sábado, 4 de julho de 2015

SÓ NO AMOR O TEMPO É LENTO

Arte de Enrico Donati 

Você poderá dizer que é melhor planejar o futuro. Muito melhor quando podemos alcançar o sucesso profissional desde cedo. Muito melhor quando podemos obter segurança, estabilidade e independência financeira desde cedo. Muito melhor quando podemos viajar para onde quisermos desde cedo. Muito melhor resolvermos a nossa vida para só depois namorar sério, casar e ter filhos.

Mas nada disso faz sentido se não existe ninguém para dividir as nossas alegrias. O que adianta ser o melhor se não contamos com uma testemunha para os nossos feitos? O que adianta acumular poder e se refugiar na solidão?

Sem o amor, nenhum projeto dura. O tempo é rápido demais para vivermos sozinhos.

Não vale a pena conquistar o mundo se ainda não foi capaz de conquistar o coração de uma mulher ou de um homem.

Não há como mandar no amor, determinar onde, como e quando, somente precisamos encontrar humildade para obedecê-lo.

Ouça o que falei na manhã dessa sexta-feira (12/6) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: 

NÃO TEM ERRO

Arte de Eduardo Nasi

Há uma escadinha para se ter um relacionamento, formada pelo café, jantar e cinema.

Convidar para um café é sondagem de terreno, não significa absolutamente nada. Você investigou a ficha criminal no Facebook, está em dúvida se tem compatibilidade ou não, se aquela alegria das fotos é verdadeira ou miragem da web. O encontro casual num ambiente público, de preferência de tarde, não produz comprometimento. Trata-se de um espaço neutro, que ainda permite você inventar uma desculpa (“preciso voltar ao trabalho”) e desaparecer. Não atravessará nenhum constrangimento, de suportar sala e cama com quem não gostou.

O café não significa entrega, é apenas um detector de mentiras educado e civilizado, confirmar se o outro não mentiu sobre sua aparência e personalidade no jogo de sedução.

O jantar, por sua vez, representa o maior grau de envolvimento. Convidar para uma noite a dois é ter vencido as barreiras das preliminares. A curiosidade superou o medo e você decide se expor com a companhia no horário nobre. A química foi aprovada, ainda que não tenha sido tocado pela paixão. O café assumiu ares promissores de madrugada. Demonstra uma abertura para a convivência. Será o teste para verificar a avareza, que começa na escolha do restaurante e desemboca no momento da conta. Poderá descobrir a performance intelectual do candidato, como mantém uma conversa, o que aprecia beber, o que escolherá do cardápio, sua generosidade com os outros (garçom e atendentes), o modo como oferece atenção e mexe com os talheres. O jantar entrega nossas origens culturais. É na fome que se desvenda a sede do amor.

Já convidar ao cinema abarca uma plataforma mais séria. Os laços estão indo bem e devem resultar em nó de marinheiro.

Filme é muito pessoal, quase como apresentar a família. Antecede às confissões e às crises iniciais de insegurança e ciúme. O que era devagar vai correr agora, pisará no último degrau da escada rolante da atração. Existe uma disposição evidente ao namoro. Não se chama rolo ou casinho para o escuro de uma sala, e sim para festas e motéis.

O cinema mantém uma ideia ancestral de compromisso. É a igreja dos ateus, é interesse na certa, onde se portará como um casal pela primeira vez: enfrentar a fila na hora de comprar pipoca e refrigerante, esperar na porta do toalete, segurar a mão com receio da recusa e oferecer o ombro secretamente como almofada de apoio.

Não tem erro. A ocasião faz o criminoso. Transar é no café, flertar é no restaurante e namorar mesmo só acontece no cinema.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
16/05/2015

ELA NÃO É LOUCA, VOCÊ QUE NÃO ESTÁ APAIXONADO



Só a paixão absolve a loucura.

Se não estiver apaixonado, não aceitará que a pessoa ligue 10 vezes ao dia, mande centenas de mensagens simultâneas no Facebook e no WhatsApp, pergunte onde você está e o que anda fazendo, que partilhe música favorita e fique angustiada até aparecer o aviso de que você ouviu.

Entenderá que ela está perseguindo, é uma doente, uma carente, uma histérica, não tem com o que se preocupar. Vai descartar o caso confiando que se livrou de uma roubada.

Mas, se estiver apaixonado, achará tudo adequado e preciso, que ninguém compreendeu sua rapidez antes, compreenderá a insistência como dedicação. Responderá as mensagens no mesmo instante, não deixará nada no vácuo, elogiará as afinidades, dedicará o pior do seu tempo para corresponder às expectativas, e ainda sofrerá de ansiedade diante de qualquer minuto de silêncio jurando que é o fim do relacionamento.

Somos todos loucos hoje em dia. Não há mais ninguém normal. Todos têm traumas, ou perderam um pai ou uma mãe, ou não se dão com a família, ou têm alguma crise de pânico ou um desajuste profissional. Saúde de verdade somente depois de morto, e ninguém voltou para se exibir, com exceção de Jesus, que retornou falando qualquer idioma – até a língua portuguesa – e muito melhor do que realmente estava.

Se você não admite o comportamento alheio, não tem nada a ver com a possível psicopatia do sujeito, é apenas porque não está apaixonado.

A paixão isenta a loucura. O apaixonado é um possuído, um abnegado, extravia a noção da realidade para apressar as fantasias. Não se interessa em conceituar o que é certo ou errado, mas em se aproximar cada vez mais, mesmo que seja necessário transgredir suas leis e hábitos. Não julgará, pois o julgamento é próprio da razão e do discernimento.

Uma festa será a melhor dança da vida. Uma conversa na cozinha será a melhor confissão da vida. Um cinema será o melhor encontro a dois da vida. O sexo no sofá será o mais íntimo da vida.
O banal será sublime. O pouco será muito. O recente será eterno.

O apaixonado superfatura as vivências. Exagera. Extrapola. Transborda. Cobre seus olhos de tarja preta, não lê prontuários médicos, muito menos revisa o passado de sua companhia.
E, quando chegar o amor, após a paixão, não descobrirá o quanto seu par é realmente irritante e insuportável.

Conhecerá uma nova doideira. A doideira da intimidade e da paciência. A doideira dos defeitos e da imperfeição. A doideira da raiva e da desculpa. Não enxergará a implicância incorrigível do seu marido ou de sua esposa. Conhecerá em si um fôlego incansável para brigar e discutir noite adentro, e uma indisposição incomum para acordar na manhã seguinte e logo esquecer as diferenças e mágoas.

Só o amor perdoa a chatice.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 09/06/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18188

terça-feira, 30 de junho de 2015

OS PÁSSAROS

Arte de Rafal Olbinski

Quem não vem gostando dos jogos às 11h no domingo são os pássaros do Beira-Rio. As pombas e os quero-quero estão revoltados. Mexeram com as escalas entre homens e animais. Que história é esta de aparecer antes do almoço e estragar o churrasco de minhoca?

Completamente irritadas, absolutamente transtornadas, as aves parecem dizer:

- O horário é meu! Vocês, jogadores, só devem surgir depois das 15h, é assim desde o início do campeonato brasileiro.

Elas voam de um lado para outro, dão rasantes nos torcedores, arrulham para que a torcida vá embora e somente entre nas arquibancadas de tarde.

Os dirigentes colorados e a CBF não combinaram com os pássaros as partidas nas manhãs dos finais de semana. Foi um grande erro, o que talvez gere um desequilíbrio ecológico.

Tomaria cuidado com a invasão em campo. Poderemos assistir uma refilmagem do clássico de Hitchcock.

Ouça o que falei na manhã dessa terça-feira (8/6) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

ALADIM DOS CAPRICHOS IMPOSSÍVEIS


O ansioso não é ansioso por ele, mas pelos outros.

A ansiedade é raciocinar pelos outros, é concluir pelos outros, é resolver pelos outros.

Você escuta algo, toma aquilo como uma missão e deseja concluir rapidamente para voltar a pensar em si.

A ansiedade é uma generosidade inventada pelo egoísmo.

A ansiedade é correr contra o tempo com o propósito de voltar a ter seu próprio tempo.

A ansiedade é a compulsão de atender às expectativas de quem está do seu lado para retornar aos cuidados de suas próprias expectativas.

O dilema do ansioso é que procura agradar à sua companhia para não ser criticado. Mas sempre está a fim de algo pessoal que não sobra tempo.

É alguém que come o pior do prato e reserva o melhor para o final. Certamente a comida predileta restará fria na hora de ser garfada.

Não há discernimento entre o que é importante e o dispensável. Tudo é urgente, tudo é motivo de aflição, tudo é uma perigosa avaliação de seus atos.

A próxima atividade, apenas por ser a próxima, é de absoluta premência. O pequeno e o grande têm o mesmo valor. O simples e o épico têm igual medida.

O problema do ansioso é que ele converte qualquer solicitação em prioridade. E como só consegue começar uma tarefa quando terminar a anterior, sua rotina transforma-se em gincana.

Ninguém está pedindo ou solicitando nada, só que ele se posiciona como o provedor do universo, como o telepata do casamento, como o Aladim dos caprichos impossíveis.

Como se fosse um marido saciando infinitamente os rompantes esquisitos de sua esposa gestante. E sua esposa ainda nem está grávida.

O ansioso é carente, pois nunca se julga satisfeito consigo.

O ansioso é insaciável, pois não para nem para comemorar seus feitos.

O ansioso não avalia as possibilidades, ele prefere descartá-las cumprindo uma por uma.

Se a mulher comenta que precisam comprar roupa de cama, incorpora as palavras dela como uma ameaça e pretende amanhecer na loja e se desobrigar da tarefa.

Mas ela não falou para realizar naquele instante, era uma intenção para ser cumprida durante o mês, mas o mês para o ansioso é ontem e ele não admite esperar. Ele não suporta acumular planos. Plano é tensão, plano é pendência, plano é uma decepção agendada.

Parte da hipótese de que senão fizer agora não fará nunca mais. Mas é mentira. Ele faz rapidamente porque odeia ter compromissos em aberto. Abomina ser pressionado e se pressiona terrivelmente. Ele se cobra para não ser cobrado.

Seu prazer está em finalizar os atos, não em desfrutá-los. Perde o melhor da vida que é não se preocupar naquilo que virá depois.

O ansioso é um doente terminal com excesso de saúde. Morre de uma doença imaginária.




Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.32
Porto Alegre (RS),  07/06 /2015 Edição N°18186

ESTRANHAMENTOS


                                                                               Arte de Eduardo Nasi

Vazamento é parar sua agenda.

Minha cozinha estava ensopada devido a um encanamento quebrado da vizinha de cima.

Ivania, a médica do prédio, não tinha como tomar banho ou ligar a pia da cozinha, senão meus tapetes viravam canoas.

A urgência do contratempo fez com que seu hidráulico baixasse em meu apartamento como um relâmpago. Apareceu mais rápido que azulzinho em período de campanha.

Sem empregada em casa, desisti de qualquer outro compromisso pela frente. Quando o hidráulico diz que levará duas horas pode contar com 4h de serviço. É sempre o dobro da promessa, isso quando não leva dias dependendo da infiltração. Isso quando não leva meses dependendo da fé do proprietário.

Sim, fé!, a primeira frase do hidráulico foi:

- Preciso de sua fé para resolver rápido.

Não sei como ele age quando cumprimenta ateus. O pedido era tão inusitado que quase acendi uma vela. Concordei com a cabeça, completei o sinal-da-cruz e parti para ajeitar a residência.

Enquanto ele trabalhava e elogiava seus filhos universitários, enquanto narrava sua vida em ordem epistolar, lavei a louça, sequei e guardei todos os pratos e vasilhas, passei roupa, cozinhei para meu filho Vicente, limpei a geladeira daquelas sobras de domingo que nunca mais conhecerão a primeira divisão e sambei com o aspirador na sala. Aproveitei o tempo encarcerado no lar para dar conta das inúmeras tarefas domésticas. Não tinha condições de relaxar e escrever com alguém solicitando a toda hora pano velho, jornal, lanterna, arame. Assumi o papel de estagiário da construção civil, fingindo acelerar o que não havia como apressar.

Não demorava nem um eco para atender seus chamados. Solícito, atento, como se realmente estivesse disputando uma promoção.

Depois de falar sem parar de si, ele me encarou de abrigo velho e havaianas, um sujeito estranho engalfinhado na espuma e no ferro, na limpeza e no pesado, e me questionou:

- Que horas chega seu patrão?








Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira03/06/2015

A SURRA DE CINTO



Meu amigo levou uma surra do pai aos 13 anos, de cinto.

Foi a primeira e única surra que recebeu na vida. Por uma injustiça. Responsabilizado por quebrar o rádio que nem usava. Um rádio que deveria ter estragado pelo mau contato do fio.

A fivela marcou suas costas.

Quando apanhou no quarto, não gritou por socorro, não chorou, não esperneou. Manteve-se obediente até o final do castigo, ficava preocupado em localizar a língua de metal. E se distraía tentando adivinhar os próximos ricochetes do ferrinho em sua pele.

Seu pai já não ajudava na demonstração do afeto: quieto, casmurro, de poucas palavras. Depois disso, a admiração tácita pelo papel de cuidador também se desfez lentamente. Nem o silêncio entre eles se salvou, evitavam olhar-se nos olhos.

Em toda conversa com o pai, esperava um pedido de desculpas, que não veio. Ambos comiam de cabeça baixa, como cavalos cansados.

O pai explodiu porque estava desesperado, irritado, preocupado com falta de vaga na construção civil e com a demora em arranjar um novo posto de trabalho.

O filho era a pessoa mais próxima no momento de raiva. Dependendo das circunstâncias, poderia ter sido a mãe, o irmão, o cachorro em seu lugar.

Só que sobrou para ele. E ele cresceu, casou, teve uma filha, obteve reconhecimento como professor universitário, abriu uma empresa de engenharia, mas jamais esqueceu o assunto. Seguiu adiante na vida, ainda que engasgado pela incompreensão do sangue. Amadureceu de um jeito ou de outro, pela convicção da aparência, apesar de permanecer parado na mesma lembrança.

Um dia, quando ele já ultrapassara os 40 anos, o então velho pai entra em sua residência, senta para tomar café da manhã. Cumprimenta a nora e a neta e se põe em sua frente com a pupila mareada.

Do nada, sem nenhum contexto, enquanto abria o pão com suas mãos macilentas e veias azuladas, o pai começa a se desculpar:

– Lembra quando eu lhe bati em sua infância? Lembra? Você estava na oitava série. Eu queria pedir perdão. Estava fora de mim. Foi um erro, um grande erro.

Quando finalmente obteve a retratação, o que ansiava ao longo de 27 anos, o filho não tirou proveito da situação, não foi arrogante, não descontou a raiva, não se prevaleceu, não julgou a demora, não condenou o atraso, não jogou na cara que pensou naquilo todos os dias, preferiu aliviar o sofrimento paterno, optou por cuidar do constrangimento paterno, o amor ao pai superou seu orgulho ferido, e apenas disse:

– Nem me lembro, pai.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 02/06/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18181

segunda-feira, 29 de junho de 2015

SONHEI COM VOCÊ



Ninguém resiste a um sonhei com você.

“Sonhei com você” cria uma cumplicidade imediata, uma afinidade súbita. Mudamos o nosso olhar para a conversa e para o interlocutor.

Pode ser trova, pode ser chantagem emocional, mas é um recurso sedutor infalível.

No início da relação ou quando se é apenas amigo, o sonho é uma cantada que desperta a curiosidade.

Você procurará saber o que foi e o que estava fazendo no sonho de outra pessoa.

Mesmo os mais inteligentes e maduros, os mais céticos e descrentes, sucumbem à estratégia.

É um sinal claro de interesse e de disposição para começar algo, já que o inconsciente criou uma memória em comum, uma memória a dois.

Os homens, tarados por sua natureza, imaginam que são sonhos eróticos e crescem seu apelo pelo relato.

Não se dá muita chance quando alguém diz que pensou em você, mas quando diz que sonhou com você muda de figura e ganha toda a nossa atenção. O interrogatório do que aconteceu na mente alheia é inevitável.

Adere-se ao território das verdades secretas, aos símbolos do divã, à esfera mística das casualidades inexplicáveis.

Como contestar um sonho? Não tem como desmentir.

Nem criamos oposição. Queremos, no fundo, sermos sonhados, sermos conduzidos, receber sinais de anjos e de cupidos.

Na paixão, somos supersticiosos, somos místicos. Não marcamos encontros, abrimos cartas de tarô na alma.

Procuramos uma união que seja maior do que nossa força, que seja uma fatalidade, um destino agendado de vidas passadas.

Trata-se de uma facilidade sentimental, para não precisar justificar nossa escolha diante dos amigos e parentes. Pois foi o destino que definiu, não a gente, acabamos nos isentando de nossos gostos e predileções.

Se o sonho serve para estabelecer proximidade, o pesadelo é o elo para recuperar os laços.

Durante a separação, no momento em que perdeu o contato com o ex e a ex e não conta com pretexto para retomar o diálogo, o pesadelo vem como panaceia da saudade.

Do nada, pode mandar uma mensagem que sempre produzirá estrago: “Tive um pesadelo com você. Está bem?”

É óbvio que ganhará resposta. Pelo medo do castigo, da macumba e da maldição, e também porque não há como deixar uma preocupação sobre a saúde no vácuo.

Não perceberá que ela e ele procuram somente notícias de sua condição, é uma pescaria aleatória, com a meta de descobrir qual é o seu estágio de sofrimento.

O objetivo é de menos. O pressentimento, ainda que ruim, demonstra falta e indica uma forte ligação espiritual. Várias reconciliações se deram por um pesadelo falso ou verdadeiro. Não há como se indispor, ainda que a briga tenha sido épica e a ruptura justa.

O pesadelo é o habeas corpus do amor.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.32
Porto Alegre (RS),  31/05 /2015 Edição N°18179

SOBREI, SOU PAI

Arte de Eduardo Nasi

A paternidade abole a frescura. Elimina qualquer pudor. Desfaz nojos e fobias.

Fui me tornando pai sem querer, sem a consciência aguda da mudança.

Quando fui ver estava recolhendo o prato do filho e garfando pedaço do bife frio que ele não comeu, recolhendo a fileira de arroz sobrevivente e colocando na boca, remontando o bolinho mordido e não finalizado, como se os seus restos fossem a minha responsabilidade. Sem nenhuma divisória, sem nenhum bloqueio, seu paladar estendia o meu, seus hábitos completavam a minha rotina. Havia um amor incondicional que não existia antes. Um amor instintivo de bicho cuidando de sua cria.

Não admitia colocar comida fora. Mesmo que não tivesse fome, repetia o gesto antes de empilhar a louça na pia. Raspava sua porcelana com uma espontaneidade incomum.  Com a velocidade de um guardanapo.

Era mais pai colhendo os farelos e ciscos de seu almoço. Quantas vezes a minha mãe fez isto silenciosamente?  Quantas vezes ela pegou com a mão e mordeu as verduras postas de lado em minha bandeja?

Fui me tornando pai na surdina, na oposição da cozinha, na resistência das sombras. Nem concordando, muito menos sendo festejado.

Minha filha adolescente, por exemplo, sempre me perguntava onde estaria de tarde. Eu respondia com detalhes, feliz que se interessada por mim, arrebatado pela sua preocupação em partilhar o GPS de meus dias. Imaginava que gostaria de me surpreender com um café ou um abraço.

Mas não era por uma intenção nobre que ela me questionava, muitos menos afetuosa. Procurava definir o meu paradeiro e antecipar o meu destino simplesmente para não me encontrar. Sofria do pânico social, uma vontade atávica e desesperada de se esconder de mim, de me ocultar, de não dar explicações a meu respeito aos seus colegas. Vi que se envergonhava de ser filha e dependente e ainda criança diante de meus olhos – se pudesse me trancava no quarto e jogava fora a chave.

Um dia, ao descobrir que faria uma palestra no shopping Praia de Belas, me convocou para uma conversa séria: – Pai, não apareça no segundo andar, que estarei com minhas amigas!

Tive que prometer não subir a escada rolante em nenhuma hipótese. Só se acalmou quando jurei com os dedos cruzados.

Ser pai é terminar sendo as sobras dos filhos.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
27/05/2015

:-( >:-( x-(


Não existe maior frustração que somente falar por emoticons e emojis.

É uma praga infantil.

Tem sido um mico participar de grupos no WhatsApp. Das 140 mensagens, 138 são de carinhas, corações, joaninhas e bichinhos.

Não se encontra nenhuma frase inteira, com nexo, verdadeira, inspirando reações diferentes e singulares.

Quem recorre aos emojis e emoticons não prioriza a conversa que trava com você. Não é importante o suficiente para receber a dedicação exclusiva do texto.

É uma sensação de descarte e superficialidade. Aquele que insere um macaquinho ou um gatinho dá a ideia de distração, de ocupação, de envolvimento simultâneo em diversas janelas. Deseja se livrar da resposta o quanto antes.

Somos mais selos do que correspondência. Emburrecemos emocionalmente. Regredimos para atender ao maior número de contatos e não deixar ninguém esperando. O falso excesso de amigos vem atrofiando nossa percepção do mundo.

Uma mãe de 50 anos hoje é capaz de estar se comunicando igualzinho à sua filha de cinco anos. Trocou sua maturidade pela velocidade.

Voltamos ao jardim da infância da linguagem. Nem é o pré, só falta colocar avental com o nosso nome bordado e fazer fila indiana.

É fofinho usar uma carinha ou outra, mas não sempre e indiscriminadamente. Torna-se decepcionante como receber um ok depois de escrever vários parágrafos para alguém.

Não tem como não se indispor. Você faz uma longa declaração de amor e recebe um dedo para cima. Você explica suas dificuldades familiares em cuidadosa linha de raciocínio e ganha duas palmas coladas rezando.

Não há aquele esforço de parar e refletir e encontrar a melhor expressão, de fugir do repertório básico, de inventar arranjos e improvisos de pensamento.

Se alguém demora muito para digitar, levará pedrada. Toda demora sugere mentira. Pois a pausa é malvista e o rigor com o outro é desprezado.

Derrapamos na imediaticidade que é pura preguiça. Concordamos, aplaudimos, festejamos e nos assustamos por símbolos.

Explicamos o que somos por desenhos, sem nenhum comprometimento e pessoalidade. Empregamos os mesmos códigos para qualquer um, esclarecendo se estamos felizes ou emburrados ou chateados ou surpresos, mas nunca definindo a particularidade de cada momento.

O celular apita várias vezes ao dia e, na maior parte, são adesivos de agendas escolares.

É o medo da expressão, é o medo da vírgula, é o medo das palavras erradas, é o medo das pessoas certas.

Não precisamos voltar a escrever cartas escritas a punho, mas tampouco precisamos amputar as mãos.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 26/05/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18174