segunda-feira, 31 de outubro de 2016

NO TEMPO EM QUE TODOS ESTAVAM VIVOS

O aniversário nunca será na fase adulta como na infância. Não haverá mais a longa véspera da meia-noite, entre dormindo e acordado, naquela vigília pelo presente. Não haverá mais o lar em completa algazarra por uma única pessoa: você no centro do mundo, uma pessoinha de pálpebras rápidas, piscando diante da mãe preparando a panela de brigadeiro, as forminhas de salgados e cuidando para o
bolo não afundar acendendo e apagando a lâmpada do forno. Não haverá mais a estranha exclusividade de provar qualquer doce antes do almoço.

Um exército de mãos rompe a rotina para dar conta das atividades domésticas acrescida de novidade de seu aniversário.

E não é obrigado a fazer nada, a não ser assistir ao espetáculo de seu nascimento a ser repetido fora do ventre. Os irmãos não lhe machucam, não implicam, oferecem um indulto abençoado de gracejos. Colegas lhe tratam bem e com respeito, existe uma veneração de brilho, tios e tias mexem em seu cabelo, roubam beijos, brincam com a demarcação de sua breve existência com a marionete dos dedos.

Você só tem que apenas esperar uma surpresa depois da escola denunciada em cada riso da família. Não passou por nenhuma dor e separação para estragar a alegria, nenhuma cadeira estará vaga pela morte ao redor da mesa. Os avós estão ainda vivos e vêm de longe com suas malas xadrez do interior e pacotes improvisados longe das lojas.

A memória não é maior que a imaginação. Desperta da cama, como se fosse um sapato de couro envolvido em papel seda dentro de uma caixinha. Você colocará chapeuzinho cônico, com o elástico apertando o queixo imberbe. Soprará as velas com a ajuda dos outros, o melhor aniversário é do tempo em que não tem força no pulmão para apagar a chama da vida.

Assim que você cresce, a festa é um fingimento – um alegre fingimento, mas fingimento –, enfrentará o trabalho de convidar os amigos e de negociar os presentes, sofrerá com alguma perda e gafe. Precisará receber os convidados e não poderá parar um minuto de servir e ver se se todos estão felizes, comendo e bebendo.

Acabou a comemoração inconsciente, acabou a sensação de medo bobo, acabou o olhar guloso ao teto repleto de balões coloridos para definir qual deles levará para voar dentro do quarto.

Quando crescemos, os aniversários são solitários mesmo de casa cheia. Casado ou solteiro, ficará responsável pela sua alegria. Ninguém mais aplacará a expectativa e resolverá a carência. Persistirá a consciência de que estamos envelhecendo mais do que inaugurando uma idade.

Publicado no Jornal Zero Hora - Caderno Donna
30.10.2016
Coluna Semanal

sábado, 29 de outubro de 2016

JAMAIS


Quem já não cometeu pequenas e patéticas infrações na relação? Como roubar a gilete rosa da esposa, que ela usa para depilar no banho, para corrigir aquele fio solto da barba. Precisa abolir o pelo de qualquer jeito, no desespero do horário, e não há como comprar um aparelho novo. Ou alguém que furtou a escova de dente ou pegou o troco na carteira do outro sem avisar, sob alegação de que depois devolveria. Ou roubou um doce fingindo que desconhecia a importância. Quem? São naturais delitos do amor, absolutamente perdoáveis. Não partem da zona escura da personalidade. Não interferem no curso do romance. São molecagens, travessuras, implicâncias.

O que bate de frente é a agressão silenciosa. Quem esconde o punho na hipocrisia, quem finge generosidade no beijo e cospe sua agressividade em segredo.

Até perdoo a deslealdade, até perdoo a mentira. O que não abençoo com a desculpa é quem maltrata animal. Aquele que não tem câmera dentro de si para se entregar à consciência. Aquele que, por alguns minutos sozinho, tortura bichos em situação de fragilidade. Aquele que, enquanto não é visto, chuta as pernas do cachorro ou arremessa o gato na parede e depois segue normalmente com as suas tarefas no trabalho, como se nada tivesse acontecido.

Tenho certeza que o agressor de bichos também é capaz de apertar os braços de um bebê ou insultar um idoso com amnésia. Não há limites na degradação moral. Algo da devastação fica na memória. O sangue não se esvai pelo ralo com a mesma rapidez da água.

Não suporto quem se aproveita da impossibilidade da denúncia para abusar da violência. Explora a superioridade para elaborar  maldades. Não guarda um mínimo de culpa e de compaixão para recuar em seus ataques.

Disfarça-se de cuidador para ter controle dos fatos e aterrorizar progressivamente as suas vítimas. Covardemente, desconta a sua raiva em seres vulneráveis, sem condições de se defender e relatar os atentados.

Mesmo que seja uma agressão repentina: um chute, um soco, um empurrão. A duração do ato não diminui a sua gravidade. Ali ele enterrou a sua fé, ali ele se recolheu ao território da impunidade e renunciou a decência e o caráter de uma vez por todas.

Não darei jamais o meu perdão aos monstros domésticos, afáveis na aparência e boçais na solidão dos gestos.

Eles acreditam que não serão castigados. Juram que os bichos são somente bichos e, se não há céu para eles, tampouco haverá inferno para os seus agressores.

Mal sabem da verdade. Um gato sofrendo não mia, um cachorro sofrendo não late,  na dor ambos são crianças e gemem humanamente.

Publicado no Jornal O Globo - Blog
28.10.2016
Coluna Semanal

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

COITADO DO HULK



Texto Fabrício Carpinejar
Arte Eduardo Nasi


Não leve a musculação a sério. É extremamente caro. Só o que posso recomendar aos espíritos marombeiros.

Eu não percebi o tamanho do prejuízo. Mais barato antes quando eu pagava três meses adiantado de academia e desistia nos primeiros trinta dias. Mais simples. Mais econômico. Mais prático.

E nem estou mencionando o que gastei com vitaminas, proteínas e transformando radicalmente a alimentação. Nem me refiro aos trajes esportivos, sempre onerosos  e com malhas tecnológicas de transpiração.

Fui leviano de fazer musculação com disciplina e rigor, além das aparências e das postagens nas redes sociais. Deveria ter fingido que estava matriculado e de personalidade mudada, como todos os machos quando começam a namorar.

Investi um longo tempo dedicado a acordar cedo e me exercitar em horários ingratos, como 6h e 23h, ao lado da minha personal Raquel. Eu segui com os halteres, cordas e máquinas por um ano.

O que aconteceu? Melhorei de vida? Não!

Perdi inteiramente as minhas roupas. Um armário inteiro foi desperdiçado: ternos não fecham mais os seus botões, camisetas estouraram nos ombros, calças estrangularam a cintura. Fiquei absolutamente sem figurino, um Hulk pálido e careca. Peças de grife, fashion, caríssimas, únicas e exclusivas, não entram mais em meu tamanho. Tudo posto a pique. É o equivalente  a extraviar várias malas em uma viagem internacional. É como se sofresse um incêndio devastador no quarto. Somente os sapatos ainda me servem, testemunhas de um tempo em que era M e esbanjava opções para sair a trabalhar.

Sou condenado a usar pouquíssimas variações e pedir roupa nos próximos aniversários, natais e datas comemorativas – o que é um contra-senso diante da oferta de presente criativos que há no mundo.

Nunca fui tão comum e desfalcado de criatividade para me vestir.

Quem permanece feliz com o gradual despertencimento do meu corpo é o filho Vicente, de 14 anos, herdeiro direto da maior parte do guarda-roupa.

E não desfruto nem da vantagem do fisiculturismo. Como diz o mano José Klein, é largar a academia e todos elogiam que você emagreceu, é encarnar na academia e todos comentam que você engordou.

Nunca tantas pessoas acariciaram a minha barriga destacando o sobrepeso e recomendando regime.

Publicado no Portal Vida Breve
Coluna Semanal
26.10.2016

terça-feira, 25 de outubro de 2016

CAFEZINHO

Café é emoção. Café é a lembrança dos melhores dias da convivência com os pais e irmãos, é herdar hábitos, é carregar princípios. Os dias mais duros de qualquer vida tiveram o consolo de um café. Os dias mais alegres de qualquer vida tiveram a recompensa de um café.

No gole de um café, existe uma correnteza de cenas de amizade, de ternura, de conselhos, de apoio e de juramentos.

Café lembra receber visita, casa cheia, sobremesa.  Café estende o tempo para um pouquinho mais tarde.

Café engana os horários, os prazos, os compromissos. Ainda mais se é um cafezinho. Ele se faz de pequeno e inofensivo para deixar as emoções ainda maiores.

Ninguém é capaz de negar um cafezinho. A oferta, o carinho, a amizade de um cafezinho. O cafezinho é como um abraço, é como um aperto de mão, não se diz não. É um crime dizer não. É uma ofensa dizer não. Oferecer cafezinho é avisar: eu gosto de você. Oferecer cafezinho é avisar: eu fui com a sua cara.

O cafezinho é sempre sinal de que a conversa vai continuar, de que o almoço não acabou, de que ainda é cedo para se despedir. O cafezinho é a saideira dos amigos à luz do sol, a saideira dos sóbrios.

Já a cafeteira faz barulho porque chama a fome. Tem o apito de uma chaleira dentro de si para chamar a fome. O café chama bolacha-maria. Quem não fui criança para mergulhar a imensa bolacha no café? O café chama pão aquecido. Quem não foi adolescente para sujar a asa da xícara com manteiga? O café chama chocolate. Quem não se apaixonou para dar o pequeno acompanhamento para a sua namorada, mesmo louco para comer?

O primeiro encontro não será um chopp, um cinema, uma balada, um jantar, mas um café: "Vamos tomar um café?" O convite é despretensioso e não assusta, é um convite entre a amizade e a sedução, entre a educação e o envolvimento.

Tudo pode acontecer quando se toma um café junto: casamento começa com o café, filhos tem a sua linha de tempo iniciada com o café.

O café é a porta das primeiras palavras. É a janela das primeiras juras. É o primeiro passo da boca para o beijo. Quantos firmaram uma relação com o sabor de café nos lábios? Não o sabor de quem está sonhando, o sabor de quem finalmente acordou para a vida de alguém.

A intimidade surge ao descobrir o modo que cada um pede o seu café. Com leite, curto, longo, forte, fraco. É a primeira informação que se descobre do outro e que se prolonga pela vida inteira.

Casais que se amam medem o tempo de convivência por colherinhas. Um sabe do outro exatamente quantas colheres de açúcar precisa. Ou quantas gotas de adoçante.

Eu reverencio o amor quando a esposa serve o marido e o marido serve a esposa e ambos não perguntam quantas colheres ou gotas pôr. Conhecem de cor.

Eu reverencio a rotina, que nunca é repetir o que não se gosta, mas repetir todo o dia o que se gosta muito.

Publicado no Jornal Zero Hora
Coluna Semanal
25.10.2016

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

LONGEVIDADE DO AMOR

Sempre que duas casadas se encontram disputam quem está mais tempo com o seu par. Existe uma concorrência pelo troféu moral.

Elas nem percebem a mania, é um cacoete involuntário, como coçar os olhos diante do sono.

Fui visitar o ateliê da estilista Solaine Piccoli, que vem confeccionando o vestido de noiva da minha mulher.

Proibido de espiar os movimentos no provador pela superstição da cerimônia, puxei conversa à toa e perguntei quanto tempo ela tinha de casada. Solaine encheu a boca: 43 anos juntinho de Ernani.

Cândida, a sua assessora, se sentiu ofendida com a realeza da amiga e atalhou:

– Eu estou casada há 39 anos, mas namoro o meu marido há 44. Se é por isso vou completar bodas de rubi no ano que vem.

Solaine não se deu por vencida:

– Mas, se é por namoro, eu estou há 49 anos com Ernani e completarei bodas de ouro.

Só eu devo ter visto Cândida bufando de raiva. Buscou disfarçar a contrariedade e logo emendou:

– Mas eu conheço de vista o meu marido há 51 anos. Amizade também conta, não?

– Pode contar, como quiser. Daí tenho 60 anos de amor à primeira vista e comemoro bodas de diamante – replicou Solaine.

A partir de uma pergunta banal, fui exposto a um coliseu de leoas famintas pela posteridade romântica. Pretendiam ganhar o título de maior longevidade no amor. Não aceitavam a proximidade da adversária.

Para assinalar a vitória da intimidade, usavam qualquer indício remoto de antiguidade dos laços com os seus homens, desde aceno a esbarrão na rua.

As amigas colocavam a cumplicidade em risco. Gritavam, esperneavam, batiam na mesa. No calor da discussão, jogavam pesado, dispostas a desclassificar a rival questionando separações em algum período e somando finais de semana longe.

Não entendia absolutamente nada. Ambas atingiam seis décadas e uns quebrados de convivência com os seus maridos naquela conversa, apelando para os mais platônicos sinais, e eu não conseguia fechar as contas. Não aparentavam, cada uma delas, mais de 50 anos de idade. Já eram mais casadas do que nascidas.

Publicado no Jornal Zero Hora - Caderno Donna
Coluna  Semanal
23.10.2016

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

RIFAS DO AMOR



Texto Fabrício Carpinejar
Foto Gilberto Perin

Casamento não é recompensa. Você não pode fazer ou deixar de fazer por aquilo que o outro oferece. Moldar-se pelas gratificações cria o inferno das frustrações. Quem realiza uma gentileza para ser beneficiado sofrerá na hora de agir e também durante a espera. A contrariedade do gesto - ter uma vantagem em
vista - aumenta posteriormente a cobrança.

O que existe de gente que apaga o seu temperamento na relação quando não recebe o equivalente em troca. Se era amoroso, para de ser diante do laconismo de seu par. Se era alegre e cantante, para de ser em função da rabugice do seu par. Se servia café na cama, suspende a regalia quando não tem retribuição. Se largava bilhetinhos derramados pela casa, economizará  papel e caneta na ausência de resposta.

Não devemos nos submeter a causa-efeito. Talvez o comportamento dependente de troféus e estímulos venha da infância. Os pais nos condicionam a cumprir as tarefas mais prosaicas com algum brinde: come tudo no prato que tem direito a sobremesa, arrume o quarto e pode sair com os amigos, acabe os temas da escola e ficará liberado para jogar PlayStation. O risco é carregar as promissórias em aberto para a vida adulta e não se desvincular dos incentivos familiares.

A necessidade de lucrar emocionalmente apaga a espontaneidade dos laços. Os primeiros meses da relação são perfeitos porque a fatura ainda não fechou. É se enxergar sozinho na oferta e desencadeia a avareza e as queixas.

Aquele que é romântico de olho no paparico em seguida não é verdadeiramente romântico - é oportunista. Aquele que cozinha para depois não se mexer no sofá está investindo em seu egoísmo.

Ou você gosta de amar, independente do resultado, ou a sua felicidade será sempre emprestada.

Publicado no Jornal O Globo - Blog
Coluna Semanal
21.10.2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

VIZINHOS NO OLHO MÁGICO



Texto Fabrício Carpinejar
Arte Eduardo Nasi

Eu via na minha infância moradores pedindo um pouco de açúcar, de sal, de arroz e de café emprestado para os vizinhos. Natural a convivência harmoniosa na urgência. Chegava uma visita de imprevisto e não se tinha tempo para a solenidade de sair e dar um pulo no mercado. Batia-se na porta ao lado com roupas improvisadas e dificilmente alguém recebia um não.

Com a insegurança atual, o máximo que testemunho na minha vida adulta é vizinho gritando para baixar a música, chamando a polícia ou denunciando os outros nas reuniões de condomínio.

Fui surpreendido por um momento de delicadeza e de poesia em Belo Horizonte. É uma cidade que ainda acredita na generosidade do bairro. Minha mulher é mineira e passamos alguns finais de semana na capital. Estávamos tomando café da manhã no sábado quando a campainha de nosso apartamento toca. Espio pelo olho mágico e não reconheço a figura, mas Beatriz sabe quem é. Eu já me encontrava receoso e mal acostumado, tanto que tratei de criticar e expelir o veneno pela boca:

- Quem veio nos incomodar e estragar a paz do final de semana?

Por sua vez, a esposa soprou as nuvens negras rodeando a minha falta de cabelos e se antecipou com sua presença calma e mansa:

- Como posso ajudar, querida?

Uma senhora do apartamento dois andares acima vinha solicitar um abajur emprestado. Não se tratava nem de uma caneca de comida, mas de uma luminária, já que precisava de uma luz mais forte para estudar a Bíblia.

- Desculpe incomodar, meu abajur quebrou, você tem como me emprestar por hoje?

Beatriz não estranhou o pedido. Nem hostilizou a necessidade. Foi ao quarto e, imediatamente, trouxe o objeto. Entregou com um despojamento bonito.

- Não tenha pressa de devolver.

Eu ainda me sentia irritado com a cara-de-pau da vizinhança e desconfiado com o destino do empréstimo. Não quis me meter no assunto, mesmo achando muita ingenuidade por parte de minha mulher. Logo mais estariam pedindo emprestado o sofá, as cortinas, a máquina de lavar, as cadeiras, o fogão, a geladeira… Não teria fim a ciranda de favores.

Não é que no dia seguinte a vizinha volta com o abajur e mais um vaso de orquídeas para retribuir a gentileza.

Olho agora para a flor no centro da mesa e ligo a lâmpada de seu perfume em meu rosto e me arrependo de pensar e desejar o pior. Só a confiança é perfumada.


Publicado no site Vida Breve
Coluna semanal
19/10

DA PAIXÃO AO DESENCANTO

O Uber e Porto Alegre é um típico caso de paixão que não vem vingando depois que a relação  ficou séria no facebook.

Sabe aquele namorado
que faz tudo durante os três primeiros meses para conquistar e logo retira os agrados assim que passa a morar junto?

Quem não conhece esta história? No princípio é o homem dos sonhos, para casar e ter filhos. Compra flores, puxa a cadeira, esbanja educação e paciência, presenteia a sogra, arruma jantar com vinho e luz de velas, prepara surpresas e espalha declarações pelos cantos secretos da convivência. É começar a namorar e sentir que conquistou definitivamente a pessoa que a performance some e surge o ogro monossilábico, egoísta, desprovido de comoção e gentileza.

O Uber foi assim na capital gaúcha:  prometeu mundos e fundos no começo apaixonado e perdeu o interesse quando a convivência normalizou. A sensação é que desejava sexo e fingiu que amava. Cometeu uma descarada propaganda enganosa.

No início, há três meses, era somente Uberblack, carros de quatro portas e bancos de couro. Não era um motorista, mas um chofer tamanho o cuidado com a aparência. Cavalheiro, comedido, trabalhava de terno e saia do seu lugar para receber o cliente.

Só vinha carrão como Sedan, Toyota Corolla, Honda Civic, Azera e Sonata. Apesar do luxo e do conforto, os preços acabavam sendo mais baratos do que o táxi. Não havia como não se maravilhar e não disseminar o serviço adiante.

Hoje o que aparece no Uber (conhecido como UberX) é
Ford Ka, Fiat Palio, Renault Clio e Gol, carro apertado que você vacilaria em entrar até para tomar carona. Os motoristas estão vestidos de qualquer jeito, alguns vem de bermuda. Pararam de oferecer balas e água. Já vi veículo chegar todo adesivado com Herbalife. Alguns surgem com cinto frouxo e ar-condicionado pifado. A rapidez de atendimento, de no máximo cinco minutos, decaiu, motorista aceita nova corrida quando nem finalizou a anterior. De semelhança com o período de estreia, apenas a voz feminina do Waze.

E, para piorar, inventou-se a tarifa dinâmica, onde a corrida, dependendo da procura, pode sair três vezes maior do que o valor normal. É uma roleta russa, não tem como prever quando vai pipocar em seu aplicativo. Desse jeito, uma viagem do bairro Petrópolis ao aeroporto que custaria 27 reais em um táxi é 37 reais pelo Uber.

Acho que o Uber acredita que o porto-alegrense é um otário e que não notou o fim do romance. A tendência é voltar para o antigo relacionamento.

Publicado no Jornal Zero Hora
Coluna Semanal
18/10

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

DEIXAR PARA DEPOIS



No casamento, você sempre deixa para depois. Acredita que a pessoa mais importante de sua vida pode esperar, já que dorme e acorda ao lado dela todo dia, já que ela vai entender os seus contratempos.

Atende primeiramente os estranhos do trabalho, agrada aos desconhecidos das redes sociais, está preocupado como os demais lhe enxergam mais do que como realmente é entre quatro paredes. Casamento torna-se adiamento. Aquele bilhete não é tão urgente, aquela conversa de pacificação é empurrada para o futuro, aquele final de semana enamorado não é prioritário.

Só na separação é que agimos. Para resgatar uma paixão, somos capazes de aprender a cozinhar, aprender a dançar, aprender a faxinar.

Com o casamento, desaprendemos a cozinhar, a dançar, a faxinar. Guardamos o fôlego adormecendo cedo, poupamos as palavras não descrevendo os nossos dias, existimos menos dentro de casa, desistimos rapidamente da gentileza pela informalidade. Não podemos gastar com o supérfluo. Supérfluo é o que envolve o próximo. A avareza cresce disfarçada de economia.

Na reconquista, não dispensamos trabalho, madrugamos, viajamos continentes dentro do quarto, pedimos dinheiro emprestado para socorrer o tempo perdido com a distância.

A verdade é que fazemos tudo errado até perder aquilo que era certo.

Só amamos sofrendo. Só amamos quando o outro nos abandona, quando o outro se cansa, quando o outro se despede.

Só procuramos as janelas quando a porta fecha, só nos importamos com os detalhes quando o conjunto desaparece.

Só amamos na contrariedade, para provar que ainda prestamos.

Só amamos com o orgulho ferido, quando somos testados.

Só amamos com a desilusão, quando somos contestados.

Só amamos com a recusa, quando somos condicionados a nos esforçar para reaver a confiança.

Só amamos com o chicote da indiferença nas costas, apanhando das expectativas.

Infelizmente valorizamos mais a saudade do que a proximidade.

Banalizamos o corpo, apenas respeitamos a ausência, que é correr atrás para ter de volta a vida passada.

Somos encarnações arrependidas de matar o amor de tédio.

Para ser feliz a dois, é necessário combater a facilidade e não se conformar nunca com a disponibilidade do beijo, do toque e do abraço.

Intimidade é jamais desistir de perguntar, não é pensar que já conheceu inteiramente alguém. As respostas mudam conforme a esperança.

Publicado no Jornal Zero Hora - Caderno Donna
Coluna Semanal
16.10.2016

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

PRESENTE ÚTIL



Texto Fabrício Carpinejar
Foto Gilberto Perim

Farei 44 anos no domingo dia 23. Já estou maduro, entrei na fase do presente útil. Findou a infância da comemoração, a exigência por festas e os laços dos pacotes.

Promovo campanha para que os amigos e familiares não desperdicem os seus recursos e me dêem algo que eu realmente precise. Nem precisa embrulhar.

Escrevo uma lista objetiva do que me falta. Sopro as respostas. Não nego as intenções.

Não ambiciono o lucro imaginário - pois quem não pede coisa alguma deseja tudo. Não professo falsa humildade - pelo menos, a minha arrogância é verdadeira.

Sou capaz de encomendar um sapato e indicar o site de menor preço, coisa impensável nos aniversários anteriores, onde eu queria ser surpreendido e não me inferiorizava a oferecer dicas e sugestões.

Eu me alegro ao preencher as minhas urgências. Antes exultava com as extravagâncias.

Abandonei a vitrine pelo fundo da loja. Os sonhos de consumo foram substituídos pela partilha miúda do cotidiano. Viabilizar o final do mês sem gastos extras soa melhor em minha vida do que acumular fantasias.

É bem mentalidade de velho, logo admitirei a impessoalidade de depósitos bancários.

Sou ecumênico nas necessidades. Tampouco desdenho eletrodomésticos e panelas que fariam qualquer mulher a entrar com a Maria da Penha. Virei realista. Está mesmo na hora de trocar o liquidificador.

Quando criança, o tormento era receber roupas, o anticlímax da festa. Roupa não poderia ser considerada presente até os 11 anos. Presente se resumia a brinquedo, e nada mais.

Roupa não mais me inspira ingratidão. Atualmente sou favorável a renovar as gavetas e cabides.

Só não me compre pijama,  amadureci mas não estou morto.

Publicado no Jornal O Globo - Blog

Coluna Semanal

13.10.2016