando não há questão de socorrer ou de acalmar, de conversar ou de saber o que aconteceu, acabou o amor.

Acabou o amor. 

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (1/7) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: